Pedalzinho das Mina encoraja mulheres a usar a bike como transporte e empoderamento
COLETIVO FEMINISTA

Pedalzinho das Mina encoraja mulheres a usar a bike como transporte e empoderamento

O projeto tem como objetivo colocar as mulheres na rua para ocupar a cidade e fortalecer a união entre elas

Por Deborah Tavares em Mobilidade Urbana

20 de fevereiro de 2017 às 06:45

Há 7 meses

O maior medo das mulheres ao sair na rua, segundo as Minas do Pedalzinho, é assédio. (FOTO: Catarina Silver)

Se perguntassem para Catarina, Luce, Valdênia e para tantas outras mulheres qual o maior medo que elas têm ao andar na rua, a resposta não seria assalto, nem acidentes. A reposta seria andar sozinha, estando mais suscetíveis a assédios.

Essa é a realidade do país em que 86% das brasileiras afirmam já ter sofrido assédio em público e 70% têm mais medo de serem abordadas ao andar pelas ruas. A pesquisa foi divulgada em 2016 pela ActionAid, feita com mulheres de todas as regiões do Brasil.

Foi esse medo um dos impulsos para que a professora de Filosofia e fotógrafa Catarina Silver criasse o Pedalzinho das Mina, projeto que encoraja as mulheres a usar a bike como meio de transporte, ocupar a cidade e fortalecer a união entre mulheres, como define a descrição na página do Facebook.

Pedalar empodera

Catarina começou sua relação com a bike há dois anos. “Eu sempre quis andar de bike, mas só tive acesso depois de adulta, depois de conseguir um emprego”. Ela conta que iria tirar a carteira de motorista e seu instrutor disse que só poderia ter aulas de motocicleta se aprendesse, antes, a andar de bicicleta.

“Comprei uma bicicleta do Ben 10, de criança, porque eu tinha certeza que com essa não tinha como não aprender. Eu consegui comprar minha bike e comecei a fazer percursos pequenos, depois eu comecei a ir para a faculdade, foi muito difícil porque eu não tive a ajuda de ninguém. Cada movimento de ônibus, de carro, de qualquer coisa eu parava com medo, levei muita quedas no início, hoje eu rodo Fortaleza inteira“, relata.

Para a professora, o meio de transporte tem, na sua vida, uma função de empoderamento. “Minha relação com a bicicleta tem muito a ver com eu ter me tornado feminista. Eu utilizo a bike no sentido de mostrar que a cidade não é só para os homens e não é só para os carros, é pra todo mundo”.

Catarina acredita que a bicicleta como meio de transporte tem função empoderadora para as mulheres. (FOTO: Reprodução/Facebook)

Catarina ganhou as ruas da cidade em duas rodas, mas a insegurança de estar sozinha e de sofrer agressões no trânsito a fez querer criar um espaço onde ela, assim como outras mulheres, não se sentissem sós. “Era mesmo a necessidade de ter alguém para pedalar, para não pedalar sozinha”, diz Catarina, que se define não como criadora, mas como mobilizadora do Pedalzinho.

“O projeto é uma construção das pessoas que tão vindo, por isso que é um projeto autogerido”, explica.

O Pedalzinho

“O risco para homens e mulheres é o mesmo (no trânsito). A diferença é que existe um agravante, uma questão de fragilidade e sexualização da mulher. Por causa disso, a falta de segurança da mulher é muito maior, o risco, o medo. Então o projeto existe para dizer que é possível, as mulheres podem ganhar as ruas. Há perigo, mas esse perigo pode se transformar em força”, define Catarina.

O Pedalzinho das Mina tem oito meses e objetiva colocar as mulheres na rua, sem medo e sabendo que podem contar umas com as outras. “Assédio é um ponto muito importante para as meninas não enfrentarem o trânsito. Por essa razão, também, o projeto é feminista. É muito importante que a gente se fortaleça como mulheres, dar força umas para as outras, cuidar umas das outras”, reforça a professora.

Os encontros acontecem de duas formas. Uma delas é o passeio, onde cada mulher sai na sua bike, ou na bicicleta compartilhada, da Pracinha da Gentilândia e segue por uma rota desbravando as ruas da cidade até chegar ao destino, escolhido previamente por uma enquete no grupo, onde se monta um piquenique e uma roda de conversa entre amigas.

O grupo recebe, das mobilizadoras, orientações de como se comportar no trânsito, sinais e regras. Os passeios acontecem a cada 15 dias.

Para quem não sabe pedalar, uma vez por mês, sempre no primeiro sábado, o grupo permanece na praça, onde voluntárias ensinam as mulheres. Quem quiser aprender ou ensinar, basta chegar. Pode levar uma bicicleta ou fazer um cadastro no sistema de bicicletas compartilhadas, o Bicicletar. As aulas são gratuitas e dadas por mulheres, exclusivas para mulheres.

As Mina do Pedalzinho

Valdênia e Mayrluce no encontro do Pedalzinho das Mina. (FOTO: Catarina Silva)

Valdênia Lima, estudante universitária, há tempos tinha vontade de usar a bicicleta como meio de transporte, mas, para isso, precisava aprender a pedalar. O Pedalzinho das Mina foi a oportunidade perfeita.

“Eu cheguei aqui sabendo quase nada de bicicleta. Foram umas duas sessões de 20 minutos e no final eu tava relativamente segura e já conseguia pedalar sem elas estarem me guiando”, comemora.

Ela confessa se sentir mais segura por estar entre mulheres e vê o grupo como uma oportunidade de enfraquecer pensamentos machistas.

Como mulher, a gente é educada desde cedo a ter mais medo das coisas, a não fazer as coisas como a gente quer, o homem é educado para se arriscar mais. Ter essa organização para colocar meninas para andarem mais de bicicleta vai totalmente contra uma cultura patriarcal. É exatamente isso que eu acho importante que aconteça, porque a gente consegue ver mulher fortalecendo mulher e a gente pode avançar na luta contra o patriarcado, e finalmente ter uma sociedade mais justa e igualitária”, define.

O Pedalzinho é muito legal porque encoraja a gente“, conclui Mayrluce Rodrigues, estudante universitária e voluntária no Pedalzinho. Ela conta que o grupo mudou sua relação com transito.

“No começo, todo quarteirão eu achava que ia morrer umas três vezes, eu era muito insegura, sempre que passava um carro eu ficava toda tensa. Eu aprendi que os maiores têm que respeitar os menores e aprendi umas regras de respeito e convivência no trânsito para que tudo flua bem”.

Luce é voluntária há alguns encontros e diz que quer que outras meninas também passem a ver o trânsito de outra forma. “Eu quero que a menina veja que é possível sim, porque eu também aprendi, e é muito legal aprender uma coisa nova. Se você tem um conhecimento, você pode passar para uma pessoa que também quer aprender, o aprendizado não tem que ser egoísta“.

O Pedalzinho é feito de Valdênias, querendo se desafiar e perder medos. E de Luces e Catarinas, que mostram que mulheres se tornam mais fortes apoiando umas as outras.

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COLETIVO FEMINISTA

Pedalzinho das Mina encoraja mulheres a usar a bike como transporte e empoderamento

O projeto tem como objetivo colocar as mulheres na rua para ocupar a cidade e fortalecer a união entre elas

Por Deborah Tavares em Mobilidade Urbana

20 de fevereiro de 2017 às 06:45

Há 7 meses

O maior medo das mulheres ao sair na rua, segundo as Minas do Pedalzinho, é assédio. (FOTO: Catarina Silver)

Se perguntassem para Catarina, Luce, Valdênia e para tantas outras mulheres qual o maior medo que elas têm ao andar na rua, a resposta não seria assalto, nem acidentes. A reposta seria andar sozinha, estando mais suscetíveis a assédios.

Essa é a realidade do país em que 86% das brasileiras afirmam já ter sofrido assédio em público e 70% têm mais medo de serem abordadas ao andar pelas ruas. A pesquisa foi divulgada em 2016 pela ActionAid, feita com mulheres de todas as regiões do Brasil.

Foi esse medo um dos impulsos para que a professora de Filosofia e fotógrafa Catarina Silver criasse o Pedalzinho das Mina, projeto que encoraja as mulheres a usar a bike como meio de transporte, ocupar a cidade e fortalecer a união entre mulheres, como define a descrição na página do Facebook.

Pedalar empodera

Catarina começou sua relação com a bike há dois anos. “Eu sempre quis andar de bike, mas só tive acesso depois de adulta, depois de conseguir um emprego”. Ela conta que iria tirar a carteira de motorista e seu instrutor disse que só poderia ter aulas de motocicleta se aprendesse, antes, a andar de bicicleta.

“Comprei uma bicicleta do Ben 10, de criança, porque eu tinha certeza que com essa não tinha como não aprender. Eu consegui comprar minha bike e comecei a fazer percursos pequenos, depois eu comecei a ir para a faculdade, foi muito difícil porque eu não tive a ajuda de ninguém. Cada movimento de ônibus, de carro, de qualquer coisa eu parava com medo, levei muita quedas no início, hoje eu rodo Fortaleza inteira“, relata.

Para a professora, o meio de transporte tem, na sua vida, uma função de empoderamento. “Minha relação com a bicicleta tem muito a ver com eu ter me tornado feminista. Eu utilizo a bike no sentido de mostrar que a cidade não é só para os homens e não é só para os carros, é pra todo mundo”.

Catarina acredita que a bicicleta como meio de transporte tem função empoderadora para as mulheres. (FOTO: Reprodução/Facebook)

Catarina ganhou as ruas da cidade em duas rodas, mas a insegurança de estar sozinha e de sofrer agressões no trânsito a fez querer criar um espaço onde ela, assim como outras mulheres, não se sentissem sós. “Era mesmo a necessidade de ter alguém para pedalar, para não pedalar sozinha”, diz Catarina, que se define não como criadora, mas como mobilizadora do Pedalzinho.

“O projeto é uma construção das pessoas que tão vindo, por isso que é um projeto autogerido”, explica.

O Pedalzinho

“O risco para homens e mulheres é o mesmo (no trânsito). A diferença é que existe um agravante, uma questão de fragilidade e sexualização da mulher. Por causa disso, a falta de segurança da mulher é muito maior, o risco, o medo. Então o projeto existe para dizer que é possível, as mulheres podem ganhar as ruas. Há perigo, mas esse perigo pode se transformar em força”, define Catarina.

O Pedalzinho das Mina tem oito meses e objetiva colocar as mulheres na rua, sem medo e sabendo que podem contar umas com as outras. “Assédio é um ponto muito importante para as meninas não enfrentarem o trânsito. Por essa razão, também, o projeto é feminista. É muito importante que a gente se fortaleça como mulheres, dar força umas para as outras, cuidar umas das outras”, reforça a professora.

Os encontros acontecem de duas formas. Uma delas é o passeio, onde cada mulher sai na sua bike, ou na bicicleta compartilhada, da Pracinha da Gentilândia e segue por uma rota desbravando as ruas da cidade até chegar ao destino, escolhido previamente por uma enquete no grupo, onde se monta um piquenique e uma roda de conversa entre amigas.

O grupo recebe, das mobilizadoras, orientações de como se comportar no trânsito, sinais e regras. Os passeios acontecem a cada 15 dias.

Para quem não sabe pedalar, uma vez por mês, sempre no primeiro sábado, o grupo permanece na praça, onde voluntárias ensinam as mulheres. Quem quiser aprender ou ensinar, basta chegar. Pode levar uma bicicleta ou fazer um cadastro no sistema de bicicletas compartilhadas, o Bicicletar. As aulas são gratuitas e dadas por mulheres, exclusivas para mulheres.

As Mina do Pedalzinho

Valdênia e Mayrluce no encontro do Pedalzinho das Mina. (FOTO: Catarina Silva)

Valdênia Lima, estudante universitária, há tempos tinha vontade de usar a bicicleta como meio de transporte, mas, para isso, precisava aprender a pedalar. O Pedalzinho das Mina foi a oportunidade perfeita.

“Eu cheguei aqui sabendo quase nada de bicicleta. Foram umas duas sessões de 20 minutos e no final eu tava relativamente segura e já conseguia pedalar sem elas estarem me guiando”, comemora.

Ela confessa se sentir mais segura por estar entre mulheres e vê o grupo como uma oportunidade de enfraquecer pensamentos machistas.

Como mulher, a gente é educada desde cedo a ter mais medo das coisas, a não fazer as coisas como a gente quer, o homem é educado para se arriscar mais. Ter essa organização para colocar meninas para andarem mais de bicicleta vai totalmente contra uma cultura patriarcal. É exatamente isso que eu acho importante que aconteça, porque a gente consegue ver mulher fortalecendo mulher e a gente pode avançar na luta contra o patriarcado, e finalmente ter uma sociedade mais justa e igualitária”, define.

O Pedalzinho é muito legal porque encoraja a gente“, conclui Mayrluce Rodrigues, estudante universitária e voluntária no Pedalzinho. Ela conta que o grupo mudou sua relação com transito.

“No começo, todo quarteirão eu achava que ia morrer umas três vezes, eu era muito insegura, sempre que passava um carro eu ficava toda tensa. Eu aprendi que os maiores têm que respeitar os menores e aprendi umas regras de respeito e convivência no trânsito para que tudo flua bem”.

Luce é voluntária há alguns encontros e diz que quer que outras meninas também passem a ver o trânsito de outra forma. “Eu quero que a menina veja que é possível sim, porque eu também aprendi, e é muito legal aprender uma coisa nova. Se você tem um conhecimento, você pode passar para uma pessoa que também quer aprender, o aprendizado não tem que ser egoísta“.

O Pedalzinho é feito de Valdênias, querendo se desafiar e perder medos. E de Luces e Catarinas, que mostram que mulheres se tornam mais fortes apoiando umas as outras.