Aposentado que herdou trabalho do pai trabalha por amor ao Ceará há 43 anos


Aposentado que herdou emprego do pai trabalha por amor ao Ceará há 43 anos

Oficialmente “Seu Chico” é funcionário do clube desde 1981, mas ele carrega grandes histórias na sua memória desde que começou na sede do clube, em 1972

Por Lyvia Rocha em Ceará

3 de outubro de 2015 às 16:47

Há 3 anos
(Foto: Lyvia Rocha/Tribuna do Ceará)

(Foto: Lyvia Rocha/Tribuna do Ceará)

A conversa vem naturalmente junto com um sorriso tímido, mas com um olhar firme e seguro. As mãos já cansadas de tanto que ajudam aqueles que ganham a vida com os pés, seguem uma na cintura e a outra segurando um dos seus objetos de trabalho: a vassoura. Francisco Coelho Rodrigues, ou simplesmente “Seu Chico”, está em Porangabuçu desde de meados de 1972, apesar de só ter virado oficialmente funcionário em 81, e é o responsável por cuidar dos gramados que ficam em Carlos Alencar Pinto, sede do Ceará Sporting Club.

Ele chegou no local quando o que se via por lá era preferencialmente mato e a cidade não tinha os seus grandes arranhas-céus. Durante os treinamentos uma preocupação era certa: não jogar a bola muito forte ou alta, pois ela poderia se perder. “Quando algum jogador “embarcava” a bola, tínhamos que desmatar para conseguir achar e o treino ou jogo continuar”, relembrou aos risos, ‘Seu’ Chico que presenciou toda a transformação que a sede recebeu.

Mas ele nem sempre tratou apenas do gramado. Amigo de Dimas Filgueiras desde que o carioca chegou na cidade e começou a se envolver no clube alvinegro, Chico trabalhou auxiliando o “coringa” do Ceará e também na concentração. “Ia embora todo mundo e ficava apenas eu e Dimas. Nessa época (comentando sobre o fim da temporada) era só nós dois aqui. Poderia mudar tudo, menos eu e Dimas”, afirma Chico.

“Quando vi Gildo se apresentando aqui, me tornei alvinegro. Jogava muito e o que ele fez pelo Vozão fica marcado na nossa memória até hoje”. (Seu Chico)

Literalmente, ele não ia embora. O homem que deixa a relva bem cuidada, criou seus 8 filhos ao lado de sua esposa dentro da sede. Morou por anos em Carlos Alencar Pinto, período tão grande, que nem ele mesmo sabe ao certo numerar. Lá também viveu momentos tristes como a perda de dois destes filhos. Um deles, ainda recém nascido, ou como ele chama “anjinho”. A dor da perda, foi superada ao longo dos anos com a chegadas dos netos e na sequência os bisnetos.

Sobre o trabalho na concentração, Chico contou algumas peripécias que os atletas aprontavam. “A concentração ficava ali (apontando para o portão da sede que fica pela Avenida João Pessoa), então eles davam um jeito de escapar e “tomar umas”. O que poderíamos fazer? No outro dia, eles arrebentavam”, recorda.

Mas nem só as bebidas desviavam a atenção dos jogadores. “Sr. Chico estou com duas mulheres aqui. O que faço? Mande elas embora, você sabe que aqui não pode ter isso”, recordou o funcionário do Vovô sobre uma das várias conversas desse tipo que aconteciam naquela época, mas sempre preservando a identidade dos envolvidos.

Antes dele, outro membro familiar já prestava serviços para o time alvinegro. O seu pai trabalhou como porteiro durante muitos anos no clube e deixou a herança do trabalho para seu filho. Mas o coração começou a bater mais forte quando Gildo, maior ídolo do Ceará, fez um jogo em Uruburetama, cidade que Chico morava. “Quando vi Gildo se apresentando aqui, me tornei alvinegro. Jogava muito e o que ele fez pelo Vozão fica marcado na nossa memória até hoje”, relata.

“Fomos até a final (da Copa do Brasil em 1994 contra o Grêmio) e fizeram aquilo com a gente. Sérgio Alves ainda recebeu punição. Foi triste, não gosto nem de comentar”. (Seu Chico)

Com 73 anos, Chico já é aposentado mas trabalha por amor ao clube e a si mesmo. Ele recebe a ajuda de mais quatro pessoas diariamente. Há cinco anos perdeu a companheira de 45 anos de história, mas a labuta diária o ajuda a superar a ausência e saudade que sente de sua Dôrinha. “Já tinha conversado com ela (sua esposa) que quando nos aposentássemos iríamos ficar só em casa. Mas Deus teve outros planos e ela fez a viagem, assim não tenho motivos para ficar em casa. Uma mulher faz muita falta em casa”, lamenta.

Conhecedor não só dos cuidados com o gramado, Chico também conhece muito de futebol, e diverge de algumas mudanças que o esporte tomou ao longo dos anos. Segundo ele, foi técnico de futebol quando ainda morava em Uruburetama. No Vovô, sempre bateu papo com os vários treinadores que já viu passar pelo time alvinegro.

Contudo, um em especial conversava mais que os outros. O comandante do time que em 2009 fez história a conseguir o acesso depois de 16 anos, Paulo César Gusmão, o PC. “O PC conversa demais comigo. Discutíamos sobre tática, o fim do ponta no futebol e ele justificava dizendo que o esporte mudou. Então, eu afirmava que não sabia mais nada de futebol”, brincavam.

Em 43 anos de clube, ele presenciou fatos marcantes e também tristes relacionados ao time. O gol de Tiquinho e o tetracampeonato do Vovô em 1978 fez com que Seu Chico se emocionasse. “Vivi muitas coisas aqui no Ceará, mas aquele gol de Tiquinho é marcante e me lembro até hoje”, reitera.

Por outro lado, o vice-campeonato da Copa do Brasil de 1994 ainda traz chateações ao torcedor e funcionário alvinegro. “Fomos até a final e fizeram aquilo com a gente. Sérgio Alves ainda recebeu punição. Foi triste, não gosto nem de comentar”, chateia-se.

“Eles trabalham todos os dias e vejo o esforço. Alguns jogos estamos sem sorte e a arbitragem também não ajuda. Mas vamos sair dessa (zona de rebaixamento).” (Seu Chico)

Com todas as dificuldades financeiras que viveu lá dentro do Vovô durante um tempo, ele agora celebra a fase mais estável relacionada a isso. “Teve uma época que era bem difícil. Chegava aqui e o presidente da época dizia que era melhor tentar outra coisa, porque dinheiro não ia ter. Ia fazer uns bicos, mas seguia por aqui. Graças a Deus as coisas mudaram”, comemora.

Sobre a atual situação do time, ele mostra preocupação. Mas, ele crê que a equipe vai conseguir se salvar. “Olha, não está fácil. Mas eu acredito. Eles trabalham todos os dias e vejo o esforço. Alguns jogos estamos sem sorte e a arbitragem também não ajuda. Mas vamos sair dessa”, afirma esperançoso.

O grande amor pelo Ceará é refletido nas palavras de Chico ao longo da conversa e a coragem de ficar até o fim de seus dias. “Sou feliz aqui no Ceará. Vou ficar por aqui até quando Deus quiser”, finaliza com os olhos marejados e o amor pelo Vovô ecoando no peito.

'Seu' Chico já vivenciou grandes momentos no clube (Foto: Lyvia Rocha/Tribuna do Ceará)

‘Seu’ Chico já vivenciou grandes momentos no clube (Foto: Lyvia Rocha/Tribuna do Ceará)

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Aposentado que herdou emprego do pai trabalha por amor ao Ceará há 43 anos

Oficialmente “Seu Chico” é funcionário do clube desde 1981, mas ele carrega grandes histórias na sua memória desde que começou na sede do clube, em 1972

Por Lyvia Rocha em Ceará

3 de outubro de 2015 às 16:47

Há 3 anos
(Foto: Lyvia Rocha/Tribuna do Ceará)

(Foto: Lyvia Rocha/Tribuna do Ceará)

A conversa vem naturalmente junto com um sorriso tímido, mas com um olhar firme e seguro. As mãos já cansadas de tanto que ajudam aqueles que ganham a vida com os pés, seguem uma na cintura e a outra segurando um dos seus objetos de trabalho: a vassoura. Francisco Coelho Rodrigues, ou simplesmente “Seu Chico”, está em Porangabuçu desde de meados de 1972, apesar de só ter virado oficialmente funcionário em 81, e é o responsável por cuidar dos gramados que ficam em Carlos Alencar Pinto, sede do Ceará Sporting Club.

Ele chegou no local quando o que se via por lá era preferencialmente mato e a cidade não tinha os seus grandes arranhas-céus. Durante os treinamentos uma preocupação era certa: não jogar a bola muito forte ou alta, pois ela poderia se perder. “Quando algum jogador “embarcava” a bola, tínhamos que desmatar para conseguir achar e o treino ou jogo continuar”, relembrou aos risos, ‘Seu’ Chico que presenciou toda a transformação que a sede recebeu.

Mas ele nem sempre tratou apenas do gramado. Amigo de Dimas Filgueiras desde que o carioca chegou na cidade e começou a se envolver no clube alvinegro, Chico trabalhou auxiliando o “coringa” do Ceará e também na concentração. “Ia embora todo mundo e ficava apenas eu e Dimas. Nessa época (comentando sobre o fim da temporada) era só nós dois aqui. Poderia mudar tudo, menos eu e Dimas”, afirma Chico.

“Quando vi Gildo se apresentando aqui, me tornei alvinegro. Jogava muito e o que ele fez pelo Vozão fica marcado na nossa memória até hoje”. (Seu Chico)

Literalmente, ele não ia embora. O homem que deixa a relva bem cuidada, criou seus 8 filhos ao lado de sua esposa dentro da sede. Morou por anos em Carlos Alencar Pinto, período tão grande, que nem ele mesmo sabe ao certo numerar. Lá também viveu momentos tristes como a perda de dois destes filhos. Um deles, ainda recém nascido, ou como ele chama “anjinho”. A dor da perda, foi superada ao longo dos anos com a chegadas dos netos e na sequência os bisnetos.

Sobre o trabalho na concentração, Chico contou algumas peripécias que os atletas aprontavam. “A concentração ficava ali (apontando para o portão da sede que fica pela Avenida João Pessoa), então eles davam um jeito de escapar e “tomar umas”. O que poderíamos fazer? No outro dia, eles arrebentavam”, recorda.

Mas nem só as bebidas desviavam a atenção dos jogadores. “Sr. Chico estou com duas mulheres aqui. O que faço? Mande elas embora, você sabe que aqui não pode ter isso”, recordou o funcionário do Vovô sobre uma das várias conversas desse tipo que aconteciam naquela época, mas sempre preservando a identidade dos envolvidos.

Antes dele, outro membro familiar já prestava serviços para o time alvinegro. O seu pai trabalhou como porteiro durante muitos anos no clube e deixou a herança do trabalho para seu filho. Mas o coração começou a bater mais forte quando Gildo, maior ídolo do Ceará, fez um jogo em Uruburetama, cidade que Chico morava. “Quando vi Gildo se apresentando aqui, me tornei alvinegro. Jogava muito e o que ele fez pelo Vozão fica marcado na nossa memória até hoje”, relata.

“Fomos até a final (da Copa do Brasil em 1994 contra o Grêmio) e fizeram aquilo com a gente. Sérgio Alves ainda recebeu punição. Foi triste, não gosto nem de comentar”. (Seu Chico)

Com 73 anos, Chico já é aposentado mas trabalha por amor ao clube e a si mesmo. Ele recebe a ajuda de mais quatro pessoas diariamente. Há cinco anos perdeu a companheira de 45 anos de história, mas a labuta diária o ajuda a superar a ausência e saudade que sente de sua Dôrinha. “Já tinha conversado com ela (sua esposa) que quando nos aposentássemos iríamos ficar só em casa. Mas Deus teve outros planos e ela fez a viagem, assim não tenho motivos para ficar em casa. Uma mulher faz muita falta em casa”, lamenta.

Conhecedor não só dos cuidados com o gramado, Chico também conhece muito de futebol, e diverge de algumas mudanças que o esporte tomou ao longo dos anos. Segundo ele, foi técnico de futebol quando ainda morava em Uruburetama. No Vovô, sempre bateu papo com os vários treinadores que já viu passar pelo time alvinegro.

Contudo, um em especial conversava mais que os outros. O comandante do time que em 2009 fez história a conseguir o acesso depois de 16 anos, Paulo César Gusmão, o PC. “O PC conversa demais comigo. Discutíamos sobre tática, o fim do ponta no futebol e ele justificava dizendo que o esporte mudou. Então, eu afirmava que não sabia mais nada de futebol”, brincavam.

Em 43 anos de clube, ele presenciou fatos marcantes e também tristes relacionados ao time. O gol de Tiquinho e o tetracampeonato do Vovô em 1978 fez com que Seu Chico se emocionasse. “Vivi muitas coisas aqui no Ceará, mas aquele gol de Tiquinho é marcante e me lembro até hoje”, reitera.

Por outro lado, o vice-campeonato da Copa do Brasil de 1994 ainda traz chateações ao torcedor e funcionário alvinegro. “Fomos até a final e fizeram aquilo com a gente. Sérgio Alves ainda recebeu punição. Foi triste, não gosto nem de comentar”, chateia-se.

“Eles trabalham todos os dias e vejo o esforço. Alguns jogos estamos sem sorte e a arbitragem também não ajuda. Mas vamos sair dessa (zona de rebaixamento).” (Seu Chico)

Com todas as dificuldades financeiras que viveu lá dentro do Vovô durante um tempo, ele agora celebra a fase mais estável relacionada a isso. “Teve uma época que era bem difícil. Chegava aqui e o presidente da época dizia que era melhor tentar outra coisa, porque dinheiro não ia ter. Ia fazer uns bicos, mas seguia por aqui. Graças a Deus as coisas mudaram”, comemora.

Sobre a atual situação do time, ele mostra preocupação. Mas, ele crê que a equipe vai conseguir se salvar. “Olha, não está fácil. Mas eu acredito. Eles trabalham todos os dias e vejo o esforço. Alguns jogos estamos sem sorte e a arbitragem também não ajuda. Mas vamos sair dessa”, afirma esperançoso.

O grande amor pelo Ceará é refletido nas palavras de Chico ao longo da conversa e a coragem de ficar até o fim de seus dias. “Sou feliz aqui no Ceará. Vou ficar por aqui até quando Deus quiser”, finaliza com os olhos marejados e o amor pelo Vovô ecoando no peito.

'Seu' Chico já vivenciou grandes momentos no clube (Foto: Lyvia Rocha/Tribuna do Ceará)

‘Seu’ Chico já vivenciou grandes momentos no clube (Foto: Lyvia Rocha/Tribuna do Ceará)