Transposição do Rio Tocantins para o São Francisco seria solução para o Nordeste, avalia especialista

SALVAÇÃO

Transposição do Rio Tocantins para o São Francisco seria solução para o Nordeste, avalia especialista

Especialista no estudo de transposições de bacias pelo mundo avalia que o projeto traria pouco impacto ambiental

Por Lyvia Rocha em Ceará

20 de novembro de 2017 às 06:45

Há 3 semanas
O projeto está em debate desde os anos 90 (FOTO: Divulgação)

O projeto está em debate desde os anos 90 (FOTO: Divulgação/Governo Federal)

Por Agência UFC

A transposição de águas do rio Tocantins já é uma pauta em avaliação no Congresso Nacional e no Ministério da Integração Nacional. O projeto está gerando debate, dos pontos de vista ambiental e econômico.

A ideia é que o rio, com 2.416 quilômetros de extensão, seja interligado até chegar na barragem de Sobradinho, onde alcançaria e revitalizaria o São Francisco, curso de água também em transposição, auxiliando na tarefa de abastecer o Nordeste.

O professor Renato Sílvio, do Departamento de Engenharia Agrícola da Universidade Federal do Ceará, tem se debruçado sobre o assunto a partir da experiência internacional de transposição de bacias, incluindo o bem-sucedido caso da China, onde duas operações foram feitas para levar água do sul úmido ao norte seco.

O pesquisador argumenta que a transposição do Tocantins é uma necessidade da região Nordeste, diante dos possíveis colapsos de falta de água nos grandes centros urbanos, como Fortaleza, e da incapacidade do São Francisco de garantir a segurança hídrica da região. Ele alerta, no entanto, que é necessário elaborar estudos que dimensionem os impactos socioambientais da obra.

O professor explica que a vazão do São Francisco é de apenas 2.900 m³ por segundo, dos quais 26 m³ serão aproveitados para o Nordeste e divididos entre estados dos eixos leste e norte. Para o Ceará, apenas cerca de 8 m³ por segundo serão disponibilizados, incapazes de suprir a necessidade até mesmo da região metropolitana, atualmente de 9,3 m³ por segundo.

Já o Tocantins tem uma vazão média de 13.600 m³ por segundo. O argumento é que, se 50 m³, por exemplo, fossem retirados para a transposição, haveria pouco impacto no rio originário, mas já seriam capazes de aumentar consideravelmente a vazão do São Francisco, resolvendo boa parte do problema de abastecimento das regiões Norte e Nordeste.

O professor explica sobre a transposição (FOTO: Jr. Panela/UFC)

O professor explica sobre a transposição (FOTO: Jr. Panela/UFC)

Segundo Renato, a retirada de águas do Tocantins não teria grande efeito sobre as atividades de agricultura irrigada da região, visto que esta é suplementar e não primordial, servindo para suprir faltas em eventualidades. “Não é o caso do Nordeste. Aqui, sem irrigação, não temos alimentos, agronegócio e agroindústria. Os empreendimentos não têm a segurança hídrica necessária”, lembra o pesquisador.

Outro agravante está no índice populacional da região, a maior do mundo a viver em semiárido, com um número de habitantes que cresce exponencialmente. “Em Fortaleza, tínhamos 1 milhão de pessoas há 30 anos, hoje já temos 2,5 milhões. O São Francisco vem trazendo água para todo mundo desde Minas Gerais, e é muita coisa para dar conta”, argumenta Renato.

Projeto corre desde os anos 90

Apesar de só agora ganhar relevância, o projeto percorre a Câmara dos Deputados desde o início dos anos 1990, mas sempre esbarrou em problemas como o custo da operação. Em sua atual versão, a transposição teria cerca de 700 quilômetros de extensão e precisaria de um investimento de R$ 500 milhões, gasto do qual 60% seria apenas para pagar a energia necessária para bombear a água nas regiões de aclive.

Por outro lado, uma vez nos relevos altos, o resto do percurso da água seria realizado apenas por efeito da gravidade, com potencial para geração de energia. “Pode ter que elevar até 600 metros. Mas a ideia é que, quando a água chegar ao ponto alto, uma hidrelétrica seja construída. Controlamos aquela vazão e a energia já paga parte do que foi gasto para elevar a água”, justifica.

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Transposição do Rio Tocantins para o São Francisco seria solução para o Nordeste, avalia especialista

Especialista no estudo de transposições de bacias pelo mundo avalia que o projeto traria pouco impacto ambiental

Por Lyvia Rocha em Ceará

20 de novembro de 2017 às 06:45

Há 3 semanas
O projeto está em debate desde os anos 90 (FOTO: Divulgação)

O projeto está em debate desde os anos 90 (FOTO: Divulgação/Governo Federal)

Por Agência UFC

A transposição de águas do rio Tocantins já é uma pauta em avaliação no Congresso Nacional e no Ministério da Integração Nacional. O projeto está gerando debate, dos pontos de vista ambiental e econômico.

A ideia é que o rio, com 2.416 quilômetros de extensão, seja interligado até chegar na barragem de Sobradinho, onde alcançaria e revitalizaria o São Francisco, curso de água também em transposição, auxiliando na tarefa de abastecer o Nordeste.

O professor Renato Sílvio, do Departamento de Engenharia Agrícola da Universidade Federal do Ceará, tem se debruçado sobre o assunto a partir da experiência internacional de transposição de bacias, incluindo o bem-sucedido caso da China, onde duas operações foram feitas para levar água do sul úmido ao norte seco.

O pesquisador argumenta que a transposição do Tocantins é uma necessidade da região Nordeste, diante dos possíveis colapsos de falta de água nos grandes centros urbanos, como Fortaleza, e da incapacidade do São Francisco de garantir a segurança hídrica da região. Ele alerta, no entanto, que é necessário elaborar estudos que dimensionem os impactos socioambientais da obra.

O professor explica que a vazão do São Francisco é de apenas 2.900 m³ por segundo, dos quais 26 m³ serão aproveitados para o Nordeste e divididos entre estados dos eixos leste e norte. Para o Ceará, apenas cerca de 8 m³ por segundo serão disponibilizados, incapazes de suprir a necessidade até mesmo da região metropolitana, atualmente de 9,3 m³ por segundo.

Já o Tocantins tem uma vazão média de 13.600 m³ por segundo. O argumento é que, se 50 m³, por exemplo, fossem retirados para a transposição, haveria pouco impacto no rio originário, mas já seriam capazes de aumentar consideravelmente a vazão do São Francisco, resolvendo boa parte do problema de abastecimento das regiões Norte e Nordeste.

O professor explica sobre a transposição (FOTO: Jr. Panela/UFC)

O professor explica sobre a transposição (FOTO: Jr. Panela/UFC)

Segundo Renato, a retirada de águas do Tocantins não teria grande efeito sobre as atividades de agricultura irrigada da região, visto que esta é suplementar e não primordial, servindo para suprir faltas em eventualidades. “Não é o caso do Nordeste. Aqui, sem irrigação, não temos alimentos, agronegócio e agroindústria. Os empreendimentos não têm a segurança hídrica necessária”, lembra o pesquisador.

Outro agravante está no índice populacional da região, a maior do mundo a viver em semiárido, com um número de habitantes que cresce exponencialmente. “Em Fortaleza, tínhamos 1 milhão de pessoas há 30 anos, hoje já temos 2,5 milhões. O São Francisco vem trazendo água para todo mundo desde Minas Gerais, e é muita coisa para dar conta”, argumenta Renato.

Projeto corre desde os anos 90

Apesar de só agora ganhar relevância, o projeto percorre a Câmara dos Deputados desde o início dos anos 1990, mas sempre esbarrou em problemas como o custo da operação. Em sua atual versão, a transposição teria cerca de 700 quilômetros de extensão e precisaria de um investimento de R$ 500 milhões, gasto do qual 60% seria apenas para pagar a energia necessária para bombear a água nas regiões de aclive.

Por outro lado, uma vez nos relevos altos, o resto do percurso da água seria realizado apenas por efeito da gravidade, com potencial para geração de energia. “Pode ter que elevar até 600 metros. Mas a ideia é que, quando a água chegar ao ponto alto, uma hidrelétrica seja construída. Controlamos aquela vazão e a energia já paga parte do que foi gasto para elevar a água”, justifica.