Copa do Mundo

Aos 97 anos, Vovó Palmira comemora vitória do Brasil diante do México: “Meu coração vai cair”

vovó Palmira
Aos 97 anos, Palmira Sobral não perde um jogo da Seleção Brasileira. (FOTO: Iago Monteiro/Tribuna do Ceará)

“Meu coração vai cair…”. Enquanto Brasil e México davam os primeiros passos no campo, em jogo válido pelas oitavas de final da Copa do Mundo na Rússia, os dedos de Dona Palmira Sobral, de 97 anos, corriam pacientemente cada conta do terço, que ela carrega consigo em toda partida da Seleção. Nos lábios, o sussurro de uma prece que parecia muda a cada grito da família, com quem se reúne para ver os jogos. No olhar, a experiência de quem guarda as emoções dos cinco títulos mundiais.

Jogadores em campo, o narrador anuncia o início da transmissão nesta segunda-feira (2). Na tela da TV de casa, em Fortaleza, o pré-jogo começava. Tite é o foco das câmeras. “Ele deixou de jogar por causa do joelho”, lembrou Dona Palmira, referindo-se ao atual técnico da Seleção. No cantinho onde sempre fica, bem do lado direito, logo após a porta de entrada, numa cadeira bem acolchoada e com a bandeira do Brasil como manto, ela aguardava ansiosa o jogo. E usando a mesma blusa da Seleção há quatro Mundiais.

Bastava olhar para cima e ver um céu de balões verde e amarelo no teto. Filhos, netos, bisnetos. Impossível não se animar. Ali, parte dos milhões de técnicos brasileiros. Apita o juiz, e a bola começa a pentear a grama. Hora de acender a vela. É ritual. Todo jogo da Seleção Brasileira, Dona Palmira dá vida à chama que carrega a fé da família e a vontade de mais uma vitória da Canarinho.

Quem esperava agitação, viu um olhar compenetrado. Nervosismo? Talvez. Nos minutos iniciais do primeiro tempo, a preocupação revelada: “Eles estão jogando bem, hein! Tô com medo”, disse a torcedora. Dificultando a saída de bola do Brasil, impedindo a equipe de passar do meio para frente, o México dava o tom da partida mata-mata e chegava também com perigo ao ataque pelos pés de Vela e Lozano. “Mas eles vão cansar”, desabafou.

Enquanto alguns gritavam, ela se mantinha concentrada, quieta. Uma serenidade até incomum para quem alimenta uma paixão pela camisa verde e amarela. Pausa para o sanduíche de peru sem tirar os olhos do jogo, é claro. Uma ajeitada no cabelo, e o Neymar dribla um, dois e chega pela esquerda. Uuuh! Ochoa para o principal nome do ataque brasileiro.

Enquanto isso, uma das amigas da neta mandava o recado nos stories do Instagram: “Cadê a vovó Palmira? Manda ela segurar esse terço!”. Depois, o neto chega com um recado do médico: “Cuidado com a pressão”. Aí, o riso saiu frouxo. Mas quem sofria mesmo com problema de pressão era o Brasil, que pouco criava e sofria com as investidas dos mexicanos. Uma olhada para o relógio… Dona Palmira se preocupava com o tempo.

O camisa 10 dispara de fora da área, numa tentativa de furar o bloqueio de Ochoa. “É agora! É agora!”, alguém grita. Outra conferida no tempo que parecia correr contra todas as investidas do ataque brasileiro. Mas a vovó sabia que o ritmo da equipe comandada por Juan Carlos Osorio não se manteria. “Eles estão recuando. Eles correram muito no primeiro tempo e cansaram um pouquinho”, avaliou.

No intervalo, hora de reforçar o estômago. Almoço. Dona Palmira caminhou para a mesa bem servida de uma bela feijoada. Juiz apita, começa o segundo tempo. Ela continua a refeição sem tirar, claro, os olhos da tv. Coutinho solta uma bomba, mas o goleiro adversário parece intransponível.

Aos 5 minutos do segundo tempo, Neymar empurra a bola para a rede e abre o placar no Estádio de Samara. De imediato, a vovó levantou-se da mesa e foi em direção à TV, depois voltou ao seu cantinho. “Meu coração tá caindo. Não disse que era o Neymar quem ia dar um gol?”, confessou pondo a mão no peito e sorrindo.

Palmira Sobral
A vovó Palmira tem como ritual acender uma vela para cada tempo de jogo. (FOTO: Iago Monteiro/Tribuna do Ceará)

Claro que o México não deixaria barato. Chicharito, o maior artilheiro do México com 50 gols, chutou forte, mas Alisson defendeu bem. “Quantos minutos aí?”, perguntou novamente preocupada com o tic tac das horas. Haviam se passado 16 minutos. “Bora acender a outra vela”, a filha, Divane Sobral, lembrou. Willian respondeu com uma bomba de fora da área, que tirou tinta da trave de Ochoa.

O Brasil cresce no jogo. Como Dona Palmira havia previsto, o ritmo dos mexicanos já não era o mesmo. O que restava fazer? A estratégia adversária parecia ser tirar o principal jogador de campo. Neymar sofria com as fortes faltas. Aos 32 minutos, Layun dá um pisão maldoso no atacante. Sem cartão amarelo, sem punição. “Não expulsou ele não? Não expulsaram por quê? Querem é tirar ele do jogo”, disse indignada com a arbitragem.

A equipe comandada por Osorio não desistia e pressionou o quanto pode. 1 a 0 no placar não é um resultado seguro. Até porque, como se diz no futebol, o jogo só acaba quando termina. Aos 40, Tite substituiu Phillipe Coutinho por Firmino. “Estão tirando ele?”, questionou. Dois minutos depois, o atacante deixou o dele, ampliando o marcador e assegurando a vitória do Brasil e a vaga nas quartas-de-final.

“Foi um espetáculo, melhor do que eu esperava. Eles (os mexicanos) entraram com muita gana, correndo, e depois cansaram. Obrigada, meu Deus”, comemorou Dona Palmira, que não perdeu tempo e anotou o resultado na tabelinha. Valeu rezar, vestir a camisa, decorar a casa, comentar os jogos e até acender vela pra ver campeã mais uma vez.

A Copa do Mundo não tem só futebol e grandes emoções em campo. Tem também muita história fora dele. Uma vela para cada gol, cinco rosários em 90 minutos e uma alegria em torcer pela Seleção que só poderia caber no olhar de quem acredita muito no Hexa.

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