Nos braços da torcida

Três times amadores com décadas de tradição dividem a paixão da comunidade

Domingo é um dia diferente na Comunidade das Quadras. Quando o relógio marca meio-dia, é hora de começar a preparação para o jogo do Bandeirantes: um dos times de futebol mais antigos da comunidade. A paixão pelo futebol nas Quadras se confunde com a trajetória dos moradores, especialmente com a de uma das mais antigas: Dona Priscila. Ainda que as mais de oito décadas de vida já pesem sobre seu corpo e cobrem uma rotina sem alvoroço, uma função Dona Priscila não abandona: a de líder e organizadora do Bandeirantes.

MATERIA 5 - TERCEIRA FOTO ANTIGA DO BANDEIRANTES
O Bandeirantes, time da comunidade, nasceu em 1968 (FOTO: Reprodução)

“Se eu ficar em casa e não ver os homens correr, eu fico doente. Eu quero muito bem ao meu time, acho que é a alma do meu marido”, conta Dona Priscila, cujo nome de registro é Joana Cordeiro Viana, mas permanece apenas como um registro num papel. Por trás da paixão pelo time, se revela uma grande história de amor. O cuidado com o time é uma forma de manter viva a memória do marido, José Aguiar Viana, fundador do Bandeirantes.

A “Associação Atlética Bandeirantes” nasceu em 10 de maio de 1968, alguns anos após a criação do Barbosa de Freitas, o mais antigo da comunidade. O marido de Dona Priscila jogava como amador no Barbosa de Freitas, mas um desentendimento em campo o fez sair, junto com outros jogadores, e fundar o Bandeirantes. Dona Priscila assumiu a empreitada em parceria com o marido, seus filhos e dezenas de netos. Nascido no seio de uma família grande, agregar se tornou uma marca do novo time.

Se eu ficar em casa e não ver os homens correr, eu fico doente”. (Dona Priscila)

MATERIA 5 - SEGUNDA FOTO PRISCILA DO BANDEIRANTES
A casa de Dona Priscila é a sede do Bandeirantes (FOTO: Fernanda Moura)

Mais recentemente, foi criado o Oboé, que joga aos sábados. Todas as três equipes movimentam a dinâmica da comunidade, especialmente nos finais de semana. Os jogadores são, em sua maioria, moradores das Quadras e, por vezes, jogam em mais de um time. Também não há rivalidade: há quem goste mais de um time que de outro, mas o respeito é mútuo.

A casa de Dona Priscila atualmente é também a sede do Bandeirantes. Hoje, a responsabilidade com o time é dividida com o filho mais velho, Antônio Cordeiro Viana, conhecido como “Piçarra”, atual diretor do Bandeirantes. Os netos e netas também ajudam a idosa na compra do material esportivo do time, compra de medalha e organização de festejos, como o aniversário do time, que já chega aos 48 anos.

Paixão local

Todo domingo, duas horas da tarde, o ônibus sai da comunidade levando jogadores e torcedores para os quatro cantos de Fortaleza para disputar campeonatos. “É só chegar aqui na comunidade que você já vê o fuzuê”, dizem os moradores. Não é difícil encontrar relatos apaixonados pelo time. Dona Léo é tradicional torcedora do Bandeirantes há mais de 20 anos. Já foi responsável por lavar o uniforme dos jogadores, por fazer a comida, controlar os passageiros na subida no ônibus, mas hoje “só acompanha”, diz Léo.

A alegria é um dos principais atrativos do Bandeirantes. É uma festa garantida todos os domingos, ainda que o time não vença a partida. O uniforme verde e amarelo é um orgulho dentro da Comunidade. Não é preciso ser profissional para jogar no time, mas tem de se esforçar para manter a tradição do Bandeirantes como o “papão da Aldeota”.

MATERIA 5 - PRIMEIRA FOTO CRIANCA COM BLUSA DO BANDEIRANTES
Camisas do Bandeirantes são vestimenta de orgulho local (FOTO: Fernanda Moura)

“Uns amigos meus me chamaram para jogar no Bandeirantes, mas eu disse que não sabia jogar não. Aí eles disseram: ‘Não, mah, é só colocar a chuteira e pronto. Faz a tua parte e pronto. Deixa os de fora falar. Joga teu jogo’. Mas é muita tesoura, pessoal fica falando: ‘Ei, bicho ruim, sai fora, dá pra tu não’. Mas é bom fazer um esportezim, né? Emagrecer mais, porque eu estou pesado”, brinca um dos jogadores do Bandeirantes.

Ao som da bateria e da tradicional charanga, pequena banda de música formada por instrumento de sopro, os moradores seguem o ritmo do Bandeirantes, renovando seus laços afetivos e reafirmando suas relações enquanto comunidade. A influência do futebol na comunidade extrapola a simples prática do esporte.

Pelas ruelas da comunidade

REPORTAGEM:

Jéssica Welma e Roberta Tavares

EDIÇÃO:

Rafael Luis Azevedo

FOTOGRAFIA E VÍDEO:

Fernanda Moura

IMAGENS DE DRONE:

Paulo Eduardo Leite

PROJETOS DIGITAIS:

Jackson Cruz

MÍDIAS DIGITAIS:

Emílio Moreno

DESENVOLVIMENTO:

Index Digital

AGRADECIMENTO:

Bruno Sampaio e Rafael Morais

DATA DE PUBLICAÇÃO:

27 de junho de 2016