Pote de ouro no coração da Aldeota

Conheça a história da comunidade singular que divide espaço com vizinhança rica

“Vocês estão morando num canto onde um palmo de terra vale um pote de ouro”, disse a então primeira-dama do Estado Luiza Távora, quando entregava as chaves das casas aos moradores do recém-urbanizado Conjunto Habitacional São Vicente de Paulo, em meados da década de 1980. Localizada no “coração da Aldeota”, a até então “Favela Santa Cecília” sofria com o descaso, a ocupação irregular e o preconceito das famílias ricas da Capital que viviam no entorno.

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Comunidade das Quadras está encravada na Aldeota, bairro nobre de Fortaleza (FOTO: Rafael Morais)

A história da comunidade, no entanto, começa bem antes da intervenção do Governo. Por volta de 1956, constam os primeiros registros da também chamada, antigamente, “Favela das Quadras” ou “Favela Estados Unidos”. Uma das primeiras moradoras foi Joana Cordeiro Viana, mais conhecida na comunidade como Dona Priscila, hoje com 86 anos. Natural de Pentecoste, Dona Priscila e seus 16 filhos, netos, bisnetos e trinetos – dos quais ela não sabe mais a conta – se confundem com a história das Quadras.

Ela lembra que a primeira casa foi construída com palha pelo próprio marido no terreno ainda baldio. A memória da idosa, que também é uma das fundadoras do tradicional time da comunidade, o Bandeirantes, já tem dificuldade em precisar datas. Segundo ela, a sua foi uma das primeiras residências a serem feitas no local, mas não demorou para que outras pessoas começassem a invadir o terreno, construindo seus barracos durante a madrugada para que não fossem vistos.

A situação da maioria das famílias que se instalou em um “quadrado” rodeado pela alta sociedade era de penúria. Nas décadas de 1960 e 1970, muitas foram as tentativas de barrar o intenso crescimento populacional nos centros urbanos, onde se multiplicavam as favelas. Seus moradores acabavam sendo removidos para conjuntos habitacionais construídos em locais distantes e sem acesso a sistemas de transportes públicos e outros direitos.

Somente a partir dos anos 1980, os governos passaram a perceber as comunidades como área para investimento social e começaram a modificar propostas remocionistas. Seguindo essa tendência, foi feita a urbanização da antiga “Favela das Quadras”. O processo, porém, foi demorado e sofreu resistência por parte das famílias.

Jornais da época registravam a favela como um “esgoto a céu aberto”. “As barracas são de um quartinho onde moram quatro famílias, surgindo os ‘moleques-de-rua’, que não têm espaço dentro das suas casas”, assinala o jornal Diário do Nordeste de 30 de dezembro de 1981.

Mudança radical
A precariedade e a miséria da região mobilizaram os moradores em prol de melhorias. No início dos anos 1980, uma pequena comissão, formada por freiras, padres e líderes comunitários, redigiu uma carta para a primeira-dama do Estado, na época Luiza Távora, pedindo socorro para a situação em que viviam os moradores.

“No dia 30/4/80 tivemos a felicidade de contar com a sua presença. Junto com a equipe da Proafa comprometeram-se a urbanizar a nossa favela”, registra a ata do Conselho Comunitário da Quadra Santa Cecília da época.

As obras de reestruturação, no entanto, só foram possíveis através da mobilização dos moradores que, posteriormente, formaram a Associação dos Moradores do Conjunto Santa Cecília. Muitas famílias tinham receio de serem removidas do local e impedidas de voltar.

“Muita gente da comunidade achava que era perigoso, que aquilo era uma maneira de tirar a gente daqui”, lembra João Roberto, membro do Conselho à época e primeiro presidente da Associação. A visita de Luiza Távora só aumentou a desconfiança de parte dos moradores, já assustados com o que consideravam uma “campanha de difamação” da comunidade por parte das famílias ricas no entorno.

A sorte, conta João Roberto, foi um pedaço de terreno abandonado na esquina da rua Beni de Carvalho com Avenida Virgílio Távora, na época chamada Avenida Estados Unidos. Foram construídos cem alojamentos provisórios no local enquanto as novas casas eram erguidas, por parte, para que as pessoas não tivessem de deixar a quadra.

“Os alojamentos vistos do lado de fora lembram um pequeno cortiço onde misturadas vivem famílias diferentes, sem espaço suficiente para abrigar seus pertences e familiares. No corredor central, perto das lavanderias, as donas de casa colocaram sofás, fogareiro e mesmo fogão para cozinharem fora de casa, visto que dentro mal dá para se movimentarem direito. E no meio de tanta sujeira as crianças, dezenas, brincam entre os restos de comida e roupa estendida. Dentro dos alojamentos, as famílias fazem verdadeiras ‘ginásticas’ para conseguir armar 6 a 8 redes em um só vão de 8x3m2”, relata edição de 2 de julho de 1982 do Jornal dos Bairros.

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A obra foi de responsabilidade do Programa de Assistência às favelas da Região Metropolitana de Fortaleza (Proafa). No relatório da época, a comunidade contava com 446 famílias, com contingente de 2.006 pessoas em 2,2 hectares.

“Eu morava na casa da minha mãe no (bairro) Pio XII. Quando a gente pensou em se casar, minha esposa arranjou um dinheiro com a patroa dela, e a gente comprou um barraco aqui. Na época foi bom eu ter vindo pra cá porque, se não fosse isso, acho que o pessoal do Estado não teria conseguido construir isso, porque ninguém acreditava. Como eu já tinha uma liderança no bairro, a gente foi tentar convencer as pessoas de que era real, era verdade”, conta João Roberto, referindo-se à época em que atuava no conselho comunitário.

Foram necessários diversos encontros na comunidade para apresentar os modelos do projeto, explicar as regras para a compra da casa, definir o nome do conjunto, dentre outros. Os anos 1980 e 1990 foram marcados por mudanças na estrutura da comunidade. Os receios de remoção continuaram por alguns anos, mesmo após a entrega das casas, mas a união e a memória coletiva de lutas que se fortaleceu nos anos seguintes fincou as bases do Conjunto Habitacional São Vicente de Paulo numa área onde “o chão vale ouro”, em termos comumente usados por jornais da época.

Até hoje, os moradores se orgulham de ter conseguido, através da carta, sensibilizar a primeira-dama Luiza Távora a realizar o projeto de urbanização da comunidade. Ainda assim, de tão contrastante a realidade entre as Quadras e a Aldeota, é difícil reconhecer a comunidade como parte de um bairro nobre. O contraste reforça a estigmatização sofrida pelos moradores do conjunto no próprio bairro. O desafio é manter as conquistas e lutar diariamente contra o estigma atrelado a comunidades e favelas pelo Brasil.

Faça um passeio pela história

REPORTAGEM:

Jéssica Welma e Roberta Tavares

EDIÇÃO:

Rafael Luis Azevedo

FOTOGRAFIA E VÍDEO:

Fernanda Moura

IMAGENS DE DRONE:

Paulo Eduardo Leite

PROJETOS DIGITAIS:

Jackson Cruz

MÍDIAS DIGITAIS:

Emílio Moreno

DESENVOLVIMENTO:

Index Digital

AGRADECIMENTO:

Bruno Sampaio e Rafael Morais

DATA DE PUBLICAÇÃO:

27 de junho de 2016