A curiosa história do homem que precisou fazer do aeroporto a sua morada

PERFIL

A curiosa história do homem que precisou fazer do aeroporto a sua morada

Há três meses Jorge Maurício Gouveia tem feito do aeroporto a sua casa — ou, ao menos, dormitório

Por Lucas Barbosa em Perfil

7 de dezembro de 2017 às 16:11

Há 1 semana

Jorge é uma das pessoas que faz do Aeroporto casa (FOTO: Lucas Barbosa/Tribuna doCeará)

Quem transita pelas dependências do Aeroporto Internacional Pinto Martins, em Fortaleza, — sobretudo, à noite — costuma passar batido por aquela figura de cabelo e barba brancos do alto de seus 65 anos. Apesar do carrinho de bagagem, diferente da maioria dos transeuntes do aeroporto, ele não está ali esperando voo.

Há três meses, mais ou menos, Jorge Maurício Gouveia é uma das pessoas que faz do aeroporto casa — ou, ao menos, dormitório. Passa o dia inteiro desfrutando da programação ou mesmo da internet ofertada pelos espaços culturais da cidade, em uma rotina que pode, ainda, encaixar, por exemplo, aulas na Universidade Federal do Ceará (UFC), na qualidade de ouvinte. E, à noite, vai ao aeroporto dormir.

Mas, como o carrinho que o faz confundir com os viajantes, a pecha de morador de rua pode fazer solapar toda uma trajetória de vida, que ilustra bastante uma de suas teses, a da variedade do perfil das pessoas em situação de rua.

Afinal, ele é o presidente da “Associação dos Loucos, Ex-Loucos e Amigos dos Loucos da Via Láctea – Seccional do Sciará”. Para além da “molecagem”, um ativista pela “diversidade mental” — como gosta de ressaltar, em detrimento com “saúde mental” —, e pelo direito das pessoas que, como ele, estão em situação de rua.

A provocadora associação surgiu em uma das militâncias dele naquela seara, no Fórum da Sociedade Civil em Saúde Mental, no Amazonas, no fim dos anos 1990, começo dos 2000. O papel da organização era dialogar com as entidades responsáveis por acompanhar o tema, no contexto da nova Lei da Reforma Psiquiátrica (Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001) — aprovada após uma década de debates. Jorge é um crítico mordaz do sistema manicomial, que considera prisional.

O interesse de Jorge pelo tema surgiu bem antes. Aos 15 anos, ele descobriu que várias pessoas de sua família eram acometidas por transtornos mentais. Sua avó e sua mãe mesmo, por exemplo, desenvolveram mal de Alzheimer — uma história, aliás, que muito tem a ver com o estilo de vida nômade que tomaria no futuro.

Ele mesmo tem dois atestados de psiquiatras. Um, é verdade, é uma espécie de acordo que fez com um amigo psiquiatra. Outro, tão inválido quanto — pelo menos, aos seu olhos —,  diagnosticou-o com transtorno bipolar. “Até, hoje, eu brigo com ele para que ele me prove que eu sou bipolar”, ri. “Não somos doentes, somos apenas diferentes. A luta pelo direito a alteridade e diversidade mental. Não queremos pensar igual aos outros”, é um de seus lemas.

Jorge, porém, identifica lapsos do Alzheimer de sua mãe. Em um desses episódios, esqueceu o notebook no banheiro do aeroporto — nunca mais recuperando-o, apesar da queixa policial.

“Para aprender a administrar a loucura que todos nós temos”, ele passou a se aprofundar no assunto. Hume, Freud, Foucault, Laing são os autores mais citados por ele quando trata do tema. Mas também há espaço para Fernando Pessoa, a quem gosta de recorrer a fim de sintetizar a sua visão sobre a loucura.

“A loucura, longe de ser uma anomalia, é a condição normal humana. Não ter consciência dela, e ela não ser grande, é ser homem normal. Não ter consciência dela e ela ser grande, é ser louco. Ter consciência dela e ela ser pequena é ser desiludido. Ter consciência dela e ela ser grande é ser gênio”. Fernando Pessoa (poeta português)

A luta é “inglória”, sobretudo, devido à falta de organicidade dos pacientes, ele admite. Não é como condições como as cardiopatias, ele cita, em que os pacientes se organizam em poderosas associações. “Até os seus familiares, devido ao estigma, têm dificuldade em se organizar”, ele diz. Um prato cheio para aproveitadores. Jorge deparar-se-ia com uma situação semelhante quando começa a militar na área das pessoas em situação de rua. “O horizonte do morador de rua não passa de 12 horas. A prioridade dele é ir pro ‘corre’: levantar uma grana, seja para comer ou para comprar droga”.

Militância de rua

Foi em meados de 2014 que ele passou a ter lares alternativos. Segundo conta, há cerca de 15 anos, voltou do Sudeste, onde morava desde que saiu do Ceará, quando tinha seis anos. No eixo Rio-São Paulo-Amazonas, fez de tudo um pouco: foi comerciário, trabalhou com equipamentos eletrônicos, em bancos, em computação, montou uma escola de educação infantil, dentre outras atividades. Voltou para Fortaleza ao lado da mãe, convidado por familiares, que lançaram o pretexto de ajudá-los. No fim das contas, reclama Jorge, passaria a cuidar da avó.

Esta morre, o Alzheimer da mãe de Jorge se agrava e ela vai morar com uma parente. A casa da avó de Jorge, onde ele morava, passa a ser, então, alvo de briga entre os familiares. Querendo que Jorge saísse de lá, chegaram até a apresentar denúncia contra ele na Promotoria de Defesa do Idoso, do MPCE. O cansaço gerado pelo conflito é a razão por ele apontada para que tenha ganhado as ruas. A mãe dele foi morar com um outro filho em Goiânia e Jorge, despreocupado, virou praticante de um tipo especial de desapego, um “bundista”, como ele gosta de dizer.

Seu primeiro local de morada foi o próprio Aeroporto Pinto Martins — um local que já conhecia por frequentar a livraria lá instalada. O incômodo dos funcionários das lojas da praça de alimentação, tanto quanto a repressão dos seguranças, o levou a outros lugares, como a Praça do Ferreira. Se um ou outro funcionário chegava a guardar a comida que sobrava, outros demonstravam aberta animosidade com aquela figura que pegava as sobras das mesas.

Nas praças, ele viu, nas próprias palavras, a verdadeira história das ruas. Adentrou o círculo social de seus moradores e pode testemunhar a diversidade daquele ambiente. Deparou-se de professores universitários de Filosofia em luta contra o crack a trabalhadores que apenas não tinham como voltar todos os dias de seus trabalhos no Centro para suas casas na Região Metropolitana.

Constatou a existência de um código ético e solidário, que garantia, por exemplo, comida a quem não conseguisse pegá-la nos mutirões de rua. Bastava alguém ter pegado mais que o necessário para aquela refeição. Mas também se deparou com as mazelas da área, especialmente, no trato das políticas públicas voltado a essa população.

Em 2009, entrou em vigor o decreto nº 7.053, que criava a Política Nacional para a População em Situação de Rua, assinada pelo então presidente Lula (PT). Consigo, foi criado o Comitê Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento da Política Nacional para a População em Situação de Rua, composto tanto por representantes de diversos ministérios, quanto por representantes da sociedade civil. Os comitês teriam congêneres tanto em esfera estadual, quanto municipal.

Jorge candidatou-se aos conselhos, tomando posto de suplente. Sentiu-se explorado, todavia. Na prática, ele diz, quem comandava o espaço era a Pastoral do Povo da Rua, da Igreja Católica. Não seria a única desilusão no meio. Em outros espaços destinados à população de rua, encontraria, até, atos de corrupção — os quais denunciou ao Ministério Público, mas não viu serem devidamente apuradas.

O sentimento de revolta se acentuava diante das insuficientes políticas municipais para a área. Jorge, por exemplo, cita com escárnio a capacidade dos Centros de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centros Pop). Podendo atender, por dia, 80 pessoas, os dois Centros Pop não conseguem atender nem 10% da população de rua, segundo os “furados” números oficiais da Prefeitura, ele denuncia. Foram 1718 pessoas contabilizadas, em 2015, no Censo e Pesquisa Municipal sobre População em Situação de Rua. Jorge prefere trabalhar com um número que varia entre 6 e 8 mil pessoas.

Já as Pousadas Sociais, com suas também 80 vagas, recebem críticas de Jorge por oferecer cursos em profissões “extremamente precarizadas”, como encanador e jardineiro. Com 13 de milhões de desempregados, segundo o IBGE, quem vai querer contratar um morado de rua, com todo o preconceito que recai sobre essas pessoas?, ele questiona. Já os poucos beneficiados com os alugueis sociais se valeriam da falta de acompanhamento do projeto para burlá-lo. “Conheço quem pega o dinheiro torra em crack e dá 40 reais para ter um recibo fajuto”. Há cerca de três anos, Jorge está inscrito para receber aluguel social e ainda não conseguiu o benefício. “A forma de distribuição é questionável. É só com indicação de políticos que se consegue”.

Diante das dificuldades da política institucional, ele, buscou, então, novas formas de militar no meio — ainda que a eficiência, muitas vezes, fosse semelhante. No poeta Mário Gomes, também morador de rua, foi buscar inspiração para o nome de um coletivo cultural voltado à população de rua. Junto ao coletivo, criou também o Movimento Livre do Povo de Rua do Ceará (Movimento Loucos por Praças, Parques, Ruas e Cultura).

“A ideia era organizar a população de rua pela visão da autonomia”, ele relata. “Porque o Estado tem uma visão assistencialista. Nessa estrutura, gasta-se 80% do dinheiro — e quem diz isso não sou eu, são consultorias —, ou desviado, ou desperdiçado nessa estrutura que emprega amigo, parente, etc. Sobra muito pouco para a finalidade real. As Ongs também não tem autonomia nem interesse — porque ganham muito nesse modelo”, dispara. “Pela minha vivência no movimento — entre aspas, porque não existe movimento nenhum, é tudo manipulado” — eu notei que pela via tradicional da política não se vai a lugar nenhum”.

Dessa forma, ele passou a lutar por políticas que dessem à própria população de rua os meios pelos quais pudessem ter uma vida melhor — até porque muitos não querem sair da rua, como atesta Jorge, querem ser tratados com dignidade nela. Para viabilizar isso, bolou, inicialmente, algumas propostas — ainda dependentes de parcerias para serem realizadas.

Uma delas até chegou a ser realizada em parte, em janeiro último. Estudantes do ensino médio puderam trocar ideias em uma roda de conversas com moradores de rua, no Espaço Estação. Estava previsto que estes fossem também à escola e que os alunos fizessem trabalho em grupo, com professores e pai, em uma experiência em que viveriam na pele como é morar na rua. A proposta, que não foi à frente, é semelhante a uma outra apresentada à Reitoria, para ser implantada com os alunos do Instituto de Cultura e Arte (ICA) da UFC.

Aqui, além dos estudantes conhecerem a rotina de quem vive na rua, estes se beneficiariam da estrutura da universidade. A inspiração era o trabalho do jornalista Régis Torquato Tavares, que foi às ruas como catador de latinhas para construir perfis de três desses trabalhadores. O resultado ele contou no livro Catando histórias: três perfis.

Já a outra ideia traria uma biblioteca peregrina, ao munir as pessoas em situação de rua com um carrinho típico de reciclagem, mas aqui trocada por livros. Os equipamentos ficariam nas praças do Ferreira e da Gentilândia. Os moradores de rua seriam treinados para serem “agentes de leitura”, remunerados com alimentação e abrigo — não dinheiro, para não ser desperdiçado algum tipo de vício. Jorge chegou a ver quanto o projeto custaria — algo em torno de 400 a 600 reais por carrinho, mas não conseguiu apoio até o momento.

E, por fim, um programa que permitisse famílias ou entidades “adotarem” pessoas em situação de rua. Não sob o viés da “caridade” — Jorge faz questão de esclarecer — mas, de fato, conhecer aquela pessoa, criar um laço e entender no que pode contribuir. Ele exemplifica: “às vezes, a pessoa vem de fora, é assaltada, perde os documentos e fica perdida. Aí, acaba ficando na rua. Então, como se pode agilizar os documentos dele? Ele quer voltar para a cidade dele? Como é que eu posso fazer uma vaquinha na minha escola, igreja…” De novo, nada dinheiro, até que a pessoa se equilibre, ressalta Jorge.

Os reveses não o fizeram desmorecer, todavia. Como ressalta, não é só de dificuldade que vive a rua. “Com todos os problemas, eu me sinto muito mais acolhido na rua”, conta. No aeroporto, ganhou a simpatia de diversos funcionários, que sempre lhe dão comida, por exemplo. Naquela segunda-feira (13) em que conversou com Tribuna do Ceará, ele, por exemplo, ganhou mais refeições que o suficiente para um jantar. Ficou para o café da manhã.

“A rua tem um encanto. Há menos de 10 mil anos nasceu a agricultura —30 mil, dependendo do local. Há 6-8 Mil anos, a gente começou a ser urbano, viver em cidades. Então, se você analisar essa escala de tempo com a escala do homo sapiens, cujo registro mais antigo é de 300 mil anos, nós sempre fomos nômades. Uns 2% da nossa existência vivendo em cidades, embaixo de um teto. Grandes vultos como o cantor Seu Jorge e Millôr Fernandes, o maior intelectual brasileiro da história, foram moradores de rua. É uma experiência muito rica, desde que você saiba ter paciência e ver as coisas em seu lado positivo”.

Saiba Mais

Confira o “Manifesto Philosófico” da Associação dos loucos, Ex-Loucos e Amigos dos Loucos da Via Láctea-Filial do Sciará, escrito por Jorge Maurício Gouveia e Marcos José: http://tutadoidollouco.blogspot.com.br/

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A curiosa história do homem que precisou fazer do aeroporto a sua morada

Há três meses Jorge Maurício Gouveia tem feito do aeroporto a sua casa — ou, ao menos, dormitório

Por Lucas Barbosa em Perfil

7 de dezembro de 2017 às 16:11

Há 1 semana

Jorge é uma das pessoas que faz do Aeroporto casa (FOTO: Lucas Barbosa/Tribuna doCeará)

Quem transita pelas dependências do Aeroporto Internacional Pinto Martins, em Fortaleza, — sobretudo, à noite — costuma passar batido por aquela figura de cabelo e barba brancos do alto de seus 65 anos. Apesar do carrinho de bagagem, diferente da maioria dos transeuntes do aeroporto, ele não está ali esperando voo.

Há três meses, mais ou menos, Jorge Maurício Gouveia é uma das pessoas que faz do aeroporto casa — ou, ao menos, dormitório. Passa o dia inteiro desfrutando da programação ou mesmo da internet ofertada pelos espaços culturais da cidade, em uma rotina que pode, ainda, encaixar, por exemplo, aulas na Universidade Federal do Ceará (UFC), na qualidade de ouvinte. E, à noite, vai ao aeroporto dormir.

Mas, como o carrinho que o faz confundir com os viajantes, a pecha de morador de rua pode fazer solapar toda uma trajetória de vida, que ilustra bastante uma de suas teses, a da variedade do perfil das pessoas em situação de rua.

Afinal, ele é o presidente da “Associação dos Loucos, Ex-Loucos e Amigos dos Loucos da Via Láctea – Seccional do Sciará”. Para além da “molecagem”, um ativista pela “diversidade mental” — como gosta de ressaltar, em detrimento com “saúde mental” —, e pelo direito das pessoas que, como ele, estão em situação de rua.

A provocadora associação surgiu em uma das militâncias dele naquela seara, no Fórum da Sociedade Civil em Saúde Mental, no Amazonas, no fim dos anos 1990, começo dos 2000. O papel da organização era dialogar com as entidades responsáveis por acompanhar o tema, no contexto da nova Lei da Reforma Psiquiátrica (Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001) — aprovada após uma década de debates. Jorge é um crítico mordaz do sistema manicomial, que considera prisional.

O interesse de Jorge pelo tema surgiu bem antes. Aos 15 anos, ele descobriu que várias pessoas de sua família eram acometidas por transtornos mentais. Sua avó e sua mãe mesmo, por exemplo, desenvolveram mal de Alzheimer — uma história, aliás, que muito tem a ver com o estilo de vida nômade que tomaria no futuro.

Ele mesmo tem dois atestados de psiquiatras. Um, é verdade, é uma espécie de acordo que fez com um amigo psiquiatra. Outro, tão inválido quanto — pelo menos, aos seu olhos —,  diagnosticou-o com transtorno bipolar. “Até, hoje, eu brigo com ele para que ele me prove que eu sou bipolar”, ri. “Não somos doentes, somos apenas diferentes. A luta pelo direito a alteridade e diversidade mental. Não queremos pensar igual aos outros”, é um de seus lemas.

Jorge, porém, identifica lapsos do Alzheimer de sua mãe. Em um desses episódios, esqueceu o notebook no banheiro do aeroporto — nunca mais recuperando-o, apesar da queixa policial.

“Para aprender a administrar a loucura que todos nós temos”, ele passou a se aprofundar no assunto. Hume, Freud, Foucault, Laing são os autores mais citados por ele quando trata do tema. Mas também há espaço para Fernando Pessoa, a quem gosta de recorrer a fim de sintetizar a sua visão sobre a loucura.

“A loucura, longe de ser uma anomalia, é a condição normal humana. Não ter consciência dela, e ela não ser grande, é ser homem normal. Não ter consciência dela e ela ser grande, é ser louco. Ter consciência dela e ela ser pequena é ser desiludido. Ter consciência dela e ela ser grande é ser gênio”. Fernando Pessoa (poeta português)

A luta é “inglória”, sobretudo, devido à falta de organicidade dos pacientes, ele admite. Não é como condições como as cardiopatias, ele cita, em que os pacientes se organizam em poderosas associações. “Até os seus familiares, devido ao estigma, têm dificuldade em se organizar”, ele diz. Um prato cheio para aproveitadores. Jorge deparar-se-ia com uma situação semelhante quando começa a militar na área das pessoas em situação de rua. “O horizonte do morador de rua não passa de 12 horas. A prioridade dele é ir pro ‘corre’: levantar uma grana, seja para comer ou para comprar droga”.

Militância de rua

Foi em meados de 2014 que ele passou a ter lares alternativos. Segundo conta, há cerca de 15 anos, voltou do Sudeste, onde morava desde que saiu do Ceará, quando tinha seis anos. No eixo Rio-São Paulo-Amazonas, fez de tudo um pouco: foi comerciário, trabalhou com equipamentos eletrônicos, em bancos, em computação, montou uma escola de educação infantil, dentre outras atividades. Voltou para Fortaleza ao lado da mãe, convidado por familiares, que lançaram o pretexto de ajudá-los. No fim das contas, reclama Jorge, passaria a cuidar da avó.

Esta morre, o Alzheimer da mãe de Jorge se agrava e ela vai morar com uma parente. A casa da avó de Jorge, onde ele morava, passa a ser, então, alvo de briga entre os familiares. Querendo que Jorge saísse de lá, chegaram até a apresentar denúncia contra ele na Promotoria de Defesa do Idoso, do MPCE. O cansaço gerado pelo conflito é a razão por ele apontada para que tenha ganhado as ruas. A mãe dele foi morar com um outro filho em Goiânia e Jorge, despreocupado, virou praticante de um tipo especial de desapego, um “bundista”, como ele gosta de dizer.

Seu primeiro local de morada foi o próprio Aeroporto Pinto Martins — um local que já conhecia por frequentar a livraria lá instalada. O incômodo dos funcionários das lojas da praça de alimentação, tanto quanto a repressão dos seguranças, o levou a outros lugares, como a Praça do Ferreira. Se um ou outro funcionário chegava a guardar a comida que sobrava, outros demonstravam aberta animosidade com aquela figura que pegava as sobras das mesas.

Nas praças, ele viu, nas próprias palavras, a verdadeira história das ruas. Adentrou o círculo social de seus moradores e pode testemunhar a diversidade daquele ambiente. Deparou-se de professores universitários de Filosofia em luta contra o crack a trabalhadores que apenas não tinham como voltar todos os dias de seus trabalhos no Centro para suas casas na Região Metropolitana.

Constatou a existência de um código ético e solidário, que garantia, por exemplo, comida a quem não conseguisse pegá-la nos mutirões de rua. Bastava alguém ter pegado mais que o necessário para aquela refeição. Mas também se deparou com as mazelas da área, especialmente, no trato das políticas públicas voltado a essa população.

Em 2009, entrou em vigor o decreto nº 7.053, que criava a Política Nacional para a População em Situação de Rua, assinada pelo então presidente Lula (PT). Consigo, foi criado o Comitê Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento da Política Nacional para a População em Situação de Rua, composto tanto por representantes de diversos ministérios, quanto por representantes da sociedade civil. Os comitês teriam congêneres tanto em esfera estadual, quanto municipal.

Jorge candidatou-se aos conselhos, tomando posto de suplente. Sentiu-se explorado, todavia. Na prática, ele diz, quem comandava o espaço era a Pastoral do Povo da Rua, da Igreja Católica. Não seria a única desilusão no meio. Em outros espaços destinados à população de rua, encontraria, até, atos de corrupção — os quais denunciou ao Ministério Público, mas não viu serem devidamente apuradas.

O sentimento de revolta se acentuava diante das insuficientes políticas municipais para a área. Jorge, por exemplo, cita com escárnio a capacidade dos Centros de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centros Pop). Podendo atender, por dia, 80 pessoas, os dois Centros Pop não conseguem atender nem 10% da população de rua, segundo os “furados” números oficiais da Prefeitura, ele denuncia. Foram 1718 pessoas contabilizadas, em 2015, no Censo e Pesquisa Municipal sobre População em Situação de Rua. Jorge prefere trabalhar com um número que varia entre 6 e 8 mil pessoas.

Já as Pousadas Sociais, com suas também 80 vagas, recebem críticas de Jorge por oferecer cursos em profissões “extremamente precarizadas”, como encanador e jardineiro. Com 13 de milhões de desempregados, segundo o IBGE, quem vai querer contratar um morado de rua, com todo o preconceito que recai sobre essas pessoas?, ele questiona. Já os poucos beneficiados com os alugueis sociais se valeriam da falta de acompanhamento do projeto para burlá-lo. “Conheço quem pega o dinheiro torra em crack e dá 40 reais para ter um recibo fajuto”. Há cerca de três anos, Jorge está inscrito para receber aluguel social e ainda não conseguiu o benefício. “A forma de distribuição é questionável. É só com indicação de políticos que se consegue”.

Diante das dificuldades da política institucional, ele, buscou, então, novas formas de militar no meio — ainda que a eficiência, muitas vezes, fosse semelhante. No poeta Mário Gomes, também morador de rua, foi buscar inspiração para o nome de um coletivo cultural voltado à população de rua. Junto ao coletivo, criou também o Movimento Livre do Povo de Rua do Ceará (Movimento Loucos por Praças, Parques, Ruas e Cultura).

“A ideia era organizar a população de rua pela visão da autonomia”, ele relata. “Porque o Estado tem uma visão assistencialista. Nessa estrutura, gasta-se 80% do dinheiro — e quem diz isso não sou eu, são consultorias —, ou desviado, ou desperdiçado nessa estrutura que emprega amigo, parente, etc. Sobra muito pouco para a finalidade real. As Ongs também não tem autonomia nem interesse — porque ganham muito nesse modelo”, dispara. “Pela minha vivência no movimento — entre aspas, porque não existe movimento nenhum, é tudo manipulado” — eu notei que pela via tradicional da política não se vai a lugar nenhum”.

Dessa forma, ele passou a lutar por políticas que dessem à própria população de rua os meios pelos quais pudessem ter uma vida melhor — até porque muitos não querem sair da rua, como atesta Jorge, querem ser tratados com dignidade nela. Para viabilizar isso, bolou, inicialmente, algumas propostas — ainda dependentes de parcerias para serem realizadas.

Uma delas até chegou a ser realizada em parte, em janeiro último. Estudantes do ensino médio puderam trocar ideias em uma roda de conversas com moradores de rua, no Espaço Estação. Estava previsto que estes fossem também à escola e que os alunos fizessem trabalho em grupo, com professores e pai, em uma experiência em que viveriam na pele como é morar na rua. A proposta, que não foi à frente, é semelhante a uma outra apresentada à Reitoria, para ser implantada com os alunos do Instituto de Cultura e Arte (ICA) da UFC.

Aqui, além dos estudantes conhecerem a rotina de quem vive na rua, estes se beneficiariam da estrutura da universidade. A inspiração era o trabalho do jornalista Régis Torquato Tavares, que foi às ruas como catador de latinhas para construir perfis de três desses trabalhadores. O resultado ele contou no livro Catando histórias: três perfis.

Já a outra ideia traria uma biblioteca peregrina, ao munir as pessoas em situação de rua com um carrinho típico de reciclagem, mas aqui trocada por livros. Os equipamentos ficariam nas praças do Ferreira e da Gentilândia. Os moradores de rua seriam treinados para serem “agentes de leitura”, remunerados com alimentação e abrigo — não dinheiro, para não ser desperdiçado algum tipo de vício. Jorge chegou a ver quanto o projeto custaria — algo em torno de 400 a 600 reais por carrinho, mas não conseguiu apoio até o momento.

E, por fim, um programa que permitisse famílias ou entidades “adotarem” pessoas em situação de rua. Não sob o viés da “caridade” — Jorge faz questão de esclarecer — mas, de fato, conhecer aquela pessoa, criar um laço e entender no que pode contribuir. Ele exemplifica: “às vezes, a pessoa vem de fora, é assaltada, perde os documentos e fica perdida. Aí, acaba ficando na rua. Então, como se pode agilizar os documentos dele? Ele quer voltar para a cidade dele? Como é que eu posso fazer uma vaquinha na minha escola, igreja…” De novo, nada dinheiro, até que a pessoa se equilibre, ressalta Jorge.

Os reveses não o fizeram desmorecer, todavia. Como ressalta, não é só de dificuldade que vive a rua. “Com todos os problemas, eu me sinto muito mais acolhido na rua”, conta. No aeroporto, ganhou a simpatia de diversos funcionários, que sempre lhe dão comida, por exemplo. Naquela segunda-feira (13) em que conversou com Tribuna do Ceará, ele, por exemplo, ganhou mais refeições que o suficiente para um jantar. Ficou para o café da manhã.

“A rua tem um encanto. Há menos de 10 mil anos nasceu a agricultura —30 mil, dependendo do local. Há 6-8 Mil anos, a gente começou a ser urbano, viver em cidades. Então, se você analisar essa escala de tempo com a escala do homo sapiens, cujo registro mais antigo é de 300 mil anos, nós sempre fomos nômades. Uns 2% da nossa existência vivendo em cidades, embaixo de um teto. Grandes vultos como o cantor Seu Jorge e Millôr Fernandes, o maior intelectual brasileiro da história, foram moradores de rua. É uma experiência muito rica, desde que você saiba ter paciência e ver as coisas em seu lado positivo”.

Saiba Mais

Confira o “Manifesto Philosófico” da Associação dos loucos, Ex-Loucos e Amigos dos Loucos da Via Láctea-Filial do Sciará, escrito por Jorge Maurício Gouveia e Marcos José: http://tutadoidollouco.blogspot.com.br/