Luta contra estigma

Centro social tenta fortalecer vínculos comunitários para combater a violência

Entre o colorido e o riso fácil nas Quadras, uma pequena sombra paira sobre as vielas: a violência. O problema se esconde em meio aos empreendedores, artistas e os momentos de lazer na comunidade.

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Moradores de prédios temem andar nas ruas próximas (FOTO: Rafael Morais)

Um dos moradores do local, que conversou com o Tribuna do Ceará apenas sob a condição de manter sigilo na identificação, diz ter entrado no mundo do crime por falta de oportunidade gerada pelo preconceito. É pobre. É negro. É morador das Quadras. Características que podem ficar no imaginário da sociedade como as legítimas representações da violência e de tudo o que ela significa.

Já foi preso três vezes, por assalto e porte ilegal de arma. Decidiu abandonar os estudos na 6ª série do Ensino Fundamental para jogar futebol com os amigos. A bola deu lugar às drogas e à prática de delitos. “Com uns 15 anos, eu era flanelinha, ficava olhando os carros. Eu espero alguém me chamar pra trabalhar, mas ninguém quer, porque com as minhas características ninguém me contrata, dizem que eu tenho cara de meliante, de ‘bicho perigoso’”, desabafa.

Aos 31 anos, ele garante não ter o mesmo fôlego que tinha quando mais novo para praticar crimes. “Esse 157 [artigo do Código Penal referente a roubo mediante constrangimento ou grave ameaça] já deixei para trás, quero mais não. Os outros me chamam e eu nem me instigo não. Chegam e dizem: ‘ei, bora lá, meter uma faca’. Quando eu era doido, eu ia na boa. Agora penso duas vezes… O nego vai mudando o ritmo, não dá mais pra mim não”.

Segundo disse, no entanto, o problema maior não é nem o arrependimento; mas, sim, o medo de não sair conforme o planejado e ser preso novamente. “Deus o livre dá errado, e eu passo quatro ou cinco anos na cadeia? Fico com medo. Sempre que vou dormir, digo: ‘obrigado, Senhor, por mais um dia que você está me dando”.

O cruzamento da Rua Beni de Carvalho com a Avenida Virgílio Távora, bem próximo às Quadras, já foi alvo de constantes assaltos. Agora a realidade tem mudado, tanto nos arredores da comunidade como dentro dela. “Aqui tá tranquilo, não tá mais rolando negócio de morte. Já mataram um perto daquele jarro ali [lembra, apontando para uma planta, distante cerca de 5 metros de onde estávamos sentados]. Outro foi morto naquela rua ali. Era tenso. Criança não ficava na rua não. Agora rolou essa paz, né? E melhorou bastante”, afirma.

Aqui tá tranquilo, não tá mais rolando negócio de morte”.

O morador Daniel Lima, de 46 anos, assegura que a paz reina na comunidade. A presença de três igrejas evangélicas tem refletido na atitude dos jovens. De acordo com ele, as evangelizações são constantes e diárias. “Aqui está uma beleza, bem melhor que antes. Fazemos reuniões nas casas, colocamos cadeira nas ruas, chamamos as pessoas para evangelizar. No começo, era ruim, negócio precário mesmo, pessoas nas ruas desesperadas, drogadas, briga de gangue por coisas banais. Você não podia ficar fora de casa que era bala na certa”, admite.

E é justamente com o intuito de minimizar ainda mais os problemas causados pela violência que o Centro Comunitário São Vicente de Paulo atua desde maio de 1984. A missão é fortalecer os vínculos familiares e comunitários, além de prestar os serviços de atendimento aos usuários do Centro.

“Tentamos buscar essas pessoas para o Centro Comunitário. Sabemos que é muito difícil, mas não desistimos. A relação ainda é como uma conquista, devagar, quase uma paquera. Conversamos nas saídas e nas entradas, chamamos para um lanche. Tenho fé que vamos conquistar por completo, nem que seja só na área do esporte. O que a gente está querendo é conscientizar eles de que precisam procurar um curso profissionalizante para mudar de vida”, explica a diretora Solange Rocha.

Dentro da comunidade, são ofertados cursos profissionalizantes, como os de customização de peças femininas, culinária, eletricista predial, manicure e garçom, além de oficinas de esporte e arte a mais de 240 pessoas. O atendimento é disponibilizado a pessoas a partir de 8 anos.

Info

A área de abrangência do Centro Comunitário não se restringe apenas às Quadras, mas também aos Bairros Aldeota, Meireles, Dionísio Torres, São João do Tauape, Joaquim Távora e à Comunidade dos Trilhos. “Houve a pacificação, e favoreceu muito o nosso trabalho. O professor de capoeira, por exemplo, é dos Trilhos. Existem idosos dessa comunidade que fazem os cursos aqui, nas Quadras. É uma forma de unir pessoas de comunidades distintas”.

Aqui está uma beleza, bem melhor que antes”. (Daniel Lima)

Encantada pela simplicidade e, ao mesmo tempo, beleza, Solange reconhece que o local é diferente dos outros. Servidora pública há mais de 40 anos na Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social (STDS) e moradora de um dos prédios localizados no entorno das Quadras, a advogada consegue enxergar o lado positivo do povo e propagar o sentimento aos vizinhos. A comunidade está inserida no Bairro Aldeota, um dos mais nobres de Fortaleza e com o segundo maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), com 0,867, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

“Eu sei que é um bairro com nível de classe A e B, então realmente é uma diferença chocante dos adolescentes da comunidade com os do entorno. O que falo para os meus vizinhos é que essa comunidade tem muita gente boa, serviços bons, não tem só coisa negativa. Eles me perguntam como eu tenho coragem de trabalhar aqui e mal sabem que sou uma das pessoas respeitadíssimas na comunidade. Afinal, gentileza gera gentileza”.

Aos 24 anos, Paulo Anastácio almeja melhorias para a comunidade onde mora desde que nasceu. Com a pouca idade, já assumiu a vice-presidência da Associação Comunitária do Conjunto São Vicente de Paulo, que tem como meta estimular o desenvolvimento local e ajudar os moradores a conseguir seus direitos.

“Eu via que a comunidade necessitava de uma pessoa que tivesse determinação, vontade de lutar por melhorias. Quando entrei, vi que poderia contribuir. Vi que o meu papel podia fazer parte de uma solução viável para ajudar as pessoas. Junto aos integrantes da Associação, vamos até o órgão público e privado tentar trazer para cá algumas ações e projetos. A gente enxerga a necessidade do morador, vê o que a comunidade tem mais carência e faz a solicitação”, comenta com maturidade.

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Associação ensina que só a educação mudará a vida local (Foto: Rafael Morais)

A ideia é mostrar ao poder público que a comunidade não é invisível e deve ter as mesmas garantias que outras regiões da cidade. “Muitas vezes, aqui é uma área oculta. O Estado não percebe que aqui tem gente carente, gente necessitada. Nós existimos”. Graças à atuação da Associação, os moradores conseguiram conquistar desejos, como a construção de uma creche, a melhoria da coleta de lixo e a reforma do salão de eventos, rádio e auditório.

Mesmo tendo concluído o Ensino Médio, o jovem também afirma ser vítima de preconceito. “Eu já carrego na minha roupa o preconceito. A gente chega em um determinado local, e as pessoas já dizem: ‘Ah, eles moram ali na Quadra’. Já nos enquadramos no preconceito”.

Para o rapaz, o grande passo seria tentar combater a violência a partir da educação dos jovens. Paulo presencia diariamente a inexistência de políticas voltadas aos adolescentes com quem convive. “Um dos meninos daqui praticou um assalto, foi preso, depois voltou, não conseguiu enxergar horizonte porque foi barrado pela sociedade. Não conseguiu emprego nem vaga em nenhum local. Ele chegou para mim e pediu emprego numa obra. ‘Eu tou paradão, no beco, vou ter que acender meu cigarro aqui. Com a mente vazia, vou ter que praticar algo’, me disse. Se o Estado voltasse para cá e trabalhasse esses jovens, a visão das pessoas poderia ser mais positiva”.

De acordo com dados da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), a Aldeota está inserida na Área Integrada de Segurança (AIS 3) junto a outros 18 bairros. De janeiro a dezembro de 2015, foram registrados 187 crimes violentos letais e intencionais, como homicídio doloso, latrocínio e lesão corporal seguida de morte.

No entanto, não é possível mensurar os números referentes apenas à Aldeota, já que a AIS contempla bairros, como Praia do Futuro e Edson Queiroz, por exemplo, que têm cerca de 8 quilômetros de distância da região onde fica localizada a Comunidade das Quadras.

Quem faz acontecer

REPORTAGEM:

Jéssica Welma e Roberta Tavares

EDIÇÃO:

Rafael Luis Azevedo

FOTOGRAFIA E VÍDEO:

Fernanda Moura

IMAGENS DE DRONE:

Paulo Eduardo Leite

PROJETOS DIGITAIS:

Jackson Cruz

MÍDIAS DIGITAIS:

Emílio Moreno

DESENVOLVIMENTO:

Index Digital

AGRADECIMENTO:

Bruno Sampaio e Rafael Morais

DATA DE PUBLICAÇÃO:

27 de junho de 2016