Projeto reúne voluntárias para cuidar de filhos candidatas que farão o Enem

MÃES NO ENEM

Projeto reúne voluntárias para cuidar de filhos de candidatas que farão prova do Enem

A rede une mães de todas as regiões do país. No Ceará, há apenas uma voluntária

Por Rosana Romão em Educação

4 de novembro de 2016 às 06:50

Há 2 anos
Até o momento, existem 235 voluntárias e 20 mães cadastradas no programa em todo o Brasil (FOTO: Arquivo pessoal)

Até o momento, existem 235 voluntárias e 20 mães cadastradas no programa em todo o Brasil (FOTO: Arquivo pessoal)

Dois dias de prova, com pelo menos 4 horas de duração cada. Pode parecer pouco tempo, mas para quem é mãe é uma eternidade longe do filho. Se não tiver com quem deixá-lo, é praticamente inviável fazer a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Para auxiliar às mães estudantes, foi criada a rede colaborativa Mães No Enem. A iniciativa já possui 235 voluntárias para cuidar dos filhos das jovens que irão realizar o Enem 2016.

O projeto surgiu após a jornalista Fernanda Vicente, inspirada em uma corrente lançada nas redes sociais, se disponibilizar para cuidar do filho de alguma mãe que pretendia fazer o Enem. Mãe e feminista, ela viu a adesão e o interesse de outras mulheres de várias regiões do Brasil em ajudar, e assim nasceu o Mães no Enem.

Para organizar melhor, criou uma fanpage e uma lista de voluntárias divididas por estados e cidades. O projeto também conta com a assistência jurídica da advogada Ana Calorina Moreira Bavon, fundadora da Feminaria, uma rede colaborativista exclusivamente feminina. Até o momento, existem 235 voluntárias e 20 mães cadastradas no programa.

No Ceará, há apenas uma voluntária, a estudante de ciências sociais Izabel Aciolly. Aos 17 anos, ela engravidou no 3º ano e não conseguiu fazer o Enem. O sonho de cursar uma faculdade teve de ser adiado por 8 anos, pois trabalhava para sustentar o filho. “Me lembro que foi difícil para mim nessa época. De dia conseguia trabalhar porque colocava meu filho na creche, mas à noite não tinha ninguém, não tinha como estudar”, relembra.

Muito rigorosa com os estudos do filho, foi uma frase dita por ele que a impulsionou a voltar aos estudos. “Poxa, mãe, eu estudo tanto. Você me cobra muito, mas nem estuda”, disse o pequeno Vinícius, na época com 8 anos de idade. Foi quando Fernanda percebeu que ele já tinha maturidade o suficiente para ficar com outra pessoa enquanto ela fosse estudar.

Ela passou então a morar perto da mãe e estudar em um cursinho comunitário, onde as aulas eram nos finais de semana. Na primeira tentativa, foi aprovada no Enem, para o curso de Ciências Sociais, da UFC, onde também é bolsista no Laboratório dos Estudos da Violência (LEV). “Eu não tinha nem noção da minha capacidade, porque eu sequer tinha tentado”, comenta.

Com formatura marcada para 2017, ela não lamenta o tempo que ficou sem estudar. “O Vinícius não acabou com meus planos, ele adiou”, destaca. O que mais lamenta é o afastamento dos amigos, na época em que mais precisou de apoio, uma vez que o pai da criança se divorciou logo no início da gravidez. “Perdi muitos amigos, eles estavam em outros momentos. Eu vivi a solidão”, acrescenta.

Há um ano o pai da criança adquiriu guarda compartilhada, assim Vinícius fica uma semana com a mãe e outra com o pai. Quando Izabel não tem com quem deixar o filho, o leva para as aulas na faculdade. “Ele gosta. Tem 10 anos e já assiste às aulas de antropologia, de política, ele tem futuro”, afirma.

Apesar da boa ação de Izabel, em se disponibilizar para cuidar dos filhos das inscritas no Enem, a única mãe que a procurou reside em Redenção, interior do Ceará. Devido à distância e à duração da prova, não será possível que Izabel a ajude, por isso ela ainda espera por mães de Fortaleza que se cadastrem no Mães no Enem para ajudar alguma delas.

Para participar, a mãe deve preencher uma ficha de cadastro, enviar cópia do RG, CPF e comprovante de residência. As informações ficam em sigilo e o nome da voluntária é inserido juntamente com a cidade em que mora, em um documento colaborativo. As mães então devem fazer contato com as voluntárias, para combinar como será o esquema no dia da prova e onde as crianças irão ficar.

O Mães no Enem conta com assistência jurídica para resguardar ambas as partes, além de voluntárias que oferecem atendimento psicológico para o Enem, e aulas online de redação, matemática e biologia. Todos os serviços são gratuitos e o contato deve ser feito via facebook ou pelo email: maesnoenem@gmail.com.

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MÃES NO ENEM

Projeto reúne voluntárias para cuidar de filhos de candidatas que farão prova do Enem

A rede une mães de todas as regiões do país. No Ceará, há apenas uma voluntária

Por Rosana Romão em Educação

4 de novembro de 2016 às 06:50

Há 2 anos
Até o momento, existem 235 voluntárias e 20 mães cadastradas no programa em todo o Brasil (FOTO: Arquivo pessoal)

Até o momento, existem 235 voluntárias e 20 mães cadastradas no programa em todo o Brasil (FOTO: Arquivo pessoal)

Dois dias de prova, com pelo menos 4 horas de duração cada. Pode parecer pouco tempo, mas para quem é mãe é uma eternidade longe do filho. Se não tiver com quem deixá-lo, é praticamente inviável fazer a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Para auxiliar às mães estudantes, foi criada a rede colaborativa Mães No Enem. A iniciativa já possui 235 voluntárias para cuidar dos filhos das jovens que irão realizar o Enem 2016.

O projeto surgiu após a jornalista Fernanda Vicente, inspirada em uma corrente lançada nas redes sociais, se disponibilizar para cuidar do filho de alguma mãe que pretendia fazer o Enem. Mãe e feminista, ela viu a adesão e o interesse de outras mulheres de várias regiões do Brasil em ajudar, e assim nasceu o Mães no Enem.

Para organizar melhor, criou uma fanpage e uma lista de voluntárias divididas por estados e cidades. O projeto também conta com a assistência jurídica da advogada Ana Calorina Moreira Bavon, fundadora da Feminaria, uma rede colaborativista exclusivamente feminina. Até o momento, existem 235 voluntárias e 20 mães cadastradas no programa.

No Ceará, há apenas uma voluntária, a estudante de ciências sociais Izabel Aciolly. Aos 17 anos, ela engravidou no 3º ano e não conseguiu fazer o Enem. O sonho de cursar uma faculdade teve de ser adiado por 8 anos, pois trabalhava para sustentar o filho. “Me lembro que foi difícil para mim nessa época. De dia conseguia trabalhar porque colocava meu filho na creche, mas à noite não tinha ninguém, não tinha como estudar”, relembra.

Muito rigorosa com os estudos do filho, foi uma frase dita por ele que a impulsionou a voltar aos estudos. “Poxa, mãe, eu estudo tanto. Você me cobra muito, mas nem estuda”, disse o pequeno Vinícius, na época com 8 anos de idade. Foi quando Fernanda percebeu que ele já tinha maturidade o suficiente para ficar com outra pessoa enquanto ela fosse estudar.

Ela passou então a morar perto da mãe e estudar em um cursinho comunitário, onde as aulas eram nos finais de semana. Na primeira tentativa, foi aprovada no Enem, para o curso de Ciências Sociais, da UFC, onde também é bolsista no Laboratório dos Estudos da Violência (LEV). “Eu não tinha nem noção da minha capacidade, porque eu sequer tinha tentado”, comenta.

Com formatura marcada para 2017, ela não lamenta o tempo que ficou sem estudar. “O Vinícius não acabou com meus planos, ele adiou”, destaca. O que mais lamenta é o afastamento dos amigos, na época em que mais precisou de apoio, uma vez que o pai da criança se divorciou logo no início da gravidez. “Perdi muitos amigos, eles estavam em outros momentos. Eu vivi a solidão”, acrescenta.

Há um ano o pai da criança adquiriu guarda compartilhada, assim Vinícius fica uma semana com a mãe e outra com o pai. Quando Izabel não tem com quem deixar o filho, o leva para as aulas na faculdade. “Ele gosta. Tem 10 anos e já assiste às aulas de antropologia, de política, ele tem futuro”, afirma.

Apesar da boa ação de Izabel, em se disponibilizar para cuidar dos filhos das inscritas no Enem, a única mãe que a procurou reside em Redenção, interior do Ceará. Devido à distância e à duração da prova, não será possível que Izabel a ajude, por isso ela ainda espera por mães de Fortaleza que se cadastrem no Mães no Enem para ajudar alguma delas.

Para participar, a mãe deve preencher uma ficha de cadastro, enviar cópia do RG, CPF e comprovante de residência. As informações ficam em sigilo e o nome da voluntária é inserido juntamente com a cidade em que mora, em um documento colaborativo. As mães então devem fazer contato com as voluntárias, para combinar como será o esquema no dia da prova e onde as crianças irão ficar.

O Mães no Enem conta com assistência jurídica para resguardar ambas as partes, além de voluntárias que oferecem atendimento psicológico para o Enem, e aulas online de redação, matemática e biologia. Todos os serviços são gratuitos e o contato deve ser feito via facebook ou pelo email: maesnoenem@gmail.com.