Motoristas alugam carros para poder atender corridas da Uber
NOVA TENDÊNCIA

Motoristas alugam carros para poder atender corridas da Uber

Economia e praticidade são vantagens vistas por quem resolveu alugar carros para atender no serviço do aplicativo

Por Lucas Barbosa em Mobilidade Urbana

18 de abril de 2017 às 06:45

Há 1 mês

Uber percebeu essa nova tendência entre os motoristas parceiro em 2016 (FOTO: Reprodução)

Em busca de trabalho, o cearense Marcel Santana, de 30 anos, viu que atender pelo aplicativo Uber poderia trazer o retorno financeiro que precisava. Mas, sem carro que obedecesse as exigências da empresa e não podendo comprar um novo, se viu diante de uma opção que já conquistou vários outros motoristas que oferecem o serviço: alugar um carro para isso.

Não vem se arrependendo nesse um mês da decisão. “Até compraria um veículo, sairia mais em conta. Mas, quando você quer ter logo o dinheiro, é melhor alugar”, diz.

Já no momento do cadastro, Marcel foi informado pela Uber da opção. A ele foi oferecido o serviço de três locadoras que firmaram acordo com a empresa: Localiza, Movida e Unidas.

Foi em 2016 que a Uber notou a tendência e passou a firmar as parcerias. Os descontos chegam a 60% do valor normal das diárias, com seguro garantido. A Uber não faz diferenciação do serviço. Para a empresa, basta não ter multa e ter um veículo feito a partir de 2008, lembra Marcel. Ainda são exigidos, pelo menos, dois anos de habilitação.

“Mais do que o preço, a principal vantagem é a possibilidade de conseguir trabalhar para o Uber sem ter carro. Em tempos de crise, quem perde o emprego ou precisa complementar a renda, por exemplo, não tem grana ou não quer imobilizar esse dinheiro todo num carro, pode simplesmente alugar e começar a rodar”, diz a Movida, através de nota, lembrando que o acordo é feito entre a locadora e pessoa física.

Empresas escondem o jogo

A empresa diz não ter o total de motoristas que alugam carros para atender pelo Uber. Já a Localiza não divulga os números por “questões estratégicas”.

Marcel, porém, prefere uma locadora popular. Paga R$ 50 pela diária e não precisou pagar caução, que era de R$ 900 no cartão na locadora que havia consultado. Na locadora popular, também não fica preso à quilometragem pré-estabelecida.

Ainda há quem prefira alugar os veículos de motoristas particulares, como Ricarte Sampaio, de 28 anos. Ele aluga um Uno por R$ 400 semanais, após garantir caução de R$ 100. Ricarte até recomenda o serviço das locadoras, em casos em que o interessado tenha como cumprir as exigências prévias das locadoras. Sem cartão de crédito com limite de pelo menos R$ 1.500 como exigido, preferiu continuar com o serviço do amigo.

O amigo João Hugo Mendes, de 32 anos, alugava por R$ 1.500 mensais de uma vizinha, depois de ver que a locadora mais barata cobrava cerca de R$ 1.450. A falta de dinheiro, tão frequentemente apontada para o ingresso no Uber, também é justificativa comum para a opção pelo aluguel.

O motorista de ônibus desempregado Alyson Carneiro da Rocha, 30 anos, aluga por temer a proibição do serviço por aplicativo. “Se acabar, eu não ficaria com uma dívida tão grande quanto se eu comprasse o carro. E, se o carro for apreendido, a locadora repõe”, exemplifica.

Praticidade na manutenção

Alugar um carro é visto por muitos como mais vantajoso também pela praticidade. Vicente de Paulo Martins, de 31 anos, que também não tinha carro próprio, destaca não ter precisado fazer manutenção nesses três meses que já aluga o Siena que dirige.

Mas, para ver se de fato o aluguel é vantajoso financeiramente, é preciso fazer os cálculos. Levantar os custos, como combustível e seguro, e calcular quanto é preciso faturar para cobri-los, lembrando da taxa de 25% cobrada pela Uber.

Plano de metas

Marcel recomenda elaborar uma meta que faça valer a pena o trabalho. Ele diz conseguir os R$ 200 suficientes para obter um lucro diário satisfatório, trabalhando dois turnos e dispensando cerca de R$ 80 em gasolina. Alyson também diz ser possível obter lucro. Em média, em uma semana, ele já consegue pagar o aluguel mensal do carro, que é de R$ 1.650.

As outras semanas ficam para os demais gastos, os R$ 60 de combustível e R$ 12 para as refeições, por exemplo, que costuma despender por dia. Nos fins de semana, as cerca de 23 corridas que, em média, Alyson faz, rendem para ele pouco mais de R$ 400. Normalmente, o mesmo número de viagens vale R$ 250.

Já Ricarte Sampaio diz ser preciso seguir uma rígida rotina para valer a pena. Para ele, são quatro dias da semana para faturar o valor do aluguel e os demais para os outros gastos e o lucro. “Tem que rodar o dia inteiro”, diz ele, que trabalha das 6h às 18h.

João Hugo, por sua vez, diz ter percebido que Uber só compensa com carro próprio — e a gás natural. “Um dia de folga, e eu já ficava no prejuízo”. Por isso, resolveu comprar o seu Cobalt. Mesmo pagando uma mensalidade de cerca de R$ 550, ganha mais trabalhando menos. Garante ter um lucro que varia entre 30% e 40% do total de gastos.

Ele diz que um amigo ouviu de um funcionário de uma locadora que cerca de 80% dos motoristas que haviam alugado carros para Uber entregaram, pois não viram vantagem. O que mais pesava para os motoristas, segundo ele, era a quilometragem de 5.000 quilômetros mensais.

Nova lei pode dificultar

A alternativa, porém, pode acabar em breve. Projeto de lei aprovado pela Câmara dos Deputados no dia 4, além de atribuir aos municípios a regulamentação do serviço da Uber, prevê que os motoristas possuam certificado de registro do veículo em seu nome. O texto segue agora para votação no Senado.

Ricarte espera que a Uber consiga reverter a situação. “Muita gente deixaria de rodar, e as vagas que irão disponibilizar não dá para todo mundo”, lamenta. “As locadoras também deixariam de ganhar”. 

Alyson também não vê com bons olhos o projeto, mas está confiante de que o Senado não o aprovará. “Eles têm que entender que isso está no ajudando”, diz.

Além disso, o serviço via Uber pagaria os devidos impostos municipais referentes à atividade e os motoristas precisariam ainda contratar seguro por acidentes e serem inscritos como contribuintes individuais no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Discussão na Câmara Municipal

O projeto de lei que tramita em nível municipal para regulamentar o transporte individual privado prevê apenas que o carro usado no serviço seja cadastrado, independente de ser ou não próprio. Autor do projeto de lei ordinária (PLO) 31/2017, o vereador Guilherme Sampaio (PT) diz não ser “relevante” se o motorista aluga o veículo em que dirige.

“São detalhes. Qual a diferença ser alugado ou não? Nenhuma. O importante é ser cadastrado”, afirma. Conforme o projeto, o motorista passaria a disponibilizar, além do número do cadastro na Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza (Etufor), nome, foto, telefone, modelo e placa do veículo.

A atividade de intermediação também ficaria reconhecida como agenciamento de mão de obra, sujeito às devidas taxações previstas no Código Tributário do Município. Guilherme Sampaio espera que os debates sobre o projeto comecem em breve na Comissão Especial que aborda o tema na Câmara Municipal.

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Motoristas alugam carros para poder atender corridas da Uber

Economia e praticidade são vantagens vistas por quem resolveu alugar carros para atender no serviço do aplicativo

Por Lucas Barbosa em Mobilidade Urbana

18 de abril de 2017 às 06:45

Há 1 mês

Uber percebeu essa nova tendência entre os motoristas parceiro em 2016 (FOTO: Reprodução)

Em busca de trabalho, o cearense Marcel Santana, de 30 anos, viu que atender pelo aplicativo Uber poderia trazer o retorno financeiro que precisava. Mas, sem carro que obedecesse as exigências da empresa e não podendo comprar um novo, se viu diante de uma opção que já conquistou vários outros motoristas que oferecem o serviço: alugar um carro para isso.

Não vem se arrependendo nesse um mês da decisão. “Até compraria um veículo, sairia mais em conta. Mas, quando você quer ter logo o dinheiro, é melhor alugar”, diz.

Já no momento do cadastro, Marcel foi informado pela Uber da opção. A ele foi oferecido o serviço de três locadoras que firmaram acordo com a empresa: Localiza, Movida e Unidas.

Foi em 2016 que a Uber notou a tendência e passou a firmar as parcerias. Os descontos chegam a 60% do valor normal das diárias, com seguro garantido. A Uber não faz diferenciação do serviço. Para a empresa, basta não ter multa e ter um veículo feito a partir de 2008, lembra Marcel. Ainda são exigidos, pelo menos, dois anos de habilitação.

“Mais do que o preço, a principal vantagem é a possibilidade de conseguir trabalhar para o Uber sem ter carro. Em tempos de crise, quem perde o emprego ou precisa complementar a renda, por exemplo, não tem grana ou não quer imobilizar esse dinheiro todo num carro, pode simplesmente alugar e começar a rodar”, diz a Movida, através de nota, lembrando que o acordo é feito entre a locadora e pessoa física.

Empresas escondem o jogo

A empresa diz não ter o total de motoristas que alugam carros para atender pelo Uber. Já a Localiza não divulga os números por “questões estratégicas”.

Marcel, porém, prefere uma locadora popular. Paga R$ 50 pela diária e não precisou pagar caução, que era de R$ 900 no cartão na locadora que havia consultado. Na locadora popular, também não fica preso à quilometragem pré-estabelecida.

Ainda há quem prefira alugar os veículos de motoristas particulares, como Ricarte Sampaio, de 28 anos. Ele aluga um Uno por R$ 400 semanais, após garantir caução de R$ 100. Ricarte até recomenda o serviço das locadoras, em casos em que o interessado tenha como cumprir as exigências prévias das locadoras. Sem cartão de crédito com limite de pelo menos R$ 1.500 como exigido, preferiu continuar com o serviço do amigo.

O amigo João Hugo Mendes, de 32 anos, alugava por R$ 1.500 mensais de uma vizinha, depois de ver que a locadora mais barata cobrava cerca de R$ 1.450. A falta de dinheiro, tão frequentemente apontada para o ingresso no Uber, também é justificativa comum para a opção pelo aluguel.

O motorista de ônibus desempregado Alyson Carneiro da Rocha, 30 anos, aluga por temer a proibição do serviço por aplicativo. “Se acabar, eu não ficaria com uma dívida tão grande quanto se eu comprasse o carro. E, se o carro for apreendido, a locadora repõe”, exemplifica.

Praticidade na manutenção

Alugar um carro é visto por muitos como mais vantajoso também pela praticidade. Vicente de Paulo Martins, de 31 anos, que também não tinha carro próprio, destaca não ter precisado fazer manutenção nesses três meses que já aluga o Siena que dirige.

Mas, para ver se de fato o aluguel é vantajoso financeiramente, é preciso fazer os cálculos. Levantar os custos, como combustível e seguro, e calcular quanto é preciso faturar para cobri-los, lembrando da taxa de 25% cobrada pela Uber.

Plano de metas

Marcel recomenda elaborar uma meta que faça valer a pena o trabalho. Ele diz conseguir os R$ 200 suficientes para obter um lucro diário satisfatório, trabalhando dois turnos e dispensando cerca de R$ 80 em gasolina. Alyson também diz ser possível obter lucro. Em média, em uma semana, ele já consegue pagar o aluguel mensal do carro, que é de R$ 1.650.

As outras semanas ficam para os demais gastos, os R$ 60 de combustível e R$ 12 para as refeições, por exemplo, que costuma despender por dia. Nos fins de semana, as cerca de 23 corridas que, em média, Alyson faz, rendem para ele pouco mais de R$ 400. Normalmente, o mesmo número de viagens vale R$ 250.

Já Ricarte Sampaio diz ser preciso seguir uma rígida rotina para valer a pena. Para ele, são quatro dias da semana para faturar o valor do aluguel e os demais para os outros gastos e o lucro. “Tem que rodar o dia inteiro”, diz ele, que trabalha das 6h às 18h.

João Hugo, por sua vez, diz ter percebido que Uber só compensa com carro próprio — e a gás natural. “Um dia de folga, e eu já ficava no prejuízo”. Por isso, resolveu comprar o seu Cobalt. Mesmo pagando uma mensalidade de cerca de R$ 550, ganha mais trabalhando menos. Garante ter um lucro que varia entre 30% e 40% do total de gastos.

Ele diz que um amigo ouviu de um funcionário de uma locadora que cerca de 80% dos motoristas que haviam alugado carros para Uber entregaram, pois não viram vantagem. O que mais pesava para os motoristas, segundo ele, era a quilometragem de 5.000 quilômetros mensais.

Nova lei pode dificultar

A alternativa, porém, pode acabar em breve. Projeto de lei aprovado pela Câmara dos Deputados no dia 4, além de atribuir aos municípios a regulamentação do serviço da Uber, prevê que os motoristas possuam certificado de registro do veículo em seu nome. O texto segue agora para votação no Senado.

Ricarte espera que a Uber consiga reverter a situação. “Muita gente deixaria de rodar, e as vagas que irão disponibilizar não dá para todo mundo”, lamenta. “As locadoras também deixariam de ganhar”. 

Alyson também não vê com bons olhos o projeto, mas está confiante de que o Senado não o aprovará. “Eles têm que entender que isso está no ajudando”, diz.

Além disso, o serviço via Uber pagaria os devidos impostos municipais referentes à atividade e os motoristas precisariam ainda contratar seguro por acidentes e serem inscritos como contribuintes individuais no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Discussão na Câmara Municipal

O projeto de lei que tramita em nível municipal para regulamentar o transporte individual privado prevê apenas que o carro usado no serviço seja cadastrado, independente de ser ou não próprio. Autor do projeto de lei ordinária (PLO) 31/2017, o vereador Guilherme Sampaio (PT) diz não ser “relevante” se o motorista aluga o veículo em que dirige.

“São detalhes. Qual a diferença ser alugado ou não? Nenhuma. O importante é ser cadastrado”, afirma. Conforme o projeto, o motorista passaria a disponibilizar, além do número do cadastro na Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza (Etufor), nome, foto, telefone, modelo e placa do veículo.

A atividade de intermediação também ficaria reconhecida como agenciamento de mão de obra, sujeito às devidas taxações previstas no Código Tributário do Município. Guilherme Sampaio espera que os debates sobre o projeto comecem em breve na Comissão Especial que aborda o tema na Câmara Municipal.