titulo-2Pesquisas de universidades cearenses abraçam a guerra contra o transmissor da dengue, zika e chikungunya. QUEM MATA O MOSQUITO

titulo-mobiPesquisas de universidades cearenses abraçam a guerra contra o transmissor da dengue, zika e chikungunya. QUEM MATA O MOSQUITO

Expediente:

REPORTAGEM: Jéssica Welma

DESIGN: Mayara Kiwi

FOTOS E ANIMAÇÃO: Adriano Paiva

EDIÇÃO: Rafael Luis Azevedo

DESENVOLVIMENTO: Index Digital

Publicado em 28/04/2017

"Ninguém sabia que eu ia participar até a pesquisa acontecer. Se contasse para minha esposa ou para minha mãe, elas iam ter receio. Quando descobriram, eu já tinha tomado a vacina. Estou participando desse momento porque ele é histórico"

MARCOS AURÉLIO SILVA COSTA, 34 ANOS
Primeiro cearense a testar a vacina contra a dengue na Universidade Federal do Ceará

O funcionário público Marcos Aurélio Silva Costa é um exemplo de como a sociedade civil e as instituições de ensino e pesquisa têm papéis fundamentais na resolução de problemas que ameaçam a população. Ele nunca foi contaminado por nenhum dos vírus transmitidos pelo Aedes aegypti, mas, durante nove meses, em 2016, enquanto esperava o nascimento da primeira filha, sentiu na pele o medo de a esposa contrair o zika vírus e a filha desenvolver microcefalia.

Funcionário do Hospital Walter Cantídio, em Fortaleza, onde são desenvolvidos os testes da vacina contra a dengue criada pelo Instituto Butantan, Marcos Aurélio viu na pesquisa científica uma forma de ser parte de uma descoberta histórica. Desde julho do ano passado, ele é monitorado por uma equipe do núcleo de Medicina Tropical da UFC e, durante cinco anos, passará por constantes avaliações que integram a fase de testes da vacina.

O Tribuna do Ceará buscou exemplos de pesquisas desenvolvidas no Ceará que podem ser divisores de águas quando o assunto é a ameaça do Aedes aegypti à saúde da população.

No primeiro trimestre de 2017, foram confirmados 2.387 casos de dengue, 1.867 de chikungunya e 29 de zika no Ceará

Além da vacina testada na UFC, é no Ceará que se desenvolve a primeira vacina vegetal do mundo para combater o vírus da dengue e da zika, na Universidade Estadual do Ceará (Uece).

Em 2017, o Brasil será representado no exterior por estudantes cearenses que desenvolvem pesquisas para modificar microalgas e combater as larvas do mosquito e também para isolar e inibir a proteína responsável pela replicação viral do zika.

Em uníssono, todos os pesquisadores ressaltam a necessidade de que a população se engaje no combate ao Aedes aegypti. Essa meta de tornar a sociedade ativa nesse processo resultou na criação de um grupo multidisciplinar na UFC para, através da tecnologia, pensar formas de conscientizar a população.

Você está preparado para ser parte desse processo?

I. UECE

Pesquisadores buscam base vegetal para vacina contra a dengue (FOTO: Adriano Paiva/Tribuna do Ceará)

vacina da dengue

Pesquisa: Vacina de base vegetal contra a dengue.

Pesquisadores: Maria Izabel Florindo Guedes.

Titulação: Pós-doutora em Bioquímica de

Proteínas e Biologia Molecular pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e coordenadora do Ponto Focal Ceará do Programa de Pós-Graduação em

Biotecnologia – Renorbio.

Um vacina genuinamente cearense, que protege contra os quatro sorotipos da dengue, tem menor potencial alérgico para a população e pode ser produzida a baixos custos: essa é uma das descobertas pioneiras desenvolvidas na Universidade Estadual do Ceará (Uece) contra a epidemia provocada pelo Aedes aegypti no Brasil. O processo de produção da vacina em sistema vegetal coloca a Uece na vanguarda dos estudos. Agora, os esforços se voltam também para uma vacina contra a zika."A nossa vacina da dengue está num processo de produção há bastante tempo. Nós chegamos até o processo de imunização dos camundongos, mas ela ainda não foi testada em seres humanos porque ainda precisamos produzir em uma quantidade maior. Estamos nos preparando para isso", pontua a professora Izabel Florindo Guedes, pesquisadora e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia (Renorbio) no Ceará.

Para chegar ao produto final, os pesquisadores do doutorado em Biotecnologia da Uece injetaram genes dos vírus da dengue em uma planta como suporte para que ela desenvolvesse as proteínas capazes de ativar a resposta imunológica no ser humano. Depois, as proteínas são isoladas e retiradas da planta para serem usadas na fabricação da vacina.

A vacina produzida em sistema vegetal, que é um sistema novo de produção, no qual a planta se torna uma fábrica para produzir as proteínas do vírus da dengue, apresenta várias vantagens em relação aos sistemas convencionais, como explica Izabel.

"A planta é um sistema de produção mais puro. Quando você usa ovo embrionado ou células de mamíferos, esse sistema exige a utilização de antibióticos e um sistema mais controlado que, além de ser contaminante para o meio ambiente, traz riscos para a população, uma vez que as vacinas produzidas em ovo podem causar alergias. O que nós utilizamos hoje é uma técnica bem avançada que só foi possível devido ao avanço da biotecnologia", pontua a pós-doutora em biotecnologia pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

vacina da zika

Pesquisa: Expressão de proteínas do zika vírus para produção de kit diagnóstico e vacina.

Pesquisadores: Mario Maestre (Doutorando/Colômbia), Ilana Carneiro Lisboa Magalhães (Mestranda) e Kalil Mubarak (Graduando).

Orientadora: Maria Izabel Florindo Guedes.

Estudo de vacina contra o zika envolve pesquisadores da Uece (FOTO: Adriano Paiva/Tribuna do Ceará)

O método inovador de produção à base de plantas e os bons resultados obtidos nos testes da vacina contra a dengue abriram caminho para o desenvolvimento de uma vacina contra o zika vírus. Desde 2016, os pesquisadores Mario Maestre, Ilana Magalhães e Kalil Mubarak tentam reproduzir as proteínas do zika para desenvolver um kit de diagnóstico ou mesmo uma vacina contra a doença.

Orientados pela professora Izabel, eles já conseguiram reproduzir e purificar a proteína em bactéria. O processo de purificação é o que garante que apenas a proteína do vírus específico será testada com os reagentes. O próximo passo é obter o mesmo resultado em plantas.

"Depois da proteína purificada, a gente faz testes com soro de pacientes que tiveram zika e de pacientes que não tiveram e a gente vê como é a reação do soro do paciente com a nossa proteína", destaca Ilana.

Por enquanto, os testes estão inviabilizados diante da dificuldade em conseguir amostras de sangue de pacientes que tiveram zika comprovada por laboratório. "Nosso grande problema é porque as pessoas ficam com viroses, mas elas não sabem qual é, não sabem se têm zika, chikungunya ou uma virose comum. Fica muito ruim de a gente conseguir um banco de pacientes que tenham o soro positivo para o zika. Até agora a gente só tem quatro pacientes, o que é um número muito baixo", lamenta a mestranda.

PROTEÍNA CONTRA ZIKA

Pesquisadora: Katiane Queiroz da Silva.

Pesquisa: ação da proteína Lactoferrina Humana contra o zika vírus.

Titulação: Doutora em Biotecnologia pela Rede Nordestina de Biotecnologia (Renorbio),

Zootecnista e Mestra em Reprodução Animal pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual do Ceará (Uece), Professora do Curso de Ciências

Biológicas na Uece/Fafidam.

A professora da Uece Katiane Queiroz aposta no uso de proteína contra o zika (FOTO: Acervo pessoal)

Após divulgar a recente descoberta de que a proteína lactoferrina humana, já conhecida como agente tumoral, pode ajudar no combate ao câncer, a professora e pesquisadora da Universidade Estadual do Ceará (Uece) Katiane Queiroz aposta, agora, no uso da proteína contra o zika vírus.

A lactoferrina humana é uma proteína natural encontrada no leite materno e “em inúmeras secreções exócrinas como saliva, lágrima, sêmen, fluidos vaginais e gastrointestinais, mucosa nasal e bronquial”, como explica Katiane. Essa substância ajuda a combater infecções e fortalece o sistema de defesa do corpo humano.

Em seu estudo, a professora utilizou um método inovador para a produção da lactoferrina. Nele, um vírus com alto poder de proliferação, conhecido como adenovírus, foi modificado e passou a conter os genes da proteína. As células virais contendo o DNA da lactoferrina humana foram injetadas nas glândulas mamárias de cabras que passaram a produzir leite com essa substância.

Em parceria com o laboratório de Biotecnologia da Uece, Katiane estuda a possibilidade de a proteína antiviral ser eficiente também contra os vírus transmitidos pelo Aedes aegypti. O objetivo é testar a lactoferrina humana tanto no vírus da zika como das outras doenças.

"Por enquanto, estamos trabalhando em cima do vírus da zika. Temos resultados promissores a partir de um produto econômico, de fácil acesso para a população e que pode se transformar em fármaco contra essa patologias", ressalta Katiane.

Financiamento

O maior entrave para o desenvolvimento do estudo, no entanto, é a falta de suporte financeiro para a pesquisa. Quando trabalhava nas pesquisas relacionadas ao combate ao câncer, em seu doutorado, Katiane tinha o suporte da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap).

"Com certeza a comunidade científica está toda empenhada e voltada para combater essa epidemia. O que nós precisamos para fazer isso é incentivo técnico e financeira", ressalta a professora

"Não é a vacina existindo que vai se deixar de ter cuidado com o Aedes aegypti, até porque a vacina é para dengue, e o Aedes transmite zika, chikungunya e até mesmo a febre amarela".

IVO CASTELO BRANCO

Coordenador do Núcleo de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará

II. UFC

APLICATIVO AEDES EM FOCO

Software desenvolvido pelo Instituto UFC Virtual em parceria com o Núcleo de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará.

Apresentação do app da UFC para o combate ao Aedes aegypti (FOTO: Viktor Braga/UFC)

A importância do envolvimento da sociedade no combate ao Aedes aegypti é a mensagem mais urgente que governos e universidades tentam passar à população. Há três décadas, não se consegue vencer o mosquito e, consequentemente, as formas graves da dengue, além de novas viroses se alastram.

Diante disso, estudantes e professores do Instituto UFC Virtual desenvolveram um aplicativo para celular no qual o usuário pode ter acesso a uma série de informações de prevenção e combate ao mosquito, além de interagir efetivamente no controle do mosquito.

"A população não espera o poder público para resolver problemas com rato e barata na sua casa. Por que essa questão da dengue tem que esperar o poder público?", questiona o professor Henrique Pequeno, coordenador do laboratório de mídia educacional do Instituto UFC Virtual.

"Estamos longe de derrotar o mosquito, as estatísticas mostram isso, apesar de todo trabalho de educação e de sensibilização das pessoas. Somos formadores de opinião, temos uma grande comunidade acadêmica, parte da sociedade está aqui (na universidade). Sempre que um aluno ou um professor fala tem um eco maior por causa da instituição, é um processo contínuo."

HENRIQUE PEQUENO

coordenador do laboratório de mídia educacional do Instituto UFC Virtual

A ferramenta, já disponível para download nos sistemas Android e IOS, é resultado de uma ideia de Ivo Castelo Branco cujo projeto era inspirar a população a trabalhar contra o mosquito em formato de "brigadas" – em condomínios, fábricas, escolas, universidades.

O aplicativo permite aos usuários mapear possíveis focos em sua residência, condomínio ou vizinhança; identificar pontos de atendimento para suspeita das viroses e tirar uma série de dúvidas. Também são disponibilizadas informações sobre o ciclo de vida do mosquito e um "checklist" de ações sistemáticas de controle de larvas. "A ineficiência do poder público é que o raio de ação é muito amplo, a população tomando isso para si tem muito mais eficácia", defende Pequeno.

No futuro, a expectativa é de que os governos municipais e estaduais abracem a proposta e promovam parcerias para que as informações do aplicativo possam ser acessadas diretamente pelo poder público e vice-versa. A meta é que cada pessoa possa agir como um agente de endemia na própria residência.

Com a meta de tornar a população ativa, os pesquisadores também estão desenvolvendo jogos eletrônicos e histórias em quadrinhos para mobilizar a sociedade.

ALGAS CONTRA O AEDES

Pesquisa: Modificação genética das microalgas Chlamydomonas sp. para produção da proteína Cry, tóxica às larvas do Aedes aegypti.

Pesquisadores: do Curso de Biotecnologia: Ana Caroline, Marcus Rafael, Beatriz Chaves, Fabrícia Diniz, Jorge Neto, Larissa Queiroz, Danilo Vasconcelos, Wallady Barroso e Renato Marques. Daniel Carlos, aluno de Sistemas e Mídias Digitais da UFC; e Daniel Dantas, estudante de Engenharia da Computação na UnB.

Orientadores: professores André Luís Coelho da Silva e Bruno Anderson Matias da Rocha.

Alunos da UFC desenvolvem forma de combate às larvas do Aedes aegypti (FOTO: Viktor Braga/UFC)

Enquanto parte dos pesquisadores combina esforços para desenvolver vacinas, outros para desenvolver repelentes ao mosquitos adulto, outros para modificar proteínas e criar um medicamento, estudantes do curso de Biotecnologia da Universidade Federal do Ceará (UFC) decidiram atacar o problema na fase de larva do Aedes aegypti. A partir da modificação de uma microalga de água doce.

Há cerca de um ano, os jovens estudam a modificação genética das microalgas Chlamydomonas sp. para produção de uma proteína inseticida, chamada Cry, tóxica às larvas do mosquito transmissor de doenças como dengue, zika e chikungunya. Apesar de a proteína ter ação larvicida contra o mosquito, ela não é tóxica aos seres humanos.

"Essa microalga cresce naturalmente em água doce, mas ela não produz nenhuma proteína com atividade larvicida, então a gente precisa modificá-la e inserir o gene da proteína (Cry), que já é estudado há mais de 50 anos, usado em pesticidas, em alimentos transgênicos. A gente já sabe que tem propriedades larvicidas", explica o estudante Marcus Rafael Lobo Bezerra.

A partir da modificação, o microrganismo poderia ser inserido no mesmo ambiente de potencial desenvolvimento das larvas do Aedes. No processo da pesquisa, os estudantes precisam seguir uma série de regras que tratam dos organismos geneticamente modificados, além de passarem por diversas avaliações até que seja assegurado o uso da microalga modificada sem danos a outros seres vivos.

Os professores orientadores do projeto são o vice-coordenador do programa de pós-graduação em Biotecnologia de Recursos Naturais e coordenador do Laboratório de Biotecnologia Molecular (LabBMol), André Luís Coelho; e o coordenador do programa de pós-graduação em Bioquímica e coordenador do Laboratório de Biocristalografia (Labic), Bruno Anderson Matias da Rocha.

Novos caminhos

Atualmente, os estudantes têm a meta de padronizar o cultivo da alga no primeiro semestre de 2017 e desenvolver a biologia molecular no segundo semestre para apresentar o projeto em uma competição internacional.

Até o final de abril, os jovens se mobilizam para arrecadar cerca de 5 mil dólares para inscrever o trabalho no International Genetically Engineered Machine (iGEM), uma competição internacional sobre biologia sintética, realizada pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), em Boston, nos Estados Unidos.

O encontro terá sua próxima edição entre os dias 9 e 13 de novembro de 2017, com inscrições realizadas até o final de abril. Para participar, os estudantes precisam desenvolver ações com impacto social, como é o caso do estudo das microalgas realizado na UFC.

Não há prêmio em dinheiro, mas o projetos inscritos recebem suporte de materiais importantes para a pesquisa, além de ganharem visibilidade junto a investidores, ressalta Marcus Rafael.

VACINA CONTRA A DENGUE

Pesquisa: Criação de vacina contra o vírus da dengue.

Pesquisadores: Instituto Butantan, em parceria com centros de estudos em 12 estados.

Centro de teste no Ceará: Unidade de Pesquisa Clínica do Complexo Hospitalar e Núcleo de Medicina Tropical da UFC.

Pesquisa de vacina contra a dengue é coordenada no Ceará por Ivo Castelo Branco (FOTO: Júnior Panela/UFC)

Desde 2016, o Ceará abriga um dos 14 centros de estudos que integram a terceira e última fase de testes da vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan, órgão da Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo e um dos maiores centros de pesquisa biomédica do mundo. Nos últimos 10 meses, pouco mais de 400 pessoas tomaram a vacina e estão sendo monitoradas por pesquisadores, conduzidos por Ivo Castelo Branco Coelho, que estuda a dengue desde os anos 1990.

Em conversa com o Tribuna do Ceará, o infectologista comemora os bons resultados iniciais da vacina no Estado e faz alerta aos cuidados da população.

“Dentro de três anos, já teremos uma vacina contra a dengue”

Tribuna do Ceará:

Qual a atual situação dos estudos sobre vacina contra a dengue no Brasil?

Ivo Castelo Branco:

Existem várias vacinas sendo testadas no mundo. Aqui, no Brasil, tem uma que já foi liberada para uma faixa etária de 9 a 45 anos. A que nós estamos trabalhando é a do Instituto Butantan, que é uma única dose e protege para os quatro sorotipos de dengue que a gente tem.

Tribuna:

A que já foi liberada protege para todos os tipos de dengue?

Ivo:

Protege. Tem cerca de 60% de proteção para os quatro tipos. A que nós estamos fazendo está na fase 3. Os estudos iniciais mostraram que ela tem uma proteção acima de 80% em uma única dose, já é uma diferença. A fase 3 significa que estamos testando na população do Brasil. Vamos observar, durante cinco anos, 17 mil pessoas no Brasil, para ver como a vacina se comporta no Nordeste, na Região Norte e na Região Sul. (Um terço dos participantes recebe um placebo ao invés da vacina de fato). Depois disso nós vamos ver se ela vai ou não ser liberada para o resto do Brasil.

Tribuna:

Como tem sido a adesão das pessoas aos testes no Ceará?

Ivo:

No Ceará, em torno de 400 pessoas já foram vacinadas e vão ser observadas durante cinco anos. Estamos agora numa fase em que estamos vacinando as pessoas de 2 a 17 anos. Na UFC, qualquer pessoa que queira ser voluntário precisa só entrar no site da UFC, no núcleo de Medicina Tropical, e lá tem quem informe sobre a vacina. Tem uma equipe médica que avalia a pessoa antes de tomar a vacina, e durante cinco anos a pessoa fica em observação. É uma vacina aparentemente muito boa e com poucos efeitos colaterais, quase nenhum. Pela fase 2, com essa grande capacidade de proteger, ela tem tudo para ser uma vacina efetivada. Como é do Instituto Butantan, uma vez conseguindo o êxito que a gente está vendo, vamos conseguir disponibilizar isso para o Brasil todo.

Tribuna:

O que já foi detectado de reações à vacina?

Ivo:

Praticamente nada. Como a vacina é feita em ovo, às vezes as pessoas têm alergia a ovo e não podem tomar. Às vezes faz um pouco de vermelhidão, mas não se precisa nem tomar remédio, são coisas muito rápidas e fugazes, sem complicação. Efeito grave, nós não tivemos nenhum.

Tribuna:

Qual a expectativa de a vacina chegar até a população?

Ivo:

São cinco anos de observação, mas é possível, pelos dados promissores que a gente tem, que, dentro de uns três anos, pelo menos uma faixa etária de adultos, acima de 18 anos, vai poder tomar a vacina. A gente está observando essa vacina de 2 até 60 anos. A vacina é mais uma forma de combater a doença. Não é a vacina existindo que vai se deixar de ter cuidado com o Aedes aegypti, até porque a vacina é para dengue, e o Aedes transmite zika, chikungunya e até mesmo a febre amarela.

Tribuna:

O senhor já estuda há mais de 30 anos a dengue. O que mudou?

Ivo:

Em relação à dengue, por uma questão natural da própria doença, as formas mais graves tendem, em termos proporcionais, a aumentarem. Essas outras viroses, como zika e chikungunya, a gente está vendo quais as complicações reportadas, algumas que a gente sabe como microcefalia e Guillain-Barré, até outras que a gente nem sabe. Essas crianças (diagnosticadas com microcefalia) até os sete anos de idade vamos acompanhar para ver o que isso vai trazer para o comportamento dessas crianças, para o aprendizado, se vão ter convulsão, algumas vão ter problemas de visão... A microcefalia é a expressão maior que a gente consegue ver, mas vai haver criança que vai nascer com tamanho de cabeça normal, mas vai ter complicações como já têm sido observadas em Recife. A chikungunya é tudo o que a gente está vendo: mutilante, incapacitante, é uma doença que pode matar também e 10% das pessoas que venham a apresentar chikungunya vão ter deformidades articulares, como resquícios disso, para o resto da vida.

Tribuna:

O que mais pode ser feito para minorar a força dessas doenças sobre a população?

Ivo:

O grande problema é o Aedes aegypti. Se a gente combater e controlar (o mosquito), a gente não tem essas doenças. Eu digo sempre assim: a gente não deixa ter rato na casa da gente, não deixa ter barata, não deixa ter formiga, a gente sabe combater isso aí, mas o Aedes aegypti a gente não sabe combater. Temos que saber como combatê-lo. Uma das formas é combater onde tem água parada, mas há muitos outros focos como, por exemplo, caixa d'água, é um problema sério; cisternas, é outro problema; ferros-velhos, trânsito de material de um lugar para outro. Aqui tem: ‘não deixe lixo’, mas se você leva o lixo para um lugar onde ele é mal acondicionado, o mosquito vai nascer ali, onde ele foi colocado. Todos esses detalhes têm de ser explicados e, com certeza, o modo de combater o Aedes aegypti na Aldeota é diferente do Lagamar, da Praia do Futuro, da Favela do Castelo Encantado. Se tem diferenças na cidade, imagina no resto do Brasil? Não dá pra ter uma campanha única, tem que ser regionalizado, tem que haver estudos para que a gente descubra a peculiaridade desses locais. Enquanto for só aquele negócio de que, quando chove, as pessoas falam, mas depois esquecem... Aqui, no Ceará, só se começa a falar de novo quando vem a ‘chuva do caju’ e começam os primeiros focos. Tem trinta anos que é essa mesma história. Até junho se fala bastante, depois de junho não se fala mais, e o ovo do mosquito fica na natureza até um ano e eclode. Esse é o grande problema que a gente tem com essas doenças.

Participe dos testes da vacina contra a dengue

No Ceará, 1.200 pessoas de 2 a 59 anos estão sendo acompanhadas. Só podem participar dos testes pessoas saudáveis e que podem ou não ter tido dengue. É preciso agendar a inscrição entrando em contato por telefone – (85) 9 8217-0139 – ou email – nmt.ufc@gmail.com – com o Núcleo de Medicina Tropical da UFC.

III. DESDE A ESCOLA

Fármaco contra o zika

Pesquisa: Utilização do cálculo Hamiltoniano (AM1 e PM3) para modelagem e análise de novos fármacos derivados do Oseltamivir contra o zika vírus.

Pesquisadores: Gabriel Moura e Myllena Cristyna.

Orientadores: Helyson Lucas e Thyana Vicente.

Terceiro lugar na área de Biologia Molecular da Mostra Internacional de Ciência e Tecnologia- Mostratec (RS, 2016) - Credenciamento para participar da Feira Internacional de Ciência e Tecnologia - Intel-Isef (Califórnia, 2017).

Myllena, Gabriel e Helyson (esq) com Fernanda Sato, responsável pelo Intel Isef no Brasil (FOTO: Acervo pessoal)

Desde novembro de 2016, a rotina de estudos dos jovens Myllena Cristyna e Gabriel Moura foi intensificada com um novo desafio: conquistar um mínimo de fluência em inglês. Isso acontece porque, em maio de 2017, eles apresentarão para pessoas de mais de 50 países uma promessa de novos fármacos para tratamento contra o zika vírus que desenvolveram enquanto estudantes do ensino médio na escola pública Deputado Joaquim de Figueiredo Correia, na cidade de Iracema, no interior do Ceará.

Myllena e Gabriel representarão o Brasil no maior encontro de ciências do mundo para pré-universitários, a Feira Internacional de Ciências e Engenharia (Intel-Isef), nos Estados Unidos. A meta de entrar na guerra contra o zika surgiu diante da epidemia do vírus no Brasil, principalmente na região Nordeste. O trabalho conquistou o 3º lugar na área de Biologia Molecular da Mostra Internacional de Ciência e Tecnologia- Mostratec, em 2016, no Rio Grande do Sul, e a credencial para a Intel-Isef.

O que é a Intel ISEF?

A Intel Isef (International Science and Engineering Fair) é a Feira Internacional de Ciências e Engenharia realizada anualmente, em maio, nos EUA. Desde 1950 uma cidade estadunidense diferente hospeda a feira a cada ano. É a maior feira para estudantes que ainda não chegaram ao nível universitário. Participam do evento projetos de 50 nações.

A partir de processos de química computacional, eles passaram a testar uma série de modificações na molécula Oseltamivir e a testaram com a proteína NS1, principal responsável pela proliferação do vírus da Zyka. Com a ação, a replicação do vírus no organismo pode ser inibida através de fármacos. Todo o estudo pode servir como base para outros pesquisadores devido às poucas informações que se tem sobre a doença.

"Estamos há quase dois anos com esse trabalho. É uma nova metodologia que ajuda a rastrear fármacos para novas doenças que necessitem urgentemente de tratamento. Como a gente mora na região Nordeste, percebemos que estamos com um grande problema que é o Aedes, transmitindo o Zika e diversos outros problemas, sem existir um tratamento específico", pontua Gabriel.

Antes de apresentarem internacionalmente a proposta, os estudantes desenvolvem a segunda etapa da pesquisa, os testes em nível celular. Agora é hora de sentar na bancada do laboratório e efetivar os estudos computacionais. Eles contam com a orientação da professora de química Thyana Vicente e do ex-aluno da mesma escola, hoje universitário, Helyson Lucas, uma das principais inspirações para a aposta na educação.

"O Helyson já participou de vários eventos científicos e foi a primeira pessoa da nossa cidade que participou do Intel-Isef. Quando o vi participando e conquistando prêmios, percebi o quanto a pesquisa científica mudava a vida dele e comecei a querer aquilo pra mim", afirma Myllena.

Ela e Gabriel também têm tido suporte da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) para realizarem os testes já que falta equipamentos necessários na escola.

"O objetivo dessa segunda parte é verificar se a gente vai conseguir os mesmos resultados da primeira etapa que foram simulações por softwares", pontua Gabriel. Antes de seguirem para Los Angeles, onde acontece a feira, eles passarão por uma bateria de avaliações e treinamentos na Universidade de São Paulo (USP).

“Ainda existem pessoas que realmente acreditam que a educação tem o poder e pode mudar um pedacinho que seja o mundo.”

MYLLENA CRISTYNA

cearense que desenvolve pesquisa contra o zika vírus

Toda a viagem é custeada pela organização Intel-Isef e representa uma oportunidade única para que os estudantes conquistem bolsas de estudo fora do Brasil, suporte para continuarem a pesquisa, além de contatos de empresas interessadas em comercializar a descoberta.

Sem apoio de governos, Myllena e Gabriel se preparam para a viagem com a ajuda de professores, amigos e familiares. "É muito difícil para pessoas do ensino médio chegarem onde chegamos vendendo rifa, pedindo apoio. Às vezes eles (governantes) pensam assim: 'Por que eu eu vou dar ajuda a um projeto de ensino médio, esses meninos não sabem nem o que estão fazendo'. Eles estão desacreditando na educação brasileira, ao invés de acreditar", lamenta Gabriel.

Aos poucos, os sonhos de Myllena e Gabriel se tornam realidade. A expectativa principal é de que o maior sonho deles, o de criar um medicamento contra o Zika, torne-se realidade, realizando assim o sonho de muitas pessoas pelo mundo.

Quiz

Verdade ou Mito

1) Perfumes funcionam como repelentes contra o Aedes aegypti.

Verdade
Mito

Há mitos de que aromas florais e frutados atraem mosquitos, mas um estudo da Universidade do Estado do Novo México, nos EUA, mostrou que os perfumes podem ser ótimos repelentes.

2) Usar calças compridas diminui a probabilidade de ser picado pelo mosquito.

Verdade
Mito

Sim, porque o Aedes aegypti pica as pessoas preferencialmente nas pernas e nos pés. Ele tem rejeição à claridade e é atraído pelo calor, por isso teria preferência por tecidos escuros.

3) O vírus Zika também causa Guillain-Barré?

Verdade
Mito

O vírus Zika pode provocar também a Síndrome de Guillain-Barré. A síndrome é uma doença rara. Assim como todas as possíveis consequências do vírus zika, a ocorrência da Guillain-Barré relacionada ao vírus continua sendo investigada.

4) A epidemia de zika e os casos de microcefalia estão relacionados aos mosquitos geneticamente modificados que foram soltos no ambiente.

Verdade
Mito

Desde 2014, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com o Ministério da Saúde, desenvolve o projeto “Eliminar a Dengue: Desafio Brasil” que propõe o uso de uma bactéria naturalmente encontrada no meio ambiente, inclusive no pernilongo, chamada Wolbachia. Quando presente no Aedes aegypti, a bactéria é capaz de impedir a transmissão da dengue pelo mosquito. A iniciativa é uma abordagem inovadora para reduzir a transmissão do vírus da dengue de forma natural e autossustentável.

5) A epidemia de zika e os casos microcefalia estão relacionados a vacinas vencidas ou larvicidas.

Verdade
Mito

O Ministério da Saúde afirma que todas as vacinas oferecidas pelo Programa Nacional de Imunização são seguras e não há evidência científica que aponte para a associação com microcefalia. O controle de qualidade é realizado pelos laboratórios que as produzem sob fiscalização rigorosa da Organização Mundial de Saúde (OMS). A vacina contra a rubéola, relacionada a esse boato, nem sequer é ministrada em gestantes. Também não existem estudos epidemiológicos que comprovem a relação entre o larvicida Pyriproxifen e a microcefalia.

6) Colocar água sanitária na água ajuda a evitar as larvas.

Verdade
Mito

É uma das principais medidas. Colocar uma colherzinha de água sanitária na caixa dágua, na piscina, nas poças de água ajuda a evitar as larvas.

7) Aplicar borra de café na água das plantas e sobre a terra ajuda a combater o mosquito.

Verdade
Mito

A eficácia da borra de café na dosagem de duas colheres de sopa para meio copo de água não foi comprovada (já foi verificado na prática que a água suja de borra de café desenvolve a larva do mosquito) e a sua utilização não simplifica os cuidados recomendados que são: a eliminação de pratos junto ao vasos de plantas, a colocação de areia até as bordas dos pratos para eliminar a água e lavar pratos com buchas e sabão semanalmente.

8) Velas de citronela ou andiroba ajudam no combate ao mosquito.

Verdade
Mito

Esses recursos têm efeito temporário e indeterminado.

9) É possível distinguir a picada do Aedes aegypti da picada do mosquito comum.

Verdade
Mito

A sensação de eventual coceira ou incômodo à picada de qualquer outro mosquito.

10) Não se deve tomar ácido acetilsalicílico (AAS) ou outros anti-inflamatórios em caso de contaminação por algum vírus transmitido pelo Aedes aegypti.

Verdade
Mito

Remédios à base de salicilatos, como também é o caso anti-inflamatórios não-hormonais (ibuprofeno, diclofenaco, nimesulida), podem aumentar o risco de complicações hemorrágicas em infecções por esses vírus. O tratamento deve ser feito com antipiréticos e analgésicos (preferencialmente dipirona), repouso e hidratação.

Fontes: Ministério da Saúde.

http://mosquito.saude.es.gov.br/

Como identificar se tenho Dengue, Zika ou Chikungunya?

Aedes aegypti
Ciclo de vida:

Histórico de erradicação de doenças transmitidas pelo Aedes no Brasil

1903 – Início da campanha contra a Febre Amarela. Rio de Janeiro – conhecida como “cidade pestilenta”. Plano de combate apresentado pelo médico sanitarista Oswaldo Cruz. À época, o mosquito era denominado Culex fasciatus. Foi eliminada do Brasil em 1942, por meio de medidas de combate ao seu vetor urbano e vacinação da população a partir de 1937.

1955 – Primeira erradicação do Aedes aegypti. Com o incentivo da Fundação Rockefeller, nas décadas de 1930 e 1940, foram executadas intensas campanhas de erradicação de Aedes aegypti nas Américas. O Brasil teve êxito na primeira eliminação em 1955. As ações seguiam o que havia sido feito contra a febre amarela. O último foco do mosquito foi extinto no dia 2 de abril daquele ano, na zona rural do Município de Santa Terezinha, Bahia.

1973 – Segunda erradicação do Aedes aegypti. Em 1967, ano em que se criou a Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (Sucam), confirmou-se a reintrodução do Aedes aegypti, no estado do Pará. Em 1969, ele foi identificado no Maranhão. Em 1973, um último foco foi eliminado e o vetor, novamente, considerado erradicado do território brasileiro.

1976 – Retorno do Aedes aegypti ao Brasil. Houve falhas na vigilância epidemiológica e mudanças sociais e ambientais decorrentes da urbanização acelerada dessa época. Na época, como ainda não havia o registro de casos de dengue, todas as ações eram focadas na erradicação do vetor.

1980 – Primeiro caso de Dengue. Segundo dados do Ministério da Saúde, a primeira ocorrência do vírus no país, documentada clínica e laboratorialmente, aconteceu em 1981-1982, em Boa Vista (RR), causada pelos vírus de sorotipos 1 e 4.

1990 – Criação da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) que passou a coordenar ações de controle da dengue.

1996 – Ministério da Saúde elaborou o Plano de Erradicação do Aedes aegypti, cuja principal preocupação residia nos casos de dengue hemorrágica.

2001 – Plano de Intensificação das Ações de Controle da Dengue (PIACD) focou em municípios com maiores índices de transmissão de doenças nos anos 2000-2001.

2002 – Programa Nacional de Controle da Dengue (PNCD). Continuidade do PIACD. Em execução até hoje.

Epidemias de dengue no Ceará e outros casos relacionados ao Aedes:

1986 - Registrados os primeiros casos de Dengue Vírus Sorotipo 1 (DENV-1), com epidemia em 1987. Até 1993, foram registrados 54 mil casos, nenhum de dengue hemorrágica.

1994 - Primeiro caso de dengue hemorrágica (DENV-2). Nova epidemia com 47.789 casos registrados, 25 de dengue hemorrágica.

2001 - Nova epidemia ocasionada pelo DENV-1 e DENV-2 com 34.390 casos clássicos e 82 hemorrágicos.

2002 - Sorotipo 3 da dengue é introduzido no Estado. Com três sorotipos simultaneamente em circulação, 18,77% dos casos foram de dengue hemorrágica.

2008 - Epidemia de dengue hemorrágica, com 440 casos só no primeiro semestre. No balanço de todos os tipos, foram registrados 62.610 casos, o maior número de notificações no Nordeste.

2011 - Ano em que foram registrados os maiores índices de casos clássicos da dengue. Circularam os vírus tipo 1, 3 e 4.

2012 - Ano epidêmico de dengue, com 51 mil casos registrados, com 12 mortes por hemorrágica.

2014 - Registrado primeiro caso de febre chikungunya no Ceará.

2015 - O Brasil registrou 90% de casos de microcefalia causados pelo Zika no mundo (2.106), enquanto 54 casos foram registrados na Colombia e 28 nos EUA, segundo a World Health Organization.

2016 - O Ceará teve 37.769 mil casos confirmados de dengue, 2.112 de zika e 29.837 de chikungunya. No Brasil, foram confirmados 1.487.673 casos de dengue, 211.700 de zika e 263.598 de