Orgulho da galera

Nem só de dinheiro vive o homem. Há que empreenda numa busca mais subjetiva

Eles são os verdadeiros fachos de luz da Comunidade das Quadras. Um foi atraído pela beleza das ruelas cheias de vida. O outro, pelo som que ecoava pelas janelas e entrava nos cômodos das casas. Com uma câmera fotográfica e um violão, Rafael e Jonas fazem maravilhas. Moradores da comunidade desde que nasceram, conseguiram encontrar autoestima e perspectiva animadora graças à arte. Alguns cliques são capazes de despertar para um mundo escondido, enquanto simples notas podem iluminar um comportamento adormecido.

MATERIA 4 - PRIMEIRA FOTO RAFAEL MORAIS (CREDITO RAFAEL MORAIS)
O fotógrafo Rafael Morais capta a alma dos moradores (FOTO: Rafael Morais)

De calça jeans e camisa de botão, Rafael Morais nos encontra na entrada das Quadras, próximo à Rua Beni de Carvalho. “Vocês estão conhecendo agora o Rafael fotógrafo, que é um pouco diferente do Rafael da comunidade”, se apresenta. Aos 23 anos, o jovem é um batalhador.

Com a morte da mãe, tinha tudo para trilhar um caminho diferente. Como em um clique, viu que a vida poderia ter um registro mais belo do que esperava. “Desde criança, eu brincava com câmera em casa, queria bater foto, olhava para aqueles filmes, botava no sol para ver a foto”, lembra.

Cresceu e, a partir de uma fotografia feita por ele na câmera de uma amiga, percebeu que poderia se aprimorar. Convenceu a mãe a comprar uma câmera e fazê-lo desistir do trabalho de descarregador de caminhão de frutas em um supermercado para viver da arte de eternizar momentos. “Dei o gás durante dois meses para conseguir, porque ela me ensinou uma coisa: ‘Se você quiser algo, faça por merecer’. Isso me mostrou a personalidade que tenho, de querer crescer da minha forma, com o meu suor”, relata, lembrando o falecimento da mãe por problemas cardíacos.

Sempre fascinado pela vitória, o então menino buscou referências que a sociedade dizia serem passos para a conquista. Criou um blog e, com os apenas R$ 70 que tinha, fez cartões de visita para divulgar o trabalho. Tudo começou com fotografias em festas de forró. Foi aí que a carreira de Rafael deslanchou: passou a fotografar bandas, vaquejadas, até chegar o convite de registrar os shows de Wesley Safadão.

Atualmente, com 10 mil seguidores no Facebook, faz cerca de 20 trabalhos por mês. E detalhe: ele nunca fez um curso, é autodidata. Já reconhecido, conseguiu se dar ao luxo de escolher os perfis de sessões que gosta de fazer. Optou por valorizar os momentos familiares e fotografar noivos, grávidas e festas de casamentos. Resumindo: contar histórias.

“No início, minhas fotos eram muito ruins, mas a pessoa vai melhorando com o tempo, até encontrar uma forma que consiga se expressar em imagens. Eu trabalho no chamado ‘surrealismo’, que não é apenas aquela foto posada. Você não tem noção de como é bom olhar para uma gestante, ver ela toda feliz e dizer que amou. Eu penso: ‘Fotografei um momento da vida de uma pessoa’. Você tem noção da importância do que é isso aí? Isso é vida. Você vai embora, mas as únicas coisas que ficam são as tuas fotografias”.

Comprou um carro, tornou-se independente. Mesmo com a sensação de plenitude, no entanto, ainda parecia faltar algo. O olhar apurado durante a Copa do Mundo o fez registrar a primeira fotografia da Comunidade das Quadras. “Um dia, cheguei na comunidade no final de tarde, com a câmera na mão. Quando olhei aqueles fechos de luz batendo nas bandeirinhas verde e amarelo, foi lindo. Eu me baixei e disparei na hora. Consegui flagrar o pôr do sol com uma criança correndo. Nunca tinha visto o meu olhar para a comunidade assim. Me dei conta de que aqui também tem história, tem famílias, tem coisas boas”.

Me dei conta de que aqui também tem história, tem famílias, tem coisas boas”. (Rafael Morais)

Quando publicou na internet e viu os amigos se apaixonarem pela foto, assim como ele, começou a fotografar com mais frequência a comunidade. Tudo passou a ser motivo de cliques: risos, brincadeiras, crianças voltando da escola, pessoas entregando marmitas, trabalhadores vendendo verduras. Nem os próprios moradores compreendiam ou notavam a tamanha beleza que a Comunidade das Quadras esconde. “A reação daqui foi incrível: ‘a gente mora aqui? A gente é daqui? Que lindo’. Percebi que eu estava fazendo uma coisa boa, demonstrando uma forma de ver o valor que eles têm”.

MATERIA 4 - SEGUNDA FOTO JONAS VIDAL
Jonas Vidal é música para os ouvidos dos moradores (FOTO: Fernanda Moura)

Pelé dos instrumentos
Tanto valor não é por acaso. Até um Pelé existe na comunidade. É o apelido do Jonas Vidal, de 31 anos. Esse Pelé, no caso, bate um bolão em outra área. Andamos alguns metros para conversar com o músico, na Rua General Tertuliano Potiguara. “Eu vou só almoçar e me arrumar, aí vocês me acompanham”, pediu. Seguimos o trajeto feito por ele diariamente para ministrar aulas a 46 pessoas, no Centro Comunitário São Vicente de Paulo. Sorridente, Jonas refaz mais de uma vez o percurso para pegar todos os instrumentos: flauta, violão e piano.

A estrada positiva trilhada por ele foi graças ao amor pelo som dos instrumentos. Ainda criança, ganhou a primeira caixinha de música e logo a desmontou. “Eu tinha a intenção de entender o que tinha por dentro. Tudo o que tinha música eu ficava ouvindo. Isso até me rendeu uns problemas no ouvido, já perfurei o tímpano, porque tudo o que eu pegava, colocava no ouvido”.

Aos 14 anos, se surpreendeu com o som de uma flauta que ecoava pelo Centro Comunitário. “Sabe quando você se encontra? Eu escutei a flauta lá de fora e vim procurando saber o que era, olhei pela porta e disse: ‘é isso”. Fez a matrícula no curso, que durou um mês, e rapidamente aprendeu a tocar o instrumento. Com facilidade na assimilação, recebeu convite para ser bolsista em uma casa de música e não parou mais de estudar e repassar os ensinamentos, mas o início foi complicado.

Já senti muito preconceito, mas não tenho vergonha de dizer que moro aqui”. (Jonas Vidal)

“Me lembro perfeitamente do primeiro violão que comprei. Passei um ano para juntar R$ 50. Demorou, viu? Quando comprei, parece que tinha comprado uma Ferrari. Agora, olho para a minha casa, vejo cinco, seis violões espalhados, e lembro como foi difícil comprar o primeiro”.

Atualmente, Jonas dá aulas em corais e no Centro Comunitário, tem três empregos, com o intuito de sustentar a família e dividir um pouco do que aprendeu até hoje. A ideia principal, segundo disse, não é transformar os alunos em músicos, mas estimular a sensibilidade. Muitos chegam às aulas com características agressivas, por serem tratados daquela forma pela própria família.

“O meu objetivo é diminuir a relação deles com a violência e fazê-los ter mais preocupação com o próximo. Eu mostro para eles que podem alcançar muitas coisas. Tem muita gente que fica com a limitação na mente, imposta pela exclusão: ‘ah, você nasceu aqui, então não vai ser ninguém’. Para quem se dedica, estuda, é inevitável a mudança”.

O sucesso foi consequência justamente do esforço de Jonas. Conhecido como o “tocador da comunidade” e com CDs e DVDs lançados no mercado, junto a uma banda de samba, Jonas já viu diversos amigos de infância morrerem ou serem presos. “É triste isso. Passo por alguns em estado decadente, muitos foram seduzidos. Lembro que, há 15 anos, estávamos juntos, brincando e, naquele momento, cada um poderia ser qualquer coisa na vida. Agora, muitos não têm foco, estão simplesmente só existindo”, confessa, carregado de sentimento e com maturidade própria de alguém que trilhou um caminho difícil e bastante sinuoso.

Veja fotos feitas por Rafael Morais:

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“Sobe o vidro, filha!”
Um dos ensaios feitos na Comunidade das Quadras por Rafael Morais teve grande repercussão na mídia. Ele resolveu mostrar algo além dos relatos de assaltos e violência da região. Munido de uma câmera fotográfica, saiu de casa para capturar o outro lado da comunidade. O que é visto diariamente pelos próprios moradores: sorrisos, brincadeiras, conversas de famílias e muita cor e luz. “Por aqui ser tão pequenininho, eu me encantei por ter tanta história. Agora, sou conhecido como o fotógrafo da comunidade”.

O jovem fez 39 imagens e divulgou parte do material nas redes sociais. As fotos, acompanhadas do texto “Sobe o vidro, filha! Aquela comunidade ali só tem bandido. Por quê? Não vê? Só o que passa na TV”, chamaram a atenção dos moradores de Fortaleza, inclusive de jornalistas. Rafael concedeu entrevistas e foi convidado a participar de programas de TV.

“Foi esse ensaio que estourou o meu trabalho na internet. Mais de mil pessoas curtiram. Fiquei muito feliz com aquilo, porque consegui fazer com que outras pessoas vissem a Comunidade das Quadras de outra maneira. Afinal, será que todo mundo aqui é bandido? Será que todo mundo é gente ruim? Eu acho que não, uma minoria não pode acabar com a maioria. Eu gosto daqui, cresci aqui e aprendi muita coisa aqui”.

Quem projeta as Quadras

REPORTAGEM:

Jéssica Welma e Roberta Tavares

EDIÇÃO:

Rafael Luis Azevedo

FOTOGRAFIA E VÍDEO:

Fernanda Moura

IMAGENS DE DRONE:

Paulo Eduardo Leite

PROJETOS DIGITAIS:

Jackson Cruz

MÍDIAS DIGITAIS:

Emílio Moreno

DESENVOLVIMENTO:

Index Digital

AGRADECIMENTO:

Bruno Sampaio e Rafael Morais

DATA DE PUBLICAÇÃO:

27 de junho de 2016