Feiras agroecológicas aquecem economia local e se consolidam em cidades do Ceará

NOVOS SERTÕES

Feiras agroecológicas aquecem economia local e se consolidam em cidades do Ceará

A Ematerce apoia a formação de grupos de pequenos produtores em feiras, com a finalidade facilitar a negociação

Por Tribuna do Ceará em Ceará

10 de junho de 2018 às 07:15

Há 2 meses
Feira de Crato

A feira do Bicentenário, no Crato, completou dois anos de funcionamento (Foto: Ematerce)

Por Aécio Santigo e Edilmo Gurgel

Ainda são aproximadamente 7h40 do sábado, 17 de março, na Praça do Bicentenário, no município do Crato, Região do Cariri cearense, mas o movimento na feira já é grande. Idosos, mulheres, jovens, crianças vão chegando, conversando, atualizando os assuntos e escolhendo o que levar para a casa.

É impossível deixar de ver o sorriso e a simpatia da servidora aposentada Maria Zilda de Almeida Soares, de 78 anos, moradora do bairro Serrano. Coincidentemente é a primeira vez que ela vai conferir os produtos da Feira de Produtos da Agricultura Familiar do Sítio Corujas e adjacências (Fepaf), inaugurada em abril de 2016.

A aposentada faz questão de apresentar o filho de criação, o zootecnista Nailson Marques, 60 anos, também frequentador da feira. “Esse aqui era danado”, diz dona Zilda, explicando que ajudou a cuidar de oito filhos de uma família tradicional do Crato, irmãos do zootecnista.

As conversas vão se desenrolando por todas as bancas, onde são comercializados da macaxeira, batata, ricota, polpa de fruta, doces até o coentro, brócolis, alho poró. Ao todo, 48 produtores trabalham em regime associativo, comercializando os produtos em vários bairros como Pimenta, Vila Alta, Mirandão, Seminário e praça Alexandre Arraes.

Em breve, além da grande aceitação comercial que os produtos já possuem entre os moradores e comerciantes do município, a feira passará a contar com o Selo do Selo de Identificação de Participação na Agricultura Familiar (Sipaf), identifica produtos que têm em sua composição a participação majoritária da agricultura familiar e dá visibilidade a empresas e aos empreendimentos deste segmento, que promovem a inclusão econômica e social dos agricultores, gerando mais empregos e renda no campo.

Frequentadores da feira de Crato

Clientess com a aposentada Maria Zilda Soares frequentam muito a feira no Crato (Foto: Emartece)

Qualidade

A validade do selo é de dois anos, podendo ser renovado. É concedido às empresas e cooperativas, portadoras ou não da Declaração de Aptidão do Pronaf (DAP) e a agricultores familiares, desde que portadores de DAP, para identificar produtos como verduras, legumes, polpas de frutas e laticínios, entre outros.

O Sipaf não substitui qualquer exigência legal quanto à produção, industrialização ou consumo no âmbito municipal, estadual ou federal.

Segundo a ex-vice presidente da Cooperativa Agroindustrial dos Pequenos Produtores do Sítio Malhada do Crato, Cícera Edna Pereira, 49 anos, a cooperativa contava inicialmente com 65 associados e hoje são efetivos 48 produtores rurais, que participam da feira em vários bairros do Crato.

“A maioria deles mora no Sítio Corujas, onde fazem toda a produção das hortaliças, frutas e verduras. Hoje, a feira está cada vez mais se sustentando e embora alguns tenham dificuldade com transporte, estamos sempre tentando melhorar a logística. Estamos vendo dois convites para levar a feira a outros bairros”, explica Cícera, que no domingo cedo já estava armando a barraca na Feira do bairro Mirandão.

Em 7 de abril, a feira comemorou o 2º aniversário de existência e o escritório da Ematerce promoveu uma comemoração simbólica da data. Segundo Elcileide Mendonça, técnica de Desenvolvimento Social da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará (Ematerce), vem sendo feito um trabalho de capacitação contínuo com os feirantes, de acompanhamento das necessidades, de abertura de mercado e agora com a expedição do selo, teremos a atividade mais qualificada para os clientes.

“Já aplicamos o questionário, encaminhamos e a próxima etapa será a auditoria para certificar os agricultores”, explica Elcileide.

Pausterização de derivados do leite

Miniusina de pausterização dos derivados do leite (Foto: Emartece)

Produção

Integram a feira que também acontece no bairro Mirandão produtores da Associação do Sítio Corujas e Adjacências e da Associação do Bairro Mirandão e Associação Cristã de Base, da Diocese do Crato.

No Sítio Malhada, onde funciona a cooperativa e uma unidade de mini usina de pausterização de leite, são processados muitos produtos que são comercializados na feira como doce de leite, iogurte, ricota, manteiga, queijo coalho, biscoito de nata, soro de leite e vários outros.

A unidade é abastecida com energia solar, através do uso de 16 placas fotovoltaicas. O projeto teve o acompanhamento da Ematerce Regional Cariri, através do gerente Lóssio Gondim e Elcicleide Mendonça.

Assim, apesar das dificuldades, da escassez de chuva e da crise econômica, os produtores rurais em todo o Ceará vão incrementando a produção, desenvolvendo novas tecnologias, implementando parcerias.

Tradição

As feiras de produtores agropecuários são eventos tradicionais em muitos municípios cearenses, facilitando a venda direta entre o produtor e o comprador melhorando, assim, os lucros dos pequenos agropecuaristas e reduzindo a participação de intermediários na comercialização. As feiras objetivam, além de proporcionar o intercambio entre o agricultor e a população urbana, a comercialização de frutas, verduras, pequenos animais de qualidade superior e a preços justos.

Atualmente, a Ematerce está apoiando a iniciativa de formação de organizações de pequenos produtores em feiras, em vários bairros dos municípios, com a finalidade facilitar a negociação dos produtos agropecuários produzidos pelos mesmos.

Da escola de sargento para agricultura: o semiárido contado por sua gente

Produtor Antônio Malaquias com a sua criação de porcos

Criação de porcos vai garantir mais uma renda para o produtor Antônio Malaquias (Foto: Ematerce)

Dizer que a história de Antônio Malaquias dos Santos, de 59 anos, é de desafios e superação seria correto mas, ao mesmo tempo, quase simplório. A trajetória de vida e de trabalho de “Seu Malagueta”, como é carinhosamente conhecido na comunidade Agrestinho Barra Sabão, zona rural do município de Porteiras, região do Cariri Leste cearense, 530 quilômetros de Fortaleza, é de amor à vocação e a uma identidade de vida. Amor à agricultura e uma identidade de lutas.

Hoje Malagueta produz nos 5,4 hectares de sua propriedade melancia, jerimun, banana, macaxeira, feijão, mamão e goiaba irrigadas por microasperção, a partir de um poço com vazão de 30 mil litros/hora.

“Quando comecei com as bananas aqui nessa região onde passava um riacho, todo mundo ficava brincando e dizendo que eu tava maluco, que não ia dar certo. Hoje tá aqui! Tem pé que tá me dando uma penca de 150 a 200 bananas e é somente a primeira leva”, diz orgulhoso o produtor, enfatizando que não usa nada de agrotóxico; apenas defensivo orgânico produzido com elementos da própria natureza, como esterco e urina de bovinos, planta nim e folhas secas.

“Eu vivia uma vida de desmantelo, de depravação mesmo. Se não fosse essa mulher aqui, eu não sei o que seria de mim”, fala Malagueta, sendo já repreendido aos risos acanhados pela esposa, a agricultora Núbia Vasconcelos, 55 anos, de que “não precisava falar disso”. O homem magrelo, caboclo de cabelo grisalho, sorriso de cantinho de boca e forte nas palavras, não hesita. “Foi assim mesmo, tem que contar tudo”, diz Malagueta.

Malagueta começou trabalhando nas terras de outros produtores e chegou a receber como pagamento “taco de fumo”. Núbia começa a rir novamente com a desinibição do esposo contando sua trajetória. Atualmente, vem trabalhador de municípios vizinhos do estado pernambucano para trabalhar na roça da macaxeira ou o feijão de Malagueta. “Comprei tudo isso como o trabalho de 18 tarefas que fazia nas terras do Bento Rozeno”, explica.

Sem uso de nenhum agrotóxico, o produtor vem conseguindo grandes resultados (Foto: Emartece)

Com os R$ 12 mil financiados pelo Banco do Nordeste, a partir de projeto elaborado pela equipe técnica da Ematerce, foi realizada a escavação de uma cacimba e produção e produção do feijão irrigado.

Com isso, o agricultor vem somando conquistas e atualmente, além de comercializar para a feira local, já vende jerimun e feijão para o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) desde 2017. São 7 mil quilos de feijão vendidos para o programa.

Com o cacimbão fechado por um acidente na elevação da estrutura, o poço atende a todas as necessidades do agricultor. As terras adquiridas trabalhando no roçado de um proprietário local, foram fruto de um trabalho de oito anos numa parceria de quase 40 anos com a esposa.

O sinal de amor e gratidão pela mulher é uma prova da transformação de como a terra bem trabalhada, cuidada, zelada, pode render bons resultados e muito mais ao agricultor familiar, ainda que com poucos recursos financeiros.

Na hora de mostrar o pequeno criatório suíno com quatro matrizes, um reprodutor e alguns animais já prontos para a comercialização, Malagueta vai revelando a alegria de ter criado algumas saídas para pequenas situações do dia a dia como o berçário para os bacurins e o equipamento para mistura de ração, onde inventou uma base de cimento onde a peça de mistura fica inclinada e permite uma mistura mais eficiente. “Já tenho 10 animais com 60 quilos prontos para o mercado”, comemora.

Água

Com o poço em pleno funcionamento e a produção rotativa de goiaba, jerimun, macaxeira junto com a produção de banana, Malagueta já prevê o que pode fazer com a água do cacimbão interditado. “Já ouvi falar na criação de peixe e tô pensando em tentar em fazer aqui também”, disse o produtor, animado com o que já vem conhecendo. “E isso tudo aqui eu nem fiz análise de solo ainda”, conta esperançoso, acompanhado do agente rural Cícero Maciel de Lima e da gerente local do escritório da Ematerce Fátima Benício.

A análise do solo das terras de Malagueta e Núbia, segundo Cícero, já estão sendo feitas por um laboratório no município de Tabuleiro do Norte. A assistência técnica do órgão, segundo o produtor, foi muito importante para ter acesso ao crédito bancário, através da DAP e do relacionamento com a gerência do banco. O trabalho no sítio da família foi acompanhado, ainda, pelo coordenador do PAA pela Ematerce Reginaldo Rodrigues Ribeiro e Edna Cleide da Silva, secretária de Agricultura e Meio Ambiente da Prefeitura de Porteiras.

Crescimento

Além do crescimento na produção e comercialização, Malagueta não para de pensar em como melhorar seu trabalho. Além de quase sargento do Exército, o agricultor terminou o curso técnico em contabilidade e já sabe bem manusear os números e os resultados do seu esforço. Junto com a esposa e os dois filhos, José Everton dos Santos (técnico agrícola), 20, e José Evandro dos Santos (técnico em Agroecologia), 26, vai tocando os seus sonhos e realizações.

Com o primeiro filho com o curso técnico agrícola incompleto e o segundo atuando na ACB (Associação das Comunidades de Base), em Porteiras, a família vai se complementando em conhecimento, esforço e vontade de acertar.

A única conta que Malagueta ainda não sabe fazer bem é o tempo de casado com Núbia. “Eita, agora você me pegou. Eu mal dou conta de deixar essas produções todas aqui, é trabalho muito, com essas contas não sou bom não, mas sei que é muito tempo”, diz o produtor. Em 23 de abril próximo serão 35 anos de casados.

* A reportagem foi produzida pela Ematerce

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NOVOS SERTÕES

Feiras agroecológicas aquecem economia local e se consolidam em cidades do Ceará

A Ematerce apoia a formação de grupos de pequenos produtores em feiras, com a finalidade facilitar a negociação

Por Tribuna do Ceará em Ceará

10 de junho de 2018 às 07:15

Há 2 meses
Feira de Crato

A feira do Bicentenário, no Crato, completou dois anos de funcionamento (Foto: Ematerce)

Por Aécio Santigo e Edilmo Gurgel

Ainda são aproximadamente 7h40 do sábado, 17 de março, na Praça do Bicentenário, no município do Crato, Região do Cariri cearense, mas o movimento na feira já é grande. Idosos, mulheres, jovens, crianças vão chegando, conversando, atualizando os assuntos e escolhendo o que levar para a casa.

É impossível deixar de ver o sorriso e a simpatia da servidora aposentada Maria Zilda de Almeida Soares, de 78 anos, moradora do bairro Serrano. Coincidentemente é a primeira vez que ela vai conferir os produtos da Feira de Produtos da Agricultura Familiar do Sítio Corujas e adjacências (Fepaf), inaugurada em abril de 2016.

A aposentada faz questão de apresentar o filho de criação, o zootecnista Nailson Marques, 60 anos, também frequentador da feira. “Esse aqui era danado”, diz dona Zilda, explicando que ajudou a cuidar de oito filhos de uma família tradicional do Crato, irmãos do zootecnista.

As conversas vão se desenrolando por todas as bancas, onde são comercializados da macaxeira, batata, ricota, polpa de fruta, doces até o coentro, brócolis, alho poró. Ao todo, 48 produtores trabalham em regime associativo, comercializando os produtos em vários bairros como Pimenta, Vila Alta, Mirandão, Seminário e praça Alexandre Arraes.

Em breve, além da grande aceitação comercial que os produtos já possuem entre os moradores e comerciantes do município, a feira passará a contar com o Selo do Selo de Identificação de Participação na Agricultura Familiar (Sipaf), identifica produtos que têm em sua composição a participação majoritária da agricultura familiar e dá visibilidade a empresas e aos empreendimentos deste segmento, que promovem a inclusão econômica e social dos agricultores, gerando mais empregos e renda no campo.

Frequentadores da feira de Crato

Clientess com a aposentada Maria Zilda Soares frequentam muito a feira no Crato (Foto: Emartece)

Qualidade

A validade do selo é de dois anos, podendo ser renovado. É concedido às empresas e cooperativas, portadoras ou não da Declaração de Aptidão do Pronaf (DAP) e a agricultores familiares, desde que portadores de DAP, para identificar produtos como verduras, legumes, polpas de frutas e laticínios, entre outros.

O Sipaf não substitui qualquer exigência legal quanto à produção, industrialização ou consumo no âmbito municipal, estadual ou federal.

Segundo a ex-vice presidente da Cooperativa Agroindustrial dos Pequenos Produtores do Sítio Malhada do Crato, Cícera Edna Pereira, 49 anos, a cooperativa contava inicialmente com 65 associados e hoje são efetivos 48 produtores rurais, que participam da feira em vários bairros do Crato.

“A maioria deles mora no Sítio Corujas, onde fazem toda a produção das hortaliças, frutas e verduras. Hoje, a feira está cada vez mais se sustentando e embora alguns tenham dificuldade com transporte, estamos sempre tentando melhorar a logística. Estamos vendo dois convites para levar a feira a outros bairros”, explica Cícera, que no domingo cedo já estava armando a barraca na Feira do bairro Mirandão.

Em 7 de abril, a feira comemorou o 2º aniversário de existência e o escritório da Ematerce promoveu uma comemoração simbólica da data. Segundo Elcileide Mendonça, técnica de Desenvolvimento Social da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará (Ematerce), vem sendo feito um trabalho de capacitação contínuo com os feirantes, de acompanhamento das necessidades, de abertura de mercado e agora com a expedição do selo, teremos a atividade mais qualificada para os clientes.

“Já aplicamos o questionário, encaminhamos e a próxima etapa será a auditoria para certificar os agricultores”, explica Elcileide.

Pausterização de derivados do leite

Miniusina de pausterização dos derivados do leite (Foto: Emartece)

Produção

Integram a feira que também acontece no bairro Mirandão produtores da Associação do Sítio Corujas e Adjacências e da Associação do Bairro Mirandão e Associação Cristã de Base, da Diocese do Crato.

No Sítio Malhada, onde funciona a cooperativa e uma unidade de mini usina de pausterização de leite, são processados muitos produtos que são comercializados na feira como doce de leite, iogurte, ricota, manteiga, queijo coalho, biscoito de nata, soro de leite e vários outros.

A unidade é abastecida com energia solar, através do uso de 16 placas fotovoltaicas. O projeto teve o acompanhamento da Ematerce Regional Cariri, através do gerente Lóssio Gondim e Elcicleide Mendonça.

Assim, apesar das dificuldades, da escassez de chuva e da crise econômica, os produtores rurais em todo o Ceará vão incrementando a produção, desenvolvendo novas tecnologias, implementando parcerias.

Tradição

As feiras de produtores agropecuários são eventos tradicionais em muitos municípios cearenses, facilitando a venda direta entre o produtor e o comprador melhorando, assim, os lucros dos pequenos agropecuaristas e reduzindo a participação de intermediários na comercialização. As feiras objetivam, além de proporcionar o intercambio entre o agricultor e a população urbana, a comercialização de frutas, verduras, pequenos animais de qualidade superior e a preços justos.

Atualmente, a Ematerce está apoiando a iniciativa de formação de organizações de pequenos produtores em feiras, em vários bairros dos municípios, com a finalidade facilitar a negociação dos produtos agropecuários produzidos pelos mesmos.

Da escola de sargento para agricultura: o semiárido contado por sua gente

Produtor Antônio Malaquias com a sua criação de porcos

Criação de porcos vai garantir mais uma renda para o produtor Antônio Malaquias (Foto: Ematerce)

Dizer que a história de Antônio Malaquias dos Santos, de 59 anos, é de desafios e superação seria correto mas, ao mesmo tempo, quase simplório. A trajetória de vida e de trabalho de “Seu Malagueta”, como é carinhosamente conhecido na comunidade Agrestinho Barra Sabão, zona rural do município de Porteiras, região do Cariri Leste cearense, 530 quilômetros de Fortaleza, é de amor à vocação e a uma identidade de vida. Amor à agricultura e uma identidade de lutas.

Hoje Malagueta produz nos 5,4 hectares de sua propriedade melancia, jerimun, banana, macaxeira, feijão, mamão e goiaba irrigadas por microasperção, a partir de um poço com vazão de 30 mil litros/hora.

“Quando comecei com as bananas aqui nessa região onde passava um riacho, todo mundo ficava brincando e dizendo que eu tava maluco, que não ia dar certo. Hoje tá aqui! Tem pé que tá me dando uma penca de 150 a 200 bananas e é somente a primeira leva”, diz orgulhoso o produtor, enfatizando que não usa nada de agrotóxico; apenas defensivo orgânico produzido com elementos da própria natureza, como esterco e urina de bovinos, planta nim e folhas secas.

“Eu vivia uma vida de desmantelo, de depravação mesmo. Se não fosse essa mulher aqui, eu não sei o que seria de mim”, fala Malagueta, sendo já repreendido aos risos acanhados pela esposa, a agricultora Núbia Vasconcelos, 55 anos, de que “não precisava falar disso”. O homem magrelo, caboclo de cabelo grisalho, sorriso de cantinho de boca e forte nas palavras, não hesita. “Foi assim mesmo, tem que contar tudo”, diz Malagueta.

Malagueta começou trabalhando nas terras de outros produtores e chegou a receber como pagamento “taco de fumo”. Núbia começa a rir novamente com a desinibição do esposo contando sua trajetória. Atualmente, vem trabalhador de municípios vizinhos do estado pernambucano para trabalhar na roça da macaxeira ou o feijão de Malagueta. “Comprei tudo isso como o trabalho de 18 tarefas que fazia nas terras do Bento Rozeno”, explica.

Sem uso de nenhum agrotóxico, o produtor vem conseguindo grandes resultados (Foto: Emartece)

Com os R$ 12 mil financiados pelo Banco do Nordeste, a partir de projeto elaborado pela equipe técnica da Ematerce, foi realizada a escavação de uma cacimba e produção e produção do feijão irrigado.

Com isso, o agricultor vem somando conquistas e atualmente, além de comercializar para a feira local, já vende jerimun e feijão para o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) desde 2017. São 7 mil quilos de feijão vendidos para o programa.

Com o cacimbão fechado por um acidente na elevação da estrutura, o poço atende a todas as necessidades do agricultor. As terras adquiridas trabalhando no roçado de um proprietário local, foram fruto de um trabalho de oito anos numa parceria de quase 40 anos com a esposa.

O sinal de amor e gratidão pela mulher é uma prova da transformação de como a terra bem trabalhada, cuidada, zelada, pode render bons resultados e muito mais ao agricultor familiar, ainda que com poucos recursos financeiros.

Na hora de mostrar o pequeno criatório suíno com quatro matrizes, um reprodutor e alguns animais já prontos para a comercialização, Malagueta vai revelando a alegria de ter criado algumas saídas para pequenas situações do dia a dia como o berçário para os bacurins e o equipamento para mistura de ração, onde inventou uma base de cimento onde a peça de mistura fica inclinada e permite uma mistura mais eficiente. “Já tenho 10 animais com 60 quilos prontos para o mercado”, comemora.

Água

Com o poço em pleno funcionamento e a produção rotativa de goiaba, jerimun, macaxeira junto com a produção de banana, Malagueta já prevê o que pode fazer com a água do cacimbão interditado. “Já ouvi falar na criação de peixe e tô pensando em tentar em fazer aqui também”, disse o produtor, animado com o que já vem conhecendo. “E isso tudo aqui eu nem fiz análise de solo ainda”, conta esperançoso, acompanhado do agente rural Cícero Maciel de Lima e da gerente local do escritório da Ematerce Fátima Benício.

A análise do solo das terras de Malagueta e Núbia, segundo Cícero, já estão sendo feitas por um laboratório no município de Tabuleiro do Norte. A assistência técnica do órgão, segundo o produtor, foi muito importante para ter acesso ao crédito bancário, através da DAP e do relacionamento com a gerência do banco. O trabalho no sítio da família foi acompanhado, ainda, pelo coordenador do PAA pela Ematerce Reginaldo Rodrigues Ribeiro e Edna Cleide da Silva, secretária de Agricultura e Meio Ambiente da Prefeitura de Porteiras.

Crescimento

Além do crescimento na produção e comercialização, Malagueta não para de pensar em como melhorar seu trabalho. Além de quase sargento do Exército, o agricultor terminou o curso técnico em contabilidade e já sabe bem manusear os números e os resultados do seu esforço. Junto com a esposa e os dois filhos, José Everton dos Santos (técnico agrícola), 20, e José Evandro dos Santos (técnico em Agroecologia), 26, vai tocando os seus sonhos e realizações.

Com o primeiro filho com o curso técnico agrícola incompleto e o segundo atuando na ACB (Associação das Comunidades de Base), em Porteiras, a família vai se complementando em conhecimento, esforço e vontade de acertar.

A única conta que Malagueta ainda não sabe fazer bem é o tempo de casado com Núbia. “Eita, agora você me pegou. Eu mal dou conta de deixar essas produções todas aqui, é trabalho muito, com essas contas não sou bom não, mas sei que é muito tempo”, diz o produtor. Em 23 de abril próximo serão 35 anos de casados.

* A reportagem foi produzida pela Ematerce