Crescimento do número de moradores de rua em Fortaleza se agrava com a crise financeira

PROBLEMA SOCIAL

Crescimento do número de moradores de rua em Fortaleza se agrava com a crise financeira

Reportagem especial da Tribuna BandNews FM aborda a rotina de cerca de 1.700 pessoas que hoje moram nas ruas de Fortaleza

Por Tribuna Bandnews FM em Cotidiano

5 de novembro de 2018 às 06:45

Há 1 semana
Pessoa deitada em colchão no chão, na rua, em referência a moradores de rua em Fortaleza

Mais de 1,7 mil pessoas vivem em situação de rua em Fortaleza (FOTO: Reprodução/TV Jangadeiro)

* Reportagem de Elon Nepomuceno, da Tribuna BandNews FM.

No dicionário, “rua” é sinônimo de espaço público, garantia do direito de ir e vir. A palavra, no entanto, tem ganhado cada vez mais significado fora das páginas e, para muitos, representa também moradia.

No Centro de Fortaleza, por exemplo, é difícil não perceber o crescimento contínuo dos moradores de rua. São homens, mulheres e até crianças que vivem vulneráveis à insegurança, à fome e ao frio.

Segundo o último censo da Prefeitura, já são mais de 1.700 pessoas nessa situação em toda a cidade. Áreas como a Praia de Iracema e a Avenida Bezerra de Menezes são outros dois pontos de grande concentração.

O problema social tem sido frequente nos grandes centros mundo afora. Em muitos casos, se tornou reflexo do agravamento da crise econômica, mas vários são os fatores responsáveis.

Com isso, o desafio para os gestores é adotar políticas públicas que, antes de tudo, previnam que pessoas abandonem suas casas para ir morar nas ruas. A socióloga Elza Franco Braga acredita que investir em equipes interdisciplinares é imprescindível para qualquer projeto voltado à área.

Três condições básicas são indispensáveis para a configuração da situação de rua, conforme a Política Nacional implementada em 2009: pobreza extrema; vínculos familiares rompidos e inexistência de moradia convencional.

Atualmente, Fortaleza conta com dois Centros de Referências Especializados para População em Situação de Rua – os chamados Centros-Pop. Nessas unidades, é possível procurar serviços de acesso à documentação oficial, cadastro para programas sociais, higiene pessoal, atividades socioeducativas e artísticas. Paralelo a isso, o Município também oferece uma rede de acolhimento com cerca de 150 vagas de abrigo.

Desde 2017, a pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará, Clênia Trindade, desenvolve um estudo para avaliar esses serviços. O projeto, que só deve ser concluído ano que vem, tem como base os relatos dos moradores de rua. 

Apesar de reconhecerem os avanços das políticas adotadas nos últimos anos, um desafio persiste para o poder municipal, na avaliação dos pesquisados. “O principal desafio, que é a principal demanda deles, é a questão da moradia”, afirma Clênia.

Facções no Centro da Cidade

O avanço do crime organizado também preocupa. Hoje, além de controlar comunidades inteiras na cidade, as facções têm afetado a rotina até daqueles que já estão num nível de vulnerabilidade social elevado. “A gente notou fortemente na narrativa deles é que o próprio Centro, as ruas, também estão divididas por facções. A Praça do Ferreira, por exemplo, é o Comando Vermelho. Mas existem outras regiões do próprio Centro são GDE, por exemplo. E eles têm dificuldade em transitar nesses territórios, já que estão divididos por facção”.

Para a socióloga, Elza Franco Braga, é preciso atentar a demandas surgidas em trabalhos como esse, já que a iniciativa tem a influência de resgatar o poder de voz das pessoas sem abrigo. “Essas pessoas têm direito de reconhecer que têm direitos, muitas vezes têm a autoestima tão baixa que não se veem como cidadãos. É importante o reconhecimento, ser escutado”.

Solidariedade na Praça do Ferreira

Uma das áreas do Centro mais disputadas por quem está sem moradia é a Praça do Ferreira. O local concentra cerca de 10% do total da população de moradores de rua da capital cearense.

Com o alto número de desabrigados e a insuficiência da rede pública de apoio, grupos de voluntários ganham a cidade para oferecer alimento e produtos de higiene a essas pessoas.

Um deles foi fundado pela advogada Lívia Barrocas Araújo, em maio de 2014. Pelo menos uma vez ao mês, os moradores da região são atendidos e recebem mais que um kit sobrevivência: um momento de dignidade e amor. “Eu perguntei a alguns amigos se topavam participar. Fizemos a primeira entrega em 2014. Fomos crescendo, tentando atender as necessidades deles. No início, levávamos refrigerante e quentinha. Depois soubemos que a maior necessidade deles é a água, porque eles não têm água potável. Agora a gente leva água, calçados e roupas”, conta Lívia.

Para conhecer de perto essa rotina, o repórter Jackson de Moura acompanhou um dia de atividade do Grupo Amor e conversou com alguns moradores de rua. “A fila não parava de crescer, mesmo com a agilidade dos 15 voluntários. É possível beneficiar 200 pessoas”. A população nessas condições é formada por um grupo bem heterogêneo. A reportagem constatou que muitos estão ali pelo vício de droga.

Confira a reportagem especial de Elon Nepomuceno, da Tribuna BandNews FM:

Exemplo em Lisboa

Oferecer uma política pública eficaz e completa a moradores de rua é um desafio em constante discussão em cidades de todo o mundo. Em Lisboa, capital portuguesa, uma iniciativa tem dado certo e já conseguiu reduzir o número de moradores de rua quase pela metade.

Essa redução vem desde 2015 e se deve ao programa “É Uma Casa”, fruto da parceria entre a ONG Crescer com a Câmara Municipal. O projeto consiste no aluguel e mobiliação de apartamentos populares em prédios residenciais da cidade, que são entregues aos sem-teto.

Em entrevista cedida via WhatsApp à Tribuna BandNews FM, o diretor da organização não-governamental, Américo Nave, destaca o diferencial da iniciativa. “O que diferencia esse projeto de outros é que as pessoas vivem em uma casa sozinhas. O que faz com que elas possam construir, em conjunto com a equipe, as suas próprias regras. A equipe pode trabalhar a partir da necessidade de cada pessoa, ao contrário de centros de abrigos quando as regras são aplicadas para 50 ou 100 pessoas”.

Em todo o tempo vigente, o projeto também alcançou alta taxa de permanência de quase 90%. Para tanto, algumas regras foram adotadas pelas autoridades portuguesas. “Existem duas regras principais: as pessoas devem assinar contrato em que se comprometem de receber, no mínimo, seis visitas por mês da equipe; a outra é que a pessoa tem que contribuir com 30% de qualquer rendimento que tenha, isso não significa que uma pessoa que não tenham nenhum tipo de rendimento não possa ser inserida no projeto, aliás, a maior parte dos beneficiados no projeto não recebe qualquer rendimento”.

Hoje o programa conta com 35 apartamentos. Além dele, outras iniciativas, como casas compartilhadas, são adotadas em Lisboa.

Leia também:
Morador de rua faz apelo emocionante a filhos que não encontra há 8 anos
250 pessoas vivem em situação de rua na Praça do Ferreira, em Fortaleza
Morador de rua dá lição de vida e agradece a Deus por mais um dia

Projeto em Fortaleza

em Fortaleza, de acordo com a Prefeitura, um projeto semelhante ao português deve ser implantado na capital, em breve, para aumentar a oferta de abrigo aos moradores de rua.

O titular da Secretaria Municipal dos Direitos Humanos e Desenvolvimento Social, Elpídio Nogueira, conta que a ideia é dar uma nova utilidade a prédios da região. “Já identificamos 21 prédios de Fortaleza públicos e privados. Estamos em conversa com os proprietários dos prédios privados e fazendo visitas aos públicos, para saber que tipo de reforma precisa. A partir daí, em parceria com outra Secretaria, vamos poder reformar esses prédios”.

Outra intervenção com grande potencial do Município seria a entrega de um abrigo anunciado no começo deste ano, mas que – por problemas jurídicos com a empresa parceira – teve a implantação adiada.

Atuam com a Prefeitura nas políticas públicas voltadas ao Centro algumas entidades, como a Câmara dos Dirigentes Lojistas de Fortaleza.

O presidente da entidade, Assis Cavalcante, destaca que, além da oferta de moradia, é preciso investir em como gerar renda para essas pessoas. A constatação dele veio após ouvir um relato de uma moradora. “É muito fácil, porque muitos deles e não querem sair dali”.

Segundo a Prefeitura, cada acolhimento realizado pelo Município a um morador de rua custa cerca de R$ 70 mil por mês. Tendo em vista que a média da permanência dessas pessoas na rua é de mais de 5 anos, a conta é de se perder de vista.

Dona Lucimar Gonçalves saiu recentemente da situação de moradia de rua, após ter chegado a essa condição, em 2013, por envolvimento em alguns crimes. Hoje, ela vê um futuro próspero e de retomada. Mas, para isso, o poder público e iniciativa privada precisam de ações urgentes, não só paliativas e eficazes. “Eu espero trabalhar. Eu quero que Deus me ajude”, conclui Dona Lucimar.

Confira a reportagem especial de Elon Nepomuceno, da Tribuna BandNews FM:

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PROBLEMA SOCIAL

Crescimento do número de moradores de rua em Fortaleza se agrava com a crise financeira

Reportagem especial da Tribuna BandNews FM aborda a rotina de cerca de 1.700 pessoas que hoje moram nas ruas de Fortaleza

Por Tribuna Bandnews FM em Cotidiano

5 de novembro de 2018 às 06:45

Há 1 semana
Pessoa deitada em colchão no chão, na rua, em referência a moradores de rua em Fortaleza

Mais de 1,7 mil pessoas vivem em situação de rua em Fortaleza (FOTO: Reprodução/TV Jangadeiro)

* Reportagem de Elon Nepomuceno, da Tribuna BandNews FM.

No dicionário, “rua” é sinônimo de espaço público, garantia do direito de ir e vir. A palavra, no entanto, tem ganhado cada vez mais significado fora das páginas e, para muitos, representa também moradia.

No Centro de Fortaleza, por exemplo, é difícil não perceber o crescimento contínuo dos moradores de rua. São homens, mulheres e até crianças que vivem vulneráveis à insegurança, à fome e ao frio.

Segundo o último censo da Prefeitura, já são mais de 1.700 pessoas nessa situação em toda a cidade. Áreas como a Praia de Iracema e a Avenida Bezerra de Menezes são outros dois pontos de grande concentração.

O problema social tem sido frequente nos grandes centros mundo afora. Em muitos casos, se tornou reflexo do agravamento da crise econômica, mas vários são os fatores responsáveis.

Com isso, o desafio para os gestores é adotar políticas públicas que, antes de tudo, previnam que pessoas abandonem suas casas para ir morar nas ruas. A socióloga Elza Franco Braga acredita que investir em equipes interdisciplinares é imprescindível para qualquer projeto voltado à área.

Três condições básicas são indispensáveis para a configuração da situação de rua, conforme a Política Nacional implementada em 2009: pobreza extrema; vínculos familiares rompidos e inexistência de moradia convencional.

Atualmente, Fortaleza conta com dois Centros de Referências Especializados para População em Situação de Rua – os chamados Centros-Pop. Nessas unidades, é possível procurar serviços de acesso à documentação oficial, cadastro para programas sociais, higiene pessoal, atividades socioeducativas e artísticas. Paralelo a isso, o Município também oferece uma rede de acolhimento com cerca de 150 vagas de abrigo.

Desde 2017, a pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará, Clênia Trindade, desenvolve um estudo para avaliar esses serviços. O projeto, que só deve ser concluído ano que vem, tem como base os relatos dos moradores de rua. 

Apesar de reconhecerem os avanços das políticas adotadas nos últimos anos, um desafio persiste para o poder municipal, na avaliação dos pesquisados. “O principal desafio, que é a principal demanda deles, é a questão da moradia”, afirma Clênia.

Facções no Centro da Cidade

O avanço do crime organizado também preocupa. Hoje, além de controlar comunidades inteiras na cidade, as facções têm afetado a rotina até daqueles que já estão num nível de vulnerabilidade social elevado. “A gente notou fortemente na narrativa deles é que o próprio Centro, as ruas, também estão divididas por facções. A Praça do Ferreira, por exemplo, é o Comando Vermelho. Mas existem outras regiões do próprio Centro são GDE, por exemplo. E eles têm dificuldade em transitar nesses territórios, já que estão divididos por facção”.

Para a socióloga, Elza Franco Braga, é preciso atentar a demandas surgidas em trabalhos como esse, já que a iniciativa tem a influência de resgatar o poder de voz das pessoas sem abrigo. “Essas pessoas têm direito de reconhecer que têm direitos, muitas vezes têm a autoestima tão baixa que não se veem como cidadãos. É importante o reconhecimento, ser escutado”.

Solidariedade na Praça do Ferreira

Uma das áreas do Centro mais disputadas por quem está sem moradia é a Praça do Ferreira. O local concentra cerca de 10% do total da população de moradores de rua da capital cearense.

Com o alto número de desabrigados e a insuficiência da rede pública de apoio, grupos de voluntários ganham a cidade para oferecer alimento e produtos de higiene a essas pessoas.

Um deles foi fundado pela advogada Lívia Barrocas Araújo, em maio de 2014. Pelo menos uma vez ao mês, os moradores da região são atendidos e recebem mais que um kit sobrevivência: um momento de dignidade e amor. “Eu perguntei a alguns amigos se topavam participar. Fizemos a primeira entrega em 2014. Fomos crescendo, tentando atender as necessidades deles. No início, levávamos refrigerante e quentinha. Depois soubemos que a maior necessidade deles é a água, porque eles não têm água potável. Agora a gente leva água, calçados e roupas”, conta Lívia.

Para conhecer de perto essa rotina, o repórter Jackson de Moura acompanhou um dia de atividade do Grupo Amor e conversou com alguns moradores de rua. “A fila não parava de crescer, mesmo com a agilidade dos 15 voluntários. É possível beneficiar 200 pessoas”. A população nessas condições é formada por um grupo bem heterogêneo. A reportagem constatou que muitos estão ali pelo vício de droga.

Confira a reportagem especial de Elon Nepomuceno, da Tribuna BandNews FM:

Exemplo em Lisboa

Oferecer uma política pública eficaz e completa a moradores de rua é um desafio em constante discussão em cidades de todo o mundo. Em Lisboa, capital portuguesa, uma iniciativa tem dado certo e já conseguiu reduzir o número de moradores de rua quase pela metade.

Essa redução vem desde 2015 e se deve ao programa “É Uma Casa”, fruto da parceria entre a ONG Crescer com a Câmara Municipal. O projeto consiste no aluguel e mobiliação de apartamentos populares em prédios residenciais da cidade, que são entregues aos sem-teto.

Em entrevista cedida via WhatsApp à Tribuna BandNews FM, o diretor da organização não-governamental, Américo Nave, destaca o diferencial da iniciativa. “O que diferencia esse projeto de outros é que as pessoas vivem em uma casa sozinhas. O que faz com que elas possam construir, em conjunto com a equipe, as suas próprias regras. A equipe pode trabalhar a partir da necessidade de cada pessoa, ao contrário de centros de abrigos quando as regras são aplicadas para 50 ou 100 pessoas”.

Em todo o tempo vigente, o projeto também alcançou alta taxa de permanência de quase 90%. Para tanto, algumas regras foram adotadas pelas autoridades portuguesas. “Existem duas regras principais: as pessoas devem assinar contrato em que se comprometem de receber, no mínimo, seis visitas por mês da equipe; a outra é que a pessoa tem que contribuir com 30% de qualquer rendimento que tenha, isso não significa que uma pessoa que não tenham nenhum tipo de rendimento não possa ser inserida no projeto, aliás, a maior parte dos beneficiados no projeto não recebe qualquer rendimento”.

Hoje o programa conta com 35 apartamentos. Além dele, outras iniciativas, como casas compartilhadas, são adotadas em Lisboa.

Leia também:
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250 pessoas vivem em situação de rua na Praça do Ferreira, em Fortaleza
Morador de rua dá lição de vida e agradece a Deus por mais um dia

Projeto em Fortaleza

em Fortaleza, de acordo com a Prefeitura, um projeto semelhante ao português deve ser implantado na capital, em breve, para aumentar a oferta de abrigo aos moradores de rua.

O titular da Secretaria Municipal dos Direitos Humanos e Desenvolvimento Social, Elpídio Nogueira, conta que a ideia é dar uma nova utilidade a prédios da região. “Já identificamos 21 prédios de Fortaleza públicos e privados. Estamos em conversa com os proprietários dos prédios privados e fazendo visitas aos públicos, para saber que tipo de reforma precisa. A partir daí, em parceria com outra Secretaria, vamos poder reformar esses prédios”.

Outra intervenção com grande potencial do Município seria a entrega de um abrigo anunciado no começo deste ano, mas que – por problemas jurídicos com a empresa parceira – teve a implantação adiada.

Atuam com a Prefeitura nas políticas públicas voltadas ao Centro algumas entidades, como a Câmara dos Dirigentes Lojistas de Fortaleza.

O presidente da entidade, Assis Cavalcante, destaca que, além da oferta de moradia, é preciso investir em como gerar renda para essas pessoas. A constatação dele veio após ouvir um relato de uma moradora. “É muito fácil, porque muitos deles e não querem sair dali”.

Segundo a Prefeitura, cada acolhimento realizado pelo Município a um morador de rua custa cerca de R$ 70 mil por mês. Tendo em vista que a média da permanência dessas pessoas na rua é de mais de 5 anos, a conta é de se perder de vista.

Dona Lucimar Gonçalves saiu recentemente da situação de moradia de rua, após ter chegado a essa condição, em 2013, por envolvimento em alguns crimes. Hoje, ela vê um futuro próspero e de retomada. Mas, para isso, o poder público e iniciativa privada precisam de ações urgentes, não só paliativas e eficazes. “Eu espero trabalhar. Eu quero que Deus me ajude”, conclui Dona Lucimar.

Confira a reportagem especial de Elon Nepomuceno, da Tribuna BandNews FM: