Fotógrafa cearense conta suas experiências em zonas de guerra

DRAMA DE REFUGIADOS

Fotógrafa cearense conta suas experiências em viagens humanitárias a zonas de guerra

Convertida ao islamismo, Karine Garcez viajou ao Oriente Médio e fez mais de 3 mil fotos, reunidas na exposição Infância Refugiada

Por Daniel Rocha em Perfil

7 de Maio de 2018 às 06:45

Há 2 meses
Karine foi ao Oriente Médio para missão humanitária em países em conflito

Karine é estudante de Relações Internacionais (Foto: Karine Garcêz)

Nascida no município de Redenção, a muçulmana e estudante de Relações Internacionais Karine Garcêz, de 43 anos, conheceu um realidade de violência diferente a do Ceará. Presenciou os conflitos de guerra da Síria e da Faixa de Gaza, na Palestina, durante quatro viagens humanitárias. Lá, documentou o que viu e o que sentiu. Trouxe ao Ceará o futuro incerto da Síria em guerra que se alastra há anos e dos palestinos pelo reconhecimento do seu país, por meio da coleção fotográfica “Infância Refugiada”.

Ao contrário de muitos cearenses, Karine é muçulmana. A conversão aconteceu quando conheceu o islamismo ainda criança nas aulas de história. Ao atingir a fase adulta, buscou conhecer mais. Converteu-se. E assim como outros fieis da religião, viajou para a Arábia Saudita, em 2014, para participar da Hajj, a peregrinação a Meca. 

Foi nessa viagem que sua missão humanitária teve início. Como estudante de Relações Internacionais, questões geopolíticas lhe despertavam interesse. Os conflitos de guerra na Faixa de Gaza e a Primavera Árabe não fugiam à regra. No acampamento onde ficavam outros fieis, conheceu membros da Organização Não-Governamental (ONG) Al Wafaa Campaign. O grupo estava com viagem marcada para uma missão humanitária na Palestina.

“Um amigo meu me apresentou o presidente da ONG e comentei sobre o meu interesse sobre as questões políticas do Oriente. Fiquei com vontade de ir, mas não tinha dinheiro”, relembra. Mas, graças aos amigos, conseguiu arrecadar recursos para acompanhar o grupo. Deu certo. Em pouco dias, estava na Faixa de Gaza, prestando auxílio aos palestinos, vítimas do conflitos.

“Eu fui muito entusiasmada e preocupada. Não sabia o que iria encontrar”, comenta. Ao chegar ao País, deparou-se com uma região que tinha sido bombardeada há pouco tempo. Foram 45 dias na Palestina. Conheceu a realidade de perto para quem só acompanhava as notícias pela imprensa brasileira, e o anseio de um povo pela conquista do seu espaço.

+ Leia Mais: Especial: Viúvas do Trabalho

“A violência lá é muito diferente da nossa. Eu não tinha medo de sair na rua com o meu computador na mão. Lá, não tinha roubo e eu andava tranquilamente. O medo era de sofrer ataques”, comenta. No período que ficou lá, aprendeu com os moradores a ficar atenta aos sinais de ataques. Quando um caça israelense vai atacar e qual a região que pode entrar. “Eles têm essa noção disso”.

A cearense foi para a Faixa de Gaza e para Síria para ajudar refugiados e vítimas da guerra (Foto: Karine Garcêz)

O olhar de um futuro incerto

Foi na Síria onde se deparou com situações de violência mais extrema. Crianças desoladas e que nunca conheceram sequer uma fruta. Famílias morando em campos de refugiados, amontoadas em quartos. Ali, tentavam se manter vivas. Reconstruir a vida ainda era uma possibilidade distante.

Ao chegar à Síria, a cearense ficou hospedada em um hotel na cidade de Damasco, região de segurança máxima. Parecia que a capital do País estava alheia ao que estava acontecendo. Mas, pela janela do quarto, Karine conseguia ver os sinais da guerra.

“Eu não consegui dormir. Passei a noite acordada e olhando pela janela do hotel. Via fumaça. Escutava as explosões e o chão tremia”, relembra. A missão humanitária de Karine era distribuir alimentos em campos de refugiados. Segundo ela, uma parte da região era controlada por terroristas, enquanto a outra pelo governo sírio.

“Quando eu estava lá, houve uma explosão. A gente foi evacuado da área. Os refugiados entraram em desespero. Era a única chance de ter a comida que eles teriam”, explica.

+Leia Mais: Violências Invisíveis: Direitos Básicos faltam onde a criminalidade é iminente

Karine foi ao País por quatro vezes. Duas vezes em 2014 e duas em 2015. Nessas idas e vindas, conheceu histórias de muitas famílias. Dentre elas, está a de um bebê com 15 dias de vida que morreu de fome. “A mãe estava desnutrida, não tinha leite nem comida”, relata.

“Infância refugiada”

Karine não tem apoio financeiro. Todo o dinheiro utilizado para suas missões humanitárias foi de doação de amigos e fruto do seu trabalho, vendendo artigos em geral que traz de suas viagens. Nessas suas jornadas, a cearense reuniu mais de 3 mil fotos, o que resultou na exposição “Infância Refugiada”. A mostra aconteceu em 2016 no Museu da Imagem e do Som do Ceará. O trabalho mostra a realidade de crianças refugiadas da Síria e da Palestina. “É importante compartilhar essa experiência no Brasil. A fotografia é o melhor caminho para aproximar as pessoas”, conclui.

Karine Garcêz
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Karine Garcêz

Ao todo, Karine reuniu mais de 3 mil fotos de suas viagens em conflitos de Guerra (Foto: Karine Garcez)

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Karine foi quatro vezes para a Síria distribuir alimentos em campos de refugiados (Foto: Karine Garcêz)

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A exposição “Infância Refugiada” aconteceu em 2016 em Fortaleza (Foto: Karine Garcêz)

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A cearense passou 45 dias na Faixa de Gaza, na Palestina (Foto: Karine Garcêz)

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A fotógrafa conheceu histórias de famílias que sofrem com os efeitos da guerra (Foto: Karine Garcêz)

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DRAMA DE REFUGIADOS

Fotógrafa cearense conta suas experiências em viagens humanitárias a zonas de guerra

Convertida ao islamismo, Karine Garcez viajou ao Oriente Médio e fez mais de 3 mil fotos, reunidas na exposição Infância Refugiada

Por Daniel Rocha em Perfil

7 de Maio de 2018 às 06:45

Há 2 meses
Karine foi ao Oriente Médio para missão humanitária em países em conflito

Karine é estudante de Relações Internacionais (Foto: Karine Garcêz)

Nascida no município de Redenção, a muçulmana e estudante de Relações Internacionais Karine Garcêz, de 43 anos, conheceu um realidade de violência diferente a do Ceará. Presenciou os conflitos de guerra da Síria e da Faixa de Gaza, na Palestina, durante quatro viagens humanitárias. Lá, documentou o que viu e o que sentiu. Trouxe ao Ceará o futuro incerto da Síria em guerra que se alastra há anos e dos palestinos pelo reconhecimento do seu país, por meio da coleção fotográfica “Infância Refugiada”.

Ao contrário de muitos cearenses, Karine é muçulmana. A conversão aconteceu quando conheceu o islamismo ainda criança nas aulas de história. Ao atingir a fase adulta, buscou conhecer mais. Converteu-se. E assim como outros fieis da religião, viajou para a Arábia Saudita, em 2014, para participar da Hajj, a peregrinação a Meca. 

Foi nessa viagem que sua missão humanitária teve início. Como estudante de Relações Internacionais, questões geopolíticas lhe despertavam interesse. Os conflitos de guerra na Faixa de Gaza e a Primavera Árabe não fugiam à regra. No acampamento onde ficavam outros fieis, conheceu membros da Organização Não-Governamental (ONG) Al Wafaa Campaign. O grupo estava com viagem marcada para uma missão humanitária na Palestina.

“Um amigo meu me apresentou o presidente da ONG e comentei sobre o meu interesse sobre as questões políticas do Oriente. Fiquei com vontade de ir, mas não tinha dinheiro”, relembra. Mas, graças aos amigos, conseguiu arrecadar recursos para acompanhar o grupo. Deu certo. Em pouco dias, estava na Faixa de Gaza, prestando auxílio aos palestinos, vítimas do conflitos.

“Eu fui muito entusiasmada e preocupada. Não sabia o que iria encontrar”, comenta. Ao chegar ao País, deparou-se com uma região que tinha sido bombardeada há pouco tempo. Foram 45 dias na Palestina. Conheceu a realidade de perto para quem só acompanhava as notícias pela imprensa brasileira, e o anseio de um povo pela conquista do seu espaço.

+ Leia Mais: Especial: Viúvas do Trabalho

“A violência lá é muito diferente da nossa. Eu não tinha medo de sair na rua com o meu computador na mão. Lá, não tinha roubo e eu andava tranquilamente. O medo era de sofrer ataques”, comenta. No período que ficou lá, aprendeu com os moradores a ficar atenta aos sinais de ataques. Quando um caça israelense vai atacar e qual a região que pode entrar. “Eles têm essa noção disso”.

A cearense foi para a Faixa de Gaza e para Síria para ajudar refugiados e vítimas da guerra (Foto: Karine Garcêz)

O olhar de um futuro incerto

Foi na Síria onde se deparou com situações de violência mais extrema. Crianças desoladas e que nunca conheceram sequer uma fruta. Famílias morando em campos de refugiados, amontoadas em quartos. Ali, tentavam se manter vivas. Reconstruir a vida ainda era uma possibilidade distante.

Ao chegar à Síria, a cearense ficou hospedada em um hotel na cidade de Damasco, região de segurança máxima. Parecia que a capital do País estava alheia ao que estava acontecendo. Mas, pela janela do quarto, Karine conseguia ver os sinais da guerra.

“Eu não consegui dormir. Passei a noite acordada e olhando pela janela do hotel. Via fumaça. Escutava as explosões e o chão tremia”, relembra. A missão humanitária de Karine era distribuir alimentos em campos de refugiados. Segundo ela, uma parte da região era controlada por terroristas, enquanto a outra pelo governo sírio.

“Quando eu estava lá, houve uma explosão. A gente foi evacuado da área. Os refugiados entraram em desespero. Era a única chance de ter a comida que eles teriam”, explica.

+Leia Mais: Violências Invisíveis: Direitos Básicos faltam onde a criminalidade é iminente

Karine foi ao País por quatro vezes. Duas vezes em 2014 e duas em 2015. Nessas idas e vindas, conheceu histórias de muitas famílias. Dentre elas, está a de um bebê com 15 dias de vida que morreu de fome. “A mãe estava desnutrida, não tinha leite nem comida”, relata.

“Infância refugiada”

Karine não tem apoio financeiro. Todo o dinheiro utilizado para suas missões humanitárias foi de doação de amigos e fruto do seu trabalho, vendendo artigos em geral que traz de suas viagens. Nessas suas jornadas, a cearense reuniu mais de 3 mil fotos, o que resultou na exposição “Infância Refugiada”. A mostra aconteceu em 2016 no Museu da Imagem e do Som do Ceará. O trabalho mostra a realidade de crianças refugiadas da Síria e da Palestina. “É importante compartilhar essa experiência no Brasil. A fotografia é o melhor caminho para aproximar as pessoas”, conclui.

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Ao todo, Karine reuniu mais de 3 mil fotos de suas viagens em conflitos de Guerra (Foto: Karine Garcez)

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Karine foi quatro vezes para a Síria distribuir alimentos em campos de refugiados (Foto: Karine Garcêz)

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A exposição “Infância Refugiada” aconteceu em 2016 em Fortaleza (Foto: Karine Garcêz)

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A cearense passou 45 dias na Faixa de Gaza, na Palestina (Foto: Karine Garcêz)

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A fotógrafa conheceu histórias de famílias que sofrem com os efeitos da guerra (Foto: Karine Garcêz)