Vendedor de água cearense se veste de garçom como estratégia de marketing


Vendedor de água cearense se veste de garçom como estratégia de marketing

No Bairro Montese, em Fortaleza, o deficiente físico Ivanildo Teixeira chama a atenção pelo jeito que adotou para aliviar a sede dos outros

Por Marianna Gomes em Perfil

15 de outubro de 2015 às 07:00

Há 2 anos
Garçom do sinal

Ivanildo Teixeira tem 48 anos (FOTO: Marianna Gomes/Tribuna do Ceará)

Com roupas sociais – uma calça preta, camisa branca de mangas compridas e gravata tipo borboleta – lá está o “garçom do sinal”, caminhando entre os carros no trânsito agitado da Rua Três Marias, esquina com Antônio Fiuza, no Bairro Montese, em Fortaleza. Uma bandeja prateada, com um balde típico de armazenar gelo para drinques finos, finaliza um toque peculiar no visual de Ivanildo Teixeira, de 48 anos.

Os 10 centímetros a menos na perna esquerda, que perdeu em uma acidente, foi o motivo de sua mudança de vida. “A tragédia foi uma graça, já explico o porquê”, ele diz. Preste a atenção, a história é inspiradora.

Acidente e superação

Casado, e com um casal de filhos, em 2000 Ivanildo sofreu um acidente de moto e perdeu o joelho. Antes disso, trabalhou por 21 anos como mensageiro em uma empresa. Em tom de pesar, o senhor de cabelos grisalhos explica que a bebida, ignorância e teimosia foram os responsáveis. “Isso foi a melhor coisa que aconteceu, acredita? Bebia todos os dias, e por isso não vi minha filha crescer, quase perdi minha esposa também”, relembra. Com mais uma chance para viver, decidiu largar os vícios e mudou de vida, para melhor.

Após o acidente, aposentou-se por invalidez. Foi artesão, mas o trabalho não vingou. Decidiu então, com dois computadores, montar uma lan-house em sua casa, onde passou a fazer serviços para a comunidade Lauro Vieira Chaves, no Montese, onde mora. Contudo, o dinheiro gerado pelo pequeno comércio não estava suprindo suas necessidades. “Não queria me sentir incapaz por estar deficiente, se não o sangue ia coalhar né”, brinca.

Na busca por uma ocupação que lhe gerasse melhor renda, notou a quantidade de vendedores de água pela cidade. “Isso dá dinheiro, e é isso que vou fazer”, pensou. E fez. Para se diferenciar dos demais, resolveu adotar um estilo autêntico para investir na nova empreitada.

“Se eu ira servir pessoas, deveria ser da forma certa e mais tradicional que eu conhecia”. Ele recorda que, sem nunca ter sido garçom, decidiu se caracterizar como tal. “Me doaram as roupas e comecei com dois fardos de água meses atrás”, conta o “garçom do sinal”, como ficou conhecido.

O fornecedor de gelo para o isopor de água do aposentado é o vendedor Fabiano Pereira, que sempre fica observando o trabalho do homem que se tornou amigo. “Um dia ele chegou e perguntou se podia vender água aqui em frente. Eu disse que sim. Todo mundo admira ele, sabe, o considero um exemplo. A deficiência dele não impede que ele trabalhe. Se fosse outro estava aí se lamentando”, comenta.

Ivanildo Teixeira tem 10cm a menos em uma das pernas (FOTO: Marianna Gomes/Tribuna do Ceará)

Ivanildo Teixeira tem 10cm a menos em uma das pernas (FOTO: Marianna Gomes/Tribuna do Ceará)

“Self-service” de água

A venda também tem seu diferencial. O serviço é uma espécie de “self-service” de água: o cliente coloca o dinheiro na bandeja e retira a sua garrafa. Tudo muito prático. “Uso uma luva também para não ter contato com o dinheiro e a garrafa das pessoas, por uma questão de higiene. Minha preocupação é oferecer um produto de qualidade”, assegura.

O local escolhido para as vendas não foi à toa. Segundo Ivanildo, existe um processo de logística para que o trabalho renda bem. “Analisei o tempo do sinal, o engarrafamento e principalmente a qualidade da água. Tenho um produto que mede o sódio, para ver se ela está própria para consumo”, revela.

No pequeno engarrafamento que se forma devido ao sinal fechado, uma motorista para e chama Ivanildo, que acena já com uma garrafa na mão. Ao vê-lo, um sorriso toma rapidamente o rosto da universitária Cristiane Maria. “Todos os dias passo por aqui, e sempre que posso compro água dele. Ele é muito simpático e esse estilo dele é um diferencial que acaba chamando muito a atenção da gente, eu gosto”. O sinal abre, a jovem parte e se despede, ainda sorrindo.

No sinal de segunda a sexta-feira, de 9h às 16h, Ivanildo diz que chega a vender 10 fardos de água por dia. Em torno de 120 garrafas. “O  dinheiro não é o ideal para viver, mas graças a ele é possível comer todos os dias”.

“Mesmo deficiente, eu vim pra rua para mostrar para as pessoas que existe a possibilidade de sempre fazer algo”. (Ivanildo Teixeira)

Trabalho social 

Além de ser “garçom”, Ivanildo é uma das lideranças sociais de sua comunidade, uma das mais atingidas pelas obras do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) que deveria ter ficado pronto na Copa do Mundo de 2014. Ele realiza projetos para crianças e adolescentes, e toca uma ação que ensina zumba para as pessoas do bairro.

“Eu vim pra rua com o intuito de mostrar para as pessoas que existe a possibilidade de sempre se fazer alguma coisa. Muita gente diz que não trabalha porque não existe vaga de emprego, mas tem que ter pelo menos iniciativa. Mesmo com a minha deficiência, minha dificuldade de andar. O que eu faço acho que é bom, porque as pessoas gostam, me parabenizam. Acho que esse é o caminho certo”, conclui.

Em Fortaleza, cearense se veste de garçom e vende água em estilo self-service
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Em Fortaleza, cearense se veste de garçom e vende água em estilo self-service

(FOTO: Marianna Gomes/ Tribuna do Ceará)

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Vendedor de água cearense se veste de garçom como estratégia de marketing

No Bairro Montese, em Fortaleza, o deficiente físico Ivanildo Teixeira chama a atenção pelo jeito que adotou para aliviar a sede dos outros

Por Marianna Gomes em Perfil

15 de outubro de 2015 às 07:00

Há 2 anos
Garçom do sinal

Ivanildo Teixeira tem 48 anos (FOTO: Marianna Gomes/Tribuna do Ceará)

Com roupas sociais – uma calça preta, camisa branca de mangas compridas e gravata tipo borboleta – lá está o “garçom do sinal”, caminhando entre os carros no trânsito agitado da Rua Três Marias, esquina com Antônio Fiuza, no Bairro Montese, em Fortaleza. Uma bandeja prateada, com um balde típico de armazenar gelo para drinques finos, finaliza um toque peculiar no visual de Ivanildo Teixeira, de 48 anos.

Os 10 centímetros a menos na perna esquerda, que perdeu em uma acidente, foi o motivo de sua mudança de vida. “A tragédia foi uma graça, já explico o porquê”, ele diz. Preste a atenção, a história é inspiradora.

Acidente e superação

Casado, e com um casal de filhos, em 2000 Ivanildo sofreu um acidente de moto e perdeu o joelho. Antes disso, trabalhou por 21 anos como mensageiro em uma empresa. Em tom de pesar, o senhor de cabelos grisalhos explica que a bebida, ignorância e teimosia foram os responsáveis. “Isso foi a melhor coisa que aconteceu, acredita? Bebia todos os dias, e por isso não vi minha filha crescer, quase perdi minha esposa também”, relembra. Com mais uma chance para viver, decidiu largar os vícios e mudou de vida, para melhor.

Após o acidente, aposentou-se por invalidez. Foi artesão, mas o trabalho não vingou. Decidiu então, com dois computadores, montar uma lan-house em sua casa, onde passou a fazer serviços para a comunidade Lauro Vieira Chaves, no Montese, onde mora. Contudo, o dinheiro gerado pelo pequeno comércio não estava suprindo suas necessidades. “Não queria me sentir incapaz por estar deficiente, se não o sangue ia coalhar né”, brinca.

Na busca por uma ocupação que lhe gerasse melhor renda, notou a quantidade de vendedores de água pela cidade. “Isso dá dinheiro, e é isso que vou fazer”, pensou. E fez. Para se diferenciar dos demais, resolveu adotar um estilo autêntico para investir na nova empreitada.

“Se eu ira servir pessoas, deveria ser da forma certa e mais tradicional que eu conhecia”. Ele recorda que, sem nunca ter sido garçom, decidiu se caracterizar como tal. “Me doaram as roupas e comecei com dois fardos de água meses atrás”, conta o “garçom do sinal”, como ficou conhecido.

O fornecedor de gelo para o isopor de água do aposentado é o vendedor Fabiano Pereira, que sempre fica observando o trabalho do homem que se tornou amigo. “Um dia ele chegou e perguntou se podia vender água aqui em frente. Eu disse que sim. Todo mundo admira ele, sabe, o considero um exemplo. A deficiência dele não impede que ele trabalhe. Se fosse outro estava aí se lamentando”, comenta.

Ivanildo Teixeira tem 10cm a menos em uma das pernas (FOTO: Marianna Gomes/Tribuna do Ceará)

Ivanildo Teixeira tem 10cm a menos em uma das pernas (FOTO: Marianna Gomes/Tribuna do Ceará)

“Self-service” de água

A venda também tem seu diferencial. O serviço é uma espécie de “self-service” de água: o cliente coloca o dinheiro na bandeja e retira a sua garrafa. Tudo muito prático. “Uso uma luva também para não ter contato com o dinheiro e a garrafa das pessoas, por uma questão de higiene. Minha preocupação é oferecer um produto de qualidade”, assegura.

O local escolhido para as vendas não foi à toa. Segundo Ivanildo, existe um processo de logística para que o trabalho renda bem. “Analisei o tempo do sinal, o engarrafamento e principalmente a qualidade da água. Tenho um produto que mede o sódio, para ver se ela está própria para consumo”, revela.

No pequeno engarrafamento que se forma devido ao sinal fechado, uma motorista para e chama Ivanildo, que acena já com uma garrafa na mão. Ao vê-lo, um sorriso toma rapidamente o rosto da universitária Cristiane Maria. “Todos os dias passo por aqui, e sempre que posso compro água dele. Ele é muito simpático e esse estilo dele é um diferencial que acaba chamando muito a atenção da gente, eu gosto”. O sinal abre, a jovem parte e se despede, ainda sorrindo.

No sinal de segunda a sexta-feira, de 9h às 16h, Ivanildo diz que chega a vender 10 fardos de água por dia. Em torno de 120 garrafas. “O  dinheiro não é o ideal para viver, mas graças a ele é possível comer todos os dias”.

“Mesmo deficiente, eu vim pra rua para mostrar para as pessoas que existe a possibilidade de sempre fazer algo”. (Ivanildo Teixeira)

Trabalho social 

Além de ser “garçom”, Ivanildo é uma das lideranças sociais de sua comunidade, uma das mais atingidas pelas obras do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) que deveria ter ficado pronto na Copa do Mundo de 2014. Ele realiza projetos para crianças e adolescentes, e toca uma ação que ensina zumba para as pessoas do bairro.

“Eu vim pra rua com o intuito de mostrar para as pessoas que existe a possibilidade de sempre se fazer alguma coisa. Muita gente diz que não trabalha porque não existe vaga de emprego, mas tem que ter pelo menos iniciativa. Mesmo com a minha deficiência, minha dificuldade de andar. O que eu faço acho que é bom, porque as pessoas gostam, me parabenizam. Acho que esse é o caminho certo”, conclui.

Em Fortaleza, cearense se veste de garçom e vende água em estilo self-service
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