Tribuna de Honra - Espedito Seleiro

A terceira personalidade homenageada pelo Tribuna de Honra é o artesão e mestre cearense Espedito Seleiro. Natural de Arneiroz, no Sertão dos Inhamuns, Mestre Espedito mudou-se aos 8 anos de idade para Nova Olinda, também no sertão, na mesma época em que aprendeu com o pai, Raimundo Seleiro, a arte de domar o couro. Herdeiro do "criador da sandália de Lampião", Espedito elevou a arte de criar com o couro a um patamar de referência internacional no design. A generosidade, a humildade e o coração tão imenso quanto a grandiosidade de suas obras, permitem-no dizer com todo desprendimento qual lugar na história ele vai ocupar. "Não me considero artista, me considero um seleiro", diz o mestre, fiel às raízes que sustentam o encanto de sua criação por muitas gerações.

Tribuna de Honra. A história viva da nossa gente. Da sua história.

Acompanhe essa história, inspire-se e compartilhe.

EXPEDIENTE

Produção e Reportagem: Társylla Vasconcelos

Equipe técnica: Dorian Girão e Alexandre Duarte

Edição de imagens: João Paulo Memória

Arte: Renato Maia e Tony Wendell

Direção: Beth Caminha

Textos do hotsite: Jéssica Welma

Espedito Seleiro

Era época de chuva, mas o sol estava forte no sertão quando a equipe do Tribuna de Honra cruzou o Ceará rumo à Nova Olinda (a 543,4 quilômetros de Fortaleza) para vivenciar a rotina de Espedito Seleiro. Foram sete dias com os olhos atentos ao movimento das mãos do mestre artesão e ou ouvidos abertos para ouvir sua história de vida e de toda uma cidade que cresceu em torno da arte de Espedito e do trabalho da Fundação Casa Grande - trajetórias que se misturam.

Naqueles dias de março, a garganta de Espedito não estava boa, a voz faltava. No terceiro dia, ele desembestou a falar. Espedito vê alegria na própria história, ainda que difícil em muitos momentos. É bom ouvi-lo. Quando perdeu o pai, teve de terminar de criar dez irmãos juntamente com os próprios filhos. Sempre acompanhado de um aprendiz, Espedito foi ensinando a lida com o couro aos seus, para dar conta da “mantença” da família, com diz.

Um diz se desesperou com as vendas fracas de suas peças. Foi quando decidiu que precisava mudar e apostar no couro colorido, artimanha que desenvolveu a partir de elementos da natureza ao ser desafiado por um cigano a fazer “uma sela que nunca fez pra ninguém”.

Espedito até tentou ser vaqueiro, mas seu futuro mesmo era na arte. Seleiro é cultura, é moda, é design, é artesanato, é história e será ainda muito mais conforme o futuro venha a proporcionar.

Entrevista

Quando e como começou sua relação com o couro, com a selaria?

Sou nascido no Sertão dos Inhamuns (microrregião do sertão do Ceará, composta pelos municípios de Aiuaba, Arneiroz, Catarina, Parambu, Saboeiro e Tauá), metido numa família de vaqueiro, seleiro (quem fabrica sela ou é dono de selaria), essa coisa toda. Como sou filho de vaqueiro e de seleiro, herdei uma profissão que já vem da minha família toda, somos cinco gerações. Quando comecei, mais o meu pai (Raimundo Pinto de Carvalho), tinha oito anos de idade. Como gostei da profissão, fiquei trabalhando sozinho. (Quando) eu tinha 18 anos, meu pai foi embora de novo pro Sertão dos Inhamuns e eu fiquei na mesma vida. Construí uma família, fui ensinando os meus filhos. Meu pai faleceu com 56 anos, deixou 10 filhos, fora eu. Eu trouxe os meninos todos para dentro da oficina, ensinei todo mundo, continuei a vida. Como os meus filhos estavam crescendo junto com meus irmãos, eu tinha muita preocupação, porque a família era grande. Fiquei pensando como era que eu ia dar a mantença daquele pessoal todo, mas eu tenho muita fé em Deus e, até hoje, nunca me faltou momento de alegria, momento de tristeza, porque isso acontece na vida de cada um.

O senhor nasceu Espedito Veloso Carvalho, mas hoje é mundialmente conhecido como Espedito Seleiro. Como foi sua trajetória até ganhar como sobrenome a denominação do seu trabalho?

Eu continuei (o trabalho do meu pai). Como ficou fraco (o mercado), não tava vendendo os produtos, ninguém tava comprando, acabou o vaqueiro, acabou o tropeiro, acabou o cangaceiro – o pessoal que mais usava as peças de couro que a gente fazia no sertão –, eu pensei o seguinte: “poxa, se eu tô com um monte de gente pra dar mantença, e a sede tá vendendo mais os produtos que a gente tá fazendo e tá diminuindo as vendas, então vou ter que mudar. Um dia eu fui pra uma feira, em Campos Sales (a 493,8 quilômetros de Fortaleza). Fiquei até umas três horas da tarde e não apurei dinheiro. Cheguei em casa meio enfezado porque não tinha apurado. Falei pra minha esposa: “não vou parar porque é uma coisa que eu gosto, é um trabalho que é de família. Além disso, eu tenho que manter essa tradição da gente, da minha família, eu tenho que manter isso. Vou mudar todo o estilo do meu trabalho. Se continuar a dificuldade de vender, vou ter que parar, porque num dá”. Mudei o trabalho todo, comecei a fazer as peças coloridas com mais sacrifício, fui mostrando pro pessoal. Hoje, graças a Deus, está tudo dando certo, a gente só se preocupa com as vendas porque é pouca gente para trabalhar.

Como é a rotina de Espedito Selereiro?

Eu me acordo às quatro horas, no máximo quatro e meia. Como hoje a Francisca (Francisca de Brito Carvalho, esposa) vive nessa situação que ela não pode se levantar (sofre com sequelas de um AVC), eu durmo lá pertim dela. Se ela se acordar, eu fico lá até a hora que a menina chega pra cuidar dela. Eu fico com uma coisa roendo por dentro, porque eu sou muito acostumado a chegar na oficina umas quatro horas. Quando eu comecei, morava lá na rua do posto, a oficina era depois da igreja. Eu levantava cedo pra chegar lá na oficina, ir fazendo os modelos que eu queria. Toda vida eu gostei de estar mais um, quando não era meus irmãos, era meus filhos. Esse Maninho (Francisco Hermano, mais novo de seis filhos) mesmo gostava de estar em cima da mesa. Às vezes eu estava desenhando uma cela grande aqui dessas que vocês está vendo, e ele aproveitava e desenhava uma pequenininha. Eu desenhava um chapéu desse e ele desenhava um pequenininho, brincando em cima da mesa. Por isso que eu me acostumei. Depois eu fui aumentando a produção, pegando mais gente para ir me ajudando, aí que eu precisava levantar mais cedo, porque eu precisava fazer os moldes pra passar pra eles quando chegasse. Eu fico com aquele farnizim (agonia, gastura) de fazer alguma coisa.

O senhor chegou a ser vaqueiro como seu pai?

Tem um dizerzim que “quem nasce pra cangalha não dá pra sela”, sabe? (ri) Na cangalha, tu sabe, o serviço é pesado, a sela é praquele pessoal mais chique. Como a gente morava numa fazenda, meu pai trabalhava na fazenda, e o patrão tinha duas fazendas, quando era na época do inverno tinha que tirar o gado que estava aqui na Fazenda Umburana pra tirar pra outra fazenda lá em Farias Brito. Tinha que juntar o pessoal pra sair com o gado, era muito gado. Ele (o patrão) disse: tem que ser uns quatro ou cinco (vaqueiros). Aí ele (o pai, disse): “mas só temos três”. Ele (o patrão) disse: “leva o Espedito”. Eu (estava) doido pra andar montado, porque gostava, sabe? Só que era no limpo, ir pra festa, ir pra feira... Nós começamos a viajar. Quando chegou lá no Sítio Pataraba, tem o que a gente chama de manga: um cercado pra lá, um cercado pra cá e, pegando o meio da estrada, tem uma cancela grande. O retireiro, como a gente chama quem ia na frente chamando o gado, abriu a cancela e continuou a viagem. Como era muito gado, e a cancela estreita, o gado meteu dos pés pra passar tudo duma vez. Teve uma (vaca) que sobrou na cancela, não deu pra entrar, aí ela pegou beirando a cerca. Como o cavalo era acostumado, era de vaqueiro duro de pegar boi mesmo, quando ela saiu da cancela que sobrou e beirou a cerca, ia passando um vaqueiro que deu (um grito) na guardapa da sela: "ô, bichona!". Quando ela (a vaca) partiu, o cavalo pulou lá nos pés dela. Como era dentro do mato, tinha um cipó-cavaleira, o cavalo ia baixando a cabeça pra pegar o cipó por baixo e eu tinha que acompanhar aquilo ali.. E eu sabia (disso)? Quando o cavalo pegou o cipó por debaixo, o cipó me pegou foi aqui (indica o peito, rindo), eu fui cair com umas 20 braças (antiga medida de comprimento equivalente a 2,20 metros) de distância de onde o cipó pegou. Eu não tinha nenhuma experiência. Quando eu caí, o cavalo ficou só olhando pra mim e assoprando: "fronte, fronte, fronte, fí (filho) duma égua você não me pega mais não" (gargalha, personificando o cavalo). Fui lá, tirei o cabresto de baixo da sela e saí puxando (o cavalo). Os meninos estava me esperando, dando risada e mangando deu: "eita vaqueiro mole da peste". Eu disse: “amigão, pegue seu gado e me dê esse cavalo véi aí que eu vou é nele. Nesse cavalo eu não vou mais não. Nunca mais vou ser vaqueiro, eu nunca mais vou correr atrás de ninguém, mas, como eu gosto da profissão, vou ficar fazendo as roupas de vaqueiro.

Hoje o senhor não é mais considerado um seleiro, no termo tradicional da palavra. É um design, um artista. Qual a sua arte?

Não me considero artista, me considero um seleiro. Quando você faz o que você gosta, Deus ajuda, você veve bem, você veve satisfeito com a sua vida e pra que mudar? Se eu estou me dando bem com a profissão de seleiro... Eu estou misturando (as atividades) hoje porque eu resolvi mudar. Por exemplo, a sela que eu fazia era igual a essa (aponta para sela pendurada na loja), é bem feita, bem costurada bem trabalhada, é fofinha, porque o vaqueiro tinha que ter uma selinha fofinha pra passar quatro ou cinco dias montado. Se eu pudesse, todo trabalho que eu fazia, eu guardava, tinha um depósito como daqui no Crato (município vizinho a Nova Olinda) só pra eu guardar, mas, como a gente não pode, tem que vender mesmo. Tem muitas pessoas que diminuem essas costuras. Se aqui tiver três mil pontos, ele vai passar pra 2.500 pontos. (...) Se você não me comprou esse chapéu porque é caro, amanhã eu faço outro mais caro. Não sei se isso é ignorância, se é sabedoria, se é besteira, mas eu gosto de fazer isso. Se eu pego esse desenho e faço uma peça e tu achou caro, eu digo: “ela achou caro porque não tá bem do gosto dela”. Amanhã ou depois, eu pego esse mesmo molde e vou caprichar pra fazer ele ficar mais bem feito, mais bonito, com material melhor e, quando tu chega, tu diz: “agora o jeito que tem é comprar porque agora o bicho tá no meu gosto”. Se você vai diminuindo (o preço) pra vender mais, você não é um comerciante de verdade, você tá enxergando o lucro hoje. Você vai diminuindo o trabalho dum chapéu desse. Amanhã, diminui mais. Ele vai ficar igual um chapéu que você acha na feira, em toda banca, onde você chegar tem. Por isso que gosto de caprichar.

“Não me considero artista, me considero um seleiro”

Suas peças começaram a chamar atenção por causa das cores, uma novidade no trabalho com o couro. Como você descobriu o processo de colorir as peças?

Quando eu comecei a fazer as peças coloridas foi o maior sufoco da vida. Aquela sela que tem no museu (Museu do Ciclo do Couro - Memorial Espedito Seleiro, em Nova Olinda), foi a primeira sela colorida que eu fiz. Era pra ficar diferente das outras que eu já vinha fazendo, era pra um cigano que ia ser o cigano-chefe. (...) O animal dele chega brilhava, cheio de metal cheio, de tudo no mundo. Um dia eles vieram atravessando o sertão dos Inhamuns. (...) Eu tava fazendo uma sela pra um vaqueiro e ele (cigano) ficou observando. Ele disse: “Espedito faz uma sela bem feita pra caramba, e seu eu mandar tu fazer uma diferente, uma sela que você nunca fez pra ninguém, só pra mim, tem condição de você fazer?". Eu disse: “Rapaz, se não for muito difícil…”. Ele disse: “Eu quero uma sela bem bonita”. Eu pensei: “Se vai ser diferente, eu vou aproveitar esse desenho que já existe, só costurado e corto algumas peças por dentro. Fui cortando, ele foi achando bom. Quando eu fui fazer o colorido, cadê o material? Não tinha. Corri lá no mercado em Juazeiro (do Norte), no curtume (local onde é processado o couro), ainda hoje compro no mesmo curtume. Mas, no mesmo curtume onde eu compro hoje, só tinha tudo duma cor, tudo natural.

“Quando eu precisei do no couro preto, pensei na lama que tinha desgraçado o gibão do meu pai”

Eu tinha um pouco de experiência do meu avô e do meu pai. Meu pai era vaqueiro e seleiro. Um dia ele chegou do campo com uma roupa de couro bem novinha que pegou uma chuva no mato e lama de quando o cavalo pisava. Ele chegou e disse: “Espedito, vá lá no açude e dê um banho nesse cavalo que ele tá todo sujo de lama, pegue esse encouramento - ele chamava de encouramento a roupa do vaqueiro - porque eu peguei uma chuva e a lama desgraçou minha roupa, olha como tás a situação: toda manchada de preto. Eu disse: “O que é isso aí?”. Ele disse: “É lama”. Comecei a lavar e a mancha não largava de jeito nenhum. Eu voltei e disse: “Aqui só Deus tira essa mancha. Ele disse: “Vou acreditar porque não precisa você mentir”. Botou pra secar, deu um trato, amaciou de novo. Quando eu precisei do no couro preto, pensei na lama que tinha desgraçado o gibão do meu pai. Eu digo: “olha, se tu desgraçou o gibão do meu pai, eu vou enterrar tu dentro da lama e tu vai ficar preto”. Foi o que aconteceu. Peguei o couro natural, fui lá no açude, puxei a lama com uma enxada do tamanho que era o couro, sentei ele em cima, puxei a lama e deixei lá. Passaram dois dias. Quando eu desenterrei o couro da lama, tava preto virado na bexiga. Pra tirar a lama foi obrigado eu tirar a raspa do Juazeiro (árvore), que ela é uma beleza pra lavar couro.

Foi mais difícil com as outras cores depois de descobrir o preto?

Quando você botava muita casca no couro, o couro ficava marrom, marrom, bonito que só, mas a gente botava menos casca porque era pra ele ficar embranquecendo. Já que eu precisava do couro muito escuro, botei muita casca e deixei passar três dias. Quando eu tirei, tava bem marronzim. Hoje a gente compra toda cor, na época não tinha. Eu já tinha visto meu pai dizendo que tinha feito o couro ficar branco com a cinza de catingueira. A catingueira é uma árvore que tem na mata que a cinza dela é forte igual a potássio. Eu botei fogo na fogueira de catingueira, peguei só a cinza, botei numa lata, furei um buraco no fundo da lata, pendurei lá de trás da casa, botei um pouco de água dentro e mexi com a cinza. Naquele pouco de água que caía, botei um prato de barro embaixo e fui juntando a aguinha. Depois, botei lá de molho. No outro dia, quando eu peguei, o bicho tava todo manchado de branco, tinhas umas partes vermelhas, outras brancas. Comecei a puxar. Já viu fazer alfenim? Eu puxo a cana de mel, melo as mãos de goma, pego aqui e arrasto, vc puxa que as unhas fica roxa. Desse jeito eu fiz com o couro até ficar branco. Como eu espremia muito pra sair aquela água primeira, ficou todo encolhido véi. Peguei uma mesa velha que tinha lá em casa, espichei o couro, passei óleo de peixe, botei pra secar. Quando ele secou, eu enrolei, dei umas pancadas nele e ele amaciou. Precisei do vermelho. Como eu via a minha mãe trabalhando na cozinha e lá no muro tinha um pé de Urucum, tirei os pedaços e disse: “Mãe, vamo fazer uma arte aqu., Vamo pisar no pilão – a gente usava pilão na época –, ela pegou a mão de pilão e deixou só aquela massinha, com cimento, com tudo. Eu misturei com a água, fiz aquela gororoba e passei no couro. Ficou umas manchas vermelhas e outras não. Eu (pensei): "Não vai dar certo isso, vai ficar uma coisa horrível". Botei a massa do Urucum e botei no álcool, não é que aprovou? O álcool some ligeiro, ficou legal pra caramba.

E como ficou a sela do cigano?

Passou bem uns 60 dias, o cigano chegou e disse: “Vim buscar minha sela, tá pronta?”. Eu disse: “Está. Não sei se você vai gostar”. Quando ele viu, ele (disse): “Hômi, tá boa demais”. Eu cobrei um dinheiro lá, ele me pagou e foi embora. Passou foi tempo, depois ele deixou a vida de cigano e comprou um terreno perto de uma fazendinha na Aiuaba (município da Região dos Inhamuns) e ficou lá escondido. Quando foi pra começar essa montagem aí (do Museu do Ciclo do Couro - Memorial Espedito Seleiro, na Fundação Casa Grande), o pessoal começou a me perguntar pelas primeiras peças que eu tinha feito. Contei a história desse cigano e endoidaram pra ir atrás dessa sela. Um dia ele (o filho do cigano) veio passear na casa de uns parentes perto de Assaré (município próximo de Nova Olinda) e veio aqui. Quando chegou aqui, eu disse: “Rapaz, (tu lembra) aquela sela que eu fiz pra teu pai, tu era nascido, mas era bem pequeninim?”. Ele disse: “Meu pai contava essa história e eu tenho essa sela guardada. Agora não tem negócio pra ela, só quando eu morrer”. Eu disse: “Vamos fazer um negócio na sela que eu tô precisando. Ele disse: “Tem negócio não”. Eu disse: “A gente tá fazendo uma montagem aqui (com) uns trabalhos meus dos primeiros que eu fiz, e o pessoal da Secretaria de Cultura me pede muito essas coisas. Se você quiser vender, eu compro; se quiser me emprestar, eu pego emprestada. Como é um museu, se você quiser guardar lá, eu coloco seu nome, da sua família, do seu pai, como você quiser. Lá é até melhor pra tu porque vai ficar até o mundo se acabar. Quando tu morrer, a pessoa vai vender essa sela de graça, vai jogar no lixo. Ele ficou pensando e disse: “Tem jeito pra tu mesmo não. Tu faz uma igual, novinha e me dá mais 200 reais pra eu tomar cachaça hoje”. Eu (disse): “Tá feito. Tome logo os 200 reais e depois venha buscar a sela”. Eu dei um dinheiro a ele e depois ele mandou deixar a sela.

A sela do cigano foi a primeira peça em que o senhor usou o colorido que lhe deu fama. Como a arte começou a ser aplicada em sandálias, bolsas e outros artigos?

Isso (criação da sela do cigano) foi em 59 (1959). Depois da sela pronta, (eu pensei): “Vou ter agora que passar o desenho dessas selas pras sandálias, pras bolsas. Mandaram pegar uma sandália lá no Recife (PE) que era do Lampião (Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião, foi um cangaceiro brasileiro que atuou no Nordeste). Ele tinha morrido com ela no pé. (Quando) chegou, (vi que) a minha tava mais bonita. Eu num ia fazer coisa pra ficar (com) nome dos outros. O modelo é o mesmo, o solado não é quadrado, mas as peças de cima são. Eu disse: “Já que tô fazendo sandália do modelo que o Lampião usava, agora vou fazer a da Maria Bonita (Maria Gomes de Oliveira, esposa de Lampião). Fiz uma e mandei a Violeta Arraes (socióloga, psicanalista e ativista política brasileira, natural de Araripe, no Ceará). Ela andava o mundo todinho e só andava com essa sandália. Quando se acabava uma, ela vinha pegar outra e brigava comigo porque eu era desmantelado. Ela chegava e brigava: “Seu Espedito, você tem que se organizar. Não vou dizer pra botar na vitrine porque é um trabalho artesanal e não vai precisar disso, basta um espaço reservado. Você tem que dar valor porque o povo vai correr atrás disso aqui e vai ficar é doido copiando”. Comecei a fazer as prateleira. Ela chegava (em Nova Olinda) com os amigos famosos dela. Às vezes o artista era famoso dos Estados Unidos. Ela nem vinha durante o dia pro povo não correr atrás (do artista), chegava às dez horas, onze horas da noite. Ela ligava pra eu esperar por ela.

O senhor herdou a fama de seu pai de ter feito a sandália do Lampião. Como foi essa história?

A sandália do Lampião é essa aqui (mostra a sandália na loja), mas, antes do pessoal conhecer a história, se chamava “cobertão”. (O nome) Lampião ficou agora, (porque) o modelo era dele, foi ele quem desenhou. A história da sandália ficou conhecida no Brasil e no mundo por isso. O Lampião morava na Serra Talhada, aqui no Pernambuco, quando aconteceu os problemas com a família dele (o pai de Lampião foi morto em confronto com a polícia), ele não quis ficar lá (entrou para o cangaço após o episódio e, com seu bando, percorreu muitos estados do Nordeste). Ele atravessava sempre por aqui, pelo Ceará, nas carreira (às pressas). Às vezes parava no Juazeiro (do Norte), e tirava pra Paraíba. Eu não conheci o Lampião. Nasci em 39 (1939) e Lampião morreu em 38 (1938). Meu pai quem contava a história: estava fazendo uma sela pra ir pegar boi com os colegas. Chegou um cabra do Lampião (como eram chamados os homens que seguiam o “Rei do Cangaço”) (e disse) como é seu nome? Ele (o pai) disse: “É Raimundo Pinto de Carvalho, mas o povo me conhece como Raimundo Seleiro”. Ele (o cangaceiro) disse: “Seu Raimundo, se eu trouxer um modelo de apragata (alpargatas) tu faz? Ele (o pai) disse: “Faço. Não sou bom de calçado, mas um parzin assim pra uma pessoa eu faço. Ele (o cangaceiro) disse: “Daqui a uma hora e meia, eu vou trazer o modelo”. Voltou, tirou de dentro da capanga (bolsa pequena de couro) dele um moldezim só rabiscado num papel. Meu pai recebeu e disse que ia arriscar afazer. Ele achou diferente que era um solado quadrado e ele nunca tinha feito. Ele (o cangaceiro) disse: “No máximo, (em) 30 dias tô passando pra pegar”. Quando voltou, foi lá (na casa do pai e perguntou): “Seu Raimundo, as apragata tá pronta?” Ele (o pai) entrou lá dentro do quarto e trouxe. “Era desse jeito?”, (perguntou Seu Raimundo). “Era. Diga logo quanto é que eu vou pagar. Agora, se você acertar pra quem você fez essas apragata eu vou lhe pagar dois valor”, (disse o cangaceiro). Ele (o pai) disse: “Foi pra você que mandou fazer”. Ele (o cangaceiro) disse: “Não, você fez essas apragata pro Coronel Virgulino (Lampião). Diga logo quanto é”. Meu pai ficou foi com medo. Ele disse que ficou com tanto medo que pensava que o Virgulino tava bem pertim escutando a história. Ele (o pai) disse: “Não é nada não, foi a primeira que eu fiz, pode levar”. O cara foi embora. Depois como era a passagem deles, ele (Lampião) mandou um punhal pra meu pai de presente. Quando meu pai tinha morrido, já fazia bem muito tempo que minha mãe tinha esse punhal guardado, minhas irmãs encontraram em um baú. Eu nem sabia que tinha esse baú. Hoje não vou mostrar ao punhal porque emprestei pra uns meninos de Assaré que iam fazer um filme.

“Meu pai ficou foi com medo. Ele disse que ficou com tanto medo que pensava que o Virgulino tava bem pertim escutando a história”.

Quais são as inspirações do senhor?

São três pessoas que adoro copiar as coisas deles: Luiz Gonzaga (compositor e cantor nordestino, conhecido como “Rei do Baião”) - não é nem cópia, porque eu fiz o que ele me pediu; as coisas de Lampião - não conheci o Lampião, conheci apenas a história, mas adoro fazer as coisas que ele usava e a vaqueirada. Penso, até hoje, que eu não parei, vou ter que fazer um local, antes de eu me mudar daqui da Terra - tenho a maior vontade de deixar isso preparado - uma parte guardada com a roupa do vaqueiro, a roupa do cangaceiro e a roupa do cigano. Vaqueiro, cigano e cangaceiro: são as três coisas em que gosto de me inspirar. Tirando isso, me inspiro muito nas coisas do sertão, é a flor do mandacaru, a flor do pau ferro, adoro muito as matas… Pelo meu gosto eu morava no sítio.

“Vaqueiro, cigano e cangaceiro: são as três coisas em que gosto de me inspirar”

O que Nova Olinda representa para o senhor?

Tudo. Tem gente que mora e fala mal do lugar (em) que vive. Se eu tô aqui é porque eu gosto de Nova Olinda. Foi onde eu comecei meu trabalho, foi onde as pessoas me valorizaram, me deram um pouquinho de confiança, onde criei minha família e é onde tô vivendo, Quando eu cheguei aqui não era a Nova Olinda de hoje, era só mato. (...) Foi onde tive a felicidade de viver com meus amigos, conhecer gente de fora que eu adoro. Eu só tenho que falar bem.

O senhor é conhecido fora do Brasil. Se alguém oferecer um dinheirão para o ir embora de Nova Olinda, o senhor vai?

Vou não. Eu adoro fazer as coisas que gosto, eu adoro morar onde eu gosto. Só não fiz nascer aqui, mas nasci aqui pertinho, numa cidade chamada Arneiroz. Cheguei aqui com oito anos Fiquei em Nova Olinda até hoje, nunca saí daqui, só pra passear. (...) O cara pra me arrancar daqui tem que ter o lábio sadio porque, se não for, dinheiro pouco não leva, não (risos). A pessoa pergunta: "Seu Espedito, se eu lhe der um ponto equipado, com tudo o que você precisa pra você sair de Nova Olinda e ficar numa cidade grande, porque seus produtos merece tá numa cidade grande, (o senhor vai?). Eu digo: “Você pegue tudo o que você tem e que está me oferecendo e traga pra cidade pequenininha pra ela crescer”. Sou uma pessoa que, se eu pudesse, não via ninguém sofrendo e eu gosto muito de ajudar o pessoal. Se eu tivesse lá em Fortaleza, vocês não tinha vindo para Nova Olinda e tem muitas pessoas que vêm para conhecer o trabalho, pra conhecer Espedito Seleiro, conhecer algumas coisas que existem na cidade. Se nós se instalar em Fortaleza, em São Paulo, em Brasília ou no Rio Janeiro, por aí a fora, o que a gente tem para oferecer ao pessoal de fora? Então você vem aqui, passa três, quatro ou cinco dias, você está me ajudando porque comprou um par de sandália, mas você vai pra (Fundação) Casa Grande, almoça e janta, você dorme, e também está ajudando o pessoal daqui. Como a cidade é pequenininha, carente, a gente tem que puxar o pessoal de fora, que tem dinheiro pra vir gastar aqui pra gente sobreviver aqui, todo mundo junto.

“Você pegue tudo o que você tem e que está me oferecendo e traga pra cidade pequenininha pra ela crescer”

O que a Fundação Casa Grande significa para o senhor?

A Fundação Casa Grande foi um presente que a Nova Olinda ganhou porque, antes, Nova Olinda vivia que nem um peba (tatu-peba) dentro dum buraco. Ninguém conhecia Nova Olinda. Hoje a Nova Olinda está conhecida no Brasil e no mundo todo. Dali (da Fundação) já saiu muita gente formado e, além disso, tem o apoio para as crianças e também para os pais das crianças.

O Alemberg Quindins (criador da Fundação Casa Grande) foi o pontapé inicial para Espedito ser o que é hoje?

Ele me ajudou muito. Alemberg anda só que burro (jumento) de padre (ditado popular para que percorre diversos lugares) e só usa as peça de Espedito Seleiro. Ele saía daqui e ia pra reunião fora do Brasil, pegava a sandália, botava em cima da mesa assim (faz o exemplo levantando a perna). Ele (ficava) conversando e o pé desse jeito. Quando ele voltava, olha o tamanho do papel cheio de encomenda (mostra com as mãos separadas). Ele achava bom aquilo e eu também achava porque estava me ajudando, estava levando o meu trabalho para o mundo. Quando eu era criança, dei minha mão pra uma cigana ler. Ela disse: “Quando você tiver a idade de 40 anos pra, frente você vai ter um amigo que vai lhe ajudar em tudo o que você pensar na sua vida e você vai melhorar de vida”. Eu disse: “Mas eu vou sofrer daqui até completar 40 anos?” (risos). Mas aquilo, como uma brincadeira de cigano, a gente nunca levou a sério. Um dia desse eu estava pensando nos acontecidos que já passaram. Eu acho que o Alemberg era o cara que o cigano estava vendo.

Qual a sua missão, Seu Espedito?

Eu não vou falar nada agora porque tô pensando muita coisa daqui pra frente. Já tô num ponto que não vou dizer: “tô realizado”, mas acho que, se mudar amanhã pra outro lugar, eu já tenho que agradecer a Deus, deixar do jeitim que tá e os outro toma conta daqui pra frente. Eu quero é que os outros continuem. Só que, enquanto eu estiver movimentando com coragem, eu ainda tenho muitas coisas pra fazer. Não tô dizendo que tô parando, porque a gente nunca deve parar. A gente deve ir pensando e criando mais coisas para ficar melhor para os que vão ficar tomar de conta.

Cronologia

  • 1939 - Nasce Espedito Veloso de Carvalho, filho de Raimundo Pinto Carvalho e Maria Pastora Veloso, em 29 de outubro, na Fazenda Poço do Novilho, em Arneiroz.
  • 1947 - Aos oito anos de idade, faz seu primeiro trabalho como seleiro: uma malinha de couro cru para sua mãe.
  • 1950 - Muda-se para Nova Olinda, aos 11 anos de idade, fugindo da seca com a família de dez irmãos para trabalhar com gado e lavoura no Sítio Umburana.
  • 1960 - Casa-se, aos 21 anos, com Francisca de Brito Carvalho, de 13 anos, com quem tem nove filhos. Seis sobreviveram, três homens e três mulheres.
  • 1971 - Morre o pai Raimundo Pinto Carvalho, e Espedito assume a criação dos irmãos mais novos.
  • 1992 - É restaurada a Casa Grande de Nova Olinda e com a chegada de turistas na cidade o trabalho de Espedito se populariza.
  • 2005 - Suas peças são expostas durante a semana de moda nacional, no 19° São Paulo Fashion Week, em julho de 2005, quando inspirou e produziu acessórios para a marca Cavalera, sendo o convidado de honra no desfile.
  • 2007 - Fez o gibão que vestiu o ator Marcos Palmeira no filme "O Homem que Desafiou o Diabo".
  • 2008 - Espedito Seleiro é diplomado "Tesouro Vivo" e seu nome inscrito no registro dos mestres da Cultura Tradicional Popular, a partir da Lei dos Tesouros Vivos da Cultura, do Governo do Ceará (N° 13.842, em novembro de 2006).
  • 2009 - É homenageado como Mestre da Cultura pela Secretaria da Cultura do Ceará.
  • 2011 - É agraciado com a medalha "Ordem do Mérito Cultural", do Ministério da Cultura.
  • 2012 - O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), com o Ministério da Cultura e o Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular realizam no Rio de Janeiro a exposição "Espedito Seleiro: da sela à passarela".
  • 2013 - A exposição segue para São Paulo, onde fica exposta por dois meses na CASA Museu do Objeto Brasileiro.
  • 2014 - Em dezembro, é inaugurado o "Museu do Couro - Memorial Espedito Seleiro", em Nova Olinda, a partir da parceria entre Espedito e o fundador da Casa Grande, Alemberg Quindins.
  • 2015 - Os designers Fernando e Humberto Campana, os Irmãos Campana, em parceria com Espedito Seleiro, lançam a coleção "Cangaço", com seis peça de mobiliário criadas pelos irmãos e revestidas com a arte e Seleiro.
  • 2016 - Livro "Meu Coração Coroado - Mestre Espedito Seleiro", escrito por Eduardo Motta, é lançado no Dragão Fashion Brasil 2016. É homenageado no desfile da estilista cearense Gisela Franck no DFB. É homenageado na exposição "Mestre Espedito Abre Sua Casa" no Shopping Iguatemi.

Bastidores

Espedito Seleiro é um homem que transborda humildade nas próprias palavras. Com camisa de botão, bermudas e sandália de couro, o mestre se senta na calçada da rua e entrega-se à simplicidade da vida no campo que ele mesmo escolheu. Com a voz falhando por causa de uma crise de garganta, ri ao tomar água com limão ao invés de uma “cachacinha” para aliviar a tosse como recomendam os mais antigos do campo.

Se sua voz falha, há muitas outras vozes capazes de dar vida à grandeza de Espedito Seleiro. Nas palavras dos “outros”, o designer é transbordado por versos de admiração que ultrapassam as fronteiras da pequena Nova Olinda e ganham o mundo e a memória de uma nação.

Depoimentos

Alemberg Quindins, fundador da Fundação Casa Grande

Conheci Espedito Seleiro em 92 (1992), quando, na inauguração da Fundação (Casa Grande) fizemos uma exposição sobre o cangaço. Quando terminou a exposição, eu peguei essa chinela, antes de um senhor vir buscar aqui o material da exposição dele, levei em seu Espedito e disse: “Seu espedito, eu tô querendo uma chinela, onde seja essa chinela a chinela do Lampião, mas eu tô querendo a arte do vaqueiro”. Ele era um seleiro já com a qualidade diferenciada. Eu identifiquei a sela que ele tinha lá e eu disse: eu quero os detalhes dessa sela no peito dessa chinela, mas, no centro, coloque aquela amêndoa central que tem na fachada da Casa Grande.

Eu escolhi as cores, sendo o couro virado para não parecer industrial. Ele fez de couro de bode. Depois que fez, passou um limão pra ela ganhar uma cor. Quando Regina Casé (apresentadora de TV) veio gravar o primeiro programa Brasil Legal foi comigo, veio gravar na Fundação e eu gravei com a chinela de Seu Espedito Seleiro e Regina Casé gravou com um gibão de Seu Espedito. Guel Arraes (cineasta e diretor de TV), da produtora, que fez o Auto da Compadecida (minissérie e filme) e comprava todas as suas chinelas em Pernambuco, passou a comprar também todo o material dele em Seu Espedito. Regina, na época, pertencia ao grupo de Guel lá na Globo (emissora de TV), consequentemente, a tia de Guel, que é dona Violeta Arrais, muito amiga de dona Ruth Cardoso (ex-primeira-dama do Brasil, em memória), passou também a encomendar bolsas, as coisas a Seu Espedito Seleiro. A partir desse momento, Espedito Seleiro, há uma transformação, passa de seleiro para designer.

Eduardo Motta - autor do livro “Meu Coração Coroado - Mestre Espedito Seleiro”

Eu estava viajando pelo Nordeste quando, acidentalmente, eu fui parar no Cariri e conheci as coisas do Espedito. A minha primeira impressão foi de assombro, porque a gente tem uma imagem de Nordeste, de sertão, como algo seco, árido, monocromático. De repente você entra em contato com aquele trabalho do Espedito que é um espetáculo de cores, é uma coisa otimista. Desde aquela época, isso há quase 20 anos, eu já fiquei bastante impressionado com o que eu tinha visto”

Tem uma coisa muito impressionante no trabalho do Espedito que é a empatia que as pessoas têm com ele. Por que tanta gente bate o olho no trabalho do Espedito e se reconhece naquilo?. Porque ele é depositário de muitas coisas que, de alguma maneira, a gente lê como nossa, como algo que lhe pertence de alguma maneira. Todo mundo se sente um pouco dono do Espedito.

Gisela Franck, estilista cearense

Meu pai me apresentou Seu Espedito há muito tempo, porque ele tem uma ligação com Nova Olinda, com o Cariri. Eu estava para fazer o (desfile no) Dragão Fashion Brasil, sem saber do que eu faria. Meu pai falou: "por que não falar de Seu Espedito?". Eu fui pra lá, fui sozinha, aluguei um carro cheguei lá na casa dele e fui pedir a permissão pra fazer um trabalho em homenagem a ele. Não era fazer o que ele faz, porque ele está vivo e faz isso com maestria, é a obra dele. Pedi permissão para fazer uma homenagem. E ele não só permitiu como me disse: "vou fazer junto com você". Foi incrível! Um momento, uma história que vou levar para o resto da minha vida".

Prefeito de Nova Olinda, Afonso Domingos.

“Falar de Nova Olinda sem trazer Espedito Seleiro na primeira palavra, está esquecendo de uma grande parte. Na minha adolescência, ele já era uma referência para nós Nova Olindenses. Na minha adolescência, era um ponto a oficina de seu Espedito Seleiro de se arrumar um gibão, uma correia de perneira, e era um ponto em que os vaqueiros todos se encontravam, já era uma referência, era onde Nova Olinda se encontrava.