Ações tornam Fortaleza uma referência nacional em trânsito seguro

Um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que, até 2030, os acidentes de trânsito devem ser a quinta maior causa de mortes do mundo. Em Fortaleza, em 2015, o número de mortes no trânsito foi quase 10 vezes maior do que o total de mortos pela dengue, por exemplo.

As vítimas do trânsito não são um problema apenas de saúde e de mobilidade. Na Capital, o impacto nas contas públicas foi de, pelo menos, meio bilhão de reais em 2015.

Ingestão de bebida alcoólica, uso de celular ao volante, desrespeito ao espaço entre modais e falta de estrutura viária estão entre os principais causadores de acidentes. Mudar essa realidade é obrigação de entes públicos e, principalmente, de cada morador das grandes cidades.

O Tribuna do Ceará te ajuda a conhecer as mudanças no trânsito em Fortaleza e a saber como você pode ser parte do projeto que busca transformar a Capital em referência nacional na mobilidade urbana.

Confira uma reportagem visual, objetiva e interativa.

Expediente

Reportagem: Jéssica Welma e Roberta Tavares

Edição: Rafael Luis Azevedo

Design: Mayara Kiwi

Imagens e vídeos: Adriano Paiva e Prefeitura de Fortaleza

Em 2016, Fortaleza registrou o menor número de mortes em acidentes de trânsito em 15 anos. Foram registradas 278 mortes, contra 381 óbitos em 2011, o ano mais grave.

Quiz

Você sabe agir corretamente no dia a dia do trânsito?

1. Na faixa de pedestres, quando abre o sinal verde para os carros:

a) Veículos têm a preferência, uma vez que o semáforo está aberto.

b) A preferência é do pedestre que não concluiu a travessia.

c) Somente idosos e gestantes têm preferência na faixa de pedestre quando o semáforo abre para os carros.

2. Na relação entre pedestres e ciclistas, qual a alternativa FALSA:

a) O ciclista que caminha com a bicicleta ao lado é considerado um pedestre.

b) A bicicleta é um veículo não motorizado, por isso o pedestre tem preferência sobre ela.

c) Bicicletas são consideradas veículos e não podem transitar na calçada com o pedestre.

3. Na relação entre bicicletas e veículos motorizados, indique qual a alternativa FALSA:

a) Lugar de bicicleta é na rua, no sentido dos carros e com preferência de uso da via.

b) A bicicleta tem sempre a preferência em relação ao automóvel.

c) Colar na traseira do ciclistas ou apertá-lo contra a calçada é infração grave.

4. Sobre a relação entre direção e bebida alcoólica, aponte a alternativa FALSA:

a) Dirigir embriagado reduz em até 25% o tempo de reação, aumentando o risco de acidentes.

b) Dirigir cansado ou com sono é tão perigoso quanto dirigir alcoolizado.

c) O máximo de ingestão de bebida alcoólica permitida antes de dirigir é o correspondente a um copo de cerveja.

5. Qual a velocidade mínima em que um veículo pode trafegar?

a) Não existe velocidade mínima, fica a critério de cada um.

b) Metade da velocidade da via.

c) Depende da necessidade do motorista.

6. Qual distância os veículos deve manter das bicicletas durante a ultrapassagem?

a) 1 metro e 50 cm.

b) O que for possível de acordo com a via.

c) Não é possível definir. porque ciclistas não respeitam o espaço dos carros.

7. As bicicletas podem circular nas calçadas quando:

a) Não houver acostamento.

b) Autorizado e sinalizado pelo órgão de trânsito.

c) Bicicletas nunca podem trafegar na calçada, pois isso é um perigo.

8. As motocicletas podem trafegar pelo espaço entre duas faixas de uma via?

a) Sim, pois é uma economia de tempo e espaço.

b) Não.

c) O Código de Trânsito Brasileiro não determina onde elas devem circular na via.

9. Em um acidente com motocicleta, a vítima está inconsciente e caída no chão com os joelhos dobrados. Nesta situação, um cuidado a ser prestado à vítima é:

a) Transportar a vítima sentada o mais rápido possível para o hospital.

b) Chamar o socorro, não remover o capacete e não movimentar o motociclista.

c) Verificar se há fratura e tentar colocar alguma articulação quebrada no lugar.

10. É permitido utilizar o celular enquanto conduz um veículo quando:

a) Estiver com fones de ouvido para atender uma ligação.

b) Parar no engarrafamento.

c) Somente quando estacionar o veículo em uma parada segura.

A linha Parangaba-Papicu (038) liga dois terminais de Fortaleza e percorre grandes avenidas num trajeto de cerca de 15 quilômetros.

Quando Paulo Ferreira começou a conduzir o ônibus da linha, as viagens duravam, pelo menos, 1h30min, sem contar a instabilidade de tempo gasto devido aos engarrafamentos no horário de pico.

A situação era resultado de anos de estímulo ao comércio de automóveis e sucateamento do transporte público. Em uma década, a frota de veículos de Fortaleza aumentou 206%.

Com uma infraestrutura viária incapaz de dar conta desse inchaço, o custo ficou alto e cobrou uma mudança no paradigma do transporte individual motorizado. A saída da Prefeitura foi priorizar o transporte público.

“Como a gente muda isso? Nós temos que dar uma sinalização muito precisa em três aspectos: a espinha dorsal de mobilidade da cidade tem que ser o transporte público, temos que estimular outros modais complementares e sustentáveis, principalmente o cicloviário; e não podemos viver com o drama da acidentalidade no trânsito. O trânsito mata mais do dengue, zika e chikungunya juntos”.

A possibilidade de um motoqueiro se acidentar é 200 vezes maior do que uma pessoa em um transporte público.

Em uma série de pesquisas, a Prefeitura de Fortaleza detectou que as demandas da população em relação ao transporte público eram redução do tempo de viagem, previsibilidade dos veículos, conforto e preço da passagem acessível.

“Procuramos atacar as quatro coisas. Em três fomos bem sucedidos, na quarta a gente tem de avançar mais”, afirma o secretário.

A Prefeitura implantou o Bilhete Único, para o usuário usar vários ônibus com uma só passagem por até 2 horas.

Fortaleza saltou de 7 km de faixas exclusivas em 2013 para 100 km em 2017. A meta é chegar a 200 km em 2020.

20% da frota de ônibus tem ar-condicionado. Meta é chegar a 100% até 2020.

A Prefeitura lançou o aplicativo “Meu Ônibus”, pioneiro no País, que mostra horários das linhas em cada parada.

“No que precisamos avançar: na lotação. Quando você dimensiona o tamanho da frota de ônibus, tem que olhar o pico e o entrepico. Se há uma frota grande no pico, eu dou uma condição mais confortável para quem pega o ônibus. No entrepico, essa frota não vai ser usada, porque não tem demanda. Todavia, o custo desses ônibus entra na composição da tarifa que o usuário paga. Fica um dilema entre quanto mais eu aumento a frota e quanto mais isso impacta na tarifa”.

Está em curso estudo da Universidade do Arizona (EUA) com a Unifor para identificar linhas e trechos lotados no pico.

“Implementamos um painel de controle via web que me permite saber quais linhas são mais carregadas. A partir daqui, vamos estabelecer um prazo de seis meses para implantar medidas.Temos quase 2 mil ônibus operando na cidade e, a cada 30 segundos, um ônibus manda uma informação do GPS para a central de computadores, informando uma série de dados. É um estudo muito amplo”.

Um projeto piloto vai criar “pontos de parada inteligente” em áreas de grande concentração de passageiros.

A ideia é colocar totens com o aplicativo “Meu Ônibus”, videomonitoramento de segurança e acesso wi-fi.

Um dos desafios é melhorar a qualidade das vans. Há linhas que fazem percursos longos e com muitos passageiros.

“Como torno mais eficiente esse sistema? A chave é entender quais são os desejos de deslocamento da população e tentar, olhando os impactos tarifários, aproximar o sistema da vida real. A questão para isso é a pesquisa ‘origens e destinos domiciliares’, de onde as pessoas vão, para onde elas vão e de que vão. A última vez em que Fortaleza fez isso foi em 1996, quando o Metrofor estava começando a se planejar”.

As linhas de Fortaleza refletem realidade antiga que vai sendo aperfeiçoada conforme a demanda dos bairros.

“Essa pesquisa de origem e destino, que é muito cara e demorada, vai ser feita agora. Está sendo feita uma licitação com recursos do Banco Interamericano. Deve levar em torno de um ano e meio (para ser concluída). Com esse estudo, vamos poder reorganizar o sistema de ônibus.

Entrevista

Luiz Alberto Sabóia, secretário-executivo de Conservação e Serviços Públicos.

Tribuna do Ceará - Um dos dilemas para quem usa ônibus é lidar com rotas longas para o percurso cotidiano. O que pode ser feito para amenizar esse fator negativo?

Luiz Alberto - A gente prefere sempre o transporte porta a porta. Claro que o transporte público não pode pegar cada um na sua porta, é impossível. Se eu tentar fazer isso, encareço muito o transporte público, pois vou aumentar bastante os itinerários. Por isso, os terminais de ônibus são tão importantes.

A questão para isso é uma pesquisa que se chama ‘origens e destinos domiciliar’, que busca saber de onde as pessoas vão, para onde elas vão e de que vão, de ônibus, de bicicleta, de carro... A última vez em que Fortaleza fez isso foi em 1996, e muito voltada para fins metroviários, o Metrofor estava começando a se planejar. As linhas de Fortaleza refletem uma realidade de muito tempo atrás, que vai sendo aperfeiçoada de acordo com as reclamações. Essa pesquisa de origem e destino, que é muito cara, demorada, intensiva, vai ser feita agora. Com esse estudo, vamos poder reorganizar o sistema de ônibus.

Tribuna do Ceará - Por que é tão urgente falar sobre as mortes causadas pelo trânsito?

Luiz Alberto - A acidentalidade do trânsito causa um impacto imenso, e as pessoas não têm essa dimensão porque, historicamente, fomos criado numa cultura de valorização do automóvel, mas esse é um dos principais dramas de Fortaleza. Estressa a rede de saúde pública, que retira leito que poderia estar destinado a pessoas que têm doenças crônicas, por exemplo. A possibilidade de uma pessoa de moto se acidentar é 200 vezes maior do que uma pessoa em um transporte público. Investir em transporte público também é investir em redução de acidentes. Quando a gente olha e vê que acidente mata mais do que guerra é pra gente parar e pensar. Acidente de trânsito caminha para ser a quinta causa de morte no mundo. É considerado uma epidemia. Já é a principal causa de morte entre homens de 15 a 29 anos.

Em 2016, pela primeira vez em 15 anos, Fortaleza ficou abaixo dos 300 óbitos no trânsito, segundo dados preliminares do Relatório Anual de Acidentes de Trânsito. Ainda assim, o trânsito é a terceira causa de mortes no Ceará e em Fortaleza, perdendo apenas para doenças do aparelho circulatório e neoplasias (cânceres).

Há uma série de fatores que resultam em um trânsito tão mortal, e eles são responsabilidade tanto de entes públicos como da sociedade em geral. Avenidas estreitas, ausência de espaço para ciclistas e pedestres, alta velocidade nas vias, falta de sinalização e consumo de bebidas alcoólicas são alguns dos exemplos do que torna perigosa a rotina no trânsito.

Imprudência e distração estão entre as causas mais recorrentes de acidentes nas vias.

Não custa nada responder uma mensagem no Whatsapp enquanto dirige, verdade? Mentira. Além do custo de R$ 293,47 e sete pontos na carteira de habilitação, pode custar uma vida.

Atenção, concentração e raciocínio ágil são quesitos básicos para uma direção segura. “O celular interfere diretamente nessas funções”, alerta o diretor do Departamento de Medicina de Tráfego Ocupacional da Abramet (Associação Brasileira de Medicina de Tráfego), Dirceu Rodrigues Alves Júnior.

“É uma desconexão tal que o motorista entra no piloto automático, passa a dirigir com uma visão tubular, se colocando em condição de alto risco. Se, depois, você perguntar por onde o condutor passou, se havia pessoas na calçada, qual carro o ultrapassou, ele não vai saber responder, porque ele não memorizou o trajeto”, afirma Dirceu.

Umas da medidas para reduzir os índices de acidente de trânsito na Capital é modificar a velocidade máxima das vias.

Estudo da Autarquia Municipal de Trânsito mostra que na Av. Engenheiro Santana Jr. houve redução de 50% das colisões com vítimas.

Lesões por movimento são responsáveis pela maioria das mortes e sequelados em nosso país, segundo a Abramet.

Fatores múltiplos levam ao acidente, principalmente velocidade, álcool, drogas, fadiga, sono e desatenções.

“Há uma necessidade de reduzirmos a velocidade, de respeitarmos e de sabermos que existem pessoas mais frágeis transitando, seja na bicicleta seja na motocicleta. O veículo desenvolve muita velocidade, a moto desenvolve muita velocidade, precisamos reduzir a velocidade para reduzirmos os óbitos”.

O Vamo é um sistema de compartilhamento da Prefeitura. São 20 carros e 12 estações, com custo de R$ 15 a R$ 100.

Desde março de 2017, algumas vias de Fortaleza são fiscalizadas por videomonitoramento. Os condutores podem ser punidos por diversos tipos de infrações, como dirigir falando no celular, não uso do cinto de segurança e não uso do capacete.

As imagens não captam excesso de velocidade nem infrações que precisam da abordagem do agente de trânsito.

Segundo a AMC, a prioridade é flagrar infrações que prejudicam a mobilidade e a fluidez do trânsito, tais como parar sobre a faixa de pedestre, fazer conversões proibidas, transitar na contramão e estacionar irregularmente.

O Ministério Público Federal no Ceará chegou a pedir a suspensão das multas por videomonitoramento e a retirada das câmeras, mas a Justiça Federal negou o pedido.

Em relação à violação à privacidade apontada pelo MPF, a Justiça salientou que o "direito individual à privacidade não é absoluto, esbarra no direito à vida e a segurança, também garantidos pelo art. 5º, da Constituição Federal".

Entrevista

Dirceu Rodrigues Alves Júnior, diretor do Departamento de Medicina de Tráfego Ocupacional da Abramet.

Tribuna do Ceará - Por que é tão difícil educar as pessoas sobre os riscos do uso do celular ao volante?

Dirceu Rodrigues - Toda essa tecnologia introduzida no veículo é nociva para a direção veicular. O sujeito, se estiver usando qualquer tecnologia introduzida, estará se colocando em condição de risco para o acidente. Hoje temos uma doença do celular, ele passou a ser patológico. Até bem pouco tempo, parávamos para falar em um orelhão. Hoje, o celular é um vício, um hábito extremamente nocivo.

Tribuna do Ceará - O que pode ser feito para reduzir a acidentalidade?

Dirceu Rodrigues - O importante é a gente educar, educação que não existe nas escolas. Desde 1997, quando foi feito o Código Brasileiro de Trânsito, essa educação não existe. O Governo não entende que para mobilidade urbana o ser humano precisa respeitar regras, e isso não é passado para ele, ele não tem conhecimento, não tem um aprendizado. Vai encarar o trânsito como pedestre, ciclista ou motorista sem as formações básicas, culturais, para administrar a direção de um veículo ou para caminhar pela via.

Tribuna do Ceará - Há muitas críticas às medidas punitivas da fiscalização. O quanto isso prejudica o processo educativo?

Dirceu Rodrigues - A fiscalização é a necessidade maior. Há a fiscalização educativa e uma punitiva para aqueles que transgridem. Essa ideia da indústria da multa é levantada pelos infratores. Se cometeu a infração, tem que entender que errou, aquilo é educativo. Ele vai pagar a multa como um processo de educação forçada. Não existe a indústria da multa. O que existem são infratores que levantam a ideia da indústria da multa, que não se conformam, que não querem se educar, não respeitam as regras.

O impacto dos acidentes de trânsito nos custos da saúde pública pode ser exemplificado pela rotina do maior hospital de urgência e emergência do Ceará, o Instituto José Frota (IJF), em Fortaleza.

“Os acidentes de trânsito representam cerca de 30% dos atendimentos da emergência no IJF. Os outros são quedas, violências e agressões físicas”, afirma o ex-superintendente do IJF, Walter Frota. O médico faz um apelo sobre o controle do consumo de bebida alcoólica por quem vai conduzir transportes.

“Temos um serviço de epidemiologia que detectou que mais de 50% das vítima de acidentes de moto afirmaram que ingeriram bebidas alcoólicas antes do acidente”.

A violência no trânsito cearense provocou impacto econômico de R$ 6,45 bilhões em 2016, ou 4,86% do PIB.

Essa é a perda da capacidade produtiva causada por acidentes que mataram 1.752 pessoas e deixaram outras 4.094 com invalidez.

“A violência no trânsito caiu de forma considerável, o que é um fato alentador. Ainda assim, o número de vítimas remete a um quadro de guerra. E a grande maioria concentra-se na faixa etária de 18 a 64 anos. Ou seja, pertence a um grupo em plena produção de riquezas para a sociedade”.

A motocicleta, em 2015, representou 26,3% da frota, mas foi responsável por 42,2% de mortos e feridos por atropelamento.

Em 2015, o trânsito vitimou 11.124 pessoas. Os motociclistas são as principais vítimas feridas.

O coordenador do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), Daniel Souza Lima, pontua que a pressão sobre a saúde não é apenas em relação às mortes, mas também no que diz respeito a sequelas. Entre os impactos na vítima, está o traumatismo crânio-encefálico como uma das principais causas de mortes.

“Um terço dos custos do SUS no Brasil é para causas externas, como acidentes de trânsito e violência interpessoal. Para cada pessoa que morre no Brasil vítima de acidentes, de causas externas, há três feridos, e esses feridos, muitas vezes, têm sequelas importantes. Eles estarão nos hospitais, enchendo as emergências”, ressalta Daniel.

Em Fortaleza, há faixas de prioridade aos motociclistas na abertura do sinal de trânsito.

Entrevista

Dante Rosado, coordenador da Iniciativa Bloomberg de Segurança Viária Global em Fortaleza.

Tribuna do Ceará - Sobre os motociclistas, que dados temos em Fortaleza sobre a relação do álcool com acidentes de trânsito?

Dante Rosado - Uma das atividades da Iniciativa Bloomberg em Fortaleza é pesquisar o principais fatores de risco, e um deles é o percentual de motociclistas e condutores que dirigem sob efeito de álcool. Em uma pesquisa realizada recentemente, em blitzes, identificamos que cerca de 2,4% dos motociclistas pilotam sob o efeito de álcool. Ou seja a cada 1.000 motociclistas, 24 estão pilotando sob efeito de álcool. É um número menor do que a média geral, que foi de 3,4%, mas ainda é um p número muito alto. Isso ajuda a explicar parte dos acidentes envolvendo esses usuários.

Tribuna do Ceará - O que pode ser feito para que o motociclista possa transitar de forma segura?

Dante Rosado - Precisamos melhorar a formação dos motociclistas na auto escola, com cursos que realmente capacitem o candidato a conduzir de forma segura, demonstrando de forma clara os perigos e estatísticas envolvendo este público e garantindo que esses usuários utilizem os equipamentos de segurança já previstos. É necessário ainda reforçar a fiscalização sobre esses usuários focada nos principais fatores de risco e realizar campanhas educativas impactantes, mostrando as consequências do desrespeito às leis de trânsito. Há também que se aprimorar a legislação atual para que a mesma favoreça a segurança. Hoje, por exemplo, não há obrigatoriedade de alguns dispositivos de segurança que comprovadamente salvam vidas, como freio ABS.

O que não faltam em Fortaleza são bicicletas, em uso ou estacionadas. Basta olhar ao redor para se deparar com algum usuário de bike trafegando pela cidade. A malha cicloviária também aumentou, mas ainda falta educação no trânsito. Motoristas e motociclistas não respeitam sequer as marcações das ciclofaixas. Muitos ciclistas, por sua vez, desconhecem as regras para trafegar em segurança.

Conforme o Relatório Anual de Acidentes de Trânsito, em 2015, 16 ciclistas morreram em acidentes de trânsito. Em 2011, foram 38 óbitos. A redução em 5 anos foi de 39,47%. Em relação a feridos, foram 268 em 2015 e 590 em 2011.

“Embora ainda não seja ideal, os dados mostram que as políticas públicas estão surtindo efeito”, afirma o superintendente da Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC), Arcelino Lima.

Para evitar que o número de acidentes envolvendo ciclistas aumente e estimular o uso das bikes, Fortaleza vem implantando diversas ações. Pode parecer audacioso, mas a Capital tem o objetivo de se tornar a cidade mais ciclável do Brasil. Para atingir o objetivo do Plano Cicloviário, foram estabelecidos metas e prazos.

Entre 2013 e 2017, houve aumento de cerca de 208% na malha cicloviária na capital. Em números absolutos, a rede passou de 68,4 km para 210,1 km, sendo 101,5 km de ciclovias, 107,9 km de ciclofaixas e 0,7 km de ciclorrotas. A intenção é triplicar o número e alcançar a marca de 524 quilômetros de rotas para ciclistas.

“O mais importante nisso tudo é a gente estimular essa categoria de mobilidade sustentável. Ela é boa para a nossa saúde, ela gera menos poluição, ela é mais barata e é por isso que o mundo inteiro está fazendo isso”.

Ciclovia contornando o ponto de ônibus na Praia de Iracema. Na área, há espaço para todos.

Bicicletar é o sistema mais usado no Brasil, com média de 6,1 viagens por bike diariamente.

80 estações. 33% dos usuários são mulheres; 75% têm entre 15 e 35 anos; 38% são estudantes.

Mini Bicicletar tem 4 estações e oferece um total de 40 bicicletas infantis.

Aos domingos, são liberados 20 km de ciclofaixas de lazer, entre 7h e 13h, por onde circulam cerca de 4 mil ciclistas.

Fortaleza foi a primeira cidade do país a ter Bicicleta Integrada ao transporte público. O usuário pode ficar 14 horas com a bike.

O Bicicletar e o Bicicleta Integrada são sistemas de compartilhamento de bicicletas, mas cada um tem características, públicos-alvo e lógicas de funcionamento distintas.

O Bicicletar é um sistema padrão de compartilhamento, assim como existe em diversas cidades pelo mundo, cujo foco é o pequeno e médio deslocamento num curto espaço de tempo, incentivando a rotatividade de uso das bicicletas.

Já o Bicicleta Integrada, que foi criado em Fortaleza, ou seja, é uma ideia original, tem o foco de fazer a ligação do percurso inicial ou final do usuário do transporte público até o terminal de ônibus, oferecendo a opção deste deslocamento ser feito por bicicleta e ainda pernoitar com o equipamento, sendo assim um sistema pensado para o usuário do transporte público, fazendo a integração entre os dois modais.

“Apesar de algumas iniciativas terem gerado críticas num primeiro momento, a população abraçou as melhorias na infraestrutura cicloviária. O maior desafio é mudar o comportamento das pessoas no dia-a-dia”.

Motociclistas usam, a toda hora, o espaço destinado a ciclistas. Assim fica difícil pedalar com segurança.

Você sabia que colar na traseira do ciclista ou apertá-lo contra a calçada é infração grave? O Código de Trânsito Brasileiro diz que o motorista tem que ficar a um metro e meio de distância do ciclista em pistas ou em ciclofaixas.

O respeito, o diálogo e a compreensão no trânsito são fundamentais para evitar acidentes. Para os ciclistas, os cruzamentos e esquinas são os locais mais perigosos, já que a visibilidade das vias secundárias fica comprometida. A bicicleta é, visualmente, o menor dos veículos no trânsito, portanto o mais difícil de ser percebido. É preciso redobrar a atenção.

Ciclista, confira dicas para evitar acidentes:

  • Evite pedalar na contramão. Acidentes assim geralmente terminam com sequelas graves;
  • Apesar das ciclovias e ciclofaixas estabelecerem o espaço do ciclista, elas não são completamente seguras. Ainda há muito desrespeito. Fique atento;
  • Pedalar na chuva exige atenção redobrada. Tampas de bueiro em aço ou sinalização pintada no solo, quando molhadas, escorregam muito;
  • Só olhe pra trás quando, realmente, for necessário;
  • Evite pedalar onde o motorista não possa vê-lo;
  • Cuidado com a abertura das portas dos carros;
  • Em descidas fortes, evite deixar a bicicleta correr demais;
  • Atenção quando o pedestre cruzar a rua, ciclovia ou ciclofaixa;
  • Tente antecipar a reação do trânsito, olhe longe e pense adiantado.

Entrevista

Beatriz Rodrigues, arquiteta da Prefeitura de Fortaleza.

Tribuna do Ceará – Ciclistas são usuários vulneráveis no trânsito, mas houve redução no número de mortes de usuários de bicicletas. A que se deve essa diminuição?

Beatriz Rodrigues – Quanto mais visibilidade se dá aos ciclistas, maior a percepção da importância deles no espaço urbano, aumentando a segurança e o conforto. É inegável o crescimento da estrutura cicloviária em Fortaleza. Demos um salto muito grande. Com isso, o ciclista se sente mais seguro para usar a bicicleta. Além disso, há a Ciclofaixa de Lazer, que leva muitas pessoas para a rua, muitas participantes estão tendo a primeira experiência com a bike e, depois disso, passam a pedalar mais.

Tribuna do Ceará – Como educar as pessoas para que cada uma saiba o seu devido local e respeite as normas de trânsito?

Beatriz Rodrigues – Toda vida que é implantada uma novidade, como uma faixa diagonal ou uma ciclofaixa, passamos uma semana no local fazendo a parte educativa. Temos alguns programas específicos e tentamos, sempre que possível, incorporar ações educativas. Um exemplo é a Operação Esquina Segura, que tem o objetivo de garantir visibilidade adequada em áreas de esquina. A fiscalização se torna educativa , e as câmeras de fiscalização também inibem o desrespeito às normas.

Tribuna do Ceará – Para entender melhor a situação cicloviária da cidade também é preciso trafegar de bicicleta. Você costuma andar de bike?

Beatriz Rodrigues – Na nossa equipe, no Paitt [Plano de Ações Imediatas de Trânsito e Transporte], todo mundo é ciclista. A maioria já era ciclista antes mesmo de começar a trabalhar na mesma temática. Então a gente tem essa preocupação de experimentar as estruturas destinadas aos ciclistas. Participamos não apenas da Ciclofaixa de Lazer, a gente usa o Bicicletar, a nossa bicicleta própria, vivenciamos como meio de transporte mesmo.

A forma como as cidades brasileiras se desenvolveram nas últimas décadas não priorizou a construção de espaços caminháveis. Esse problema, somado a obstáculos como a falta de educação no trânsito, resultou num dado alarmante: 119 mortes por atropelamento em Fortaleza em 1 ano.

O número representa 37,8% do total de vítimas em 2015 e comprova que, no trânsito, não há nada mais arriscado do que andar a pé, principalmente numa quarta-feira, entre 18h e 20 (período em que mais morreram pessoas atropeladas na Capital). Em toda a semana, esse horário também é recorde: 32 mortes, segundo relatório anual de acidentes de trânsito.

De tudo isso, tira-se uma lição: é preciso reverter a sombria realidade do trânsito para quem caminha e devolver à população uma cidade com dimensões mais humanas.

“Todas as pessoas são pedestres em algum momento do dia. Esse é o modal mais democrático e deveria receber os maiores investimentos em infraestrutura e benefícios no espaço urbano. Uma cidade onde os pedestres têm a prioridade é um local mais vivo. Quanto mais as pessoas convivem com a cidade e umas com as outras, maior a percepção de segurança ao caminhar nas ruas e o senso de comunidade”.

O pedestre é o usuário que mais morre no trânsito (37,8%). Mas aparece somente em terceiro lugar no ranking de vítimas feridas (12,1%), ficando atrás de motociclistas (64%) e condutores de veículos de 4 ou mais rodas (13,6%).

O dado chama atenção para uma maior probabilidade de alta gravidade nas ocorrências envolvendo pedestres, devido à ausência de proteções físicas durante o impacto com outros veículos. Em 7,4% dos atropelamentos registrados ocorre uma morte.

Uma cidade pensada para pedestres é composta por elementos que viabilizem o melhor caminhar, com mais conforto e segurança viária. “O padrão que se estabeleceu nas cidades incentiva o uso de modos motorizados de transporte. É preciso que a prioridade passe do carro para o pedestre”, afirma Paula Santos.

De acordo com a engenheira de transportes, a mudança deve ocorrer em várias dimensões, desde o desenho das calçadas e travessias até um planejamento mais amplo da cidade.

E Fortaleza já vem dando os primeiros passos para que isso se torne realidade.

Área de Trânsito Calmo em Fortaleza é citada como referência em documento internacional: o Guia Global de Desenho Urbano.

Em Fortaleza, existem 4 cruzamentos com faixas em X. Elas facilitam a travessia.

Uma iniciativa que segue em estudo é o Projeto Quadra Acessível. Ainda em fase de conceituação, o projeto-piloto pretende corrigir todos os erros de intervenções nas calçadas que circundam uma determinada quadra ou quarteirão de Fortaleza.

O objetivo é pavimentar, remover árvores que impedem a passagem dos transeuntes, retirar puxadinhos, degraus e rampas inadequadas que impedem o tráfego das pessoas idosas e com deficiência, desocupação dos resíduos das construções e retiradas de lixo. O projeto está em elaboração e não há prazo definido para execução.

No projeto-piloto, a ideia é identificar irregularidades a partir de mapeamento, e em seguida, desenvolver o projeto arquitetônico da calçada.

O trânsito é uma via de mão dupla. Os pedestres também precisam se conscientizar dos seus deveres.

  • Se você atravessar enquanto o sinal para pedestre estiver vermelho, alguém pode imitá-lo sem ter visto algum veículo chegando. Quem não respeita o vermelho não merece o verde. Concorda?
  • Antes de atravessar, permaneça na calçada. Não fique perto demais da pista;
  • O trânsito pode vir de todas as direções. Olhe para os dois lados e ouça também. Às vezes você consegue ouvir o trânsito antes que possa vê-lo. Que tal baixar o volume da música ou evitar o celular durante a travessia?
  • E lembre-se: atravesse a rua em linha reta. Todo cuidado é pouco.

Na Lei do Sinal de Respeito, veículos devem parar quando pedestres solicitarem a travessia sinalizando com o braço.

“É importante a educação por parte de todos, assim como a realização da fiscalização pelo Órgão de Trânsito, visto que os elementos implantados, pouco se tornam útil, se não houver o respeito e a correto uso e compartilhamento do espaço público”.

As pessoas com deficiência precisam se deslocar tanto quanto qualquer outro usuário e necessitam de inclusão quando se fala de mobilidade urbana. Além das já citadas Áreas de Trânsito Calmo, Fortaleza tem implantado estratégias como os semáforos sonoros, rampas e pisos táteis.

Thaís Paiva lembra que há ainda outras prioridades, como a implantação de elevadores ou plataformas acessíveis no transporte público de massa, a quantidade mínima de vagas de estacionamento (com dimensões adequadas) próximas aos principais acessos dos estabelecimentos, sinalização viária e implantação de mobiliário urbano adequado.

Há 813 semáforos na cidade, sendo 372 com tempo exclusivo para pedestres; desses, somente 48 têm alerta sonoro.

Piso tátil diferencia-se na textura e cor, para ser percebido por pessoas com deficiência visual e baixa visão.

“Fortaleza é uma cidade de quase 300 anos. A gente vai demorar para que a acessibilidade seja implementada de fato, mas isso não quer dizer que o nosso direito seja só para amanhã. O nosso direito é para hoje. É uma necessidade urgente”.

Entrevista

Paula Santos, mestre em Engenharia de Transportes e coordenadora de Mobilidade Ativa do WRI Brasil Cidades Sustentáveis.

Tribuna do Ceará – De que forma é possível pensar em uma cidade para todos?

Paula Santos – Sob a ótica do desenho urbano, uma cidade para todos é aquela onde o espaço público é dedicado a promover a mobilidade de forma equitativa entre os diferentes modos de transporte. Isso significa priorizar os modos mais vulneráveis e também os mais eficientes. Em outras palavras, uma cidade para todos tem como premissa oferecer estrutura para deslocamentos dos pedestres – de todas as idades, gêneros e habilidades – de forma segura e confortável. Na sequência, recebem prioridade ciclistas, o transporte coletivo e o transporte de carga, respectivamente. Os carros e as motos são os últimos a receberem espaço na via. Essa visão já é implantada em diversas cidades do Brasil e está em constante expansão.

Tribuna do Ceará – O trânsito mata, até mais do que doenças como a dengue, por exemplo. Como é possível fazer com que as pessoas percebam a gravidade desse assunto?

Paula Santos – O trânsito é a principal causa de morte de jovens no Brasil. Pedestres e ciclistas são os usuários mais vulneráveis da via e as principais vítimas: juntos, eles representam mais de 20% das mortes no trânsito no Brasil. Há diversas campanhas de conscientização a respeito dos perigos do excesso da velocidade, de dirigir embriagado e outras infrações, mas ainda assim não é suficiente para reduzir as taxas de óbito e invalidez causadas pelo trânsito. É necessária uma ação conjunta entre o poder público, instituições de ensino, organizações não governamentais e o setor privado para promover a disseminação de informações relevantes e a implementação de ações para que haja uma redução das mortes no trânsito.

(*) Os dados mais recentes de Fortaleza disponibilizados pela Prefeitura são de 2015. Por enquanto, há ausência de dados do período 2012 a 2014 e de 2016, ainda em fase de consolidação.