Lavagem da Praça do Ferreira expõe problemática das pessoas em situação de rua em Fortaleza

VÉSPERA DO NATAL DE LUZ

Lavagem da Praça do Ferreira expõe problemática das pessoas em situação de rua em Fortaleza

Crise financeira e expulsões de casa ordenadas por facções ampliaram a quantidade de pessoas morando nas ruas em Fortaleza. O Tribuna do Ceará ouviu especialistas e a Prefeitura sobre essa problemática exposta em 2018

Por Jéssica Welma em Cotidiano

22 de novembro de 2018 às 07:15

Há 3 semanas
moradores de rua

Moradores de rua devem ser retirados do local pela Prefeitura de Fortaleza. (FOTO: Reprodução/TV Jangadeiro)

Às vésperas da abertura do Natal de Luz 2018, a Prefeitura de Fortaleza anunciou a retirada de todas as pessoas em situação de rua na Praça do Ferreira, no Centro da cidade, local onde acontece o evento. Uma lavagem da praça está marcada para esta quinta-feira (22), e muitos usuários do espaço têm se espalhado por outras praças na região.

A ação põe em xeque a capacidade de acolhimento da rede municipal e motiva críticas sobre a assistência aos moradores de rua. Um levantamento da Secretaria de Desenvolvimento Social, Direitos Humanos e Combate à Fome (SDHDS), em agosto de 2017, contabilizou 247 pessoas, entre homens e mulheres, que utilizam a Praça do Ferreira para se abrigar.

De acordo com a Prefeitura, na última semana, a SDHDS concedeu Aluguel Social para 102 pessoas e outras 20 famílias na Praça do Ferreira. A expectativa é encerrar essa semana com atendimento a outras 40 famílias com Aluguel Social e equipamentos de acolhimento e abrigo.

A secretária executiva da SDHDS, Patrícia Studart, afirma que os suportes às pessoas em situação de rua “são fornecidos durante todo o ano, não só agora – como as pessoas dizem – por causa do Natal de Luz”.

Segundo ela, o reforço na assistência se deve a um aumento de vagas nos locais de atendimento, após liberação da compra de camas e colchões, e da saída de famílias do Aluguel Social para casas permanentes, a partir de programa de habitação.

Nos últimos anos, as estratégias do Poder Público para garantir a assistência à população de rua, como o Aluguel Social e o Centro Pop, ainda não se mostraram eficientes para acabar com o problema. Quem passa pela região com frequência percebe o aumento das pessoas na região, especialmente de famílias inteiras. A guerra das facções, a redução de benefícios sociais e o altos custos de moradia estão entre os fatores que impulsionam a crise.

Mas o que pode ser feito para retirar definitivamente as pessoas da praça? O problema se resume a oferecer uma moradia? Qual a forma mais eficaz de tratar quem vive nas ruas por causa do vício e por fugir da violência, retomando a saúde e a perspectiva de uma vida normal?

O Tribuna do Ceará conversou com a gestão da Prefeitura de Fortaleza e com especialistas e agentes que atuam no Centro para saber o que pode ser feito para acabar com a vulnerabilidade das pessoas em situação de rua.

Pessoas em situação de rua ocupam diferentes espaços no Centro de Fortaleza. (Foto: Reprodução/TV Jangadeiro)

Pessoas em situação de rua ocupam diferentes espaços no Centro de Fortaleza. (Foto: Reprodução/TV Jangadeiro)

Pobreza multidimensional

A professora do departamento de Psicologia e coordenadora do Núcleo de Psicologia Comunitária (Nucom) da Universidade Federal do Ceará (UFC), Verônica Ximenes, ressalta que há uma pobreza multidimensional entre quem vive nas ruas. O impacto negativo está no acesso à saúde, à moradia, à educação, à nutrição, à renda, ao suporte psicossocial.

Verônica ressalta a necessidade de não se naturalizar a pobreza, não invisibilizar as pessoas em situação de rua nem culpabilizá-las. “O pobre é culpado por estar na situação. (As pessoas dizem): ‘ele não estudou’, ‘ele não se esforçou o que deveria’, descontextualizando o problema da pobreza, da situação de rua como problema estrutural do país e do contexto social em que a gente vive”, esclarece Verônica.

A secretária executiva da SDHDS, Patrícia Studart, afirma que a Prefeitura Municipal realiza uma abordagem social junto à população que vive nas ruas. “A Prefeitura não faz remoção de pessoas em situação de rua. O que oferecemos é uma serviço continuado de readequação de vida, de projeto de vida”, destaca.

Aumento de famílias

A doutoranda da UFC e mestre em Saúde Pública Lígia Erbereli destaca o aumento de famílias inteiras na rua. Os casos mais comuns, segundo ela, eram de indivíduos que iam para a rua após algum tipo de ruptura com a família, por exemplo, por uso de drogas.

“Tem muita gente sendo expulsa de suas casas por questões de facções. A pessoa sai e vai morar na rua. Você chega e vê famílias na Praça do Ferreira com colchão, com bebê. É bem característico. Quando você vê toda a família, já sente que pode ser um caso desse (expulsão da periferia). É um fenômeno que a gente não via”, pontua Lígia.

Leia também: Violências Invisíveis – direitos básicos faltam onde a criminalidade é iminente

A situação também foi percebida pela Prefeitura. A secretária da SDHDS pontua que não só o problema das facções, mas também a crise financeira e o desemprego têm levado famílias inteiras às ruas. “A prioridade no Aluguel Social é para famílias com crianças e idosos, depois passamos para indivíduos solteiros que estão nas praças”, destaca.

O Aluguel Social é um auxílio financeiro para pessoas em situação de rua, que têm de prestar conta mensalmente do benefício, entregando recibo na Secretaria Municipal do Desenvolvimento Habitacional (Habitafor).

Patrícia Studart destaca que a Prefeitura tem intensificado o acompanhamento ao programa para evitar que o dinheiro seja usado no consumo de álcool e drogas, por exemplo. Segundo ela, há equipes que fazem acompanhamento mensal junto aos beneficiários. De 170 famílias que recebem o Aluguel Social, apenas três não teriam prestado conta, afirma.

Rotina nas ruas

Quem atua junto à população de rua frisa que resolver o problema da população de rua não se trata apenas de oferecer um casa para morar. As pessoas precisam ter garantido o acesso a equipamentos sociais que possibilitem o convívio com outras pessoas, os serviços de saúde e de renda, por exemplo.

Lígia Erbereli, que atua há cerca de 20 anos na assistência à saúde de pessoas em situação de rua, afirma que há certa resistência de algumas pessoas em voltar a morar nas regiões periféricas, por exemplo, onde se localiza maior parte das casas do programa Minha Casa Minha Vida oferecido pelo governo.

“A gente tem visto que os moradores de rua não se adaptam mais na periferia, muitos já vieram de lá fugidos. O Centro se torna um lugar viável por causa do comércio informal. É um lugar onde eles consegue ter alguma autonomia, vão vender água, vão reciclar lixo, vão vender artesanato”, ressalta Lígia.

O psicólogo e pesquisador Carlos Eduardo Esmeraldo destaca que, quanto mais tempo a pessoa passa na rua, mais difícil para ela construir outra realidade. “Não é só colocar dentro de uma casa, há uma questão mais complexa. Há uma questão de corpo, eles vão adquirindo marcas corporais: a forma de se vestir, de andar, ainda que às vezes eles tentem fugir do estereótipo para evitar a estigmatização”, afirma.

A SDHDS pontua que a abordagem é feita em um trabalho integrado com a saúde que, através do Consultório na Rua, destinam as pessoas para atendimento médico. Há também tratamento para usuários de drogas, com direcionamento para unidades terapêuticas e de acolhimento.

Outro foco de atendimento, segundo a secretária Patrícia Studart, é o encaminhamento das pessoas atendidas pela Prefeitura para centros de qualificação profissional. “Estamos com o projeto Novos Caminhos, no qual já atendemos mais de 200 pessoas em situação de rua. É um projeto do Governo Federal guiado pela SDHDS”, afirma.

Alimentação

Outro problema na Capital é a carência de restaurantes populares em Fortaleza e a dificuldade de acesso à alimentação. Atualmente existe um único equipamento com essa função, no bairro Parangaba.

Patrícia afirma que há um estudo para descentralizar o restaurante popular, principalmente no Centro. “Essas pessoas não deixam de ter alimentação. Recebem alimentação nos Centros de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP), nos centros de convivência e em outros locais de apoio.

Disputa de facções

Segundo a secretária, está sendo viabilizada a criação de um novo centro de convivência na região do Centro. “Apesar de termos dois equipamentos, ainda é pouco para o quantitativo de pessoas que precisam e por questão de território. Quem frequenta a Praça do Ferreira, não frequenta a área da Acal. Quem frequenta a Praça da Bandeira, não frequenta a Praça do Ferreira”, afirma Patrícia. A previsão é de que o projeto seja encaminhado em 2019.

Com a limpeza da Praça do Ferreira, também será instalada uma delegacia móvel no local para evitar a ocupação do espaço.

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VÉSPERA DO NATAL DE LUZ

Lavagem da Praça do Ferreira expõe problemática das pessoas em situação de rua em Fortaleza

Crise financeira e expulsões de casa ordenadas por facções ampliaram a quantidade de pessoas morando nas ruas em Fortaleza. O Tribuna do Ceará ouviu especialistas e a Prefeitura sobre essa problemática exposta em 2018

Por Jéssica Welma em Cotidiano

22 de novembro de 2018 às 07:15

Há 3 semanas
moradores de rua

Moradores de rua devem ser retirados do local pela Prefeitura de Fortaleza. (FOTO: Reprodução/TV Jangadeiro)

Às vésperas da abertura do Natal de Luz 2018, a Prefeitura de Fortaleza anunciou a retirada de todas as pessoas em situação de rua na Praça do Ferreira, no Centro da cidade, local onde acontece o evento. Uma lavagem da praça está marcada para esta quinta-feira (22), e muitos usuários do espaço têm se espalhado por outras praças na região.

A ação põe em xeque a capacidade de acolhimento da rede municipal e motiva críticas sobre a assistência aos moradores de rua. Um levantamento da Secretaria de Desenvolvimento Social, Direitos Humanos e Combate à Fome (SDHDS), em agosto de 2017, contabilizou 247 pessoas, entre homens e mulheres, que utilizam a Praça do Ferreira para se abrigar.

De acordo com a Prefeitura, na última semana, a SDHDS concedeu Aluguel Social para 102 pessoas e outras 20 famílias na Praça do Ferreira. A expectativa é encerrar essa semana com atendimento a outras 40 famílias com Aluguel Social e equipamentos de acolhimento e abrigo.

A secretária executiva da SDHDS, Patrícia Studart, afirma que os suportes às pessoas em situação de rua “são fornecidos durante todo o ano, não só agora – como as pessoas dizem – por causa do Natal de Luz”.

Segundo ela, o reforço na assistência se deve a um aumento de vagas nos locais de atendimento, após liberação da compra de camas e colchões, e da saída de famílias do Aluguel Social para casas permanentes, a partir de programa de habitação.

Nos últimos anos, as estratégias do Poder Público para garantir a assistência à população de rua, como o Aluguel Social e o Centro Pop, ainda não se mostraram eficientes para acabar com o problema. Quem passa pela região com frequência percebe o aumento das pessoas na região, especialmente de famílias inteiras. A guerra das facções, a redução de benefícios sociais e o altos custos de moradia estão entre os fatores que impulsionam a crise.

Mas o que pode ser feito para retirar definitivamente as pessoas da praça? O problema se resume a oferecer uma moradia? Qual a forma mais eficaz de tratar quem vive nas ruas por causa do vício e por fugir da violência, retomando a saúde e a perspectiva de uma vida normal?

O Tribuna do Ceará conversou com a gestão da Prefeitura de Fortaleza e com especialistas e agentes que atuam no Centro para saber o que pode ser feito para acabar com a vulnerabilidade das pessoas em situação de rua.

Pessoas em situação de rua ocupam diferentes espaços no Centro de Fortaleza. (Foto: Reprodução/TV Jangadeiro)

Pessoas em situação de rua ocupam diferentes espaços no Centro de Fortaleza. (Foto: Reprodução/TV Jangadeiro)

Pobreza multidimensional

A professora do departamento de Psicologia e coordenadora do Núcleo de Psicologia Comunitária (Nucom) da Universidade Federal do Ceará (UFC), Verônica Ximenes, ressalta que há uma pobreza multidimensional entre quem vive nas ruas. O impacto negativo está no acesso à saúde, à moradia, à educação, à nutrição, à renda, ao suporte psicossocial.

Verônica ressalta a necessidade de não se naturalizar a pobreza, não invisibilizar as pessoas em situação de rua nem culpabilizá-las. “O pobre é culpado por estar na situação. (As pessoas dizem): ‘ele não estudou’, ‘ele não se esforçou o que deveria’, descontextualizando o problema da pobreza, da situação de rua como problema estrutural do país e do contexto social em que a gente vive”, esclarece Verônica.

A secretária executiva da SDHDS, Patrícia Studart, afirma que a Prefeitura Municipal realiza uma abordagem social junto à população que vive nas ruas. “A Prefeitura não faz remoção de pessoas em situação de rua. O que oferecemos é uma serviço continuado de readequação de vida, de projeto de vida”, destaca.

Aumento de famílias

A doutoranda da UFC e mestre em Saúde Pública Lígia Erbereli destaca o aumento de famílias inteiras na rua. Os casos mais comuns, segundo ela, eram de indivíduos que iam para a rua após algum tipo de ruptura com a família, por exemplo, por uso de drogas.

“Tem muita gente sendo expulsa de suas casas por questões de facções. A pessoa sai e vai morar na rua. Você chega e vê famílias na Praça do Ferreira com colchão, com bebê. É bem característico. Quando você vê toda a família, já sente que pode ser um caso desse (expulsão da periferia). É um fenômeno que a gente não via”, pontua Lígia.

Leia também: Violências Invisíveis – direitos básicos faltam onde a criminalidade é iminente

A situação também foi percebida pela Prefeitura. A secretária da SDHDS pontua que não só o problema das facções, mas também a crise financeira e o desemprego têm levado famílias inteiras às ruas. “A prioridade no Aluguel Social é para famílias com crianças e idosos, depois passamos para indivíduos solteiros que estão nas praças”, destaca.

O Aluguel Social é um auxílio financeiro para pessoas em situação de rua, que têm de prestar conta mensalmente do benefício, entregando recibo na Secretaria Municipal do Desenvolvimento Habitacional (Habitafor).

Patrícia Studart destaca que a Prefeitura tem intensificado o acompanhamento ao programa para evitar que o dinheiro seja usado no consumo de álcool e drogas, por exemplo. Segundo ela, há equipes que fazem acompanhamento mensal junto aos beneficiários. De 170 famílias que recebem o Aluguel Social, apenas três não teriam prestado conta, afirma.

Rotina nas ruas

Quem atua junto à população de rua frisa que resolver o problema da população de rua não se trata apenas de oferecer um casa para morar. As pessoas precisam ter garantido o acesso a equipamentos sociais que possibilitem o convívio com outras pessoas, os serviços de saúde e de renda, por exemplo.

Lígia Erbereli, que atua há cerca de 20 anos na assistência à saúde de pessoas em situação de rua, afirma que há certa resistência de algumas pessoas em voltar a morar nas regiões periféricas, por exemplo, onde se localiza maior parte das casas do programa Minha Casa Minha Vida oferecido pelo governo.

“A gente tem visto que os moradores de rua não se adaptam mais na periferia, muitos já vieram de lá fugidos. O Centro se torna um lugar viável por causa do comércio informal. É um lugar onde eles consegue ter alguma autonomia, vão vender água, vão reciclar lixo, vão vender artesanato”, ressalta Lígia.

O psicólogo e pesquisador Carlos Eduardo Esmeraldo destaca que, quanto mais tempo a pessoa passa na rua, mais difícil para ela construir outra realidade. “Não é só colocar dentro de uma casa, há uma questão mais complexa. Há uma questão de corpo, eles vão adquirindo marcas corporais: a forma de se vestir, de andar, ainda que às vezes eles tentem fugir do estereótipo para evitar a estigmatização”, afirma.

A SDHDS pontua que a abordagem é feita em um trabalho integrado com a saúde que, através do Consultório na Rua, destinam as pessoas para atendimento médico. Há também tratamento para usuários de drogas, com direcionamento para unidades terapêuticas e de acolhimento.

Outro foco de atendimento, segundo a secretária Patrícia Studart, é o encaminhamento das pessoas atendidas pela Prefeitura para centros de qualificação profissional. “Estamos com o projeto Novos Caminhos, no qual já atendemos mais de 200 pessoas em situação de rua. É um projeto do Governo Federal guiado pela SDHDS”, afirma.

Alimentação

Outro problema na Capital é a carência de restaurantes populares em Fortaleza e a dificuldade de acesso à alimentação. Atualmente existe um único equipamento com essa função, no bairro Parangaba.

Patrícia afirma que há um estudo para descentralizar o restaurante popular, principalmente no Centro. “Essas pessoas não deixam de ter alimentação. Recebem alimentação nos Centros de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP), nos centros de convivência e em outros locais de apoio.

Disputa de facções

Segundo a secretária, está sendo viabilizada a criação de um novo centro de convivência na região do Centro. “Apesar de termos dois equipamentos, ainda é pouco para o quantitativo de pessoas que precisam e por questão de território. Quem frequenta a Praça do Ferreira, não frequenta a área da Acal. Quem frequenta a Praça da Bandeira, não frequenta a Praça do Ferreira”, afirma Patrícia. A previsão é de que o projeto seja encaminhado em 2019.

Com a limpeza da Praça do Ferreira, também será instalada uma delegacia móvel no local para evitar a ocupação do espaço.