Prefeitura de Fortaleza diz que projeto social durante Copa do Mundo não é higienização


Prefeitura de Fortaleza diz que projeto social durante Copa do Mundo não é higienização

Fontes dos governos municipal e estadual divergem sobre o público alvo da medida. SME afirma que somente crianças podem ser encaminhadas às escolas-abrigo. Prefeitura destaca que objetivo é proteger pessoas vulneráveis

Por Pedro Alves em Política

16 de junho de 2014 às 14:30

Há 5 anos
Escola municipal Alba Frota

Escola municipal Alba Frota é um dos abrigos improvisados durante a Copa do Mundo em Fortaleza (foto: Pedro Alves)

Uma das executoras do projeto social que vai dar “encaminhamento” a crianças, adolescentes e adultos em situação de rua, mendicância e/ou vulnerabilidade durante a Copa do Mundo, a Prefeitura de Fortaleza afirma que a medida não tem objetivo de fazer “higienização” social, mas de ser uma política pública direcionada à proteção dos direitos e da integridade dos grupos identificados como público-alvo.

Conforme mostrado pelo portal Tribuna do Ceará, mais de 100 agentes sociais percorrem os espaços relacionados à Copa do Mundo, em busca de identificar situações de vulnerabilidade e, a partir do caso, promover o encaminhamento necessário. Um dos destinos possíveis são os abrigos temporários, improvisados dentro de escolas municipais próximas aos endereços da Copa.

“A gente teve alguns casos de bebidas alcoólicas e a abordagem é feita no sentido de localizar os familiares, de levar pra casa, pra casa deles, inclusive hoje (sábado, 14/06) nós não tivemos nenhuma criança ou pessoa vulnerável que foi pra lá (para os abrigos temporários). Eu estou dizendo e asseguro que nós não trabalhamos na linha de higienização, mas sim na linha do respeito às pessoas e de proteção dos grupos vulneráveis. Não temos internação compulsória”, declarou Tânia Gurgel, uma das coordenadoras da Agenda de Convergência – nome oficial do projeto -, presidente da Coordenadoria da Criança e do Adolescente, da Prefeitura de Fortaleza.

Outro coordenador do projeto, João Lúcio Alcântara, da Secretaria Municipal de Educação (SME) – informou que três escolas municipais – duas próximas ao espaço da Fifa Fan Fest e uma na região da Arena Castelão – foram escolhidas para funcionar como abrigos temporários, entre 11h e 23h, para receber, por exemplo, crianças sem os pais, sob risco de exploração sexual, violência e/ou trabalho infantil. Segundo Ana Maria Cruz, da Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social, mais de 100 agentes saem às ruas para localizar situações que merecem ser abordadas.

Sejam levadas para suas casas, como informa Tânia Gurgel, ou para os abrigos, como afirma João Lúcio, pessoas consideradas público-alvo da Agenda de Convergência são retiradas – de forma voluntária – da geografia da Copa do Mundo na capital cearense, a partir do diagnóstico que aponta necessidade de ajuda, que é imediatamente ofertada pelo poder público. As buscas se espalham pela orla marítima – incluindo a avenida Beira Mar, Praia do Futuro e Barra do Ceará -, bolsões de estacionamento, terminais de ônibus, além da região da Fifa Fan Fest, na Praia de Iracema, e da Arena Castelão – os palcos principais da Copa em Fortaleza.

A escola municipal Ismael Pordeus, localizada a 7 Km da Arena Castelão, é uma das escolhidas para funcionar como abrigo temporário. No entanto, ela só será usada nos dias de jogos do mundial em Fortaleza, segundo João Lúcio. Além dela, diariamente funcionam como abrigos temporários a escolas municipais Alba Frota, na avenida Dom Manuel, e São Rafael, na Rua dos Tabajaras, a 700 metros da Fifa Fan Fest. No organograma de planejamento do projeto, as escolas são denominadas de “espaços temporários de convivência”. O projeto foi iniciado no dia 12 de junho – data de abertura da Copa do Mundo no Brasil – e é executado diariamente, com término previsto para o dia 13 de junho. Há planejamento para execução da medida durante outros grandes eventos que venham a ser realizados em Fortaleza.

DIVERGÊNCIA SOBRE PÚBLICO-ALVO DO PROJETO

A assessoria de imprensa da SME informou, nesta segunda-feira (16/06), que as escolas municipais receberão somente crianças e que a estrutura disponível nos endereços – incluindo televisão para assistir aos jogos, sessões de cinema e atividades lúdicas – é direcionada exclusivamente a crianças. Em um dos documentos de planejamento da ação, a que o Tribuna do Ceará teve acesso, são categorizados os seguintes casos: crianças e adolescentes desmaiados, intoxicados e com sinais evidentes de embriaguez; feridos ou com qualquer outro problema de saúde, além de crianças e adolescentes perdidos ou desacompanhados, em situação de trabalho infantil e em situação de mendicância. Questionada mais de uma vez sobre o público-alvo do projeto, Tânia Gurgel, deixou claro que há variações.

“Esse público ele vai de acordo com cada dia, já tivemos público de crianças perdidas, já tivemos público de crianças… Pouco, tudo isso pouco, que eu tô falando; casos de trabalho infantil, muitas vezes com o pai ao lado, que a gente teve que dialogar, e essas crianças elas foram pra casa. Nós tivemos casos de bebidas alcoólicas também, tá? Esses foram casos perdidos; nós tivemos muitos assim, muitos que eu digo, em relação aos outros. Esses foram os casos mais assim, que surgiram nessa primeira semana. Nós não tivemos grandes questões, grandes problemas”, disse Tânia.

Antes, a presidente da Coordenadoria da Criança e do Adolescente da PMF, havia resumido o público-alvo como “crianças, adolescentes e outras tipologias, como moradores de rua e outros (casos) que possam acontecer, de pessoas que se perdem e pessoas que precisam de um apoio naquele momento”. Na última sexta-feira, Ana Maria Cruz confirmou que adultos fazem parte do público-alvo, embora João Lúcio tenha destacado, na entrevista, que apenas crianças e adolescentes fariam parte da medida. “É criança, é adolescente, é adulto, é quem estiver em situação de rua”, disse Ana, ao Tribuna do Ceará.

PREFEITO COMENTA

Questionado no último sábado (14/06) sobre possível “faxina social” em Fortaleza, para Copa do Mundo, o prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio (Pros) disse lamentar questionamentos sobre o assunto. “É lamentável que algumas pessoas queiram atribuir à Copa ou a algumas ações da Prefeitura, um caráter negativo, ou vulgar, por puro interesse político. Eu lamento profundamente”, comentou o prefeito, que em seguida elencou ações de proteção a moradores de rua feitas em sua gestão. “Essa cidade não tinha política de proteção a moradores de rua”, disse. A Agenda de Convergência é executada em parceria com o Governo do Estado do Ceará.

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Prefeitura de Fortaleza diz que projeto social durante Copa do Mundo não é higienização

Fontes dos governos municipal e estadual divergem sobre o público alvo da medida. SME afirma que somente crianças podem ser encaminhadas às escolas-abrigo. Prefeitura destaca que objetivo é proteger pessoas vulneráveis

Por Pedro Alves em Política

16 de junho de 2014 às 14:30

Há 5 anos
Escola municipal Alba Frota

Escola municipal Alba Frota é um dos abrigos improvisados durante a Copa do Mundo em Fortaleza (foto: Pedro Alves)

Uma das executoras do projeto social que vai dar “encaminhamento” a crianças, adolescentes e adultos em situação de rua, mendicância e/ou vulnerabilidade durante a Copa do Mundo, a Prefeitura de Fortaleza afirma que a medida não tem objetivo de fazer “higienização” social, mas de ser uma política pública direcionada à proteção dos direitos e da integridade dos grupos identificados como público-alvo.

Conforme mostrado pelo portal Tribuna do Ceará, mais de 100 agentes sociais percorrem os espaços relacionados à Copa do Mundo, em busca de identificar situações de vulnerabilidade e, a partir do caso, promover o encaminhamento necessário. Um dos destinos possíveis são os abrigos temporários, improvisados dentro de escolas municipais próximas aos endereços da Copa.

“A gente teve alguns casos de bebidas alcoólicas e a abordagem é feita no sentido de localizar os familiares, de levar pra casa, pra casa deles, inclusive hoje (sábado, 14/06) nós não tivemos nenhuma criança ou pessoa vulnerável que foi pra lá (para os abrigos temporários). Eu estou dizendo e asseguro que nós não trabalhamos na linha de higienização, mas sim na linha do respeito às pessoas e de proteção dos grupos vulneráveis. Não temos internação compulsória”, declarou Tânia Gurgel, uma das coordenadoras da Agenda de Convergência – nome oficial do projeto -, presidente da Coordenadoria da Criança e do Adolescente, da Prefeitura de Fortaleza.

Outro coordenador do projeto, João Lúcio Alcântara, da Secretaria Municipal de Educação (SME) – informou que três escolas municipais – duas próximas ao espaço da Fifa Fan Fest e uma na região da Arena Castelão – foram escolhidas para funcionar como abrigos temporários, entre 11h e 23h, para receber, por exemplo, crianças sem os pais, sob risco de exploração sexual, violência e/ou trabalho infantil. Segundo Ana Maria Cruz, da Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social, mais de 100 agentes saem às ruas para localizar situações que merecem ser abordadas.

Sejam levadas para suas casas, como informa Tânia Gurgel, ou para os abrigos, como afirma João Lúcio, pessoas consideradas público-alvo da Agenda de Convergência são retiradas – de forma voluntária – da geografia da Copa do Mundo na capital cearense, a partir do diagnóstico que aponta necessidade de ajuda, que é imediatamente ofertada pelo poder público. As buscas se espalham pela orla marítima – incluindo a avenida Beira Mar, Praia do Futuro e Barra do Ceará -, bolsões de estacionamento, terminais de ônibus, além da região da Fifa Fan Fest, na Praia de Iracema, e da Arena Castelão – os palcos principais da Copa em Fortaleza.

A escola municipal Ismael Pordeus, localizada a 7 Km da Arena Castelão, é uma das escolhidas para funcionar como abrigo temporário. No entanto, ela só será usada nos dias de jogos do mundial em Fortaleza, segundo João Lúcio. Além dela, diariamente funcionam como abrigos temporários a escolas municipais Alba Frota, na avenida Dom Manuel, e São Rafael, na Rua dos Tabajaras, a 700 metros da Fifa Fan Fest. No organograma de planejamento do projeto, as escolas são denominadas de “espaços temporários de convivência”. O projeto foi iniciado no dia 12 de junho – data de abertura da Copa do Mundo no Brasil – e é executado diariamente, com término previsto para o dia 13 de junho. Há planejamento para execução da medida durante outros grandes eventos que venham a ser realizados em Fortaleza.

DIVERGÊNCIA SOBRE PÚBLICO-ALVO DO PROJETO

A assessoria de imprensa da SME informou, nesta segunda-feira (16/06), que as escolas municipais receberão somente crianças e que a estrutura disponível nos endereços – incluindo televisão para assistir aos jogos, sessões de cinema e atividades lúdicas – é direcionada exclusivamente a crianças. Em um dos documentos de planejamento da ação, a que o Tribuna do Ceará teve acesso, são categorizados os seguintes casos: crianças e adolescentes desmaiados, intoxicados e com sinais evidentes de embriaguez; feridos ou com qualquer outro problema de saúde, além de crianças e adolescentes perdidos ou desacompanhados, em situação de trabalho infantil e em situação de mendicância. Questionada mais de uma vez sobre o público-alvo do projeto, Tânia Gurgel, deixou claro que há variações.

“Esse público ele vai de acordo com cada dia, já tivemos público de crianças perdidas, já tivemos público de crianças… Pouco, tudo isso pouco, que eu tô falando; casos de trabalho infantil, muitas vezes com o pai ao lado, que a gente teve que dialogar, e essas crianças elas foram pra casa. Nós tivemos casos de bebidas alcoólicas também, tá? Esses foram casos perdidos; nós tivemos muitos assim, muitos que eu digo, em relação aos outros. Esses foram os casos mais assim, que surgiram nessa primeira semana. Nós não tivemos grandes questões, grandes problemas”, disse Tânia.

Antes, a presidente da Coordenadoria da Criança e do Adolescente da PMF, havia resumido o público-alvo como “crianças, adolescentes e outras tipologias, como moradores de rua e outros (casos) que possam acontecer, de pessoas que se perdem e pessoas que precisam de um apoio naquele momento”. Na última sexta-feira, Ana Maria Cruz confirmou que adultos fazem parte do público-alvo, embora João Lúcio tenha destacado, na entrevista, que apenas crianças e adolescentes fariam parte da medida. “É criança, é adolescente, é adulto, é quem estiver em situação de rua”, disse Ana, ao Tribuna do Ceará.

PREFEITO COMENTA

Questionado no último sábado (14/06) sobre possível “faxina social” em Fortaleza, para Copa do Mundo, o prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio (Pros) disse lamentar questionamentos sobre o assunto. “É lamentável que algumas pessoas queiram atribuir à Copa ou a algumas ações da Prefeitura, um caráter negativo, ou vulgar, por puro interesse político. Eu lamento profundamente”, comentou o prefeito, que em seguida elencou ações de proteção a moradores de rua feitas em sua gestão. “Essa cidade não tinha política de proteção a moradores de rua”, disse. A Agenda de Convergência é executada em parceria com o Governo do Estado do Ceará.