Conheça a história do dialeto criado por um cearense para comunicação entre familiares - Noticias
"CAMARONÊS"

Conheça a história do dialeto criado por um cearense para comunicação entre familiares

O Camaronês, criado por Umbelino Camarão, já falecido, conta hoje com só dois fluentes, seus irmãos. O dialeto virou um patrimônio da família

Por Juliana Teófilo em Perfil

7 de maio de 2016 às 06:00

Há 1 ano
Seu Camarão (à esquerda) criou o Camaronês com apenas nove anos de idade. (FOTO: Reprodução/Arquivo pessoal Cecília Camarão)

Seu Camarão (à esquerda) criou o Camaronês com apenas 9 anos de idade. (FOTO: Reprodução/Arquivo pessoal Cecília Camarão)

Herói da Insurreição Pernambucana, Felipe Camarão (1591-1649) era um índio “poti” convertido ao cristianismo e um amante da língua portuguesa. Segundo o frei Manuel Calado, o homem tinha forte inclinação para a leitura e a escrita e considerava a correção gramatical e a pronúncia do português importantíssimas.

“Era tão exagerado em suas coisas, que, quando fala com pessoas principais, o fazia por intérprete (posto que falava bem o português) dizendo que fazia isto porque, falando em português, podia cair em algum erro no pronunciar as palavras por ser índio”, relata o religioso em suas memórias.

Filho de peixe…

Sete gerações depois de Felipe, o pequeno cearense Umbelino de Aquino Camarão, com apenas nove anos, manteve viva a paixão do antepassado e criou sua própria língua, o “Camaronês”. A princípio, o Camaronês era uma brincadeira de Umbelino com os amigos e a irmã Cristalina e, mais tarde, com o cunhado Vicente Brito.

Mas o que começou como uma brincadeira de criança, aos poucos tornou-se uma criação séria. Ao longo dos anos, Umbelino passou a trocar palavras e não mais sílabas, e tornou sua criação ainda mais complexa ao desenvolver junções silábicas totalmente novas, criando, assim, novas palavras.

“Um dia alguém de uma rádio da cidade levou meu pai e o tio Vicente para o Teatro José de Alencar para uma apresentação especial. Lá, eles brincaram de traduzir o que o jornalista falava para o camaronês. Papai contava que foi uma sensação, porque ninguém entendia absolutamente nada”, conta dona Célia Camarão, uma dos seis filhos de seu Umbelino.

Célia relata que, apesar do caráter inusitado da criação do pai, seus irmãos nunca demonstraram muito interesse em aprender o Camaronês. “Ele nos ensinou, tivemos várias aulas, mas nem todos os filhos se interessaram de fato pela língua. Eu e um dos meus irmãos somos os únicos fluentes, e costumávamos falar usando o Camaronês com o papai até a morte dele, aos 95 anos”, relata.

Família Camarão
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Família Camarão

Hoje a família fala pouco o dialeto e o Camaronês virou um patrimônio. (FOTO: Reprodução/Arquivo Pessoal Célia Camarão)

Família Camarão
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Família Camarão

Hoje a família fala pouco o dialeto e o Camaronês virou um patrimônio. (FOTO: Reprodução/Arquivo Pessoal Célia Camarão)

Família Camarão
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Família Camarão

Hoje a família fala pouco o dialeto e o Camaronês virou um patrimônio. (FOTO: Reprodução/Arquivo Pessoal Célia Camarão)

O dialeto de seu Umbelino ganhou novo status com a criação de uma complexa gramática. Mas tornar o Camaronês uma língua formal acabou por afastar ainda mais o interesse dos familiares, conforme conta Célia.

“Meu pai, como era um homem simples, criou uma língua que também é simples. Mas a gramática, que não foi criada por ele, mas sim pelo doutor Valdir Matos Mágno, é um pouco mais difícil. A pronúncia ganhou novos contornos. Isso acabou dificultando a compreensão das pessoas, e foi aí que os filhos e os netos não quiseram aprender mesmo. Acabou que a língua virou muito mais um patrimônio da família, e hoje fala-se muito pouco”.

Mas a língua é vista por Célia como uma referência na memória do pai, a quem ela define como um homem brilhante. “Meu pai era um grande contador de histórias, era uma criatura muito querida, que aonde chegava era recebido com festa. Tinha pouco estudo, acredito que só tenha cursado o que naquela época era chamado de primário, mas, ainda assim, era um homem muito sábio”, finaliza emocionada.

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"CAMARONÊS"

Conheça a história do dialeto criado por um cearense para comunicação entre familiares

O Camaronês, criado por Umbelino Camarão, já falecido, conta hoje com só dois fluentes, seus irmãos. O dialeto virou um patrimônio da família

Por Juliana Teófilo em Perfil

7 de maio de 2016 às 06:00

Há 1 ano
Seu Camarão (à esquerda) criou o Camaronês com apenas nove anos de idade. (FOTO: Reprodução/Arquivo pessoal Cecília Camarão)

Seu Camarão (à esquerda) criou o Camaronês com apenas 9 anos de idade. (FOTO: Reprodução/Arquivo pessoal Cecília Camarão)

Herói da Insurreição Pernambucana, Felipe Camarão (1591-1649) era um índio “poti” convertido ao cristianismo e um amante da língua portuguesa. Segundo o frei Manuel Calado, o homem tinha forte inclinação para a leitura e a escrita e considerava a correção gramatical e a pronúncia do português importantíssimas.

“Era tão exagerado em suas coisas, que, quando fala com pessoas principais, o fazia por intérprete (posto que falava bem o português) dizendo que fazia isto porque, falando em português, podia cair em algum erro no pronunciar as palavras por ser índio”, relata o religioso em suas memórias.

Filho de peixe…

Sete gerações depois de Felipe, o pequeno cearense Umbelino de Aquino Camarão, com apenas nove anos, manteve viva a paixão do antepassado e criou sua própria língua, o “Camaronês”. A princípio, o Camaronês era uma brincadeira de Umbelino com os amigos e a irmã Cristalina e, mais tarde, com o cunhado Vicente Brito.

Mas o que começou como uma brincadeira de criança, aos poucos tornou-se uma criação séria. Ao longo dos anos, Umbelino passou a trocar palavras e não mais sílabas, e tornou sua criação ainda mais complexa ao desenvolver junções silábicas totalmente novas, criando, assim, novas palavras.

“Um dia alguém de uma rádio da cidade levou meu pai e o tio Vicente para o Teatro José de Alencar para uma apresentação especial. Lá, eles brincaram de traduzir o que o jornalista falava para o camaronês. Papai contava que foi uma sensação, porque ninguém entendia absolutamente nada”, conta dona Célia Camarão, uma dos seis filhos de seu Umbelino.

Célia relata que, apesar do caráter inusitado da criação do pai, seus irmãos nunca demonstraram muito interesse em aprender o Camaronês. “Ele nos ensinou, tivemos várias aulas, mas nem todos os filhos se interessaram de fato pela língua. Eu e um dos meus irmãos somos os únicos fluentes, e costumávamos falar usando o Camaronês com o papai até a morte dele, aos 95 anos”, relata.

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Hoje a família fala pouco o dialeto e o Camaronês virou um patrimônio. (FOTO: Reprodução/Arquivo Pessoal Célia Camarão)

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Hoje a família fala pouco o dialeto e o Camaronês virou um patrimônio. (FOTO: Reprodução/Arquivo Pessoal Célia Camarão)

Família Camarão
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Hoje a família fala pouco o dialeto e o Camaronês virou um patrimônio. (FOTO: Reprodução/Arquivo Pessoal Célia Camarão)

O dialeto de seu Umbelino ganhou novo status com a criação de uma complexa gramática. Mas tornar o Camaronês uma língua formal acabou por afastar ainda mais o interesse dos familiares, conforme conta Célia.

“Meu pai, como era um homem simples, criou uma língua que também é simples. Mas a gramática, que não foi criada por ele, mas sim pelo doutor Valdir Matos Mágno, é um pouco mais difícil. A pronúncia ganhou novos contornos. Isso acabou dificultando a compreensão das pessoas, e foi aí que os filhos e os netos não quiseram aprender mesmo. Acabou que a língua virou muito mais um patrimônio da família, e hoje fala-se muito pouco”.

Mas a língua é vista por Célia como uma referência na memória do pai, a quem ela define como um homem brilhante. “Meu pai era um grande contador de histórias, era uma criatura muito querida, que aonde chegava era recebido com festa. Tinha pouco estudo, acredito que só tenha cursado o que naquela época era chamado de primário, mas, ainda assim, era um homem muito sábio”, finaliza emocionada.