Imagine que você é o cliente de uma loja de sapatos que há muito tempo espera um produto específico baixar o preço. Qual a melhor opção: torcer para que o vendedor lembre-se do seu desejo e ligue para informar o desconto ou receber uma notificação imediata em seu celular através de um aplicativo? Buscamos facilidades e, quando ela está na palma da mão, é melhor ainda.

O novo momento da economia brasileira exige uma mudança na relação entre vendedores e consumidores. O Tribuna do Ceará reuniu três empreitadas de sucesso geradas por empreendedores do varejo cearense que podem aumentar a produtividade dos negócios para além do Brasil.

“Quando a gente conceitua inovação, é óbvio que inovar é você fazer diferente. Se procurarmos no Google, vamos encontrar várias definições, mas, no varejo, ela (inovação) nasce da necessidade. O pontapé inicial é entender onde se está precisando inovar, então você mapeia qual é a dificuldade que tem hoje”, ressalta a especialista em Soluções Inovadoras para o Varejo, Simone Bazzan.

Atingir o grande diferencial nos negócios passa por uma mudança no comportamento de quem compra e de quem vende. Não se trata de reinventar a roda, mas de estar atento para identificar onde estão as dificuldades e abraçar as soluções criadas para remodelar seu negócio.

O que seu consumidor quer? O que você pode fazer por ele? Quais as novas tecnologias que podem facilitar sua rotina tanto quanto o Whatsapp revolucionou sua comunicação? A hora é de acender as luzes das ideias para perceber que o milagre que você tanto busca em seu negócio pode estar dentro de casa.

Inova Varejo: incentivar e impulsionar

Se atualmente existem ferramentas online que facilitam a vida pessoal, porque não usar também as novas tecnologias na vida profissional? Foi a partir desse mote que o empresário cearense Pablo Guterres e outros parceiros da CDL Jovem nacional deram o primeiro passo rumo a um projeto que pode revolucionar o varejo a custos baixos: o Inova Varejo.

“Queríamos trazer algo que desmistificasse o uso da tecnologia, a baixo custo, aplicável em larga escala e capaz de atingir muitos empreendedores”, ressalta Guterres.

A partir de uma curadoria em mais de 300 ferramentas úteis ao varejo, foram selecionados 50 aplicativos e serviços, seguindo conceitos do comportamento do consumidor e de técnicas de gestão.

O portal permite ao usuário conhecer e adotar processos capazes de alavancar sua atuação na gestão organizacional, na atração de clientes, na exposição da loja, na gestão de preços e nos recursos de vendas e de pagamentos.

É parte da mudança entender que inovar nem sempre significa criar algo novo. “Você não precisa inventar a solução, ela existe. Você precisa se inspirar naquilo que já existe, naquilo que está dando certo. Inovar no varejo é isso, é se remodelar, remodelar seu negócio”, afirma Simone Bazzan, também consultora do Inova.

Em 2017, o Inova completa o primeiro ano no mercado. Inserir-se em meio a processos tradicionais com novas apostas não é um caminho fácil. “Há quem nos observe de forma desconfiada, acha que somos pretensiosos, mas ou a gente transforma nosso negócio ou a gente vai ser atropelado pelos outros”, ressalta Pablo.

Bazzan já apresentou o Inova Varejo em 12 capitais brasileiras. “A percepção que tenho é que a maioria das pessoas desconhecia a plataforma e os aplicativos”, afirma. As ferramentas elencadas no site não têm a pretensão de substituir sistemas robustos em grandes empresas, mas ajudar os pequenos empreendedores a adotar novos hábitos e gerar mais dinheiro.

Made in Ceará

Um dos aplicativos do Inova é o Meu Atendimento. Desenvolvida pelo varejista cearense Diego Lira, a ferramenta surgiu a partir da seguinte dúvida: “por que os clientes não compravam?”. “Queríamos uma forma eficiente de identificar esse problema”, explica Diego - o que não funcionava mais a partir de relatórios de Excel. “Inovação é você estar sempre fazendo melhor o que você já fazia antes”, destaca

Rede Selectus: facilitar e conectar

O empresário Paulo Ribeiro atua na indústria de confecção há 14 anos. Em 2014, ele sentiu a necessidade de incluir novos nichos de produtos em sua confecção, até então voltada para o surfwear. Para começar a produzir calças jeans, bermuda de sarja e camisaria diferenciada, ele precisava de novos fornecedores e parceiros comerciais.

Até então, nenhuma novidade no processo. A surpresa de Paulo, no entanto, foi descobrir que uma das maiores dificuldades de empreendedores era justamente estabelecer novas redes de negócio.

Onde encontrar prestadores de serviços, fornecedores de matérias-primas e parceiros comerciais? Sem sucesso nas busca pela internet e em instituições de apoio ao empreendedor, Paulo foi até uma faculdade de moda, onde um professor o indicou um estilista que indicou um consultor que cobrou um alto valor para indicar o fornecedor.

"Foi um transtorno, e eu pensei que faria o possível para um empreendedor não ter que passar por isso. Naquele momento, eu ficava chateado porque refletia: 'estamos em crise, eu estou querendo comprar, tenho certeza de que tem indústria querendo vender, e a gente simplesmente não consegue se conectar'", relembra.

A partir daí nasceu a startup Comercity, hoje chamada Rede Selectus. O grupo é formado por três sócios: Paulo Ribeiro, gestor de empresas; o diretor técnico, Davi Costa, que é arquiteto de software, e o diretor de operações, Danilo Leite, desenvolvedor do aplicativo móvel. “A ideia central da Rede é proporcionar que indústrias e comércios consigam encontrar tudo o que necessitam para iniciar ou para gerenciar seu negócio”, explica Paulo.

A rede social para negócios é gratuita. Ao cadastrar a empresa e escolher a categoria e subcategoria a qual ela pertence, um algoritmo de inteligência cria uma Teia de Conexões com os parceiros comerciais pertinentes ao negócio.

Por exemplo, se um empreendedor quer investir em um salão de beleza, com a ferramenta, ele pode localizar o fornecedor de produtos, de equipamentos, de vidraçaria, de ar-condicionado, além de profissionais autônomos como pintores e marceneiros.

A proposta da Selectus é se tornar a maior rede de conexões empresariais do Brasil. “Ninguém consegue fazer nada sozinho. Ninguém consegue fazer um sistema tão grande e tão robusto sem ajuda. Eu entendia muito de indústria, mas entendia pouco de comércio”, pontua Paulo.

Outro destaque do grupo é o apoio de editais de inovação e apresentação da proposta em outras cidades do Brasil.

No início de 2017, a Rede Selectus foi aprovada no programa de aceleração InovaBra, do banco Bradesco. A Selectus também foi qualificada no Edital de Inovação para a Indústria, com apoio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). Em novembro, inicia a parceria com o Senai, que considerou a startup uma solução inovadora para a Indústria 4.0 do Brasil.

Atualmente, a Rede Selectus é a única startup residente no Hub de Inovação do Nordeste (Hubine) - um espaço de apoio do Banco do Nordeste a iniciativas inovadoras, que criem produtos, serviços e soluções capazes de contribuir com a dinamização da economia regional.

Inovação no Ceará

A relação com novos modelos de negócios e a inserção da tecnologia no dia a dia de indústrias e comércios tem se desenvolvido no Estado. A gestora de projetos de startups e de moda do Sebrae, Marília Diniz, ressalta a presença de aceleradoras e incubadoras de startups, além de trabalhos em universidades para fortalecer o empreendedorismo.

Ela pontua que grande parte do interesse em novos processos se dá a partir da ideia de economizar.

“O serviço que é gerado pela startup é mais eficiente e tem um custo benefício que agrada mais. Quando o gestor do modelo tradicional tem acesso a esse novos conhecimentos, ele tende a aceitar, mas muito com o olhar de economizar”, afirma.

“Inovação é aquilo que gera caixa. Se não gerar dinheiro, é invenção”

Marília Diniz, gestora de projetos do Sebrae

Diniz também pondera o aspecto comportamental na relação com a inovação. “Tecnologia é ferramental. Eu posso ter todas as ferramentas do mundo, mas, se não tiver um homem operando, tendo ideias, não vai ser eficiente”, pontua.

Tagcity: Inovar e conectar

Imagine um varejo conectado, capaz de fornecer informações e promoções direcionadas conforme o perfil de cada cliente: tudo isso acessível na tela do seu smartphone.

Esse nível de especialidade no comércio não é mais imaginação, é realidade. E começa a ganhar espaço no varejo cearense com o aplicativo TagCity - uma tecnologia inovadora que utiliza georreferenciamento para tornar qualquer espaço interativo e fonte de informações de interesse público.

A proposta da TagCity é tão promissora que, em meados de 2017, venceu uma corrida mundial de startups e está sendo acelerada* no Vale do Silício (EUA), berço de novas tecnologias.

O diretor de Expansão Internacional do aplicativo, Alberto Perdigão, é o responsável pela inserção da tecnologia dos Beacons no Ceará. O pequeno dispositivo de localização é capaz de emitir informações para um aparelho celular via Bluetooth.

“É a primeira empresa na América Latina a utilizar a tecnologia de Beacons aliada a Internet das Coisas, sendo assim pioneira mundial no desenvolvimento de uma solução de relacionamento entre local e usuário”, pontua Perdigão.

Novas relações

A “Internet das Coisas” se refere a uma revolução tecnológica que tem como objetivo conectar os itens usados no dia a dia à rede mundial de computadores

No que diz respeito ao varejo - um dos focos do trabalho de Perdigão - a tecnologia promete iniciar uma nova era de crescimento. Por exemplo: prateleiras inteligentes podem informar em tempo real quando determinado item está começando a faltar, qual produto está tendo menos saída ou em quais horários determinados itens vendem mais.

Quando o assunto é relação com o cliente, o avanço é ainda mais promissor. A tecnologia permite estabelecer uma comunicação assertiva e direcionada com o consumidor, a partir dos hábitos do usuário na internet.

Por exemplo, o aplicativo pode enviar uma mensagem de promoção para um cliente vegetariano que passe em frente ao restaurante que usa Beacons. Outro usuário, que não se interesse pelo cardápio e passe no local exatamente no mesmo momento, não vai receber a mensagem porque o sistema faz a diferenciação do perfil.

Se o cliente tiver o TagCity instalado no celular, a experiência pode se potencializar com acesso exclusivo a promoções e a outros benefícios. A ferramenta é pioneira em oferecer a experiência de acesso à informação tanto através do aplicativo como por navegador tradicional da internet.

“Eu consigo entender quem é o meu cliente, consigo falar com ele, identificar onde ele está, consigo traçar um perfil e montar minha base de dados. Se eu tiver dois clientes aderindo a minha plataforma, por exemplo, todo dia na loja, no final de um ano, vou ter mais de 700 clientes qualificados e vou poder falar com eles a qualquer momento”, destaca Alberto

Cidades Inteligentes

Um dos diferenciais do TagCity é a capacidade de tornar inteligentes não só as relações de comércio, mas a rotina da população numa cidade.

“Com ele (TagCity), o usuário pode buscar por categorias de sua preferência: bancos, casas noturnas, faculdades, hospitais, lanchonetes, museus, postos de gasolina, prefeituras, restaurantes. A partir do filtro, é possível receber informações, cupons, cardápios, eventos e outras opções”, afirma Perdigão.

Seu trabalho mais recente é uma parceria com a Prefeitura de Fortaleza no projeto “Fortaleza Conectada”. A proposta é proporcionar maior conectividade entre a população e as ações e serviços oferecidos pelo ente público.

A ação conceitual usa os Beacons para emitir sinais, por intermédio da tecnologia bluetooth low energy, que serão captados pelo TagCity. Dessa forma, informações úteis, relativas a serviços públicos em geral, poderão ser acessadas, de maneira simplificada, por fortalezenses e turistas na área de abrangência da Casa de Cultura Digital.

A Internet das Coisas não é o futuro, é o presente.

“Eu tenho 110 milhões de usuários de redes sociais mobile. É um mercado imenso que está aí disponível e ninguém explora. As pessoas hoje ainda estão pensando em fazer mailing, escrever e-mail, mandar cartas, e a gente tem um dispositivo que faz isso o tempo inteiro ao custo de R$ 100”, pontua Perdigão.

Mais do que criar o novo, inovar também é acreditar no novo.

*Aceleradoras são organizações focadas não em uma necessidade prévia, mas sim em empresas que tenham o potencial para crescerem muito rápido. Elas são lideradas por empreendedores ou investidores experientes.