Cearense pesquisa interações homoeróticas entre frequentadores de cinema pornô em Fortaleza

"UM LUGAR DE ENCRUZILHADA"

Cearense pesquisa interações homoeróticas entre frequentadores de cinema pornô em Fortaleza

O livro “Cinemão – um lugar de encruzilhada” traz uma análise sobre as interações homoeróticas entre os frequentadores do Cine Arena. A pesquisa é resultado do trabalho de mestrado do doutorando Mário Fellipe. É possível adquirir a versão on-line.

Por Crisneive Silveira em Educação

30 de setembro de 2018 às 07:15

Há 3 semanas
cinemão, livro

O livro “Cinemão – um lugar de encruzilhada” analisa as interações homoeróticas em cine pornô de Fortaleza. (FOTO: Reprodução)

No “Cinemão – um lugar de encruzilhada” uma análise sobre as interações homoeróticas entre os frequentadores do Cine Arena, cinema pornô no Centro de Fortaleza. As 180 páginas do livro são resultado da pesquisa de mestrado de Mário Fellipe, na Universidade Federal do Ceará (UFC). É possível adquirir a obra no site das Novas Edições Acadêmicas. A versão impressa deve ser lançada ainda no segundo semestre de 2018.

A ideia: buscar entender como as interações entre homens aconteciam, que meios usavam, que características tinham, os significados de cada símbolo. A pesquisa foi feita no Cine Arena, no Centro da cidade.

Mário diz que sabia da existência do espaço, mas não tinha ideia do que lá acontecia. O gatilho foi a dissertação do professor Alexandre Fleming, que tratava sobre o extinto Cine Jangada.

“Queria continuar na linha de estudos de gêneros e sexualidade e, atualmente, do desejo, de como esse desejo é mobilizado. Quando cheguei ao cinema, percebi que havia uma pluralidade de sujeitos que frequentavam esses espaços – desde a idade, a suposição de classe, a performance de gênero, apesar de predominar no cinema homens mais discretos, que tinham na discrição algo mais importante e de sexualidade. O que me levou a esse tema foi a curiosidade de entender essas interações”, disse o pesquisador, mestre e doutorando no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFC.

O processo de pesquisa durou dois anos. Mário buscou ganhar a confiança de alguns frequentadores para saber mais da vida deles. Segundo ele, o público é majoritariamente branco e jovem. Estudantes universitários, funcionários de repartições de banco, alguns pareciam pessoas de rua, mas todos tendo a discrição como algo comum.

“Como eu ficava muito tempo no cinema, então fui tentando ganhar a confiança dessas pessoas. A maioria se aproximava de mim, algumas me aproximei, e depois de conversar algumas que sentia abertura, eu falava da pesquisa. Tentava explicar que a minha pesquisa não era jornalística, mas acadêmica. Que meu interesse não era identificar as pessoas, mas entender as práticas”, conta.

“Cartografando em zona de encruzilhada” é o nome da pesquisa que virou livro. Mário explica que ao chegar ao lugar percebeu a complexidade e pluralidade de sensações para ele próprio, característica que marcou todo o trabalho. No cinema, por exemplo, a comunicação verbal falada não é autorizada.

“Eles se comunicavam com códigos gestuais, como ficar parado em certo lugar do cinema, coçar o saco ou um olhar mais forte eram uma forma de comunicação. Medo, tensão, nojo, tesão, essas sensações ambivalentes relatadas pelos frequentadores faziam com que as pessoas interagissem, bem como os próprios sentidos sensórios, como o tato… pegar para saber o tamanho do pênis, por exemplo, no dark room, para fazer a identificação de quem está entrando…”, explicou.

Mário conta que o cinema funciona numa antiga casa do Centro, tem uma recepção onde há uma roleta e poucos funcionários. Além disso, é um negócio bastante lucrativo, considerando os investimentos precários. Os proprietários raramente são vistos. O pesquisador relata que o local é espaço rico para estudo de gênero e sexualidade.

“Você tem ali, no centro da cidade, toda uma cartografia erótica, e tudo isso é extremamente instigante para um pesquisador de gênero e sexualidade. O nosso intuito, como sociólogo e pesquisador, é tentar entender os sentidos e os significados que medeiam essas experiências, que as tornam possíveis. São lugares resinificados por essas pessoas, que são usados por elas, fazem parte de uma cartografia erótica da cidade e não podem ser negados porque existe uma quantidade imensa de pessoas que praticam e tem um mercado por trás que se apropria do modo como esse desejo é performatizado para lucrar em cima disso, a gente não pode negar isso”, concluiu o mestre.

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"UM LUGAR DE ENCRUZILHADA"

Cearense pesquisa interações homoeróticas entre frequentadores de cinema pornô em Fortaleza

O livro “Cinemão – um lugar de encruzilhada” traz uma análise sobre as interações homoeróticas entre os frequentadores do Cine Arena. A pesquisa é resultado do trabalho de mestrado do doutorando Mário Fellipe. É possível adquirir a versão on-line.

Por Crisneive Silveira em Educação

30 de setembro de 2018 às 07:15

Há 3 semanas
cinemão, livro

O livro “Cinemão – um lugar de encruzilhada” analisa as interações homoeróticas em cine pornô de Fortaleza. (FOTO: Reprodução)

No “Cinemão – um lugar de encruzilhada” uma análise sobre as interações homoeróticas entre os frequentadores do Cine Arena, cinema pornô no Centro de Fortaleza. As 180 páginas do livro são resultado da pesquisa de mestrado de Mário Fellipe, na Universidade Federal do Ceará (UFC). É possível adquirir a obra no site das Novas Edições Acadêmicas. A versão impressa deve ser lançada ainda no segundo semestre de 2018.

A ideia: buscar entender como as interações entre homens aconteciam, que meios usavam, que características tinham, os significados de cada símbolo. A pesquisa foi feita no Cine Arena, no Centro da cidade.

Mário diz que sabia da existência do espaço, mas não tinha ideia do que lá acontecia. O gatilho foi a dissertação do professor Alexandre Fleming, que tratava sobre o extinto Cine Jangada.

“Queria continuar na linha de estudos de gêneros e sexualidade e, atualmente, do desejo, de como esse desejo é mobilizado. Quando cheguei ao cinema, percebi que havia uma pluralidade de sujeitos que frequentavam esses espaços – desde a idade, a suposição de classe, a performance de gênero, apesar de predominar no cinema homens mais discretos, que tinham na discrição algo mais importante e de sexualidade. O que me levou a esse tema foi a curiosidade de entender essas interações”, disse o pesquisador, mestre e doutorando no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFC.

O processo de pesquisa durou dois anos. Mário buscou ganhar a confiança de alguns frequentadores para saber mais da vida deles. Segundo ele, o público é majoritariamente branco e jovem. Estudantes universitários, funcionários de repartições de banco, alguns pareciam pessoas de rua, mas todos tendo a discrição como algo comum.

“Como eu ficava muito tempo no cinema, então fui tentando ganhar a confiança dessas pessoas. A maioria se aproximava de mim, algumas me aproximei, e depois de conversar algumas que sentia abertura, eu falava da pesquisa. Tentava explicar que a minha pesquisa não era jornalística, mas acadêmica. Que meu interesse não era identificar as pessoas, mas entender as práticas”, conta.

“Cartografando em zona de encruzilhada” é o nome da pesquisa que virou livro. Mário explica que ao chegar ao lugar percebeu a complexidade e pluralidade de sensações para ele próprio, característica que marcou todo o trabalho. No cinema, por exemplo, a comunicação verbal falada não é autorizada.

“Eles se comunicavam com códigos gestuais, como ficar parado em certo lugar do cinema, coçar o saco ou um olhar mais forte eram uma forma de comunicação. Medo, tensão, nojo, tesão, essas sensações ambivalentes relatadas pelos frequentadores faziam com que as pessoas interagissem, bem como os próprios sentidos sensórios, como o tato… pegar para saber o tamanho do pênis, por exemplo, no dark room, para fazer a identificação de quem está entrando…”, explicou.

Mário conta que o cinema funciona numa antiga casa do Centro, tem uma recepção onde há uma roleta e poucos funcionários. Além disso, é um negócio bastante lucrativo, considerando os investimentos precários. Os proprietários raramente são vistos. O pesquisador relata que o local é espaço rico para estudo de gênero e sexualidade.

“Você tem ali, no centro da cidade, toda uma cartografia erótica, e tudo isso é extremamente instigante para um pesquisador de gênero e sexualidade. O nosso intuito, como sociólogo e pesquisador, é tentar entender os sentidos e os significados que medeiam essas experiências, que as tornam possíveis. São lugares resinificados por essas pessoas, que são usados por elas, fazem parte de uma cartografia erótica da cidade e não podem ser negados porque existe uma quantidade imensa de pessoas que praticam e tem um mercado por trás que se apropria do modo como esse desejo é performatizado para lucrar em cima disso, a gente não pode negar isso”, concluiu o mestre.