Mega Réveillon em Jericoacoara põe paraíso cearense em risco

"O MAIOR DO MUNDO"

Mega Réveillon de 5 dias em Jeri põe em risco paraíso cearense, dizem especialistas

A festa privada “Réveillon Jonh Jonh Jeri 2019” promete trazer atrações como Ivete Sangalo e Anitta durante os cinco dias de evento, com ingressos que custam até R$ 2.400

Por Daniel Rocha em Ceará

9 de julho de 2018 às 07:00

Há 2 meses
Jericoacoara pedra furada

A festa promete ser a maior do mundo (Foto: Reprodução/Vimeo)

A expectativa pela festa de réveillon em Jericoacoara, que promete ser “a maior do mundo”, levanta alerta sobre os impactos ambientais e a massificação do turismo na região. A Secretaria do Turismo de Jijoca de Jericoacoara afirma que haverá medidas diferenciadas no período. No entanto, especialistas fazem ressalvas sobre a compatibilidade do evento com a preservação das riquezas naturais.

O evento “Réveillon John Jonh Rocks Jeri 2019” promete cinco dias de festa, de 27 a 31 de dezembro, com 80 horas de show, em quatro diferentes locais de Jericoacoara. Nomes como Ivete Sangalo e Anitta já foram divulgados pela organização, e os ingressos chegam a R$ 2.400 por pessoa.

No Réveillon de 2018, a festa no paraíso cearense atraiu diversos artistas nacionais, como Juliana Paes, Thaila Ayala e Danielle Winits. O destino tem se consolidado como queridinho dos artistas também em outras épocas do ano. Nesse ano, a expectativa é de atrair uma média de 3 mil pessoas.

Apesar de atrair mais visitantes ao local, os ambientalistas e profissionais da área do turismo alertam que a festa é incompatível com as condições físicas da região e para o risco de Jeri se tornar um destino de “massa”.

Parque Nacional

O professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC) Jeovah Meireles pontua que “a natureza não suporta a quantidade abusiva de pessoas devido a fragilidade dos sistemas ambientais presentes”.

Segundo ele, a Vila está inserida nos limites do Parque Nacional de Jericoacoara, unidade de proteção integral, e o fluxo intenso de turistas sem um controle pode acelerar a degradação do ecossistema. Em 2009, o professor participou de um estudo que constatou que 40% do solo do Parque, à época, já estava pisoteado por veículos.

Leia Mais>Jericoacoara é eleita um dos 15 destinos mais legais do mundo para se visitar em 2018

“Os carros, quando entram nas dunas e nas planícies, promovem a compactação dos solos e a erosão originada pelo vento, remobilizando os sedimentos”, explica. Além disse, Meireles ressalta, como outro problema em relação ao intenso fluxo de turistas, a geração de resíduos sólidos e tratamento de esgoto na região.

“Para realizar uma atividade dessa natureza, é necessário um plano de monitoramento, principalmente relacionado aos problemas de resíduos sólidos, e o controle do acesso de pessoas”, frisa.

O coordenador do Fórum de Turismo do Estado do Ceará, Pedro Carlos, aponta para outro problema: a perda das características que tornam Jeri um lugar único. “(O evento) nos preocupa. Criticamos porque Jericoacoara está passando por uma situação perigosa. Dizer que Jeri pode ser uma Ibiza (ilha turística na Espanha) não tem nada a ver”, ressalta.

Leia Mais> Praia de Jericoacoara passa a cobrar taxa diária para entrada de turistas

Capacidade hoteleira

Por outro lado, o secretário do Turismo do município de Jijoca de Jericoacoara, Ricardo Gussa Wagner, disse que o evento deve atrair um público de 3 mil turistas. O número corresponde a 30% da capacidade total que a Vila de Jericoacoara comporta, segundo o secretário. “A maioria das pessoas vai estar hospedada em Jeri, ou seja, dentro da capacidade hoteleria da região”, pontua.

Sobre o consumo de água e o despejo do esgoto e dos resíduos sólidos produzidos em decorrência da festa, Ricardo destacou que a organização irá providenciar caminhões para o abastecimento de água, tubulações para os banheiros e para o tratamento de esgoto. “Não serão despejados para o mar. Vai ser um serviço à parte”, afirma.

feriado-prolongado-folga

Jericoacoara é o principal ponto turístico do Ceará, segundo O Fórum de Turismo do Estado do Ceará (Foto: Divulgação)

Turismo massificado

A inauguração do Aeroporto de Cruz, no ano passado, tornou mais fácil conhecer as belezas naturais da Vila de Jericoacoara, principalmente, para quem mora no sul do País, devido aos locais de saída dos voos.

Com um ano de funcionamento do aeroporto, a região apresentou um acréscimo de 7% no fluxo de turistas, e a previsão é de um aumento de 20% nos próximos anos, segundo o secretário do Turismo. Somente no ano passado, Jericoacoara recebeu cerca de 700 mil turistas. Para este mês de julho, a expectativa é de 80 mil.

Leia Mais>Crescimento de fluxo em Jericoacoara exige investimentos em segurança e infraestrutura

Entretanto, com o intenso fluxo de turistas, a turismóloga Adriana Girão alerta para o risco de a Vila de Jericoacoara de se tornar um destino de turismo “massificado”. Ela frisa que isso pode ocorrer caso não haja um planejamento para preservar as belezas naturais e as características culturais do local.

“A vinda desses eventos de grande porte e o grande fluxo de turista podem transformar Jericoacoara em um Porto Seguro”, exemplifica, ressaltando que muitas pessoas deixaram de ir para a praia, na Bahia, devido à massificação.

Pedro Carlos também alerta para esse risco. Para ele, Jericoacoara tem perdido suas características de ser uma vila de pescadores. O estilo arquitetônico também está se desfazendo, devido aos empreendimentos que surgem ao longo dos anos. “O turista quer vivenciar o que ele não encontra na terra dele. Isso tudo vem acabando”, pontua.

Leia Mais>Agências de turismo de Fortaleza se adaptam com a chegada do aeroporto de Jericoacoara

O coordenador do Fórum cita Fortaleza e Canoa Quebrada como pontos turísticos cearenses que perderam a essência devido ao crescimento desordenado. “Canoa perdeu seu público e charme. Fortaleza viveu isso. Não é mais atrativo como antes. A avenida Monsenhor Tabosa, por exemplo, deixou de vender artesanato para ser um shopping ao céu aberto. Fugiu da sua essência”, conclui.

Moradores

A recepcionista de uma pousada e moradora da região, Elenir Barros, de 30 anos, enxerga de outra forma. Para ela, o aumento do fluxo de visitantes gerou mais emprego e renda ao moradores.

“Eu acho positivo porque ajudou muito na questão de trabalho para quem mora aqui”.  Entretanto, reconhece que a tranquilidade e a característica de Vila são os atrativos dos turistas.”Os turistas fogem da agitação. Querem um lugar mais calmo”, opina.

O Tribuna do Ceará entrou em contato com a produção do evento Réveillon Jericoacoara John John Rocks Jeri 2019, solicitando um posicionamento sobre os impactos do evento, mas, até a publicação desta matéria, a solicitação não foi atendida.

O mesmo foi solicitado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pela preservação do Parque Nacional de Jericoacoara, para saber quais as medidas adotadas para garantir a preservação do parque, mas também não houve resposta.

Veja o vídeo de divulgação da festa

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"O MAIOR DO MUNDO"

Mega Réveillon de 5 dias em Jeri põe em risco paraíso cearense, dizem especialistas

A festa privada “Réveillon Jonh Jonh Jeri 2019” promete trazer atrações como Ivete Sangalo e Anitta durante os cinco dias de evento, com ingressos que custam até R$ 2.400

Por Daniel Rocha em Ceará

9 de julho de 2018 às 07:00

Há 2 meses
Jericoacoara pedra furada

A festa promete ser a maior do mundo (Foto: Reprodução/Vimeo)

A expectativa pela festa de réveillon em Jericoacoara, que promete ser “a maior do mundo”, levanta alerta sobre os impactos ambientais e a massificação do turismo na região. A Secretaria do Turismo de Jijoca de Jericoacoara afirma que haverá medidas diferenciadas no período. No entanto, especialistas fazem ressalvas sobre a compatibilidade do evento com a preservação das riquezas naturais.

O evento “Réveillon John Jonh Rocks Jeri 2019” promete cinco dias de festa, de 27 a 31 de dezembro, com 80 horas de show, em quatro diferentes locais de Jericoacoara. Nomes como Ivete Sangalo e Anitta já foram divulgados pela organização, e os ingressos chegam a R$ 2.400 por pessoa.

No Réveillon de 2018, a festa no paraíso cearense atraiu diversos artistas nacionais, como Juliana Paes, Thaila Ayala e Danielle Winits. O destino tem se consolidado como queridinho dos artistas também em outras épocas do ano. Nesse ano, a expectativa é de atrair uma média de 3 mil pessoas.

Apesar de atrair mais visitantes ao local, os ambientalistas e profissionais da área do turismo alertam que a festa é incompatível com as condições físicas da região e para o risco de Jeri se tornar um destino de “massa”.

Parque Nacional

O professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC) Jeovah Meireles pontua que “a natureza não suporta a quantidade abusiva de pessoas devido a fragilidade dos sistemas ambientais presentes”.

Segundo ele, a Vila está inserida nos limites do Parque Nacional de Jericoacoara, unidade de proteção integral, e o fluxo intenso de turistas sem um controle pode acelerar a degradação do ecossistema. Em 2009, o professor participou de um estudo que constatou que 40% do solo do Parque, à época, já estava pisoteado por veículos.

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“Os carros, quando entram nas dunas e nas planícies, promovem a compactação dos solos e a erosão originada pelo vento, remobilizando os sedimentos”, explica. Além disse, Meireles ressalta, como outro problema em relação ao intenso fluxo de turistas, a geração de resíduos sólidos e tratamento de esgoto na região.

“Para realizar uma atividade dessa natureza, é necessário um plano de monitoramento, principalmente relacionado aos problemas de resíduos sólidos, e o controle do acesso de pessoas”, frisa.

O coordenador do Fórum de Turismo do Estado do Ceará, Pedro Carlos, aponta para outro problema: a perda das características que tornam Jeri um lugar único. “(O evento) nos preocupa. Criticamos porque Jericoacoara está passando por uma situação perigosa. Dizer que Jeri pode ser uma Ibiza (ilha turística na Espanha) não tem nada a ver”, ressalta.

Leia Mais> Praia de Jericoacoara passa a cobrar taxa diária para entrada de turistas

Capacidade hoteleira

Por outro lado, o secretário do Turismo do município de Jijoca de Jericoacoara, Ricardo Gussa Wagner, disse que o evento deve atrair um público de 3 mil turistas. O número corresponde a 30% da capacidade total que a Vila de Jericoacoara comporta, segundo o secretário. “A maioria das pessoas vai estar hospedada em Jeri, ou seja, dentro da capacidade hoteleria da região”, pontua.

Sobre o consumo de água e o despejo do esgoto e dos resíduos sólidos produzidos em decorrência da festa, Ricardo destacou que a organização irá providenciar caminhões para o abastecimento de água, tubulações para os banheiros e para o tratamento de esgoto. “Não serão despejados para o mar. Vai ser um serviço à parte”, afirma.

feriado-prolongado-folga

Jericoacoara é o principal ponto turístico do Ceará, segundo O Fórum de Turismo do Estado do Ceará (Foto: Divulgação)

Turismo massificado

A inauguração do Aeroporto de Cruz, no ano passado, tornou mais fácil conhecer as belezas naturais da Vila de Jericoacoara, principalmente, para quem mora no sul do País, devido aos locais de saída dos voos.

Com um ano de funcionamento do aeroporto, a região apresentou um acréscimo de 7% no fluxo de turistas, e a previsão é de um aumento de 20% nos próximos anos, segundo o secretário do Turismo. Somente no ano passado, Jericoacoara recebeu cerca de 700 mil turistas. Para este mês de julho, a expectativa é de 80 mil.

Leia Mais>Crescimento de fluxo em Jericoacoara exige investimentos em segurança e infraestrutura

Entretanto, com o intenso fluxo de turistas, a turismóloga Adriana Girão alerta para o risco de a Vila de Jericoacoara de se tornar um destino de turismo “massificado”. Ela frisa que isso pode ocorrer caso não haja um planejamento para preservar as belezas naturais e as características culturais do local.

“A vinda desses eventos de grande porte e o grande fluxo de turista podem transformar Jericoacoara em um Porto Seguro”, exemplifica, ressaltando que muitas pessoas deixaram de ir para a praia, na Bahia, devido à massificação.

Pedro Carlos também alerta para esse risco. Para ele, Jericoacoara tem perdido suas características de ser uma vila de pescadores. O estilo arquitetônico também está se desfazendo, devido aos empreendimentos que surgem ao longo dos anos. “O turista quer vivenciar o que ele não encontra na terra dele. Isso tudo vem acabando”, pontua.

Leia Mais>Agências de turismo de Fortaleza se adaptam com a chegada do aeroporto de Jericoacoara

O coordenador do Fórum cita Fortaleza e Canoa Quebrada como pontos turísticos cearenses que perderam a essência devido ao crescimento desordenado. “Canoa perdeu seu público e charme. Fortaleza viveu isso. Não é mais atrativo como antes. A avenida Monsenhor Tabosa, por exemplo, deixou de vender artesanato para ser um shopping ao céu aberto. Fugiu da sua essência”, conclui.

Moradores

A recepcionista de uma pousada e moradora da região, Elenir Barros, de 30 anos, enxerga de outra forma. Para ela, o aumento do fluxo de visitantes gerou mais emprego e renda ao moradores.

“Eu acho positivo porque ajudou muito na questão de trabalho para quem mora aqui”.  Entretanto, reconhece que a tranquilidade e a característica de Vila são os atrativos dos turistas.”Os turistas fogem da agitação. Querem um lugar mais calmo”, opina.

O Tribuna do Ceará entrou em contato com a produção do evento Réveillon Jericoacoara John John Rocks Jeri 2019, solicitando um posicionamento sobre os impactos do evento, mas, até a publicação desta matéria, a solicitação não foi atendida.

O mesmo foi solicitado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pela preservação do Parque Nacional de Jericoacoara, para saber quais as medidas adotadas para garantir a preservação do parque, mas também não houve resposta.

Veja o vídeo de divulgação da festa