Cruzes e capelas às margens das rodovias do Ceará marcam tragédias e inspiram lendas
ESTRADAS DO CEARÁ

Cruzes e capelas às margens das rodovias do Ceará marcam tragédias e inspiram lendas

As pequenas e tradicionais cruzes à beira das estradas, tão comuns no Ceará, contam uma história de dor, perda e luto

Por Jangadeiro FM em Ceará

19 de março de 2017 às 07:00

Há 1 semana

Cruzes em estradas são fenômeno cultural popular no Ceará (FOTO: Reprodução)

Quando você viaja pelas estradas, já percebeu que geralmente encontramos cruzes e capelas às margens das rodovias? Isso tem uma explicação: é o que mostra a reportagem da Jangadeiro FM.

Tragédia de Barro

No dia 21 de fevereiro de 2004, um acidente de ônibus teve grande repercussão aqui no Ceará, pela forma como as 42 vítimas morreram. O ônibus da empresa Itapemirim, que deixou Fortaleza com destino a Salvador no sábado de Carnaval, afundou quase 10 metros de profundidade, no açude Cipó, no km 456 da BR 116, no município de Barro, região do Cariri.

O veículo possuía janelas vedadas para garantir o isolamento térmico do ar condicionado, o que pode ter impossibilitado a saída das vítimas.

No local do acidente, foi construído um monumento com os nomes de todas as 42 pessoas mortas. Nessa tragédia, Régis Gomes perdeu a irmã Rosemere Gomes, de 25 anos, e o cunhado Cláudio Dantas, de 31. Ele conta que em uma viagem a trabalho pela região, quase dez anos após o ocorrido, passou em frente ao local do acidente, e ao ver o monumento onde estão os nomes, o fez reviver toda a dor que sentiu naquela manhã de 2004. “O sentimento de tristeza e a dor da lembrança do que você viveu, volta tudo a tona, como um filme passando pela sua cabeça”, conta.

Muitas vezes constituídas por madeiras ou ferro, abrigadas em casinhas de concreto, as pequenas e tradicionais cruzes à beira das estradas são encontradas nos lugares mais distintos nas estradas cearenses. Podem até ter aspecto de abandono, mas cada uma conta uma história de dor, perda e luto.

Essas capelas demarcam o local onde uma vida teve seu ponto final. A tradição conta que os cavaleiros e caminhantes que passavam por essas cruzes tiravam o chapéu, faziam o sinal da cruz, levavam a mão direita até a boca, beijavam as pontas dos dedos e exclamavam: “Repousa em paz!”.

De acordo com o historiador e professor da Universidade Federal do Ceará Régis Lopes, não existe um relato histórico que conte o início desta tradição. Ele fala que construir uma capela no local da morte da vítima é uma forma das famílias perpetuarem a existência dos entes queridos na memória.

Suntuosa capela

Quem trafega pela CE-065, entre Guaramiranga e Pacoti, na região de Baturité, é obrigado a passar por uma velha e suntuosa capela completamente abandonada, que lembra um túmulo gigante. O local conhecido por capela de Donaninha, foi erguido há 74 anos, em 1942, pelo comendador Ananias Arruda, em memória de sua esposa Ana Custódio dos Santos Arruda, que faleceu subitamente no exato local onde a capela foi erguida.

Régis Lopes fala das histórias que o povo conta na região, de que a capela é um local para contato com o outro mundo.”De acordo com a tradição oral, ali é o lugar onde aparece a alma, onde aparecem muitos espíritos, então esses lugares quando chamam mais atenção acabam também se transformando em lugar de assombração ou de milagre”, explica.

Dia mais comum

Segundo a Polícia Rodoviária Federal, o maior número de acidentes no ano passado no Ceará foi registrado na BR-116, e o domingo é o dia em que mais são registradas ocorrências em todas as rodovias federais que cortam o Estado. De acordo com a PRF, a falta de atenção nas estradas é o principal causador das ocorrências.

De acordo com o Departamento Estadual de Rodovias (DER), o procedimento correto para a construção dessas capelas e instalação de cruzes em memória das vítimas de acidentes é abrir um processo no departamento, onde um técnico deve analisar a possibilidade de usar a faixa de domínio e fixar uma taxa a ser paga.

Apesar de não saber o número de cruzes e capelas instaladas à beira de estradas cearenses, o DER informa que entende que esse tipo de ação já faz parte do imaginário e tradição popular, além de representar uma manifestação cultural e de fé, em um momento de comoção dos familiares das vítimas.

Ouça a reportagem de João Ricart para a rede Jangadeiro FM:

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ESTRADAS DO CEARÁ

Cruzes e capelas às margens das rodovias do Ceará marcam tragédias e inspiram lendas

As pequenas e tradicionais cruzes à beira das estradas, tão comuns no Ceará, contam uma história de dor, perda e luto

Por Jangadeiro FM em Ceará

19 de março de 2017 às 07:00

Há 1 semana

Cruzes em estradas são fenômeno cultural popular no Ceará (FOTO: Reprodução)

Quando você viaja pelas estradas, já percebeu que geralmente encontramos cruzes e capelas às margens das rodovias? Isso tem uma explicação: é o que mostra a reportagem da Jangadeiro FM.

Tragédia de Barro

No dia 21 de fevereiro de 2004, um acidente de ônibus teve grande repercussão aqui no Ceará, pela forma como as 42 vítimas morreram. O ônibus da empresa Itapemirim, que deixou Fortaleza com destino a Salvador no sábado de Carnaval, afundou quase 10 metros de profundidade, no açude Cipó, no km 456 da BR 116, no município de Barro, região do Cariri.

O veículo possuía janelas vedadas para garantir o isolamento térmico do ar condicionado, o que pode ter impossibilitado a saída das vítimas.

No local do acidente, foi construído um monumento com os nomes de todas as 42 pessoas mortas. Nessa tragédia, Régis Gomes perdeu a irmã Rosemere Gomes, de 25 anos, e o cunhado Cláudio Dantas, de 31. Ele conta que em uma viagem a trabalho pela região, quase dez anos após o ocorrido, passou em frente ao local do acidente, e ao ver o monumento onde estão os nomes, o fez reviver toda a dor que sentiu naquela manhã de 2004. “O sentimento de tristeza e a dor da lembrança do que você viveu, volta tudo a tona, como um filme passando pela sua cabeça”, conta.

Muitas vezes constituídas por madeiras ou ferro, abrigadas em casinhas de concreto, as pequenas e tradicionais cruzes à beira das estradas são encontradas nos lugares mais distintos nas estradas cearenses. Podem até ter aspecto de abandono, mas cada uma conta uma história de dor, perda e luto.

Essas capelas demarcam o local onde uma vida teve seu ponto final. A tradição conta que os cavaleiros e caminhantes que passavam por essas cruzes tiravam o chapéu, faziam o sinal da cruz, levavam a mão direita até a boca, beijavam as pontas dos dedos e exclamavam: “Repousa em paz!”.

De acordo com o historiador e professor da Universidade Federal do Ceará Régis Lopes, não existe um relato histórico que conte o início desta tradição. Ele fala que construir uma capela no local da morte da vítima é uma forma das famílias perpetuarem a existência dos entes queridos na memória.

Suntuosa capela

Quem trafega pela CE-065, entre Guaramiranga e Pacoti, na região de Baturité, é obrigado a passar por uma velha e suntuosa capela completamente abandonada, que lembra um túmulo gigante. O local conhecido por capela de Donaninha, foi erguido há 74 anos, em 1942, pelo comendador Ananias Arruda, em memória de sua esposa Ana Custódio dos Santos Arruda, que faleceu subitamente no exato local onde a capela foi erguida.

Régis Lopes fala das histórias que o povo conta na região, de que a capela é um local para contato com o outro mundo.”De acordo com a tradição oral, ali é o lugar onde aparece a alma, onde aparecem muitos espíritos, então esses lugares quando chamam mais atenção acabam também se transformando em lugar de assombração ou de milagre”, explica.

Dia mais comum

Segundo a Polícia Rodoviária Federal, o maior número de acidentes no ano passado no Ceará foi registrado na BR-116, e o domingo é o dia em que mais são registradas ocorrências em todas as rodovias federais que cortam o Estado. De acordo com a PRF, a falta de atenção nas estradas é o principal causador das ocorrências.

De acordo com o Departamento Estadual de Rodovias (DER), o procedimento correto para a construção dessas capelas e instalação de cruzes em memória das vítimas de acidentes é abrir um processo no departamento, onde um técnico deve analisar a possibilidade de usar a faixa de domínio e fixar uma taxa a ser paga.

Apesar de não saber o número de cruzes e capelas instaladas à beira de estradas cearenses, o DER informa que entende que esse tipo de ação já faz parte do imaginário e tradição popular, além de representar uma manifestação cultural e de fé, em um momento de comoção dos familiares das vítimas.

Ouça a reportagem de João Ricart para a rede Jangadeiro FM: