Paulo Quezado desconstrói mitos, mostra lado religioso e resgata vida dedicada ao Direito


Paulo Quezado desconstrói mitos, mostra lado religioso e resgata vida dedicada ao Direito

Um dos juristas mais famosos do Ceará, Paulo Quezado considera como injustas as críticas que recebe por fazer a defesa de acusados de crimes, em entrevista ao Tribuna do Ceará

Por Hayanne Narlla em Perfil

7 de Abril de 2015 às 07:00

Há 4 anos
Paulo Quezado coleciona imagens de santos, que ficam distribuídas pelo seu escritório (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Paulo Quezado coleciona imagens de santos, que ficam distribuídas pelo seu escritório (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Com a agenda sempre lotada, o advogado Paulo Quezado entra na sala de forma rápida e esbaforida. Se senta e, bem empolgado, já inicia a conversa antes mesmo da primeira pergunta. Especializado em direito criminal, ele é um dos juristas mais conhecidos do Ceará. São vários processos famosos que passaram por suas mãos, muitos com absolvições contestadas pela população.

Criticado por ser um jurista que já fez a defesa de vários acusados de crimes, incluindo homicídio, Paulo Quezado não liga para os comentários maldosos e continua seu trabalho. Levanta cedo e garante que às 7h30 já está em seu escritório. De lá, só sai às 19h30, sempre atendendo aos clientes. Mas se há um hábito de que não abre mão é o da “siesta”, que no bom português é aquela soneca após o almoço.

É católico e reserva a manhã das terças-feiras para ir à missa. Coleciona várias imagens de santos e anjos no escritório. A grande maioria é presente de clientes ao fim dos processos bem sucedidos. “Até o caba que quer me matar, desiste”, refere-se à quantidade de santos, que chega a preencher uma parede de sua sala.

Paulo Quezado mostra os santos que estão em sua sala (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Paulo Quezado mostra os santos que estão em sua sala (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

O advogado não ingere bebidas com teor alcoólico e não sai no final de semana. Seu único hobby é visitar o cemitério São João Batista, no Centro de Fortaleza. Considera o local como um museu a céu aberto. Ainda arranja tempo para provar uma boa panelada ou uma buchada no Mercado São Sebastião. Outra atividade de que gosta é viajar pelo interior do estado. “Conheço de Abaiara a Viçosa, de A a V”, orgulha-se. O que lhe causa receio é avião, mas nada que o impeça de viajar quando necessário.

O Tribuna do Ceará entrevistou Paulo Quezado sobre polêmicas envolvendo seu nome e suas percepções quanto ao universo do Direito. Confira abaixo.

Tribuna do Ceará – Depois de 35 anos na área jurídica, não se sente cansado?
Paulo Quezado – De quê? Não, eu tô começando todo dia. Agora que eu tô começando (sic). Se Deus quiser, ainda aguento uns 30 anos. [O que me estimula] É a luta do dia a dia, a defesa do Direito. É você ter alguém preso injustamente e conseguir a liberdade, absolver alguém. Não é só a questão de absolver um condenado, mas a questão da justiça. Até o divino cansa, então aqui ou acolá, posso até cansar materialmente, mas espiritualmente estou sempre renovado. Eu tenho uma força muito grande com o divino Espírito Santo. Quando eu tô cansado, eu digo: “Vinde, Espírito Santo! Vinde, Espírito Santo”.

'Quando eu tô cansado, eu digo: “Vinde, Espírito Santo! Vinde, Espírito Santo”.

Tribuna – O senhor falou de fazer justiça, mas, para muitas pessoas, a Justiça brasileira passa uma impressão de impunidade, com leis brandas. O senhor concorda?
Paulo – É um erro. Primeiro, nós somos um país ainda escravocrata. Nós queremos muito para os outros, mas não queremos para nossa família. Eu vejo gente que, às vezes, repugnou-me por estar numa causa. Na hora que o filho é dela, a pessoa muda de posição. Tinha um cidadão num barzinho aqui perto que eu passava e ele dizia: “Eu não sei como esse homem vive só da desgraça alheia”. Um dia, aconteceu um caso com o filho dele, e ele teve que me buscar. Depois foi uma louvação, dizendo como vale um advogado, como a imprensa foi malvada. A gente tem muito essa coisa de ver nos outros o que a gente não vê na gente.

Paulo Quezado recebe presentes de seus clientes após o encerramento dos processos (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Paulo Quezado recebe presentes de seus clientes após o encerramento dos processos (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Tribuna – Então o senhor tem noção de que, para muitas pessoas, é um advogado capacitado para libertar qualquer acusado de cometer crimes?
Paulo – Passo imagem errada às vezes. Isso é da população, no conceito geral. Tem gente que vem falar aqui comigo: “Ah, não sabia que o senhor até comungar comungava”. Se admirou que o meu pacto era um pacto com o divino, não era com o outro (ri).

Tribuna – É verdade o que se fala que todo brasileiro tem direito a matar uma pessoa na vida e não ficar preso?
Paulo – Não há nenhuma [brecha] para isso. É uma maneira de opinião publicada, não é nem opinião pública, que leva a população brasileira [a pensar] que a impunidade gera tudo isso. A população, como tem gosto de sangue, acha que só se mata e se esfola. É a mesma população que matou Cristo. Se você atravessasse a tormenta de um processo penal (pausa)… Eu não conheço um cliente meu, a não ser que tenha praticado em legítima defesa, que não diga que se arrependeu, que se pudesse voltar no tempo nem arma estaria usando. Essa é uma experiência que eu tenho em 3 mil processos. Eu sei o que é uma tormenta pra família de quem mata e de quem morre. Para quem mata e para quem morre é ruim. Às vezes, quem mata morre no dia de quem morreu também.

“Eu já disse num júri que eu não podia dizer se o acusado era culpado ou inocente, mas no processo não havia nenhuma prova contra ele”.

Tribuna – E como é defender alguém que já é considerado culpado pela sociedade?
Paulo – Eu pondero. Não tenho medo da opinião pública, a mesma que matou Cristo. Eu analiso, observo. Por dever ético, eu tenho que aceitar a causa. Com relação à opinião da população, eu não tenho qualquer reserva pra dizer que eu não vou [defender] porque a população não quer.

Tribuna – E alguém em quem o senhor não acredita?
Paulo – Eu já disse num júri que eu não podia dizer se o acusado era culpado ou inocente, mas no processo não havia nenhuma prova contra ele. Eu tenho que dizer ao juiz que, naquela situação, eu não tenho como afirmar se ele foi ou não autor do fato, mas que no processo não tem prova de quem é. Mas eu não vou querer extorquir confissão. Não posso! Eu defendo dentro do que há nos autos. Tem que ter maturidade para isso.

Tribuna – Quando alguém é condenado, o senhor acredita que há ressocialização?
Paulo – Toda cadeia, por menor que seja, é massacrante. A doutrina diz que é ressocializar, a lei diz que é para ressocializar, e o caba lá fica pior, porque vai ter uma convivência trancada, fechada. Normalmente não tem um ofício. Lá é uma universidade de crime hoje.

“Tem gente que vem falar aqui comigo: ‘Ah, não sabia que o senhor até comungar comungava’. Se admirou que o meu pacto era um pacto com o divino, não era com o outro (ri)”.

Tribuna – O senhor teve passagem pela vida política como deputado estadual [1987-1991] e chegou a perder uma eleição para deputado federal. Depois o senhor permaneceu como presidente do PDT, seu partido, mas aí se desligou totalmente. Houve alguma decepção?
Paulo – Não. Serviu muito, porque eu não quero política como profissão. Eu sabia o que era e onde estava entrando. Profissionalmente me ajudou muito, porque eu conheci muita gente, conheci o estado todo, fui presidente de um partido nacional e convivi com Leonel Brizola, como vou dar as costas pra isso? Encerrei minha atividade e fiz um pacto com Padre Cícero de nunca mais disputar eleição político-partidária. E venho cumprindo há 25 anos.

Ele demonstra como faz suas oração: "Vinde, Espírito Santo. Vinde Espírito Santo" (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Ele demonstra como faz suas oração: “Vinde, Espírito Santo. Vinde Espírito Santo” (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Tribuna – Depois o senhor foi presidente da OAB-CE por dois mandatos. Mas também acabou se ausentando…
Paulo – Hoje não quero mais me meter. Tenho dificuldade de relacionamento com os dois grupos que lá estão. Esse povo que está na OAB, todos começaram comigo, quando fui presidente. Eu acho que excesso de presidente de sindicato, de OAB – que é autarquia especial –, de partido político, se você tem um dono, você acaba com a instituição. Então nunca quis ser dono de coisa alguma.

Tribuna – Agora há um índice considerável de reprovação no Exame da Ordem. Falta qualidade?
Paulo – Estão cometendo um estelionato educacional. Chama todo mundo para fazer Direito, são 20 [faculdades], quando aqui no Ceará tinha capacidade de três ou quatro. E diz aquele menino que ele pode fazer um concurso ou ser advogado. No concurso ele bate logo na testa, porque o gargalo é bem curtinho. E para advogado, ele não vai militar, porque não teve vivência. A faculdade não formou para ser advogado, formou para um cursinho para preparação de concurso. São essas faculdades que de uma hora para outra viram faculdade.

Tribuna – Qual a contribuição o senhor espera deixar para o Direito?
Paulo – Coragem, ética e não prejudicar o próximo. Não querer, em processo algum, fraudar provas, criar provas ou inventar provas.

“Estão cometendo um estelionato educacional. Chama todo mundo para fazer Direito, são 20 [faculdades], quando aqui no Ceará tinha capacidade de três ou quatro”.

Tribuna – Para finalizar, quais os casos que o senhor mais se recorda?
Paulo – Tenho muitos processos pesados. O padre Cheregato, rapaz que começou aqui injustiçado. Era ovacionado, era querido e de uma hora para outra esse homem não podia estar nem na cidade. E depois veio perícia e tudo e disse que aquele homem não teve participação nenhuma. Na época misturou-se muita coisa dentro dos preconceitos brasileiros. Porque o brasileiro é preconceituoso, racista, homofóbico. Toda forma de mazela ele tem. Já tive um caso de alguém que era tido como morto, o laudo saiu e confundiram no IML. Sepultaram a pessoa errada. E o processo estava caminhando quando a vítima apareceu. A família achou o falecido muito parecido com o verdadeiro. Ele apareceu, prestou depoimento e o processo foi arquivado. Ninguém sabe como fizeram a confusão e nem quem era o morto.

Perfil

Paulo Napoleão Gonçalves Quezado nasceu em Aurora, a 476 quilômetros de Fortaleza, no dia 5 de setembro de 1955. É bacharel em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e em História pela Universidade Estadual do Ceará (Uece). Foi deputado estadual (1987-1991) pelo PDT, tendo disputado eleição para deputado federal em 1990. Pela OAB-CE, foi conselheiro estadual (1985-1988), conselheiro federal (1989-1990 e 2004-2007) e presidente (1998-2000 e 2001-2003).

Entrevista Paulo Quezado
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Entrevista Paulo Quezado

Algumas imagens não pertencem ao catolicismo (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Entrevista Paulo Quezado
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Entrevista Paulo Quezado

Santos da coleção do advogado (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Entrevista Paulo Quezado
3/5

Entrevista Paulo Quezado

Clientes dão agrados ao advogado (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Entrevista Paulo Quezado
4/5

Entrevista Paulo Quezado

Paulo Quezado fala sobre questões pessoais e universo do direito (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Entrevista Paulo Quezado
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Entrevista Paulo Quezado

São Francisco é o maior santo em sua sala (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

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Paulo Quezado desconstrói mitos, mostra lado religioso e resgata vida dedicada ao Direito

Um dos juristas mais famosos do Ceará, Paulo Quezado considera como injustas as críticas que recebe por fazer a defesa de acusados de crimes, em entrevista ao Tribuna do Ceará

Por Hayanne Narlla em Perfil

7 de Abril de 2015 às 07:00

Há 4 anos
Paulo Quezado coleciona imagens de santos, que ficam distribuídas pelo seu escritório (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Paulo Quezado coleciona imagens de santos, que ficam distribuídas pelo seu escritório (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Com a agenda sempre lotada, o advogado Paulo Quezado entra na sala de forma rápida e esbaforida. Se senta e, bem empolgado, já inicia a conversa antes mesmo da primeira pergunta. Especializado em direito criminal, ele é um dos juristas mais conhecidos do Ceará. São vários processos famosos que passaram por suas mãos, muitos com absolvições contestadas pela população.

Criticado por ser um jurista que já fez a defesa de vários acusados de crimes, incluindo homicídio, Paulo Quezado não liga para os comentários maldosos e continua seu trabalho. Levanta cedo e garante que às 7h30 já está em seu escritório. De lá, só sai às 19h30, sempre atendendo aos clientes. Mas se há um hábito de que não abre mão é o da “siesta”, que no bom português é aquela soneca após o almoço.

É católico e reserva a manhã das terças-feiras para ir à missa. Coleciona várias imagens de santos e anjos no escritório. A grande maioria é presente de clientes ao fim dos processos bem sucedidos. “Até o caba que quer me matar, desiste”, refere-se à quantidade de santos, que chega a preencher uma parede de sua sala.

Paulo Quezado mostra os santos que estão em sua sala (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Paulo Quezado mostra os santos que estão em sua sala (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

O advogado não ingere bebidas com teor alcoólico e não sai no final de semana. Seu único hobby é visitar o cemitério São João Batista, no Centro de Fortaleza. Considera o local como um museu a céu aberto. Ainda arranja tempo para provar uma boa panelada ou uma buchada no Mercado São Sebastião. Outra atividade de que gosta é viajar pelo interior do estado. “Conheço de Abaiara a Viçosa, de A a V”, orgulha-se. O que lhe causa receio é avião, mas nada que o impeça de viajar quando necessário.

O Tribuna do Ceará entrevistou Paulo Quezado sobre polêmicas envolvendo seu nome e suas percepções quanto ao universo do Direito. Confira abaixo.

Tribuna do Ceará – Depois de 35 anos na área jurídica, não se sente cansado?
Paulo Quezado – De quê? Não, eu tô começando todo dia. Agora que eu tô começando (sic). Se Deus quiser, ainda aguento uns 30 anos. [O que me estimula] É a luta do dia a dia, a defesa do Direito. É você ter alguém preso injustamente e conseguir a liberdade, absolver alguém. Não é só a questão de absolver um condenado, mas a questão da justiça. Até o divino cansa, então aqui ou acolá, posso até cansar materialmente, mas espiritualmente estou sempre renovado. Eu tenho uma força muito grande com o divino Espírito Santo. Quando eu tô cansado, eu digo: “Vinde, Espírito Santo! Vinde, Espírito Santo”.

'Quando eu tô cansado, eu digo: “Vinde, Espírito Santo! Vinde, Espírito Santo”.

Tribuna – O senhor falou de fazer justiça, mas, para muitas pessoas, a Justiça brasileira passa uma impressão de impunidade, com leis brandas. O senhor concorda?
Paulo – É um erro. Primeiro, nós somos um país ainda escravocrata. Nós queremos muito para os outros, mas não queremos para nossa família. Eu vejo gente que, às vezes, repugnou-me por estar numa causa. Na hora que o filho é dela, a pessoa muda de posição. Tinha um cidadão num barzinho aqui perto que eu passava e ele dizia: “Eu não sei como esse homem vive só da desgraça alheia”. Um dia, aconteceu um caso com o filho dele, e ele teve que me buscar. Depois foi uma louvação, dizendo como vale um advogado, como a imprensa foi malvada. A gente tem muito essa coisa de ver nos outros o que a gente não vê na gente.

Paulo Quezado recebe presentes de seus clientes após o encerramento dos processos (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Paulo Quezado recebe presentes de seus clientes após o encerramento dos processos (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Tribuna – Então o senhor tem noção de que, para muitas pessoas, é um advogado capacitado para libertar qualquer acusado de cometer crimes?
Paulo – Passo imagem errada às vezes. Isso é da população, no conceito geral. Tem gente que vem falar aqui comigo: “Ah, não sabia que o senhor até comungar comungava”. Se admirou que o meu pacto era um pacto com o divino, não era com o outro (ri).

Tribuna – É verdade o que se fala que todo brasileiro tem direito a matar uma pessoa na vida e não ficar preso?
Paulo – Não há nenhuma [brecha] para isso. É uma maneira de opinião publicada, não é nem opinião pública, que leva a população brasileira [a pensar] que a impunidade gera tudo isso. A população, como tem gosto de sangue, acha que só se mata e se esfola. É a mesma população que matou Cristo. Se você atravessasse a tormenta de um processo penal (pausa)… Eu não conheço um cliente meu, a não ser que tenha praticado em legítima defesa, que não diga que se arrependeu, que se pudesse voltar no tempo nem arma estaria usando. Essa é uma experiência que eu tenho em 3 mil processos. Eu sei o que é uma tormenta pra família de quem mata e de quem morre. Para quem mata e para quem morre é ruim. Às vezes, quem mata morre no dia de quem morreu também.

“Eu já disse num júri que eu não podia dizer se o acusado era culpado ou inocente, mas no processo não havia nenhuma prova contra ele”.

Tribuna – E como é defender alguém que já é considerado culpado pela sociedade?
Paulo – Eu pondero. Não tenho medo da opinião pública, a mesma que matou Cristo. Eu analiso, observo. Por dever ético, eu tenho que aceitar a causa. Com relação à opinião da população, eu não tenho qualquer reserva pra dizer que eu não vou [defender] porque a população não quer.

Tribuna – E alguém em quem o senhor não acredita?
Paulo – Eu já disse num júri que eu não podia dizer se o acusado era culpado ou inocente, mas no processo não havia nenhuma prova contra ele. Eu tenho que dizer ao juiz que, naquela situação, eu não tenho como afirmar se ele foi ou não autor do fato, mas que no processo não tem prova de quem é. Mas eu não vou querer extorquir confissão. Não posso! Eu defendo dentro do que há nos autos. Tem que ter maturidade para isso.

Tribuna – Quando alguém é condenado, o senhor acredita que há ressocialização?
Paulo – Toda cadeia, por menor que seja, é massacrante. A doutrina diz que é ressocializar, a lei diz que é para ressocializar, e o caba lá fica pior, porque vai ter uma convivência trancada, fechada. Normalmente não tem um ofício. Lá é uma universidade de crime hoje.

“Tem gente que vem falar aqui comigo: ‘Ah, não sabia que o senhor até comungar comungava’. Se admirou que o meu pacto era um pacto com o divino, não era com o outro (ri)”.

Tribuna – O senhor teve passagem pela vida política como deputado estadual [1987-1991] e chegou a perder uma eleição para deputado federal. Depois o senhor permaneceu como presidente do PDT, seu partido, mas aí se desligou totalmente. Houve alguma decepção?
Paulo – Não. Serviu muito, porque eu não quero política como profissão. Eu sabia o que era e onde estava entrando. Profissionalmente me ajudou muito, porque eu conheci muita gente, conheci o estado todo, fui presidente de um partido nacional e convivi com Leonel Brizola, como vou dar as costas pra isso? Encerrei minha atividade e fiz um pacto com Padre Cícero de nunca mais disputar eleição político-partidária. E venho cumprindo há 25 anos.

Ele demonstra como faz suas oração: "Vinde, Espírito Santo. Vinde Espírito Santo" (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Ele demonstra como faz suas oração: “Vinde, Espírito Santo. Vinde Espírito Santo” (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Tribuna – Depois o senhor foi presidente da OAB-CE por dois mandatos. Mas também acabou se ausentando…
Paulo – Hoje não quero mais me meter. Tenho dificuldade de relacionamento com os dois grupos que lá estão. Esse povo que está na OAB, todos começaram comigo, quando fui presidente. Eu acho que excesso de presidente de sindicato, de OAB – que é autarquia especial –, de partido político, se você tem um dono, você acaba com a instituição. Então nunca quis ser dono de coisa alguma.

Tribuna – Agora há um índice considerável de reprovação no Exame da Ordem. Falta qualidade?
Paulo – Estão cometendo um estelionato educacional. Chama todo mundo para fazer Direito, são 20 [faculdades], quando aqui no Ceará tinha capacidade de três ou quatro. E diz aquele menino que ele pode fazer um concurso ou ser advogado. No concurso ele bate logo na testa, porque o gargalo é bem curtinho. E para advogado, ele não vai militar, porque não teve vivência. A faculdade não formou para ser advogado, formou para um cursinho para preparação de concurso. São essas faculdades que de uma hora para outra viram faculdade.

Tribuna – Qual a contribuição o senhor espera deixar para o Direito?
Paulo – Coragem, ética e não prejudicar o próximo. Não querer, em processo algum, fraudar provas, criar provas ou inventar provas.

“Estão cometendo um estelionato educacional. Chama todo mundo para fazer Direito, são 20 [faculdades], quando aqui no Ceará tinha capacidade de três ou quatro”.

Tribuna – Para finalizar, quais os casos que o senhor mais se recorda?
Paulo – Tenho muitos processos pesados. O padre Cheregato, rapaz que começou aqui injustiçado. Era ovacionado, era querido e de uma hora para outra esse homem não podia estar nem na cidade. E depois veio perícia e tudo e disse que aquele homem não teve participação nenhuma. Na época misturou-se muita coisa dentro dos preconceitos brasileiros. Porque o brasileiro é preconceituoso, racista, homofóbico. Toda forma de mazela ele tem. Já tive um caso de alguém que era tido como morto, o laudo saiu e confundiram no IML. Sepultaram a pessoa errada. E o processo estava caminhando quando a vítima apareceu. A família achou o falecido muito parecido com o verdadeiro. Ele apareceu, prestou depoimento e o processo foi arquivado. Ninguém sabe como fizeram a confusão e nem quem era o morto.

Perfil

Paulo Napoleão Gonçalves Quezado nasceu em Aurora, a 476 quilômetros de Fortaleza, no dia 5 de setembro de 1955. É bacharel em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e em História pela Universidade Estadual do Ceará (Uece). Foi deputado estadual (1987-1991) pelo PDT, tendo disputado eleição para deputado federal em 1990. Pela OAB-CE, foi conselheiro estadual (1985-1988), conselheiro federal (1989-1990 e 2004-2007) e presidente (1998-2000 e 2001-2003).

Entrevista Paulo Quezado
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Entrevista Paulo Quezado

Algumas imagens não pertencem ao catolicismo (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Entrevista Paulo Quezado
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Entrevista Paulo Quezado

Santos da coleção do advogado (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Entrevista Paulo Quezado
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Entrevista Paulo Quezado

Clientes dão agrados ao advogado (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

Entrevista Paulo Quezado
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Entrevista Paulo Quezado

Paulo Quezado fala sobre questões pessoais e universo do direito (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)

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São Francisco é o maior santo em sua sala (FOTO: Fernanda Moura/ Tribuna do Ceará)