Uma análise comparativa entre Quincas Borba e o caso Yngrid Rosa/Topázzyo White

SÁTIRA

Uma análise comparativa entre Quincas Borba e o caso Yngrid Rosa/Topázzyo White

Pedro Menezes, doutorando em Sociologia, faz um traçado entre a treta cearense que ganhou o Brasil e o livro imortal da literatura brasileira

Por Tribuna do Ceará em Cotidiano

10 de Janeiro de 2018 às 09:23

Há 3 meses
As duas histórias têm mais semelhanças do que você imagina (FOTO: Reprodução)

As duas histórias, a real e a inventada, têm mais semelhanças do que você imagina (FOTO: Reprodução)

Por Pedro Menezes

Sugestão de tese de doutorado – “Ao vencedor, as batatas”

Esta tese objetiva traçar um paralelo entre “Quincas Borba”, obra de Machado de Assis publicada em folhetim entre 1886 e 1891 e definitivamente lançada em livro em 1892, e a peia que rolou entre Yngrid Rosa e Topázzyo White no Porpino na virada de 2017 para 2018 AD. Nosso intento em dispor os dois textos lado a lado é cruzar os conceitos de “mimesis” e “poiesis”, mostrando que a cisão que os separa é falsa e arbitrária uma vez a arte, cansada de secundar a vida, por vezes a ela se antecipa, transformando-a assim em seu duplo.

O livro narra a história de Rubião, ingênuo rapaz que fica rico da noite para o dia ao herdar a fortuna do seu mestre Quincas Borba, filósofo fundador do humanistismo, doutrina fictícia escudada no positivismo comtiano e no darwinismo social que pregava a luta do homem contra o homem e a sobrevivência do mais forte. Para ilustrar sua teoria, Borba conta a parábola de duas tribos que guerreavam entre si com objetivo de controlar uma escassa plantação de batatas que não poderia ser compartilhada por ambas pois só conseguiria alimentar uma delas.

Como se pode ver, a chave do humanitismo não está na paz e na comunhão, tidas por seu criador como um enorme retrocesso, mas no conflito e no extermínio do mais primitivo pelo mais desenvolvido, forças que a teoria entroniza como os verdadeiros catalizadores do progresso. Rico e simplório, Rubião morre pobre e louco depois de ser enganado por Sofia e Cristiano, casal de golpistas que se aproxima do rapaz com o objetivo de roubar sua fortuna

Mais de um século depois do lançamento de “Quincas Borba”, o enredo do livro é revivido no duelo travado entre Yngrid Rosa e Topazzyo White no Porpino, amburgueria gourmet de Fortaleza que lembra em muito a Barbacena do fin de sciecle XIX onde o romance é ambientado. A simetria entre a obra machadiana e o cacete darmenina é brutal.

Além da publicação fragmentada (Quincas Borba em folhetim, a briga via áudios de Whatsapp), os dois textos giram em torno dos mesmos temas centrais: uma visão crítica da sociedade e de seus costumes, pessimismo, conflito entre classes sociais, relação inversa entre dinheiro e caráter, objetivação do ser humano, batata, rapariga etc. Assim como as tribos da parábola de Borba, Yngrid e Topázzyo disputam uma quantidade limitada de batata que só é suficiente para uma delas, não podendo portanto ser repartida entre as duas.

Nessa atualização do mito machadiano, Yngrid é Rubião: jovem abestada que experimenta uma vertiginosa e repentina ascensão social ao herdar uma bolsa Gucci que vale o equivalente à vida de cinco raparigas. Citando o áudio da personagem: “aí do nada chegam cinco raparigas e sentam na mesa, do nada, do nada do nada, e começam a comer nossa comida, e aí eu já fiquei logo puta, ó (…). Aí eu peguei e disse: ei, cala a boca aí vocês tudinha suas bandilisa, que essa bolsa aqui paga a vida de vocês tudo” (Yngrid, 2018).

Em paralelo, Topázzyo White e suas irmãs Saphira e Esmeralda, batizadas com nomes de fitas de Pokemon pra Game Boy, fazem as vezes de Sofia e Cristiano: lascadas gananciosas atraídas pela obtusidade e pela fortuna da nossa Yngrid Borba com o único intuito de comer suas batata.

A luta campal das duas meninas posicionadas em pontos extremos da pirâmide social alencarina em torno da merda dessas batata vea paia remete ao quadro “Os Comedores de Batata”, pintado por Van Gogh apenas sete anos antes da publicação de “Quincas Borba”. Na pintura vemos uma família camponesa comendo batatas num lugar escuro e fudido tipo o Porpino mesmo, estabelecimento que para adiar sua falência investiu em um formato que é sucesso na noite fortalezense: é quente, caro, ruim e servido por ex-vendedores da Chilli Beans que acham que são nossos amigos. Fila dobrando quarteirão certeza.

À maneira de Rubião em “Quincas Borba”, Yngrid ocupa uma posição ambígua na batalha do Porpino: por um lado está armada com a já citada Gucci cujo valor excede a vida de Topázzyo e sua claque esfomeada, mas por outro enfrenta suas rivais com uma mão só; não por soberba, como Peter Pan contra o Capitão Gancho, mas por necessidade, como Beckenbauer na semifinal da copa de 1970, já que com a outra mão precisa esconder os seios que ficaram a mostra pelo rasgo que Topázzyo abriu na sua blusa.

Mais uma vez citando: “No que a menina voou no cabelo da Milena, ôta veio e falou seique pra mim, que eu num lembro o que foi direito. Aí nessa eu joguei meu copo de limonada na cara dela e me levantei e fui pra cima da ôta que tava com a Milena. No que eu fui pra cima da ôta eu puxei os cabelo da ôta e baixei porque meu cropped rasgou, [*marejando a voz*] ele era em V e rasgou, aí eu me baixei por causa dos meus peito, entendeu? Pra ninguém ver (…) aí eu fiquei baixada assim, pra baixo, segurando meus peito, com uma mão no peito e a oura no cabelo da menina.” (Yngrid, 2018)

Aqui chegamos ao momento de maior tensão dessa baixaria vexatória. Yngrid se vê em uma encruzilhada dramática: ou mata Topazzyo com a mão esquerda ou esconde seus seios com a mão direita. Aqui, as mãos de Yngrid encarnam a metáfora da dualidade da alma que caracteriza as personagens machadianas: na mão esquerda, o mal, a vingança e a morte; na mão direita, o bem, a virtude e a vida. Yngrid vê sua vida passar diante de seus olhos, questiona a relevância dos bens materiais que sempre valorizou e que agora nada podem fazer para salvá-la, lembra da bolsa, lembra da batata, lembra da infância humilde mas feliz na Messejana sem bolsa e sem batata, lembra que não terminou de pagar as prestação da bolsa e nem sabe se o cartão pra pagar a batata vai passar, lembra, lembra, lembra, lembra de tudo até que, perdida em seu caleidoscópio de memórias, se dá por vencida e, com uma mão cobrindo os seios e a outra estrangulando um chumaço de megahair que arrancou da rapariga, cai agonizante no chão do Porpino repetindo as últimas palavras de Rubião: “ao vencedor, as batatas”.

E morreu.

Acompanhe o caso:

9/1/2018 – Empresas aproveitam confusão em hamburgueria para alavancar vendas em Fortaleza

9/1/2018 – Quem chega a uma mesa pode comer a comida dos outros? Consultor de etiqueta orienta

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Uma análise comparativa entre Quincas Borba e o caso Yngrid Rosa/Topázzyo White

Pedro Menezes, doutorando em Sociologia, faz um traçado entre a treta cearense que ganhou o Brasil e o livro imortal da literatura brasileira

Por Tribuna do Ceará em Cotidiano

10 de Janeiro de 2018 às 09:23

Há 3 meses
As duas histórias têm mais semelhanças do que você imagina (FOTO: Reprodução)

As duas histórias, a real e a inventada, têm mais semelhanças do que você imagina (FOTO: Reprodução)

Por Pedro Menezes

Sugestão de tese de doutorado – “Ao vencedor, as batatas”

Esta tese objetiva traçar um paralelo entre “Quincas Borba”, obra de Machado de Assis publicada em folhetim entre 1886 e 1891 e definitivamente lançada em livro em 1892, e a peia que rolou entre Yngrid Rosa e Topázzyo White no Porpino na virada de 2017 para 2018 AD. Nosso intento em dispor os dois textos lado a lado é cruzar os conceitos de “mimesis” e “poiesis”, mostrando que a cisão que os separa é falsa e arbitrária uma vez a arte, cansada de secundar a vida, por vezes a ela se antecipa, transformando-a assim em seu duplo.

O livro narra a história de Rubião, ingênuo rapaz que fica rico da noite para o dia ao herdar a fortuna do seu mestre Quincas Borba, filósofo fundador do humanistismo, doutrina fictícia escudada no positivismo comtiano e no darwinismo social que pregava a luta do homem contra o homem e a sobrevivência do mais forte. Para ilustrar sua teoria, Borba conta a parábola de duas tribos que guerreavam entre si com objetivo de controlar uma escassa plantação de batatas que não poderia ser compartilhada por ambas pois só conseguiria alimentar uma delas.

Como se pode ver, a chave do humanitismo não está na paz e na comunhão, tidas por seu criador como um enorme retrocesso, mas no conflito e no extermínio do mais primitivo pelo mais desenvolvido, forças que a teoria entroniza como os verdadeiros catalizadores do progresso. Rico e simplório, Rubião morre pobre e louco depois de ser enganado por Sofia e Cristiano, casal de golpistas que se aproxima do rapaz com o objetivo de roubar sua fortuna

Mais de um século depois do lançamento de “Quincas Borba”, o enredo do livro é revivido no duelo travado entre Yngrid Rosa e Topazzyo White no Porpino, amburgueria gourmet de Fortaleza que lembra em muito a Barbacena do fin de sciecle XIX onde o romance é ambientado. A simetria entre a obra machadiana e o cacete darmenina é brutal.

Além da publicação fragmentada (Quincas Borba em folhetim, a briga via áudios de Whatsapp), os dois textos giram em torno dos mesmos temas centrais: uma visão crítica da sociedade e de seus costumes, pessimismo, conflito entre classes sociais, relação inversa entre dinheiro e caráter, objetivação do ser humano, batata, rapariga etc. Assim como as tribos da parábola de Borba, Yngrid e Topázzyo disputam uma quantidade limitada de batata que só é suficiente para uma delas, não podendo portanto ser repartida entre as duas.

Nessa atualização do mito machadiano, Yngrid é Rubião: jovem abestada que experimenta uma vertiginosa e repentina ascensão social ao herdar uma bolsa Gucci que vale o equivalente à vida de cinco raparigas. Citando o áudio da personagem: “aí do nada chegam cinco raparigas e sentam na mesa, do nada, do nada do nada, e começam a comer nossa comida, e aí eu já fiquei logo puta, ó (…). Aí eu peguei e disse: ei, cala a boca aí vocês tudinha suas bandilisa, que essa bolsa aqui paga a vida de vocês tudo” (Yngrid, 2018).

Em paralelo, Topázzyo White e suas irmãs Saphira e Esmeralda, batizadas com nomes de fitas de Pokemon pra Game Boy, fazem as vezes de Sofia e Cristiano: lascadas gananciosas atraídas pela obtusidade e pela fortuna da nossa Yngrid Borba com o único intuito de comer suas batata.

A luta campal das duas meninas posicionadas em pontos extremos da pirâmide social alencarina em torno da merda dessas batata vea paia remete ao quadro “Os Comedores de Batata”, pintado por Van Gogh apenas sete anos antes da publicação de “Quincas Borba”. Na pintura vemos uma família camponesa comendo batatas num lugar escuro e fudido tipo o Porpino mesmo, estabelecimento que para adiar sua falência investiu em um formato que é sucesso na noite fortalezense: é quente, caro, ruim e servido por ex-vendedores da Chilli Beans que acham que são nossos amigos. Fila dobrando quarteirão certeza.

À maneira de Rubião em “Quincas Borba”, Yngrid ocupa uma posição ambígua na batalha do Porpino: por um lado está armada com a já citada Gucci cujo valor excede a vida de Topázzyo e sua claque esfomeada, mas por outro enfrenta suas rivais com uma mão só; não por soberba, como Peter Pan contra o Capitão Gancho, mas por necessidade, como Beckenbauer na semifinal da copa de 1970, já que com a outra mão precisa esconder os seios que ficaram a mostra pelo rasgo que Topázzyo abriu na sua blusa.

Mais uma vez citando: “No que a menina voou no cabelo da Milena, ôta veio e falou seique pra mim, que eu num lembro o que foi direito. Aí nessa eu joguei meu copo de limonada na cara dela e me levantei e fui pra cima da ôta que tava com a Milena. No que eu fui pra cima da ôta eu puxei os cabelo da ôta e baixei porque meu cropped rasgou, [*marejando a voz*] ele era em V e rasgou, aí eu me baixei por causa dos meus peito, entendeu? Pra ninguém ver (…) aí eu fiquei baixada assim, pra baixo, segurando meus peito, com uma mão no peito e a oura no cabelo da menina.” (Yngrid, 2018)

Aqui chegamos ao momento de maior tensão dessa baixaria vexatória. Yngrid se vê em uma encruzilhada dramática: ou mata Topazzyo com a mão esquerda ou esconde seus seios com a mão direita. Aqui, as mãos de Yngrid encarnam a metáfora da dualidade da alma que caracteriza as personagens machadianas: na mão esquerda, o mal, a vingança e a morte; na mão direita, o bem, a virtude e a vida. Yngrid vê sua vida passar diante de seus olhos, questiona a relevância dos bens materiais que sempre valorizou e que agora nada podem fazer para salvá-la, lembra da bolsa, lembra da batata, lembra da infância humilde mas feliz na Messejana sem bolsa e sem batata, lembra que não terminou de pagar as prestação da bolsa e nem sabe se o cartão pra pagar a batata vai passar, lembra, lembra, lembra, lembra de tudo até que, perdida em seu caleidoscópio de memórias, se dá por vencida e, com uma mão cobrindo os seios e a outra estrangulando um chumaço de megahair que arrancou da rapariga, cai agonizante no chão do Porpino repetindo as últimas palavras de Rubião: “ao vencedor, as batatas”.

E morreu.

Acompanhe o caso:

9/1/2018 – Empresas aproveitam confusão em hamburgueria para alavancar vendas em Fortaleza

9/1/2018 – Quem chega a uma mesa pode comer a comida dos outros? Consultor de etiqueta orienta