Cobertura de esgotamento no Ceará atinge somente 31%

ESPECIAL ELEIÇÕES 2018

Cobertura de esgotamento no Ceará atinge somente 31%

A terceira reportagem da série do Jornal Jangadeiro aborda como o esgotamento é insuficiente na periferia de Fortaleza e no interior. O especial aborda temas em que o Ceará precisa avançar nas eleições de 2018

Por TV Jangadeiro em Eleições 2018

14 de setembro de 2018 às 12:25

Há 2 meses
saneamento

O saneamento básico é um direito garantido pela Constituição. (FOTO: Reprodução/TV Jangadeiro)

Da janela da casa de Marluce, no Conjunto São Francisco, em Baturité, a vista não é agradável. Uma estação de tratamento que recebe o esgoto da comunidade foi construída ao lado da casa dela. “Tem dia que a gente só falta não aguentar o fedor aqui. Isso aqui estava entupido. Ele entope e fica uma verdadeira piscina e muita muriçoca”, reclamou a moradora.

Segundo o Anuário Estatístico do Ceará, em 2016, a taxa de cobertura de esgoto na área urbana de Baturité era de 3,9%. Na área rural, o percentual desse serviço era nenhum. De acordo com o Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece), o esgotamento sanitário na zona rural de todo o estado chegava a 0,5%.

Problema por todo o Ceará

Esse problema está longe de ser isolado. Segundo a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece), a cobertura de esgotamento sanitário em Fortaleza só atinge 62%. No interior, nos 151 dos 184 municípios do estado que são atendidos pela companhia, o percentual cai para de 41,7%. Em todo o Estado, conforme o Ipece em 2017, a taxa de cobertura era de 31,7%.

Na periferia de Fortaleza e no interior, a falta de esgotamento é comum. O serviço é um direito garantido pela Constituição, mas a oferta até hoje não contempla todas as regiões do Ceará. Parte da população enfrenta situações de convivência com mau cheiro e risco de doenças. Outra parte ainda utiliza fossas. Mas será que todo mundo tem consciência da importância do saneamento básico?

Para o presidente da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental no Ceará, Humberto Júnior, esse percentual de Fortaleza é positivo comparado a outras regiões do Nordeste, mas não é o ideal para o contexto local.

“Nós temos um sistema de água e esgoto de Fortaleza e eu diria que, dentro da região Nordeste, é a melhor capital do Brasil em termos de atendimento: 62%. Porém, a população cresce e infelizmente a população, como o percentual de miséria, também vem crescendo. E isso necessita de maior incremento de recursos para esse sistema. E no interior, esse percentual já cai bastante. Então, precisamos também aumentar o investimento de saneamento básico de água e esgoto”, analisa.

Política nem aí para esgoto

Investir em saneamento é caro. Mas existe uma estimativa que para cada real gasto no saneamento economiza-se cerca de R$ 12 a R$ 13 em saúde pública. Então, por que não os governos não investem mais em saneamento? “Saneamento não traz voto porque são obras enterradas”, disse Humberto.

Dentro da Região Metropolitana de Fortaleza o serviço é desigual. A taxa de esgotamento sanitário na cidade de Itaitinga não chega a 2%. Conforme relato de moradores, apenas um bairro possui rede de esgoto em funcionamento.

“Aqui, em Itaitinga, só foi feita a parte da estrutura, da encanação. Mas até hoje ainda está para funcionar. Aqui, por enquanto, é da forma tradicional: cada casa tem a chamada antiga fossa”, disse José Filho, educador físico. 

Soluções individuais

“O esgotamento rural no Ceará é feito basicamente, quando é feito, por soluções individuais. Nossa sociedade é uma sociedade pobre e nós não temos recursos para investir em tudo. Então onde se investe primeiro? Fundamentalmente na água, que é o canal mais rápido de adoecimento ou de contaminação das pessoas. Então, normalmente quando esse tratamento é feito, é feito através de soluções individuais e de fossas que muitas vezes não entram na estatística do saneamento rural”, disse José Capelo Neto, professor universitário do Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da UFC.

A água é outro motivo de reclamação dos moradores de Baturité. “Toda a população bebe da água do balneário porque não tem água melhor aqui em Baturité. Ela chega suja da cor de lama, a que vem da Cagece. Uma água dessas pode fazer mal a saúde, né?”, reclamou o morador Francisco de Assis Soares.

Saúde pública, meio ambiente… Todos podem ser prejudicados pela falta de saneamento básico adequado.
“Os prejuízos são enormes para uma sociedade e são muito difíceis das pessoas perceberem. A falta de saneamento corrobora com a pobreza. Ela é um ciclo vicioso. Então a gente não consegue ter um saneamento porque é pobre. E é pobre porque não tem saneamento. Então é um ciclo vicioso que um dia vai ter que quebrar para ser um país desenvolvido”, concluiu José Capelo.

Veja as reportagens da série Eleições 2018:

13/9/2018 – Ceará precisa de 258 leitos de UTIs neonatais a mais para atender demanda de todo o estado

12/9/2018 – Ceará possui cobertura de somente 15% dos municípios para exames de mamografia

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ESPECIAL ELEIÇÕES 2018

Cobertura de esgotamento no Ceará atinge somente 31%

A terceira reportagem da série do Jornal Jangadeiro aborda como o esgotamento é insuficiente na periferia de Fortaleza e no interior. O especial aborda temas em que o Ceará precisa avançar nas eleições de 2018

Por TV Jangadeiro em Eleições 2018

14 de setembro de 2018 às 12:25

Há 2 meses
saneamento

O saneamento básico é um direito garantido pela Constituição. (FOTO: Reprodução/TV Jangadeiro)

Da janela da casa de Marluce, no Conjunto São Francisco, em Baturité, a vista não é agradável. Uma estação de tratamento que recebe o esgoto da comunidade foi construída ao lado da casa dela. “Tem dia que a gente só falta não aguentar o fedor aqui. Isso aqui estava entupido. Ele entope e fica uma verdadeira piscina e muita muriçoca”, reclamou a moradora.

Segundo o Anuário Estatístico do Ceará, em 2016, a taxa de cobertura de esgoto na área urbana de Baturité era de 3,9%. Na área rural, o percentual desse serviço era nenhum. De acordo com o Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece), o esgotamento sanitário na zona rural de todo o estado chegava a 0,5%.

Problema por todo o Ceará

Esse problema está longe de ser isolado. Segundo a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece), a cobertura de esgotamento sanitário em Fortaleza só atinge 62%. No interior, nos 151 dos 184 municípios do estado que são atendidos pela companhia, o percentual cai para de 41,7%. Em todo o Estado, conforme o Ipece em 2017, a taxa de cobertura era de 31,7%.

Na periferia de Fortaleza e no interior, a falta de esgotamento é comum. O serviço é um direito garantido pela Constituição, mas a oferta até hoje não contempla todas as regiões do Ceará. Parte da população enfrenta situações de convivência com mau cheiro e risco de doenças. Outra parte ainda utiliza fossas. Mas será que todo mundo tem consciência da importância do saneamento básico?

Para o presidente da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental no Ceará, Humberto Júnior, esse percentual de Fortaleza é positivo comparado a outras regiões do Nordeste, mas não é o ideal para o contexto local.

“Nós temos um sistema de água e esgoto de Fortaleza e eu diria que, dentro da região Nordeste, é a melhor capital do Brasil em termos de atendimento: 62%. Porém, a população cresce e infelizmente a população, como o percentual de miséria, também vem crescendo. E isso necessita de maior incremento de recursos para esse sistema. E no interior, esse percentual já cai bastante. Então, precisamos também aumentar o investimento de saneamento básico de água e esgoto”, analisa.

Política nem aí para esgoto

Investir em saneamento é caro. Mas existe uma estimativa que para cada real gasto no saneamento economiza-se cerca de R$ 12 a R$ 13 em saúde pública. Então, por que não os governos não investem mais em saneamento? “Saneamento não traz voto porque são obras enterradas”, disse Humberto.

Dentro da Região Metropolitana de Fortaleza o serviço é desigual. A taxa de esgotamento sanitário na cidade de Itaitinga não chega a 2%. Conforme relato de moradores, apenas um bairro possui rede de esgoto em funcionamento.

“Aqui, em Itaitinga, só foi feita a parte da estrutura, da encanação. Mas até hoje ainda está para funcionar. Aqui, por enquanto, é da forma tradicional: cada casa tem a chamada antiga fossa”, disse José Filho, educador físico. 

Soluções individuais

“O esgotamento rural no Ceará é feito basicamente, quando é feito, por soluções individuais. Nossa sociedade é uma sociedade pobre e nós não temos recursos para investir em tudo. Então onde se investe primeiro? Fundamentalmente na água, que é o canal mais rápido de adoecimento ou de contaminação das pessoas. Então, normalmente quando esse tratamento é feito, é feito através de soluções individuais e de fossas que muitas vezes não entram na estatística do saneamento rural”, disse José Capelo Neto, professor universitário do Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da UFC.

A água é outro motivo de reclamação dos moradores de Baturité. “Toda a população bebe da água do balneário porque não tem água melhor aqui em Baturité. Ela chega suja da cor de lama, a que vem da Cagece. Uma água dessas pode fazer mal a saúde, né?”, reclamou o morador Francisco de Assis Soares.

Saúde pública, meio ambiente… Todos podem ser prejudicados pela falta de saneamento básico adequado.
“Os prejuízos são enormes para uma sociedade e são muito difíceis das pessoas perceberem. A falta de saneamento corrobora com a pobreza. Ela é um ciclo vicioso. Então a gente não consegue ter um saneamento porque é pobre. E é pobre porque não tem saneamento. Então é um ciclo vicioso que um dia vai ter que quebrar para ser um país desenvolvido”, concluiu José Capelo.

Veja as reportagens da série Eleições 2018:

13/9/2018 – Ceará precisa de 258 leitos de UTIs neonatais a mais para atender demanda de todo o estado

12/9/2018 – Ceará possui cobertura de somente 15% dos municípios para exames de mamografia