Da mesma forma que se reinventa a cada cair de chuva, o sertão cearense se abre em novos aspectos para cada olhar que busca retratá-lo. Como dito por Euclides da Cunha no clássico “Os Sertões”: “Canudos não se rendeu”, assim também segue sem se render o cearense, apesar da seca histórica que enfrenta. A TV Jangadeiro conta a história de diferentes sertanejos nas cidades de Quixeramobim, Tauá e Pedra Branca que representam, cada um com sua particularidade, histórias de resistência. “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”. E resiste.

Expediente

Reportagem: Alan Lima

Fotografia: Alan Lima

Equipe técnica: Nasion Frota e James Taylor

Produção: Diego Lage

Edição de imagens: Izabel Augusto e Glauber Andrade

Edição do hotsite: Jéssica Welma e Adriano Paiva

Direção de Jornalismo: Isabela Martin

Implementação: Index Digital

1 - A terra (Quixeramobim)

Quixeramobim
“E o sertão é um vale fértil. É um pomar vastíssimo, sem dono”
Euclides da Cunha - Os Sertões

Um contraste no meio do sertão: é essa a impressão possível quando se chega ao Vale do Forquilha, no distrito de São Miguel, em Quixeramobim, a 200 quilômetros de Fortaleza. Enquanto a seca e o atraso tomam conta da paisagem no restante do Ceará e, até mesmo, em parte de Quixeramobim; nessa comunidade, a realidade é bem diferente.

“Aqui, nós estamos no céu”, diz o agricultor Antônio Aurino, consciente da realidade que assola o sertanejo quando falta chuva.

A mudança no Vale começou nos anos 1990. Cansados de sofrer com a seca e de perder plantações e animais, alguns agricultores se juntaram e adquiriram dois poços profundos. Através deles, passaram a usar a água através de pingos nas plantações. A técnica, além da nova realidade, deu nome ao projeto: Pingo D’água.

A partir dos pacientes pingos de água, os moradores puderam garantir a produção ao longo do ano, sem precisar contar com a chuva. Em outubro, por exemplo, é época de produção do pimentão. O terreno chega a produzir cerca de 100 caixas por semana.

Essa também é época boa para o mamão. A média é de 100 caixas por semana, o equivalente a quatro toneladas por mês em plena falta de chuva.

Toda essa fartura faz com que os agricultores colham não só frutos de comer, mas também financeiros. Alguns conquistaram o privilégio de ter piscina em casa, churrasqueiras e motos. Vivem confortáveis com uma renda média de 1500 reais por mês.

Terra farta também é sinal de emprego. Os jovens da comunidade já não sentem necessidade de irem para a capital. Um dos exemplos é a tecnóloga em alimentos, Marleide Vitoriano. Aos 20 anos, ela coordena a equipe da fábrica de polpas que recebe parte da colheita que vem para a fábrica e pertence à cooperativa dos agricultores.

Desde o esmagamento até o armazenamento: tudo é feito sob o olhar da jovem.

Quixeramobim - Projeto Pingo D'água. (Foto: Alan Lima/TV Jangadeiro)

Quixeramobim - Projeto Pingo D'água. (Foto: Alan Lima/TV Jangadeiro)

Quixeramobim - Projeto Pingo D'água. (Foto: Alan Lima/TV Jangadeiro)

Quixeramobim - Projeto Pingo D'água. (Foto: Alan Lima/TV Jangadeiro)

Quixeramobim - Projeto Pingo D'água. (Foto: Alan Lima/TV Jangadeiro)

Quixeramobim - Projeto Pingo D'água. (Foto: Alan Lima/TV Jangadeiro)

Quixeramobim - Projeto Pingo D'água. (Foto: Alan Lima/TV Jangadeiro)

Quixeramobim - Projeto Pingo D'água. (Foto: Alan Lima/TV Jangadeiro)

Quixeramobim - Projeto Pingo D'água. (Foto: Alan Lima/TV Jangadeiro)

Porém toda essa fartura já passou por problemas. Há dois anos, a água proveniente do subsolo começou a ficar escassa. A saída foi armazená-la em tanques. Daí, surgiu uma nova ideia: criar tilápias nesses locais e ter mais uma fonte de renda.

A novidade melhorou ainda mais a utilização da água na comunidade. Dos poços, a água vai para os tanques, passa pelo decantador e, em seguida, é reaproveitada e distribuída para a irrigação nas plantações e na horta.

A realidade do Vale do Forquilha também tem impactos econômicos e sociais: a Prefeitura de Quixeramobim já utiliza as frutas e verduras na escola pública de São Miguel.

O presidente da cooperativa dos agricultores, Deusimar Cândido – idealizador de tudo, afirma que falta mais apoio do poder público. Segundo ele, apesar de apoiar, o Governo do Estado ainda não fortaleceu a ideia.

A seca é um problema permanente, mas essas pessoas aprenderam a conviver com ela. Assim, o povo de Forquilha mostra sorriso no rosto, são orgulhosos por conseguirem viver da agricultura.

A satisfação que se vê reforça os versos da música “O Último Pau de Arara”, imortalizada na voz de grandes nomes da música, como Luiz Gonzaga, Gilberto Gil e Fagner: “A vida aqui só é ruim quando não chove no chão, mas se chover dá de tudo, fartura tem de montão, tomara que chova logo, tomara, meu Deus, tomara”.

“E o sertão é um paraíso...”
Euclides da Cunha - Os Sertões

2 - O Homem (Tauá)

Aproxima-se a seca. O sertanejo adivinha-a e graças ao ritmo singular com que se desencadeia o flagelo. Entretanto não foge logo, abandonando a terra a pouco e pouco invadida pelo limbo candente que irradia do Ceará.
Euclides da Cunha - Os Sertões

A paisagem triste prossegue quando se olha para o homem triste e para a terra seca ao redor dele. O cenário devastador que entristece qualquer um fica em Tauá, no Sertão dos Inhamuns, a 337 quilômetros de Fortaleza.

Em Tauá, os índices de chuva, historicamente, são baixos. Este ano choveu quase 30% (29,8%) abaixo da média.

A tranquilidade do centro do município disfarça a realidade das comunidades sertanejas. A devastação da seca se reflete nas pontes que passam por cima de riachos secos pelos percursos.

A falta d'água é um problema crônico na região. Mas, depois de seis anos seguidos com chuvas abaixo da média, o que se vê por todo lado é um cenário entristecido. Onde havia alguma água, só resta a poeira fina da terra.

No leito do riacho Castelo, que secou, o homem atravessa por baixo de sua ponte, a passos firmes na terra onde, antes, a água dominava.

A pouca água acabou de vez com a renda das famílias. Na realidade que se desenha no dia a dia do pobre sertanejo, cabe espaço para lamentos e para pobreza extrema.

Tauá - A seca é severa após seis anos de poucas chuvas. (Foto: Alan Lima/TV Jangadeiro)

Tauá - A seca é severa após seis anos de poucas chuvas. (Foto: Alan Lima/TV Jangadeiro)

Tauá - A seca é severa após seis anos de poucas chuvas. (Foto: Alan Lima/TV Jangadeiro)

Tauá - A seca é severa após seis anos de poucas chuvas. (Foto: Alan Lima/TV Jangadeiro)

Tauá - A seca é severa após seis anos de poucas chuvas. (Foto: Alan Lima/TV Jangadeiro)

Tauá - A seca é severa após seis anos de poucas chuvas. (Foto: Alan Lima/TV Jangadeiro)

Pau de Fogo

A 30 quilômetros da sede, chega-se à comunidade Pau de Fogo, no distrito de Marruás. No local, as cerca de 46 famílias resistentes dependem de um poço e do abastecimento de carro pipa.

No sertão seco, onde nem mesmo as plantas acostumadas com a falta d’água sobrevivem, não é difícil presenciar cenas de dor: é o gado morto que apodrece nas estradas, é o rebanho magro e minguante de ovelhas, é a vegetação sem vida…

Como se a situação não pudesse ficar pior para essas pessoas, os poços profundos também secaram. Foi uma saga conseguir a escavação de um novo poço. É essa água que garante a essas pessoas o direito de cozinhar, tomar banho e dar de beber aos animais.

O que dava esperança aos sertanejos dessa região do Ceará era o açude que leva o mesmo nome do vilarejo. A água já não existe mais. E a esperança?

“Nosso sertanejo faz exceção à regra. A seca não o apavora. É um complemento à sua vida tormentosa, emoldurando-a em cenários tremendos. Enfrenta-a, estóico. Apesar das dolorosas tradições que conhece através de um sem-número de terríveis episódios, alimenta a todo o transe esperanças de uma resistência impossível”.
Euclides da Cunha - Os Sertões

O dia amanhece ao cantar do galo. O relógio marca 5h30min da madrugada. O sol começa a sair tímido, e o canto do galo vai despertando o sertanejo.

Na casa de taipa quase em meio ao nada, dona Socorro Maria de Freitas é a primeira a acordar para um novo dia de incertezas. O desjejum da família só está garantido se tiver sobrado pó de café do dia anterior.

Da janela da casa simples, cercada apenas pela paisagem de terra e de mato seco até onde a vista alcança, Socorro é o retrato triste da vida difícil e carente do sertão. Aos 46 anos, deficiente de uma perna e sem o movimento de uma das mãos, nunca conseguiu terminar o ensino fundamental. O marido, seu Luiz Gonzaga, além de hipertenso e diabético, tem dificuldade de andar após sofrer com uma trombose.

No Brasil são consideradas extremamente pobres as pessoas que vivem com até 77 reais por mês. Mas no sertão cearense há famílias que vivem com menos que isso. E pior: sem chuva, muitas delas não conseguem sequer plantar a própria comida.

Dona Socorro e Seu Luiz se enquadram nesse perfil. Sem trabalho e sem plantação, eles também não recebem nenhum benefício do programas federais, como o Bolsa Família.

Apesar das deficiências de ambos, não sabem explicar como nunca conseguiram a aposentadoria por invalidez. Para eles a sobrevivência é através de doação.

À tarde, mesmo com dor, Seu Luiz pede esmola na vizinhança, em Tauá. Na última vez em que tentou plantar algo para comer, a falta de chuva arruinou tudo. “Não tirei uma espiga de milho pra comer assada”, conta.

Tauá - Família de dona Socorro e seu Luiz vive em extrema pobreza. (Foto: Alan Lima/TV Jangadeiro)

Tauá - Família de dona Socorro e seu Luiz vive em extrema pobreza. (Foto: Alan Lima/TV Jangadeiro)

Tauá - Família de dona Socorro e seu Luiz vive em extrema pobreza. (Foto: Alan Lima/TV Jangadeiro)

Tauá - Família de dona Socorro e seu Luiz vive em extrema pobreza. (Foto: Alan Lima/TV Jangadeiro)

Tauá - Família de dona Socorro e seu Luiz vive em extrema pobreza. (Foto: Alan Lima/TV Jangadeiro)

Tauá - Família de dona Socorro e seu Luiz vive em extrema pobreza. (Foto: Alan Lima/TV Jangadeiro)

Tauá - Família de dona Socorro e seu Luiz vive em extrema pobreza. (Foto: Alan Lima/TV Jangadeiro)

Tauá - Família de dona Socorro e seu Luiz vive em extrema pobreza. (Foto: Alan Lima/TV Jangadeiro)

Quando o sol se põe, mais um choque de realidade. Para quem está acostumado com as facilidades da cidade grande, dói no coração ver a família viver sem energia elétrica. Iluminação só da lamparina e quando há combustível.

No dia seguinte, a família não teria mais nada para cozinhar. A equipe de reportagem voltou à cidade para trazer um mínimo de garantia alimentar para os próximos dias dos moradores daquela casa.

O relógio já marcava nove da noite. Depois da surpresa da família com a comida que chegou, era hora de preparar o quarto para dormir. A casa típica do sertão devastado não tem água, muito menos conforto. O véu ao redor da cama é tudo o que os separa dos mosquitos, que são muitos, durante a noite.

Seu Luiz já foi picado por um barbeiro, inseto típico em casas de barro e transmissor de uma doença fatal: a doença de chagas, popularmente conhecida como “coração crescido”.

Mesmo sem conhecimento da escola, essas pessoas nos enchem de lições. Todas as noites, eles agradecem pela vida que têm e pedem apenas força para o próximo dia.

3 - A Luta (Pedra Branca)

“As caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta. Entram também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis, ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e cresceu”.
Euclides da Cunha - Os Sertões

Ao chegar ao município de Pedra Branca, a 361 quilômetros da Capital, é impossível não reparar na quantidade de cisternas espalhadas. São 99 caixas d'água como essa para abastecer cerca de 43 mil moradores.

Há dois anos, o município é abastecido por carros-pipa, não apenas na região rural. A sede de Pedra Branca não é diferente. O ronco do motor dos caminhões ao chegar na cidade é um alívio para os moradores.

O barulho da água saindo do caminhão já é parte do significado de sobrevivência da população. Ao longe, já se vê a fila de baldes secos à espera de um pouco dos 5 mil litros dos tanques que não duram muito tempo.

Há mais de um ano, o açude Trapiá, que abastece a cidade, secou. As bombas d'água já não estão submersas e, consequentemente, não funcionam. As gaiolas de criação de tilápia abandonadas na terra seca trazem à memória os anos de fartura.

O homem caminha e os animais pastam tranquilamente onde antes os pés não chegavam. O sangradouro tornou-se ponte de travessia para pessoas e veículos.

A Defesa Civil de Pedra Branca é a responsável por atender os moradores da zona urbana. São 32 áreas de abastecimento, mas há apenas seis caminhões para fazer esse trabalho. Por causa da sobrecarga, regiões que deveriam ser abastecidas todo dia, só recebem os carros, no máximo, duas vezes por semana.

Além das 99 caixas d'água, a Prefeitura já instalou 18 poços profundos para tentar diminuir a espera. Ainda assim, há quem prefira esperar o carro-pipa para consumir uma água menos “salgada”.

“A de lá (do poço) é muito salgada. Eu compro água e venho buscar aqui (no poço) só para cozinhar. Já vivo cheia de dor de tanto carregar água”, conta a gari Diva de Sousa.

O coordenador da Defesa Civil, Danilo Leite, afirma que a Prefeitura tem feito todos os esforços possíveis, mas o Ministério da Integração precisa mandar mais verba.

Pedra Branca - Moradores vivem luta diária por água potável. (Foto: Alan Lima/TV Jangadeiro)

Pedra Branca - Moradores vivem luta diária por água potável. (Foto: Alan Lima/TV Jangadeiro)

Pedra Branca - Moradores vivem luta diária por água potável. (Foto: Alan Lima/TV Jangadeiro)

Pedra Branca - Moradores vivem luta diária por água potável. (Foto: Alan Lima/TV Jangadeiro)

Criar para sobreviver

Na cidade, além de brotar esperança debaixo da terra, brota também criatividade das pessoas. Na casa do aposentado Manoel Nascimento, é um motor caseiro, inventado por ele mesmo, que garante a água para os moradores.

Devido a um acidente vascular cerebral (AVC), ele não pode pegar peso, nem sempre os filhos também estão por perto para ajudar.

A situação crítica de escassez hídrica poderia mudar, e a água que falta já sairia das torneiras se a transposição do Rio São Francisco se tornasse realidade. A esperança é que essa obra reduza os problemas com a seca e, de alguma forma ,chegue até essas pessoas.

Enquanto isso não acontece, o povo, que não deixa o sorriso ir embora, só pode contar com a fé. A cada pequeno sinal de trégua na estiagem, a cada nuvem cinza no céu, nasce uma nova esperança no coração que teima em pulsar verde, como a vegetação que espera novamente desabrochar.

“A luta é desigual”
Euclides da Cunha - Os Sertões
"O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral”.
Euclide da Cunha, Os Sertões