Até o século 19, enterro em igreja era sinônimo de status no Brasil


Até o século 19, enterro em igreja era sinônimo de status no Brasil

Em Fortaleza, apenas três igrejas seguem a tradição, mas túmulos são exclusivos para bispos e padres

Por Rosana Romão em Cotidiano

2 de novembro de 2014 às 08:00

Há 5 anos
Igrejas de Fortaleza realizam celebração do Dia de Finados neste domingo. (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

Igrejas de Fortaleza realizam celebração do Dia de Finados neste domingo. (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

O costume das famílias ricas de enterrar seus entes queridos em igrejas ficou no passado. Atualmente, apenas bispos e padres podem ocupar os 20 túmulos livres em três igrejas de Fortaleza que preservam a tradição: Catedral Metropolitana de Fortaleza, Paróquia Cristo Rei e Paróquia São Benedito. As três igrejas realizam celebração neste domingo (2), Dia de Finados, para receber os parentes dos mortos.

Na Catedral, são 16 túmulos, sendo oito vazios. O mausoléu dos religiosos sacramentinos fica na Paróquia São Benedito, com 16 túmulos e oito deles vazios. Já na Paróquia Cristo Rei são 30 sepulturas, com apenas quatro túmulos vazios. Nomes influentes como Monsenhor José Quinderé e Monsenhor Tito Guedes estão sepultados nos jazigos. Confira a lista no infográfico abaixo.

Segundo o professor e historiador Airton de Farias, todos os momentos de um indivíduo têm a presença da igreja: batizado, casamento e morte. A prática europeia de enterrar os mortos em túmulos dentro da igreja chegou ao Brasil no século 19. “Se havia o desejo de obter a salvação, nada mais lógico do que fazer o enterro na casa de Deus, e também era um símbolo de status para o morto e sua família”, explica.

Padres e Bispos de Fortaleza são sepultados em mausoléus dentro de igrejas
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Padres e Bispos de Fortaleza são sepultados em mausoléus dentro de igrejas

Na Catedral Metropolitana de Fortaleza são 16 túmulos, sendo 8 vazios. (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

Padres e Bispos de Fortaleza são sepultados em mausoléus dentro de igrejas
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Padres e Bispos de Fortaleza são sepultados em mausoléus dentro de igrejas

Na Catedral Metropolitana de Fortaleza são 16 túmulos, sendo 8 vazios. (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

Padres e Bispos de Fortaleza são sepultados em mausoléus dentro de igrejas
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Padres e Bispos de Fortaleza são sepultados em mausoléus dentro de igrejas

Na Catedral Metropolitana de Fortaleza são 16 túmulos, sendo 8 vazios. (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

Padres e Bispos de Fortaleza são sepultados em mausoléus dentro de igrejas
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Padres e Bispos de Fortaleza são sepultados em mausoléus dentro de igrejas

O mausoléu dos religiosos sacramentinos fica na Paróquia São Benedito, com 16 túmulos e 8 deles vazios. (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

Padres e Bispos de Fortaleza são sepultados em mausoléus dentro de igrejas
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Padres e Bispos de Fortaleza são sepultados em mausoléus dentro de igrejas

O mausoléu dos religiosos sacramentinos fica na Paróquia São Benedito, com 16 túmulos e 8 deles vazios. (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

Padres e Bispos de Fortaleza são sepultados em mausoléus dentro de igrejas
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Padres e Bispos de Fortaleza são sepultados em mausoléus dentro de igrejas

O mausoléu dos religiosos sacramentinos fica na Paróquia São Benedito, com 16 túmulos e 8 deles vazios. (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

Padres e Bispos de Fortaleza são sepultados em mausoléus dentro de igrejas
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Padres e Bispos de Fortaleza são sepultados em mausoléus dentro de igrejas

Na Paróquia Cristo Rei são 30 sepulturas, com apenas 4 túmulos vazios. (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

Padres e Bispos de Fortaleza são sepultados em mausoléus dentro de igrejas
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Padres e Bispos de Fortaleza são sepultados em mausoléus dentro de igrejas

Na Paróquia Cristo Rei são 30 sepulturas, com apenas 4 túmulos vazios. (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

Resgate Histórico

De acordo com as pesquisas de Airton de Farias em seu livro sobre a História do Ceará, a sobrevalorização do saber médico desprezava as tradições e culturas da massa. Um dos exemplos mais evidentes desse “poder médico” foi o combate ao hábito de enterrarem-se os mortos nas igrejas – como ocorria no Ceará até meados do século 19 – e a defesa da construção de cemitérios. Para o saber médico-científico, a decomposição dos cadáveres tornava os templos focos de doenças.

Assim, para adequar a cidade às recomendações da boa e civilizada ciência, em 1848, foi edificado o primeiro cemitério público de Fortaleza, o São Casemiro, também chamado de Croatá, localizado no lado leste da atual Praça Castro Carreira (mais conhecida como Praça da Estação). Na década de 1860, discutiu-se a necessidade de construir um novo cemitério, em virtude do São Casemiro sofrer influência de dunas móveis e por ficar próximo do núcleo urbano da cidade. Em 1866, mesmo inacabado, foi inaugurado o Cemitério São João Batista, concluído em 1880, levando também os restos mortais do Cemitério São Casemiro.

Porém, houve resistência dos segmentos dominantes em relação à medida, já que o enterro nas igrejas era símbolo de status, pois ali aconteciam os enterros de pessoas proeminentes, enquanto as pessoas humildes eram enterradas pelo areal da cidade.  Isso, de certo modo, continuou a ocorrer nos cemitérios, pois túmulos e mausoléus grandes e adornados passaram a ser erguidos, mostrando ou reafirmando o poder político ou o prestígio econômico do defunto e de sua família.

Numa visita ao São João Batista, percebe-se claramente uma divisão de classe em seus espaços: da metade para trás do cemitério, estão enterrados as pessoas das camadas médias e populares, enquanto na parte da frente encontram-se os belos jazigos das classes dominantes. A arquitetura das sepulturas também se destaca e serve como ponto turístico para visitantes.

Igrejas de Fortaleza que ainda enterram religiosos no interior:

Info---Igrejas

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Até o século 19, enterro em igreja era sinônimo de status no Brasil

Em Fortaleza, apenas três igrejas seguem a tradição, mas túmulos são exclusivos para bispos e padres

Por Rosana Romão em Cotidiano

2 de novembro de 2014 às 08:00

Há 5 anos
Igrejas de Fortaleza realizam celebração do Dia de Finados neste domingo. (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

Igrejas de Fortaleza realizam celebração do Dia de Finados neste domingo. (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

O costume das famílias ricas de enterrar seus entes queridos em igrejas ficou no passado. Atualmente, apenas bispos e padres podem ocupar os 20 túmulos livres em três igrejas de Fortaleza que preservam a tradição: Catedral Metropolitana de Fortaleza, Paróquia Cristo Rei e Paróquia São Benedito. As três igrejas realizam celebração neste domingo (2), Dia de Finados, para receber os parentes dos mortos.

Na Catedral, são 16 túmulos, sendo oito vazios. O mausoléu dos religiosos sacramentinos fica na Paróquia São Benedito, com 16 túmulos e oito deles vazios. Já na Paróquia Cristo Rei são 30 sepulturas, com apenas quatro túmulos vazios. Nomes influentes como Monsenhor José Quinderé e Monsenhor Tito Guedes estão sepultados nos jazigos. Confira a lista no infográfico abaixo.

Segundo o professor e historiador Airton de Farias, todos os momentos de um indivíduo têm a presença da igreja: batizado, casamento e morte. A prática europeia de enterrar os mortos em túmulos dentro da igreja chegou ao Brasil no século 19. “Se havia o desejo de obter a salvação, nada mais lógico do que fazer o enterro na casa de Deus, e também era um símbolo de status para o morto e sua família”, explica.

Padres e Bispos de Fortaleza são sepultados em mausoléus dentro de igrejas
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Padres e Bispos de Fortaleza são sepultados em mausoléus dentro de igrejas

Na Catedral Metropolitana de Fortaleza são 16 túmulos, sendo 8 vazios. (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

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Na Catedral Metropolitana de Fortaleza são 16 túmulos, sendo 8 vazios. (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

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Na Catedral Metropolitana de Fortaleza são 16 túmulos, sendo 8 vazios. (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

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O mausoléu dos religiosos sacramentinos fica na Paróquia São Benedito, com 16 túmulos e 8 deles vazios. (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

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Padres e Bispos de Fortaleza são sepultados em mausoléus dentro de igrejas

O mausoléu dos religiosos sacramentinos fica na Paróquia São Benedito, com 16 túmulos e 8 deles vazios. (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

Padres e Bispos de Fortaleza são sepultados em mausoléus dentro de igrejas
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Padres e Bispos de Fortaleza são sepultados em mausoléus dentro de igrejas

O mausoléu dos religiosos sacramentinos fica na Paróquia São Benedito, com 16 túmulos e 8 deles vazios. (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

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Na Paróquia Cristo Rei são 30 sepulturas, com apenas 4 túmulos vazios. (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

Padres e Bispos de Fortaleza são sepultados em mausoléus dentro de igrejas
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Padres e Bispos de Fortaleza são sepultados em mausoléus dentro de igrejas

Na Paróquia Cristo Rei são 30 sepulturas, com apenas 4 túmulos vazios. (FOTO: Tribuna do Ceará/ Rosana Romão)

Resgate Histórico

De acordo com as pesquisas de Airton de Farias em seu livro sobre a História do Ceará, a sobrevalorização do saber médico desprezava as tradições e culturas da massa. Um dos exemplos mais evidentes desse “poder médico” foi o combate ao hábito de enterrarem-se os mortos nas igrejas – como ocorria no Ceará até meados do século 19 – e a defesa da construção de cemitérios. Para o saber médico-científico, a decomposição dos cadáveres tornava os templos focos de doenças.

Assim, para adequar a cidade às recomendações da boa e civilizada ciência, em 1848, foi edificado o primeiro cemitério público de Fortaleza, o São Casemiro, também chamado de Croatá, localizado no lado leste da atual Praça Castro Carreira (mais conhecida como Praça da Estação). Na década de 1860, discutiu-se a necessidade de construir um novo cemitério, em virtude do São Casemiro sofrer influência de dunas móveis e por ficar próximo do núcleo urbano da cidade. Em 1866, mesmo inacabado, foi inaugurado o Cemitério São João Batista, concluído em 1880, levando também os restos mortais do Cemitério São Casemiro.

Porém, houve resistência dos segmentos dominantes em relação à medida, já que o enterro nas igrejas era símbolo de status, pois ali aconteciam os enterros de pessoas proeminentes, enquanto as pessoas humildes eram enterradas pelo areal da cidade.  Isso, de certo modo, continuou a ocorrer nos cemitérios, pois túmulos e mausoléus grandes e adornados passaram a ser erguidos, mostrando ou reafirmando o poder político ou o prestígio econômico do defunto e de sua família.

Numa visita ao São João Batista, percebe-se claramente uma divisão de classe em seus espaços: da metade para trás do cemitério, estão enterrados as pessoas das camadas médias e populares, enquanto na parte da frente encontram-se os belos jazigos das classes dominantes. A arquitetura das sepulturas também se destaca e serve como ponto turístico para visitantes.

Igrejas de Fortaleza que ainda enterram religiosos no interior:

Info---Igrejas