Idosas do Lar Torres de Melo relatam suas experiências como mãe - Noticias
"ADOTE UMA MÃE"

Idosas do Lar Torres de Melo relatam suas experiências como mãe

No Dia das Mães, o Tribuna do Ceará mostra diferentes trajetórias de ser mãe reunidas no Lar Torres de Melo

Por Jéssica Welma em Perfil

8 de maio de 2016 às 14:18

Há 1 ano
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Campanha “Adote uma Mãe” foi promovida por universitários do grupo “Conectados mudamos o mundo”. (Foto: Divulgação)

Não há distância ou saudade que arrefeça no coração o sentimento de ser mãe. Seja pelo amor, seja pela dor, os filhos são parte eterna da vida se suas genitoras. É esse o retrato de tantos relatos de maternidade que perpassam a vida das idosas do Lar Torres de Melo. Nos últimos dias, elas foram destaque na campanha “Adote uma Mãe”, promovida por um grupo de universitários de Fortaleza.

As histórias vão muito além da saudade por não estar perto, há quem tenha perdido os filhos jovens, quem mantenha uma relação de cuidado à distância com eles, quem tenha mágoas e quem diga não se importar com quem está longe.  

Rosa Marques teve uma vida difícil como mãe. Aos 64 anos, há dois no Lar, ela teve uma única filha, que decidiu entrar nos caminhos da criminalidade e não ouvir os conselhos da mãe ou valorizar o esforço diário de quem trabalhava em casa de família para ter o que comer.  Hoje, Rosa tem dificuldade para andar após um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e se emociona ao lembrar das vezes em que teve de procurar a filha em casas de detenção para adolescentes ou dos episódios de furto.

A única vez em que a filha a visitou no Lar roubou um rádio e uma pequena quantia em dinheiro que Rosa havia ganhado de um namorado. Por isso, nem a mãe nem a direção da casa querem a entrada dela no local novamente. Ultimamente, a felicidade era a visita da neta que criou até os dois anos e foi adotada por outra família.

Esse Dia das Mães, no entanto, teve um diferencial: Rosa foi adotada por duas jovens. Ela exibe orgulhosa uma carta que ganhou das universitárias. “Posso não demonstrar, mas nunca esqueço. Posso não falar, mas sinto”, diz a carta, que guarda bem dobrada junto ao peito.

Diante de filhas tão jovens, ela lembra: “não quero que me deem trabalho, porque já tive demais”. “Mas elas me disseram que fazem faculdade, são meninas boas”, diz aliviada.

Amor à distância

Se para Rosa é difícil recordar a convivência com a filha, sua vizinha de quarto, Sílvia Eugênio, 62 anos, fala orgulhosa do filho que mora nos Estados Unidos há cinco anos. “Ele é muito carinho, sempre me manda mensagens pelo celular perguntando se estou bem”, ressalta.

Depois de perder boa parte dos seus bens, Sílvia procurou por conta própria o Lar Torres de Melo. Há cinco anos desde que o filho se mudou em busca de uma vida melhor fora do Brasil, a comunicação fica a critério do celular. Nas mensagens trocadas pelo Whatsapp, fotos da rotina na casa e a esperança de um futuro do lado daquele a quem tanto se dedicou. “Ele fala que um dia quer poder comprar uma casa e morar comigo. Ele já tentou me levar, mas fui barrada no consulado”, relata Sílvia, com o coração cheio de saudade.

Mães - Lar Torres de Melo
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Mães – Lar Torres de Melo

Dona Francisca vive no Lar Torres de Melo há seis anos. (Foto: Jéssica Welma)

Mães - Lar Torres de Melo
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Mães – Lar Torres de Melo

Dona Abigail lamenta ter perdido todos os filhos jovens. (Foto: Jéssica Welma)

Mães - Lar Torres de Melo
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Mães – Lar Torres de Melo

Sílvia mantém contato com o único filho, que mora nos EUA, via celular.

Mães - Lar Torres de Melo
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Mães – Lar Torres de Melo

Rosa teve uma vida difícil ao lado da única filha, mas ganhou nova alegria ao ser adotada por duas jovens.

Mães - Lar Torres de Melo
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Mães – Lar Torres de Melo

Festa das mães promovida pelo Lar Torres de Melo. (Foto: Divulgação)

Só lembranças

Maria Abigail Fonteles tem 67 anos e está há cerca de um no Lar. Sem ninguém, com dificuldades de andar e com rotina de medicamentos, foi em casas de acolhimento que ela conseguiu sossego. Mãe de quatro filhos, Abigail afirma que gostaria de ter tido mais, porém um esposo doente e perda repentina dos filhos não a permitiram realizar sonhos.

Já são quase dez anos desde que o último filho faleceu, vítima de sarampo, aos 26 anos. Outro morreu aos 21 anos, após ser atingido por tiros e cair morto dentro da casa da mãe. Outro filho morreu ainda recém-nascido.

O que ainda dói mais no coração de Abigail é a perda da única filha aos seis meses de idade.Ter uma menina era seu maior sonho. A criança nem chegou a ganhar um nome. “Só na hora do atestado de óbito foi que a gente botou lá ‘Maria’”, relembra.

“Tem gente que não acredita, mas a minha filha morreu de quebranto. Uma vizinha levou ela pra casa, quando a menina voltou estava mole, chorando. Foram 12 horas. Passei a noite balançando a rede e trocando fralda. Dizem que ninguém morre nem nasce ao meio dia, mas a minha filha morreu”, conta emocionada.

Baseada na crença cristã e popular, Abigail acredita que se tivesse batizado a filha antes, ela teria sobrevivido. “Estava escolhendo os padrinhos ainda, a maior felicidade”, lembra. Hoje é Dia das Mães e dia também de Abigail. Ainda que os filhos não estejam presentes fisicamente, estarão para sempre no coração.

Gratidão

“Como é que pode se esquecer de uma mãe? Um dia você fica velho também!”, alerta a idosa Francisca Camelo de Sousa, de 74 anos. Feliz da vida, maquiada, com vários colares no pescoço e laço no cabela, dona Francisca não descuida da aparência. “A gente já é doente, aí se ficar se entregando é pior ainda”, afirma.

Mãe de três filhos, ela foi para o Lar Torres de Melo há seis anos após ficar à beira da morte em um hospital. A rotina de medicamentos e cuidados diários a fez ficar. “Meu filho já pediu para ir passar um fim de semana com ele, mas a médica não deixa porque diz que, se eu for, não vou mais voltar”, brinca, confirmando que talvez não voltasse.

Ela não tem queixa dos filhos. Orgulha-se de já serem todos casados, terem filhos e sempre ligarem para saber como ela está. A única saudade é da igreja Assembleia de Deus, construída pelo esposo, mas a visita da irmãs de oração ajudam a seguir na rotina.

“Tem gente que parece que os filhos só rebolaram aqui mesmo”, lamenta. “Eu tenho sorte, minha filha, fui internada muito mal num hospital, quase não sobrevivia. Hoje só tenho o que agradecer”, garante dona Francisca. No coração, há uma saudade e uma imaginação sobre como seria a vida ao lado dos filhos, mas o importante, ressalta, é cuidar da saúde e continuar vivendo.

Adotar uma mãe pode ser uma atitude tomada em qualquer dia. Há muitas esperando um pouco de atenção para contar histórias de vida e saber como anda o mundo “lá fora”.

Visitas e informações sobre doações para o Lar Torres de Melo podem ser feitas através do (85) 3206-6750.

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"ADOTE UMA MÃE"

Idosas do Lar Torres de Melo relatam suas experiências como mãe

No Dia das Mães, o Tribuna do Ceará mostra diferentes trajetórias de ser mãe reunidas no Lar Torres de Melo

Por Jéssica Welma em Perfil

8 de maio de 2016 às 14:18

Há 1 ano
/home/tribu/public html/wp content/uploads/sites/2/2016/05/adote uma mae

Campanha “Adote uma Mãe” foi promovida por universitários do grupo “Conectados mudamos o mundo”. (Foto: Divulgação)

Não há distância ou saudade que arrefeça no coração o sentimento de ser mãe. Seja pelo amor, seja pela dor, os filhos são parte eterna da vida se suas genitoras. É esse o retrato de tantos relatos de maternidade que perpassam a vida das idosas do Lar Torres de Melo. Nos últimos dias, elas foram destaque na campanha “Adote uma Mãe”, promovida por um grupo de universitários de Fortaleza.

As histórias vão muito além da saudade por não estar perto, há quem tenha perdido os filhos jovens, quem mantenha uma relação de cuidado à distância com eles, quem tenha mágoas e quem diga não se importar com quem está longe.  

Rosa Marques teve uma vida difícil como mãe. Aos 64 anos, há dois no Lar, ela teve uma única filha, que decidiu entrar nos caminhos da criminalidade e não ouvir os conselhos da mãe ou valorizar o esforço diário de quem trabalhava em casa de família para ter o que comer.  Hoje, Rosa tem dificuldade para andar após um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e se emociona ao lembrar das vezes em que teve de procurar a filha em casas de detenção para adolescentes ou dos episódios de furto.

A única vez em que a filha a visitou no Lar roubou um rádio e uma pequena quantia em dinheiro que Rosa havia ganhado de um namorado. Por isso, nem a mãe nem a direção da casa querem a entrada dela no local novamente. Ultimamente, a felicidade era a visita da neta que criou até os dois anos e foi adotada por outra família.

Esse Dia das Mães, no entanto, teve um diferencial: Rosa foi adotada por duas jovens. Ela exibe orgulhosa uma carta que ganhou das universitárias. “Posso não demonstrar, mas nunca esqueço. Posso não falar, mas sinto”, diz a carta, que guarda bem dobrada junto ao peito.

Diante de filhas tão jovens, ela lembra: “não quero que me deem trabalho, porque já tive demais”. “Mas elas me disseram que fazem faculdade, são meninas boas”, diz aliviada.

Amor à distância

Se para Rosa é difícil recordar a convivência com a filha, sua vizinha de quarto, Sílvia Eugênio, 62 anos, fala orgulhosa do filho que mora nos Estados Unidos há cinco anos. “Ele é muito carinho, sempre me manda mensagens pelo celular perguntando se estou bem”, ressalta.

Depois de perder boa parte dos seus bens, Sílvia procurou por conta própria o Lar Torres de Melo. Há cinco anos desde que o filho se mudou em busca de uma vida melhor fora do Brasil, a comunicação fica a critério do celular. Nas mensagens trocadas pelo Whatsapp, fotos da rotina na casa e a esperança de um futuro do lado daquele a quem tanto se dedicou. “Ele fala que um dia quer poder comprar uma casa e morar comigo. Ele já tentou me levar, mas fui barrada no consulado”, relata Sílvia, com o coração cheio de saudade.

Mães - Lar Torres de Melo
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Mães – Lar Torres de Melo

Dona Francisca vive no Lar Torres de Melo há seis anos. (Foto: Jéssica Welma)

Mães - Lar Torres de Melo
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Mães – Lar Torres de Melo

Dona Abigail lamenta ter perdido todos os filhos jovens. (Foto: Jéssica Welma)

Mães - Lar Torres de Melo
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Mães – Lar Torres de Melo

Sílvia mantém contato com o único filho, que mora nos EUA, via celular.

Mães - Lar Torres de Melo
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Mães – Lar Torres de Melo

Rosa teve uma vida difícil ao lado da única filha, mas ganhou nova alegria ao ser adotada por duas jovens.

Mães - Lar Torres de Melo
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Mães – Lar Torres de Melo

Festa das mães promovida pelo Lar Torres de Melo. (Foto: Divulgação)

Só lembranças

Maria Abigail Fonteles tem 67 anos e está há cerca de um no Lar. Sem ninguém, com dificuldades de andar e com rotina de medicamentos, foi em casas de acolhimento que ela conseguiu sossego. Mãe de quatro filhos, Abigail afirma que gostaria de ter tido mais, porém um esposo doente e perda repentina dos filhos não a permitiram realizar sonhos.

Já são quase dez anos desde que o último filho faleceu, vítima de sarampo, aos 26 anos. Outro morreu aos 21 anos, após ser atingido por tiros e cair morto dentro da casa da mãe. Outro filho morreu ainda recém-nascido.

O que ainda dói mais no coração de Abigail é a perda da única filha aos seis meses de idade.Ter uma menina era seu maior sonho. A criança nem chegou a ganhar um nome. “Só na hora do atestado de óbito foi que a gente botou lá ‘Maria’”, relembra.

“Tem gente que não acredita, mas a minha filha morreu de quebranto. Uma vizinha levou ela pra casa, quando a menina voltou estava mole, chorando. Foram 12 horas. Passei a noite balançando a rede e trocando fralda. Dizem que ninguém morre nem nasce ao meio dia, mas a minha filha morreu”, conta emocionada.

Baseada na crença cristã e popular, Abigail acredita que se tivesse batizado a filha antes, ela teria sobrevivido. “Estava escolhendo os padrinhos ainda, a maior felicidade”, lembra. Hoje é Dia das Mães e dia também de Abigail. Ainda que os filhos não estejam presentes fisicamente, estarão para sempre no coração.

Gratidão

“Como é que pode se esquecer de uma mãe? Um dia você fica velho também!”, alerta a idosa Francisca Camelo de Sousa, de 74 anos. Feliz da vida, maquiada, com vários colares no pescoço e laço no cabela, dona Francisca não descuida da aparência. “A gente já é doente, aí se ficar se entregando é pior ainda”, afirma.

Mãe de três filhos, ela foi para o Lar Torres de Melo há seis anos após ficar à beira da morte em um hospital. A rotina de medicamentos e cuidados diários a fez ficar. “Meu filho já pediu para ir passar um fim de semana com ele, mas a médica não deixa porque diz que, se eu for, não vou mais voltar”, brinca, confirmando que talvez não voltasse.

Ela não tem queixa dos filhos. Orgulha-se de já serem todos casados, terem filhos e sempre ligarem para saber como ela está. A única saudade é da igreja Assembleia de Deus, construída pelo esposo, mas a visita da irmãs de oração ajudam a seguir na rotina.

“Tem gente que parece que os filhos só rebolaram aqui mesmo”, lamenta. “Eu tenho sorte, minha filha, fui internada muito mal num hospital, quase não sobrevivia. Hoje só tenho o que agradecer”, garante dona Francisca. No coração, há uma saudade e uma imaginação sobre como seria a vida ao lado dos filhos, mas o importante, ressalta, é cuidar da saúde e continuar vivendo.

Adotar uma mãe pode ser uma atitude tomada em qualquer dia. Há muitas esperando um pouco de atenção para contar histórias de vida e saber como anda o mundo “lá fora”.

Visitas e informações sobre doações para o Lar Torres de Melo podem ser feitas através do (85) 3206-6750.