Há 30 anos, João Dória propôs que seca do Nordeste virasse atração turística para o Sudeste

POLÊMICA RESGATADA

Há 30 anos, João Dória propôs que seca do Nordeste virasse atração turística para o Sudeste

O hoje prefeito de São Paulo era presidente Embratur e estava em Fortaleza quando fez a sugestão a empresários

Por Lucas Barbosa em Política

29 de junho de 2017 às 09:27

Há 6 meses
João Dória (vestido de gari de SP) afirma não ter visado a exploração da miséria em sua declaração de 1987 (FOTO: Ale Viana/Eleven)

João Dória (vestido de gari de SP) afirma não ter visado a exploração da miséria em sua declaração de 1987 (FOTO: Ale Vianna/Eleven)

Há 30 anos, o então presidente da Empresa Brasileira de Turismo (Embratur) João Dória Jr. fez uma proposta para a região Nordeste que causou enorme polêmica. O hoje prefeito de São Paulo estava em Fortaleza, em um encontro com empresários locais e representantes do Governo do Estado, quando propôs que a seca poderia transformar-se em atração turística.

“A seca, os flagelados famintos e a caatinga nordestina poderão virar atração turística por sugestão do presidente da Embratur João Dória Jr., que propôs em Fortaleza a instalação de albergues turísticos na região”, publicou o jornal Folha de S. Paulo, em 2 de julho de 1987, na seção “Dropes”.

As declarações foram resgatadas nesta terça-feira (28) nas redes sociais e viralizaram. Internautas também encontraram referências ao discurso em outras publicações.

Por meio de assessoria de imprensa, Dória afirmou ao Tribuna do Ceará, nesta quarta-feira (28), que as declarações foram “desvirtuadas”. Ele teria defendido, na verdade, que o Ceará “não explorasse apenas o litoral em termos turísticos, mas valorizasse o interior, como a região da caatinga, para promover a geração de renda”.

Algumas publicações, no entanto, trataram a proposta como abrangente também à miséria da região. Na época O Globo chegou a, ironicamente, “sugerir” outros destinos em que a mesma lógica consideraria atraente.

“Teríamos excursões anuais às enchentes do Sul (onde o turista talvez comprasse galochas típicas), caminhadas noturnas na Baixada Fluminense para presenciar o ritual da ‘desova’, visitas ao Manicômio do Junqueri, caçadas de jacarés no Pantanal e assim por diante — até o bom senso voltar”.

A mais ácida publicação, no entanto, foi da revista Agropecuária Tropical, em edição de setembro de 1987. “O discurso do presidente da Embratur, proferido em Fortaleza e publicado pelo jornal A Gazeta Mercantil, de 1º de julho de 1987, afirma que as verbas da irrigação deveriam ser reduzidas para aumentar as de turismo para exibir os flagelados da seca, porque os habitantes do eixo Rio-São Paulo só conhecem a Seca através da Imprensa”.

O Tribuna do Ceará não teve acesso à referida edição de Gazeta Mercantil. “Ou seja, em vez de empregar dinheiro do Governo para financiar a produção, empregaria tal verba para que os turistas, em ônibus refrigerado e regado a Whisky, possam se distrair vendo as crianças esqueléticas tomando lama em lugar de água”, segue o restante da nota da Agropecuária Tropical.

O jornal Estado de São Paulo publicou que Dória chegou a projetar como funcionaria o turismo na região com uma comparação com a Serra Pelada, localidade do Pará famosa pela extração de outo. “Em Serra Pelada, onde milhares de garimpeiros vivem em condições subumanas, essa garimpagem já se transformou em ponto de visitação turística. Lá existem até especialistas em fotografias daqueles homens, transportando sacos de areia nas costas, em busca de ouro”.

Já o Jornal do Brasil descrevia a revolta da jornalista Adisia Sá. Ela chegou a dizer que comandaria uma multidão para fazer voltar debaixo de vaias a primeira excursão do projeto. Uma matéria de O Globo afirmava que os ouvintes que ligavam para as rádios eram unânimes na reprovação da proposta.

Não foram os únicos. O então ministro do Interior Joaquim Francisco Cavalcante, nordestino do Recife, disse ao jornal O Globo “preferir imaginar que essas declarações não existiram”.

Na mesma edição, o ex-governador de Pernambuco Roberto Magalhães também criticou: “Turismo não se faz com o sofrimento porque a seca é, na realidade, um drama causado pela conjunção da pobreza da natureza com a do homem sertanejo”.

O jornal carioca ainda mostrava que o secretário do Turismo do Estado, Barros Pinho, concordava com a ideia. “Ele se disse contra a exploração da miséria dos flagelados, mas entende que ela só poderá ser erradicada a partir de investimentos do Governo e da iniciativa privada. Por isso, considera válido que se transforme as zonas secas em pólos de produção artesanal”.

Segundo a assessoria de João Dória, o prefeito nunca disse que a miséria da seca deveria ser explorada ou que os investimentos em irrigação fossem reduzidos. “Trinta anos depois, estas regiões, e não apenas no Ceará, têm vários atrativos turísticos — caso de Quixadá, apenas para ficar num exemplo” , citou Dória para destacar o caráter visionário da proposta.

A assessoria também destacou trecho do próprio O Globo em que as declarações de Dória apareceriam de maneira mais fidedigna. “A Caatinga nordestina poderia ser um ponto de visitação turística e gerar uma fonte de renda para a população sofrida da área, respeitando as características culturais e humanas da população, sem exploração da miséria”, disse o gestor, segundo O Globo de 1º de julho de 1987.

Veja abaixo alguns recortes de jornais com matérias que repercutiam a proposta:

Recortes de jornais
1/5

Recortes de jornais

Decana do jornalismo cearense, Adisia Sá foi uma das que demonstrou indignação com a proposta (Reprodução/Jornal do Brasil)

Recortes de jornais
2/5

Recortes de jornais

Seção Dropes de Folha de São Paulo repercutiu a proposta (Reprodução/Folha de São Paulo)

Recortes de jornais
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Veio da revista “Agropecuária Tropical” a crítica mais veemente (FOTO: Reprodução/Agropecuária Tropical)

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4/5

Recortes de jornais

Jornal paulista destacou a incompreensão dos jornalistas que ouviam a proposta (FOTO: Reprodução/Estado de São Paulo)

Recortes de jornais
5/5

Recortes de jornais

O Globo não só ouviu autoridades, como também deu sua própria opinião sobre o tema (FOTO: Reprodução/O Globo)

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POLÊMICA RESGATADA

Há 30 anos, João Dória propôs que seca do Nordeste virasse atração turística para o Sudeste

O hoje prefeito de São Paulo era presidente Embratur e estava em Fortaleza quando fez a sugestão a empresários

Por Lucas Barbosa em Política

29 de junho de 2017 às 09:27

Há 6 meses
João Dória (vestido de gari de SP) afirma não ter visado a exploração da miséria em sua declaração de 1987 (FOTO: Ale Viana/Eleven)

João Dória (vestido de gari de SP) afirma não ter visado a exploração da miséria em sua declaração de 1987 (FOTO: Ale Vianna/Eleven)

Há 30 anos, o então presidente da Empresa Brasileira de Turismo (Embratur) João Dória Jr. fez uma proposta para a região Nordeste que causou enorme polêmica. O hoje prefeito de São Paulo estava em Fortaleza, em um encontro com empresários locais e representantes do Governo do Estado, quando propôs que a seca poderia transformar-se em atração turística.

“A seca, os flagelados famintos e a caatinga nordestina poderão virar atração turística por sugestão do presidente da Embratur João Dória Jr., que propôs em Fortaleza a instalação de albergues turísticos na região”, publicou o jornal Folha de S. Paulo, em 2 de julho de 1987, na seção “Dropes”.

As declarações foram resgatadas nesta terça-feira (28) nas redes sociais e viralizaram. Internautas também encontraram referências ao discurso em outras publicações.

Por meio de assessoria de imprensa, Dória afirmou ao Tribuna do Ceará, nesta quarta-feira (28), que as declarações foram “desvirtuadas”. Ele teria defendido, na verdade, que o Ceará “não explorasse apenas o litoral em termos turísticos, mas valorizasse o interior, como a região da caatinga, para promover a geração de renda”.

Algumas publicações, no entanto, trataram a proposta como abrangente também à miséria da região. Na época O Globo chegou a, ironicamente, “sugerir” outros destinos em que a mesma lógica consideraria atraente.

“Teríamos excursões anuais às enchentes do Sul (onde o turista talvez comprasse galochas típicas), caminhadas noturnas na Baixada Fluminense para presenciar o ritual da ‘desova’, visitas ao Manicômio do Junqueri, caçadas de jacarés no Pantanal e assim por diante — até o bom senso voltar”.

A mais ácida publicação, no entanto, foi da revista Agropecuária Tropical, em edição de setembro de 1987. “O discurso do presidente da Embratur, proferido em Fortaleza e publicado pelo jornal A Gazeta Mercantil, de 1º de julho de 1987, afirma que as verbas da irrigação deveriam ser reduzidas para aumentar as de turismo para exibir os flagelados da seca, porque os habitantes do eixo Rio-São Paulo só conhecem a Seca através da Imprensa”.

O Tribuna do Ceará não teve acesso à referida edição de Gazeta Mercantil. “Ou seja, em vez de empregar dinheiro do Governo para financiar a produção, empregaria tal verba para que os turistas, em ônibus refrigerado e regado a Whisky, possam se distrair vendo as crianças esqueléticas tomando lama em lugar de água”, segue o restante da nota da Agropecuária Tropical.

O jornal Estado de São Paulo publicou que Dória chegou a projetar como funcionaria o turismo na região com uma comparação com a Serra Pelada, localidade do Pará famosa pela extração de outo. “Em Serra Pelada, onde milhares de garimpeiros vivem em condições subumanas, essa garimpagem já se transformou em ponto de visitação turística. Lá existem até especialistas em fotografias daqueles homens, transportando sacos de areia nas costas, em busca de ouro”.

Já o Jornal do Brasil descrevia a revolta da jornalista Adisia Sá. Ela chegou a dizer que comandaria uma multidão para fazer voltar debaixo de vaias a primeira excursão do projeto. Uma matéria de O Globo afirmava que os ouvintes que ligavam para as rádios eram unânimes na reprovação da proposta.

Não foram os únicos. O então ministro do Interior Joaquim Francisco Cavalcante, nordestino do Recife, disse ao jornal O Globo “preferir imaginar que essas declarações não existiram”.

Na mesma edição, o ex-governador de Pernambuco Roberto Magalhães também criticou: “Turismo não se faz com o sofrimento porque a seca é, na realidade, um drama causado pela conjunção da pobreza da natureza com a do homem sertanejo”.

O jornal carioca ainda mostrava que o secretário do Turismo do Estado, Barros Pinho, concordava com a ideia. “Ele se disse contra a exploração da miséria dos flagelados, mas entende que ela só poderá ser erradicada a partir de investimentos do Governo e da iniciativa privada. Por isso, considera válido que se transforme as zonas secas em pólos de produção artesanal”.

Segundo a assessoria de João Dória, o prefeito nunca disse que a miséria da seca deveria ser explorada ou que os investimentos em irrigação fossem reduzidos. “Trinta anos depois, estas regiões, e não apenas no Ceará, têm vários atrativos turísticos — caso de Quixadá, apenas para ficar num exemplo” , citou Dória para destacar o caráter visionário da proposta.

A assessoria também destacou trecho do próprio O Globo em que as declarações de Dória apareceriam de maneira mais fidedigna. “A Caatinga nordestina poderia ser um ponto de visitação turística e gerar uma fonte de renda para a população sofrida da área, respeitando as características culturais e humanas da população, sem exploração da miséria”, disse o gestor, segundo O Globo de 1º de julho de 1987.

Veja abaixo alguns recortes de jornais com matérias que repercutiam a proposta:

Recortes de jornais
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Decana do jornalismo cearense, Adisia Sá foi uma das que demonstrou indignação com a proposta (Reprodução/Jornal do Brasil)

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Seção Dropes de Folha de São Paulo repercutiu a proposta (Reprodução/Folha de São Paulo)

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Veio da revista “Agropecuária Tropical” a crítica mais veemente (FOTO: Reprodução/Agropecuária Tropical)

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Jornal paulista destacou a incompreensão dos jornalistas que ouviam a proposta (FOTO: Reprodução/Estado de São Paulo)

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O Globo não só ouviu autoridades, como também deu sua própria opinião sobre o tema (FOTO: Reprodução/O Globo)