A cara das Quadras

Preto Zezé, filho ilustre da comunidade, celebra a redução do preconceito contra os manos

O cearense Francisco José Pereira de Lima, mais conhecido como Preto Zezé, conhece as Quadras como poucos. Nascido na comunidade, ele viu de perto a realidade de pobreza extrema em que viviam muitas famílias. Hoje presidente global da Central Única das Favelas (Cufa), ele não perde as raízes criadas na parceria da comunidade e batalha para proporcionar uma vida melhor para quem vive nas favelas e, principalmente, para derrubar preconceitos. Preto Zezé também é rapper, compositor, produtor cultural e ativista social. Ao Tribuna do Ceará, ele falou um pouco sobre sua relação com as Quadras.

Preto-Zeze-Quadras
Preto Zezé é hoje presidente global da Cufa (FOTO: Arquivo pessoal)

Tribuna do CearáAtualmente, você é o representante das Quadras de expoência internacional. Através de você, a comunidade tem se tornado conhecida em diversos lugares. De que forma você busca retratá-la quando fala dela para pessoas que nunca vieram a Fortaleza?

Preto Zezé – Um lugar de potência, de criatividade, de gente que faz acontecer! Quando você conhece a Marcela, que montou seu salão de beleza corporal; o açaí do Miguel, a batalha de caras como Foca, James e Charle fazem, quando você vê a organização do time da Oboé, ou a batalha do Kiko e Paulinho da Associação de Moradores e sua equipe, você percebe outra Quadra que, infelizmente, não é vista diariamente na TV. E que, como figura pública, temos por obrigação projetar um outro olhar, pois ainda reina uma visão de violência e carência, tanto por parte do Poder Público como do setor privado, mas estamos mudando isso. Quando eu tenho duas empresas como C. Rolim Engenharia e Grupo Beto Studart alinhados com o Estado, Prefeitura e a comunidade organizada, é sinal que conseguimos romper a invisibilidade e este olhar que nos reduz sempre a violência e a carência.

TribunaVocê nasceu nas quadras. Quais lembranças são mais fortes para você, em relação à comunidade, durante sua infância e adolescência?

Preto Zezé – Eu tenho muitas imagens e que vão comigo onde vou. Sempre que estou num evento, como a minha posse na presidência global da Cufa na sede da ONU (Organização das Nações Unidas), ou carregando a Tocha Olímpica ou recebendo algum prêmio ou encontrando autoridades como presidentes da República e grandes empresas como Facebook, Coca-Cola, eu fico lembrando das ruas de terra, dos barracos de madeira, de como a Quadra era no início. Passa esse filme sempre. Impossível também não passar o filme dos amigos que se foram, dos que foram presos, das pessoas que não estão mais conosco. E sempre lembro do Foca, Ligado, Paulin e outros que sobraram para contar a estória e fazer história. Ser da quadra é mais que um local de moradia, um CEP, um endereço. Ser Quadra é um sentimento que me orgulha e, para onde eu for, vai comigo. Sempre que eu puder estarei, dentro da medida do possível, colaborando de alguma forma para melhoria daquele lugar. Queria sempre poder fazer mais, trazer mais benefícios, mas, infelizmente, ainda é muito difícil. Às vezes parece até fácil fazer as coisas, pois as pessoas confundem visibilidade com possibilidade de fazer coisas reais, mas a vida real é bem diferente. A burocracia, as dificuldades, a falta de gente para somar, e nesse trabalho sempre aparece mais gente para criticar do que para fazer. Eu faço parte do segundo grupo, prefiro fazer e quero sempre somar. Hoje fico à vontade de ver toda uma geração fazendo acontecer. Isso me motiva e estimula e me faz poder colaborar de outras formas para melhorias.

Conseguimos romper a invisibilidade e este olhar que nos reduz sempre a violência e a carência”. (Preto Zezé)

TribunaOlhando para a Comunidade das Quadras hoje, após tantos anos de relação com ela, do que mais você se orgulha e o que ainda é razão de luta para que ela se torne melhor?

Preto Zezé – Hoje a Quadra é outra. E o sentimento é tão bacana que, mesmo saindo fisicamente de lá, nossa relação e vivência continua no futebol, no papo do bar, nas piadas do Zé Magão, nas comédias do Normando e Sandin, mas também na galera que trabalha fora da Quadra, que batalha para fazer da sua vida e da Quadra melhor, dos parceiros, das pessoas que acreditam que podemos somar forças e fazer uma cidade e a Quadra melhor. Mas a batalha é incessante, temos muito ainda a fazer.

REPORTAGEM:

Jéssica Welma e Roberta Tavares

EDIÇÃO:

Rafael Luis Azevedo

FOTOGRAFIA E VÍDEO:

Fernanda Moura

IMAGENS DE DRONE:

Paulo Eduardo Leite

PROJETOS DIGITAIS:

Jackson Cruz

MÍDIAS DIGITAIS:

Emílio Moreno

DESENVOLVIMENTO:

Index Digital

AGRADECIMENTO:

Bruno Sampaio e Rafael Morais

DATA DE PUBLICAÇÃO:

27 de junho de 2016