Duas funcionárias do metrô são pioneiras em cargos ocupados em maioria por homens

NOS TRILHOS

Duas funcionárias do metrô são pioneiras em cargos ocupados em maioria por homens

Francineide Freire coordena três estações do Metrofor, enquanto Gabriela Rodrigues foi a 1ª maquinista do Ceará

Por Daniel Rocha em Perfil

6 de junho de 2018 às 07:15

Há 3 semanas
Gabriela é a primeira mulher a ser maquinista do Ceará

Para Gabriela, trabalho não tem gênero (Foto: Metrofor)

O que há em comum entre Gabriela Rodrigues e Francineide Freire não é apenas o local onde trabalham. As duas funcionários do Metrô de Fortaleza (Metrofor) também foram as pioneiras em seus cargos predominantemente desempenhados por homens.

Hoje, Francineide coordena as estações Juscelino Kubitschek, Couto Fernandes e Porangabuçu, mas foi a primeira mulher a trabalhar como agente de estação da Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), ainda em 1989. Gabriela, por sua vez, entrou no segmento recentemente, em 2016, e foi a primeira maquinista do Metrofor.

As duas exercem funções dominadas por homens, mas não se intimidam por isso. Segundo Gabriela, não há nem motivo, até porque “profissão não tem gênero“. Ela faz parte dos 80 maquinistas do Metrofor. Desse total, apenas duas são mulheres. Uma proporção desleal. Mas, para ela, essa diferença deve-se ao desconhecimento das mulheres de exercer a função. Quando decidiu concorrer ao concurso, não sabia ao certo o que fazia um maquinista.

“Eu era técnica de edificações, área já predominantemente masculina. Com essa crise, eu não estava encontrando emprego. Então, surgiu essa oportunidade de seleção para o Metrofor e me inscrevi”, explica Gabriela. E, pelo visto, a iniciativa deu certo. Mas a primeira maquinista do Metrô de Fortaleza enfrentou algumas resistências. De acordo com ela, o seu marido tinha receio do emprego dela não conseguir exercer a função ou se adaptar ao novo segmento.

“Acho que ele não acreditava no meu potencial, mas eu sempre fui muito determinada e eu precisava”, comenta. Os passageiros também ficam surpreendidos ao vê-la no comando da viagem. A elogiam e parabenizam o seu trabalho. “As pessoas ficam surpresas pelo fato de não terem visto mulheres nessa função”, acredita.

Francineide foi a primeira mulher a trabalhar na CBTU

Francineide foi a primeira mulher a trabalha na CBTU (Foto: Metrofor)

Gabriela é um caso recente. Já Francineide tem mais história para contar. Ela recorda da primeira vez sobre a reação de um colega ao saber que tinha uma mulher no setor de licenciamento, responsável por monitorar o fluxo de trens cargueiros.

“Na primeira vez que eu liguei para uma estação, o rapaz retornou para saber se tinha recebido um trote. Eles não sabiam que tinha entrado a primeira mulher no setor”, relembra.

De acordo com Francineide, no início enfrentou algumas resistências, mas logo conquistou o seu espaço. Fez amizades. Mas, assim como Gabriela, Francineide não sabia como era a função de um agente de estação quando se inscreveu no concurso da CBTU. “Passou eu e um colega quando o metrô ainda era só um projeto”, relembra.

Entretanto, apesar do tempo, a assistente operacional com chefia de núcleo ainda escuta alguns comentários machistas que colocam em “xeque” a sua competência. “Às vezes, a gente ouve algum comentário. Geralmente, não são de colegas. São de pessoas que não me conhecem”, ressalta.

Os comentários não afetam o seu trabalho. Francineide gosta das “coisas bem feitas” e exige dos outros colegas o bom desempenho da função quando vistoria as estações de sua responsabilidade. “Eu digo: ‘Sou amiga de vocês (outros funcionários), mas se tiver de reclamar, eu reclamo, independente da amizade'”, frisa.

Com as experiências, as duas incentivam e são exemplos para outras mulheres a se “aventurar” em funções predominantemente masculinas. Gabriela, por exemplo, faz questão de falar do seu trabalho para as amigas. “Para mim, é uma experiência gratificante”, conclui.

Mais mulheres trabalhando

De acordo com os dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) de 2016, do Ministério do Trabalho, a participação das mulheres no mercado formal de trabalho é de 44% em 2016, com 15% de diferença salarial em relação aos homens. No Ceará, a a presença da mulher é similar à média nacional. Segundo o MT, 644.805 mulheres estão no mercado de trabalho, correspondendo a 44,7%.

Ainda segundo o estudo, o setor de serviços é o que possui a presença de mulheres e homens mais equilibrada: 48,8% são mulheres, enquanto 52,2% são homens. As áreas com a maior diferença entre os gêneros são a construção civil e o extrativismo mineral. Nesses setores, as mulheres correspondem a apenas 9,9%. Somente um setor em que o público feminino prevalece: a Administração Pública, onde 59% são mulheres.

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Francineide Freire coordena três estações do Metrofor, enquanto Gabriela Rodrigues foi a 1ª maquinista do Ceará

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6 de junho de 2018 às 07:15

Há 3 semanas
Gabriela é a primeira mulher a ser maquinista do Ceará

Para Gabriela, trabalho não tem gênero (Foto: Metrofor)

O que há em comum entre Gabriela Rodrigues e Francineide Freire não é apenas o local onde trabalham. As duas funcionários do Metrô de Fortaleza (Metrofor) também foram as pioneiras em seus cargos predominantemente desempenhados por homens.

Hoje, Francineide coordena as estações Juscelino Kubitschek, Couto Fernandes e Porangabuçu, mas foi a primeira mulher a trabalhar como agente de estação da Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), ainda em 1989. Gabriela, por sua vez, entrou no segmento recentemente, em 2016, e foi a primeira maquinista do Metrofor.

As duas exercem funções dominadas por homens, mas não se intimidam por isso. Segundo Gabriela, não há nem motivo, até porque “profissão não tem gênero“. Ela faz parte dos 80 maquinistas do Metrofor. Desse total, apenas duas são mulheres. Uma proporção desleal. Mas, para ela, essa diferença deve-se ao desconhecimento das mulheres de exercer a função. Quando decidiu concorrer ao concurso, não sabia ao certo o que fazia um maquinista.

“Eu era técnica de edificações, área já predominantemente masculina. Com essa crise, eu não estava encontrando emprego. Então, surgiu essa oportunidade de seleção para o Metrofor e me inscrevi”, explica Gabriela. E, pelo visto, a iniciativa deu certo. Mas a primeira maquinista do Metrô de Fortaleza enfrentou algumas resistências. De acordo com ela, o seu marido tinha receio do emprego dela não conseguir exercer a função ou se adaptar ao novo segmento.

“Acho que ele não acreditava no meu potencial, mas eu sempre fui muito determinada e eu precisava”, comenta. Os passageiros também ficam surpreendidos ao vê-la no comando da viagem. A elogiam e parabenizam o seu trabalho. “As pessoas ficam surpresas pelo fato de não terem visto mulheres nessa função”, acredita.

Francineide foi a primeira mulher a trabalhar na CBTU

Francineide foi a primeira mulher a trabalha na CBTU (Foto: Metrofor)

Gabriela é um caso recente. Já Francineide tem mais história para contar. Ela recorda da primeira vez sobre a reação de um colega ao saber que tinha uma mulher no setor de licenciamento, responsável por monitorar o fluxo de trens cargueiros.

“Na primeira vez que eu liguei para uma estação, o rapaz retornou para saber se tinha recebido um trote. Eles não sabiam que tinha entrado a primeira mulher no setor”, relembra.

De acordo com Francineide, no início enfrentou algumas resistências, mas logo conquistou o seu espaço. Fez amizades. Mas, assim como Gabriela, Francineide não sabia como era a função de um agente de estação quando se inscreveu no concurso da CBTU. “Passou eu e um colega quando o metrô ainda era só um projeto”, relembra.

Entretanto, apesar do tempo, a assistente operacional com chefia de núcleo ainda escuta alguns comentários machistas que colocam em “xeque” a sua competência. “Às vezes, a gente ouve algum comentário. Geralmente, não são de colegas. São de pessoas que não me conhecem”, ressalta.

Os comentários não afetam o seu trabalho. Francineide gosta das “coisas bem feitas” e exige dos outros colegas o bom desempenho da função quando vistoria as estações de sua responsabilidade. “Eu digo: ‘Sou amiga de vocês (outros funcionários), mas se tiver de reclamar, eu reclamo, independente da amizade'”, frisa.

Com as experiências, as duas incentivam e são exemplos para outras mulheres a se “aventurar” em funções predominantemente masculinas. Gabriela, por exemplo, faz questão de falar do seu trabalho para as amigas. “Para mim, é uma experiência gratificante”, conclui.

Mais mulheres trabalhando

De acordo com os dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) de 2016, do Ministério do Trabalho, a participação das mulheres no mercado formal de trabalho é de 44% em 2016, com 15% de diferença salarial em relação aos homens. No Ceará, a a presença da mulher é similar à média nacional. Segundo o MT, 644.805 mulheres estão no mercado de trabalho, correspondendo a 44,7%.

Ainda segundo o estudo, o setor de serviços é o que possui a presença de mulheres e homens mais equilibrada: 48,8% são mulheres, enquanto 52,2% são homens. As áreas com a maior diferença entre os gêneros são a construção civil e o extrativismo mineral. Nesses setores, as mulheres correspondem a apenas 9,9%. Somente um setor em que o público feminino prevalece: a Administração Pública, onde 59% são mulheres.