Repórter que já mostrou dezenas de reencontros entre parentes descobre a mãe biológica após 36 anos

PRESENTE DO DESTINO

Repórter que já mostrou dezenas de reencontros entre parentes descobre a mãe biológica após 36 anos

Emanuella Braga, repórter do programa Barra Pesada, da TV Jangadeiro/SBT, agora tem uma linda história para contar sobre si mesma, e sobre suas duas mães

Por Jéssica Welma em Perfil

5 de outubro de 2017 às 06:45

Há 2 meses
Emanuela Braga no encontro com as duas mães (de criação e biológica) no dia de seu casamento e aniversário. (Foto: Jéssica Welma / Tribuna do Ceará)

Emanuella Braga no encontro com as duas mães (de criação e biológica) no dia de seu casamento e aniversário, em setembro. (Foto: Jéssica Welma / Tribuna do Ceará)

Em 2013, quando acompanhava a adoção de uma recém-nascida pela família que a tirou de uma lata de lixo, a jornalista Emanuella Braga imaginava o que teria sido da própria vida se não tivesse tido uma sorte tão grande quanto a daquela criança. Exatos quatro anos depois da história que a marcou e de tantas outras reportagens sobre encontros e reencontros, foi a vez de Emanuella ser personagem das surpresas do próprio destino, reencontrando, após 36 anos, a mãe que a deu à luz e a permitiu chegar aos braços de uma família de coração imenso.

“Minha mãe (de coração) sempre me disse que eu tinha quatro mães: ‘a mamãe-do-céu, eu, a vovó e a mãe que lhe teve'”, relembra Emanuella, repórter do programa Barra Pesada, da TV Jangadeiro/SBT, sobre o que ouvia quando criança.

Mesmo assim, conhecer a “mãe que lhe teve” não era uma angústia para ela, uma necessidade. Pode-se dizer que era uma vontade, uma curiosidade. E assim a vida seguiu por esses 36 anos.

Emanuella nasceu em um 21 de setembro, sentindo o cheiro do mar, no bairro Mucuripe, em Fortaleza. A “mãe que lhe teve” era pobre, solteira, ficou grávida em um relacionamento casual, vivia com o pais e, no fim das contas, não era a algoz de uma criança recém-nascida que não era aceita pela família, mas vítima do desamparo familiar e social.

Dessa forma, a “mãe que lhe teve”, já mãe de um menino, entregou a recém-nascida para outra mulher, tão pobre quanto ela e já mãe de outras crianças cinco dias depois. “Eu, recém-nascida, me davam caldo de peixe: é o que me contam. Eu tinha muita doença de pele, até já grande eu fazia tratamento de pele”, relembra a jornalista.

A mulher que o destino reservou para ser sua mãe não podia ter filhos, mas o sonho materno era tão intenso que ela já tinha o básico para receber um bebê: banheira, fraldas, papeiro e muito amor. Foi assim que, quando um amigo chegou contando que havia uma pessoa com uma bebê para dar, Maria Zuleide Lima Braga, então com 34 anos, tornou-se mãe para toda a vida.

Emanuella com a mãe Zuleide meses após a adoção. (Foto: Arquivo pessoal)

Emanuella com a mãe Zuleide meses após a adoção. (Foto: Arquivo pessoal)

“Sempre tive muito carinho. Eu nunca parei para pensar: ‘se eu estivesse com minha mãe (biológica) ia ser diferente’?”, pontua Emanuella. Ainda assim, as reportagens que envolviam reencontros, crianças abandonadas ou crianças em abrigo, especialmente, mexiam com o coração da repórter.

Tão próximas

Emanuella nasceu e cresceu pelas ruas do bairro Mucuripe, numa família de pescadores e atividades adjacentes. Um episódio na praia aos sete anos foi decisivo sobre a vontade da criança em conhecer a mãe biológica. Uma tia disse conhecer sua avó e a levou até ela. “Realmente ela era muito parecida comigo”.

Habituada a pedir a bênção aos mais velhos, a criança acompanhou a tia para cumprimentar a suposta avó. “Ela olhou pra mim e disse: ‘não , ela não é minha neta, não’”.

“Se já não sentia vontade de conhecer (a família biológica), eu não senti mais de jeito nenhum, porque, de repente, vai que minha mãe fizesse a mesma coisa?”, relembra a jornalista.

Reencontro com a família biológica no final de agosto. (Foto: Arquivo pessoal)

Reencontro com a família biológica no final de agosto. (Foto: Arquivo pessoal)

Reencontro

Quase trinta anos depois desse dia e após 13 anos de jornalismo, registrando encontros e reencontros de parentes, Emanuella já casada, mãe de um filho, chegou à casa da mãe para deixar uma encomenda e foi surpreendida por um comentário: “a Irismar conhece tua mãe”, disse Zuleide à filha, apontando para uma amiga que a visitava. Emanuella, sem muita surpresa, só perguntou quantos irmãos tinha.

Foi novamente a figura de uma terceira pessoa que mediou a ligação entre a jornalista e a mãe que lhe teve. “Sua mãe é uma pessoa muito boa. Você tem irmãos que são muito bons, e ela tem uma coisa de querer lhe conhecer porque ela se sente muito culpada de não ter criado você”, disse a mulher. A novidade foi encerrada com um convite para Emanuella comparecer ao aniversário da mãe biológica no domingo seguinte.

“Foi muito bonito, eu tive a oportunidade de agradecer pela oportunidade que ela me deu na vida. Foi um momento de muita emoção. Eles me conheciam da televisão, eles sabiam (que ela era irmã deles), eu é que não sabia”, conta Emanuella.

Assim, a “mãe que lhe teve” se tornou Maria Lima de Sousa, 61. Hoje, ela conta que desconfiava de que Emanuella era sua filha, mas não tinha certeza, porque a pessoa a quem entregou a filha sumiu após dá-la para Zuleide e o esposo criarem.

Uma das reportagens que marcou Emanuella foi a da pequena Maria Vitória. (Foto: Reprodução)

Uma das reportagens que marcou Emanuella foi a da pequena Maria Vitória. (Foto: Reprodução)

Quando se recorda da história de crianças abandonadas em latas de lixo ou em orfanatos esperando alguém que as adote, Emanuella se emociona. “A doação em si é um gesto de amor. Se você não tem a condição de criar uma criança, dê para alguém. É muito violento uma criança no orfanato porque criança precisa de carinho, de amor”, pontua.

Nesse tempo em que mãe e filha não se conheciam, apesar de morarem a poucos quilômetros de distância, no mesmo bairro, houve muitos momentos em que a vida de Emanuella se cruzou com a da família biológica.

Há alguns anos, uma de suas irmãs trabalhou na mesma empresa que a jornalista, mas nunca a abordou para falar sobre parentesco, já que respeitavam o desconhecimento de Emanuella. Outra irmã trabalhou na casa de uma filha da vizinha da mãe de Emanuella, também sem nunca citar a possível relação.

Emanuella entrou na igreja com as duas mães. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará

Emanuella entrou na igreja com as duas mães. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)

Emanuella cresceu sem traumas sobre a adoção, e a chegada da “mãe que lhe teve” em nada afetou o relacionamento com sua mãe. Zuleide, além da jornalista, também adotou outra criança que por pouco não foi deixada no lixo. Emanuella e a irmã cresceram conhecendo que para um amor ser verdadeiro não são necessários laços sanguíneos.

Nascer de novo

Dessa forma, no último dia 21 de setembro, há exatos 36 do dia em que Emanuella veio ao mundo nos braços de sua mãe biológica, perdida cinco dias depois, a jornalista surpreendeu parentes e amigos.

O dia do seu aniversário também foi o dia do seu casamento e a apresentação oficial de sua mãe biológica. Ao entrar de mãos dadas com ambas as mães, a marcha nupcial marcou não só a felicidade do matrimônio firmado, mas o encerramento de um ciclo e o início de um novo entre filha e mães.

Agora, mais do que nunca, Emanuella é só gratidão pela vida ter lhe proporcionado encontrar o amor em suas diferentes nuances. O amor materno transborda e se reflete no círculo de mãos dadas que, naturalmente, mães e filha formaram antes de marcar um novo nascimento de Emanuella Braga.

Veja o vídeo.

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PRESENTE DO DESTINO

Repórter que já mostrou dezenas de reencontros entre parentes descobre a mãe biológica após 36 anos

Emanuella Braga, repórter do programa Barra Pesada, da TV Jangadeiro/SBT, agora tem uma linda história para contar sobre si mesma, e sobre suas duas mães

Por Jéssica Welma em Perfil

5 de outubro de 2017 às 06:45

Há 2 meses
Emanuela Braga no encontro com as duas mães (de criação e biológica) no dia de seu casamento e aniversário. (Foto: Jéssica Welma / Tribuna do Ceará)

Emanuella Braga no encontro com as duas mães (de criação e biológica) no dia de seu casamento e aniversário, em setembro. (Foto: Jéssica Welma / Tribuna do Ceará)

Em 2013, quando acompanhava a adoção de uma recém-nascida pela família que a tirou de uma lata de lixo, a jornalista Emanuella Braga imaginava o que teria sido da própria vida se não tivesse tido uma sorte tão grande quanto a daquela criança. Exatos quatro anos depois da história que a marcou e de tantas outras reportagens sobre encontros e reencontros, foi a vez de Emanuella ser personagem das surpresas do próprio destino, reencontrando, após 36 anos, a mãe que a deu à luz e a permitiu chegar aos braços de uma família de coração imenso.

“Minha mãe (de coração) sempre me disse que eu tinha quatro mães: ‘a mamãe-do-céu, eu, a vovó e a mãe que lhe teve'”, relembra Emanuella, repórter do programa Barra Pesada, da TV Jangadeiro/SBT, sobre o que ouvia quando criança.

Mesmo assim, conhecer a “mãe que lhe teve” não era uma angústia para ela, uma necessidade. Pode-se dizer que era uma vontade, uma curiosidade. E assim a vida seguiu por esses 36 anos.

Emanuella nasceu em um 21 de setembro, sentindo o cheiro do mar, no bairro Mucuripe, em Fortaleza. A “mãe que lhe teve” era pobre, solteira, ficou grávida em um relacionamento casual, vivia com o pais e, no fim das contas, não era a algoz de uma criança recém-nascida que não era aceita pela família, mas vítima do desamparo familiar e social.

Dessa forma, a “mãe que lhe teve”, já mãe de um menino, entregou a recém-nascida para outra mulher, tão pobre quanto ela e já mãe de outras crianças cinco dias depois. “Eu, recém-nascida, me davam caldo de peixe: é o que me contam. Eu tinha muita doença de pele, até já grande eu fazia tratamento de pele”, relembra a jornalista.

A mulher que o destino reservou para ser sua mãe não podia ter filhos, mas o sonho materno era tão intenso que ela já tinha o básico para receber um bebê: banheira, fraldas, papeiro e muito amor. Foi assim que, quando um amigo chegou contando que havia uma pessoa com uma bebê para dar, Maria Zuleide Lima Braga, então com 34 anos, tornou-se mãe para toda a vida.

Emanuella com a mãe Zuleide meses após a adoção. (Foto: Arquivo pessoal)

Emanuella com a mãe Zuleide meses após a adoção. (Foto: Arquivo pessoal)

“Sempre tive muito carinho. Eu nunca parei para pensar: ‘se eu estivesse com minha mãe (biológica) ia ser diferente’?”, pontua Emanuella. Ainda assim, as reportagens que envolviam reencontros, crianças abandonadas ou crianças em abrigo, especialmente, mexiam com o coração da repórter.

Tão próximas

Emanuella nasceu e cresceu pelas ruas do bairro Mucuripe, numa família de pescadores e atividades adjacentes. Um episódio na praia aos sete anos foi decisivo sobre a vontade da criança em conhecer a mãe biológica. Uma tia disse conhecer sua avó e a levou até ela. “Realmente ela era muito parecida comigo”.

Habituada a pedir a bênção aos mais velhos, a criança acompanhou a tia para cumprimentar a suposta avó. “Ela olhou pra mim e disse: ‘não , ela não é minha neta, não’”.

“Se já não sentia vontade de conhecer (a família biológica), eu não senti mais de jeito nenhum, porque, de repente, vai que minha mãe fizesse a mesma coisa?”, relembra a jornalista.

Reencontro com a família biológica no final de agosto. (Foto: Arquivo pessoal)

Reencontro com a família biológica no final de agosto. (Foto: Arquivo pessoal)

Reencontro

Quase trinta anos depois desse dia e após 13 anos de jornalismo, registrando encontros e reencontros de parentes, Emanuella já casada, mãe de um filho, chegou à casa da mãe para deixar uma encomenda e foi surpreendida por um comentário: “a Irismar conhece tua mãe”, disse Zuleide à filha, apontando para uma amiga que a visitava. Emanuella, sem muita surpresa, só perguntou quantos irmãos tinha.

Foi novamente a figura de uma terceira pessoa que mediou a ligação entre a jornalista e a mãe que lhe teve. “Sua mãe é uma pessoa muito boa. Você tem irmãos que são muito bons, e ela tem uma coisa de querer lhe conhecer porque ela se sente muito culpada de não ter criado você”, disse a mulher. A novidade foi encerrada com um convite para Emanuella comparecer ao aniversário da mãe biológica no domingo seguinte.

“Foi muito bonito, eu tive a oportunidade de agradecer pela oportunidade que ela me deu na vida. Foi um momento de muita emoção. Eles me conheciam da televisão, eles sabiam (que ela era irmã deles), eu é que não sabia”, conta Emanuella.

Assim, a “mãe que lhe teve” se tornou Maria Lima de Sousa, 61. Hoje, ela conta que desconfiava de que Emanuella era sua filha, mas não tinha certeza, porque a pessoa a quem entregou a filha sumiu após dá-la para Zuleide e o esposo criarem.

Uma das reportagens que marcou Emanuella foi a da pequena Maria Vitória. (Foto: Reprodução)

Uma das reportagens que marcou Emanuella foi a da pequena Maria Vitória. (Foto: Reprodução)

Quando se recorda da história de crianças abandonadas em latas de lixo ou em orfanatos esperando alguém que as adote, Emanuella se emociona. “A doação em si é um gesto de amor. Se você não tem a condição de criar uma criança, dê para alguém. É muito violento uma criança no orfanato porque criança precisa de carinho, de amor”, pontua.

Nesse tempo em que mãe e filha não se conheciam, apesar de morarem a poucos quilômetros de distância, no mesmo bairro, houve muitos momentos em que a vida de Emanuella se cruzou com a da família biológica.

Há alguns anos, uma de suas irmãs trabalhou na mesma empresa que a jornalista, mas nunca a abordou para falar sobre parentesco, já que respeitavam o desconhecimento de Emanuella. Outra irmã trabalhou na casa de uma filha da vizinha da mãe de Emanuella, também sem nunca citar a possível relação.

Emanuella entrou na igreja com as duas mães. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará

Emanuella entrou na igreja com as duas mães. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)

Emanuella cresceu sem traumas sobre a adoção, e a chegada da “mãe que lhe teve” em nada afetou o relacionamento com sua mãe. Zuleide, além da jornalista, também adotou outra criança que por pouco não foi deixada no lixo. Emanuella e a irmã cresceram conhecendo que para um amor ser verdadeiro não são necessários laços sanguíneos.

Nascer de novo

Dessa forma, no último dia 21 de setembro, há exatos 36 do dia em que Emanuella veio ao mundo nos braços de sua mãe biológica, perdida cinco dias depois, a jornalista surpreendeu parentes e amigos.

O dia do seu aniversário também foi o dia do seu casamento e a apresentação oficial de sua mãe biológica. Ao entrar de mãos dadas com ambas as mães, a marcha nupcial marcou não só a felicidade do matrimônio firmado, mas o encerramento de um ciclo e o início de um novo entre filha e mães.

Agora, mais do que nunca, Emanuella é só gratidão pela vida ter lhe proporcionado encontrar o amor em suas diferentes nuances. O amor materno transborda e se reflete no círculo de mãos dadas que, naturalmente, mães e filha formaram antes de marcar um novo nascimento de Emanuella Braga.

Veja o vídeo.