Fiado aqui sim

Dezenas de pequenos negócios movimentam a economia da Comunidade das Quadras

Ao passar pelas ruas que circundam a Comunidade das Quadras, é difícil imaginar que ali, no espaço de um quarteirão, existam mais de 400 habitações, separadas por nove pequenas ruas e becos em seu interior. Respirando de forma singular a rotina de prédios luxuosos, centros comerciais, shoppings e restaurantes – símbolos da Aldeota –, a quadra se transforma em plural: “As Quadras”, para abraçar um mundo de pequenos negócios como lanchonetes, marmitarias, borracharias, lojas de roupa, papelarias, igrejas, salões de beleza…

Lanchonete da Zilda
Lanchonete da Zilda é ponto de encontro na comunidade (FOTO: Fernanda Moura)

Lanchonete da Zilda
Um desses pontos é a Lanchonete da Zilda, na Rua do Rosário. Há dois anos, Iran Duarte e a esposa decidiram que era hora de largar o emprego fixo para apostar no próprio negócio. Zilda já tinha experiência com buffet há 15 anos e, aos fins de semana, fazia bolos e salgados para vender na calçada de casa. “Com o tempo, a gente começou a ver que estava dando certo e podíamos acreditar no nosso potencial”, conta Iran que, antes, trabalhava em loja de material de construção.

A vitrine de doces e salgados é de dar água na boca: pizzas, bolos, coxinhas… A clientela é tanto de dentro como de fora da comunidade. Para dar conta da demanda de venda na loja e de entregas à domicílio, a rotina começa ainda na madrugada e vai até a noite. O casal, que mora há 12 anos na comunidade, não fala em valores arrecadados com a lanchonete, mas não nega que a situação financeira ficou muito melhor.

Boa comida à parte, andando pelas Quadras, é de se perder a conta do total de mercadinhos. Um dos mais tradicionais é o do seu João do Bar. Ele chegou à comunidade poucos antes da urbanização, vindo do município de Meruoca, e fixou moradia. O comércio veio quatro anos depois e perdura até hoje, na rua Beni Carvalho. “Tem dia que fico aberto até uma hora da madrugada. Aqui ninguém mexe com você”, garante João do Bar.

Tem dia que fico aberto até uma hora da madrugada. Ninguém mexe com você”. (João do Bar)

Fátima da Silva Nunes, de 57 anos, é costureira profissional
Fátima da Silva, de 57 anos, é costureira profissional (FOTO: Fernanda Moura)

Costuras da Fafá
Fixar o comércio na parte “externa” da comunidade é a preferência da maioria dos empreendedores, tanto que são poucas as casas que ainda não foram aproveitadas pelo comércio nos arredores. Fátima da Silva Nunes, de 57 anos, é costureira profissional e, há dois anos, alugou uma casa na Beni de Carvalho para que a clientela, predominantemente da classe nobre, não reclamasse por ter de entrar na comunidade.

Como todo bom morador das Quadras, Fátima da Silva não é conhecida pelo seu nome de batismo, mas por “Dona Fafá”. Há 12 anos, a mulher de cabelos loiros e mãos rápidas na máquina de costura, vive na comunidade, rodeada de tecidos e revezando a atenção entre a programação da TV e do rádio. “Tentei enveredar pela tapeçaria, crochê, cortinas, mas o que me pegou mesmo foi a costura”, conta orgulhosa, mostrando fotos de vestidos de festa e roupas feitas sob medidas para clientes exigentes.

Cezário, o curandeiro da quadra
As “garrafadas” de Cezário curam qualquer mal (Foto: Fernanda Moura)

Curandeiro da quadra
O sentimento dos moradores é de que dá para resolver todas as necessidades básicas nas Quadras: tem salão de beleza, loja de roupas, frigorífico, marmitaria, papelaria, loja de artigos de festa… Mas há também quem garanta o sustento nas Quadras, apostando em áreas as quais nem se imaginam mais existir, como é o caso da “rifa do bicho” e da venda de “ervas medicinais”.

“Essa aqui é a ‘colônia’. Você quebra duas e toma com gergelim, mostarda e hortelã para o AVC (acidente vascular cerebral)”, ensina Cezário Morais dos Santos, de 79 anos, rodeado por garrafas de líquido escuro, as chamadas “garrafadas”, raízes e ervas para chá. Há mais de 40 anos ele vive na comunidade. O trato com a medicina natural foi passado pela avó, e seu Cezário se transformou numa espécie de “curandeiro” das Quadras.

O carro-chefe é o “xarope da saúde” e sua lista de nove ingredientes: imburana, ameixa, angico, tipi, jatobá, romã, janaguba, tiú e aroeira. A “serventia”, como diz seu Cezário, é para cólica, gastrite, úlcera, catarro no peito… “Isso aqui serve pra tudo”, garante.

A tristeza de seu Cezário é que não tem quem queira aprender a fazer os chás e lidar com as plantas medicinais, conta ele. “O povo só quer aprender o que não presta”, diz, com semblante desolado de quem vê sua arte perder-se no tempo. Mesmo assim, a alegria reina em seu rosto ao falar dos benefícios de suas garrafadas.

E se o assunto é alegria, ela é levada de uma rua a outra nas pranchetas penduradas nos braços de garotas e de mulheres que vendem o ponto do jogo do bicho. Com 50 centavos, você escolhe um animal da cartela e espera o resultado do sorteio da Loteria Estadual. Todo dia é uma ansiedade sobre que serão os vencedores das duas rodadas diárias de sorteio.

“Todo mundo aqui é verminoso. Tem gente que joga 50 reais em um bicho só. O povo desce dos prédios só pra vir jogar”, conta Kelson Lima Tavares, de 28 anos, que começou a vender a rifa por influência da mãe. A matemática do lucro é simples: ele pega uma cartela que custa R$ 150, vende todos os pontos, R$ 50 reais são dele e o restante vai para o vencedor do sorteio.

O sentimento em comum entre tantas apostas de empreendedorismo nas Quadras é tratar bem o outro. O bom atendimento, regra básica de qualquer relação comercial, vai além e se estabelece também como regra da boa convivência num local onde “todo mundo conhece todo mundo”.

Todo mundo aqui é verminoso. Tem gente que joga 50 reais em um bicho só. O povo desce dos prédios só pra vir jogar”. (Kelson Lima)

Cantinho da Ressaca
“Pode perguntar que eu adoro falar”, diz Leonardo Moraes da Silva, de 39 anos, um dos moradores mais famosos da Comunidade das Quadras. Porém, chamá-lo por Leonardo de nada adianta. Léo, como de fato é chamado, é o responsável pelo “Cantinho da Ressaca”, um lugar que, além de garantir o café da manhã de quem passa a noite na farra nos fins de semana, é ponto tradicional de almoço e janta na Rua do Rosário.

Difícil alguém que não o conheça na comunidade, mas sua fama não se limita à habilidade na cozinha. Léo é transexual e costuma usar vestido e touca na cabeça. Não há estranhamento entre os moradores devido aos seus trajes e trejeitos. Léo é respeitado por suas escolhas e direitos de se vestir e ser quem ele quiser. Já foi até tema de documentário em Fortaleza, chamado “Dona Léo”.

Léo segurando sua galinha.
As escolhas de vida de Léo são tão respeitadas que ele já foi tema de documentário (FOTO: Fernanda Moura)

Foi herdada da mãe a paixão pela cozinha e a rotina na marmitaria. A matriarca da família, Dona Alda, faleceu há um ano, por problema no coração. Léo era seu fiel escudeiro na rotina dos negócios e perpetua o carisma da mãe, cuja foto é vista logo na entrada do estabelecimento, registro de uma saudade que não arrefece.

A família veio de Quixadá para Fortaleza e sofreu na época da reurbanização porque não tinha dinheiro para garantir a compra da casa junto a Proafa. Foi a patroa de Dona Alda que deu o suporte financeiro para a família continuar em Fortaleza. Já são quase três décadas, entre idas e vindas do Sertão Central, que Léo vive aqui, mas a vontade de voltar para o Interior e “criar suas galinhas” num terreno espaçoso ainda é seu maior sonho.

Os donos do negócio

REPORTAGEM:

Jéssica Welma e Roberta Tavares

EDIÇÃO:

Rafael Luis Azevedo

FOTOGRAFIA E VÍDEO:

Fernanda Moura

IMAGENS DE DRONE:

Paulo Eduardo Leite

PROJETOS DIGITAIS:

Jackson Cruz

MÍDIAS DIGITAIS:

Emílio Moreno

DESENVOLVIMENTO:

Index Digital

AGRADECIMENTO:

Bruno Sampaio e Rafael Morais

DATA DE PUBLICAÇÃO:

27 de junho de 2016