Tribuna do Ceará - Meu nome é favela

Meu nome é favela

PIRAMBU EM: AÇÕES QUE TRANSFORMAM

QUEBRANDO PARADIGMAS

Violenta e hostil. Essa talvez seja a primeira imagem que se tem das favelas brasileiras. Seu estigma muito se deve à forma como quem está “do outro lado” assim o definir. Apesar dos reais dados desoladores, há um cenário que ainda é pouco observado e revelado.

Para mostrar o lado bom da periferia, é necessário romper paradigmas e reformar conceitos. O Tribuna do Ceará percorreu as vielas e ruas falciformes da maior favela do Ceará e sétima maior do Brasil, o Pirambu. Lá foram encontradas pessoas que buscam, por meio de pequenas atitudes, impactar a comunidade e reformular o preconceito bárbaro que se tem sobre a região. De grão em grão, há quem esteja fazendo uma revolução silenciosa.

O NASCER DO GIGANTE, UM BREVE HISTÓRICO

As famílias recém-chegadas passaram a habitar os casebres localizados entre as dunas, que se moviam de acordo com as forças dos ventos que sopravam do mar (FOTO: Arquivo Pessoal/Nonato Nogueira)

As famílias recém-chegadas passaram a habitar os casebres localizados entre as dunas, que se moviam de acordo com as forças dos ventos que sopravam do mar (FOTO: Arquivo Pessoal/Nonato Nogueira)

O Pirambu se formou na década de 1930, no contexto em que as favelas se proliferaram em nossa cidade devido ao aumento do fluxo migratório. Seu nome é homônimo de um peixe que existia no local, mas foi extinto. O povoamento do local se deu em decorrência das migrações provocadas pelas secas e também pelo avanço do mar sobre a Praia de Iracema, litoral de Fortaleza, que desalojou muitas famílias obrigando-as a buscar um novo pedaço de terra para viver.

A maioria dos primeiros retirantes que se instalaram no que seria o maior bairro popular de Fortaleza, conhecido na época por Arpoadores, veio do Arraial Moura Brasil, uma localidade que servia de campo de concentração entre o litoral e o centro de Fortaleza. Ainda no início dos anos 30, por ser um bairro localizado na zona oeste, à beira-mar e a 3 quilômetros de distância do centro da cidade, o Pirambu tornou-se um local atrativo para as famílias, que, devido às condições difíceis, se aventuraram na fuga do sertão, migrando para Fortaleza à procura de dias melhores.

“As migrações se intensificaram nos períodos de estiagem mais prolongada, quando centenas de famílias deixaram sua terra natal e se deslocaram para a capital, visto que esta oferecia melhores condições e dispunha de empregos nas indústrias nascentes na periferia. Em pouco tempo a área concentrou uma grande massa de excluídos esquecida pelas autoridades. Os novo moradores passaram a viver de uma maneira marginal, caracterizando-se, assim, como um território habitado inicialmente por pescadores e depois por migrantes que chegaram ao bairro e logo se alojaram em áreas sujeitas a inundação, nas dunas ou morro, com muita dificuldade de acesso”, relata o professor e pesquisador mestre em História e Culturas pela Universidade Estadual do Ceará (UFC) Raimundo Nonato Nogueira de Oliveira.

Com relação ao grande deslocamento de retirantes e pescadores, o professor Nonato Nogueira lembra que surgiram muitas habitações sem nenhum planejamento, sem ruas, sem luz, sem água e higiene. As famílias recém-chegadas passaram a habitar os casebres localizados entre as dunas, que se moviam de acordo com a força dos ventos que sopravam do mar e, muitas vezes, soterravam as casas ou obstruíam as ruelas sinuosas e estreitas. E assim se formou a maior favela do Ceará.

SURGE UM MESSIAS

O religioso permaneceu no Pirambu até o ano de 1968, quando fora nomeado segundo bispo na Diocese de Viana, no Maranhão, onde faleceu sete anos depois (FOTO: Arquivo Pessoal/Nonato Nogueira)

O religioso permaneceu no Pirambu até o ano de 1968, quando fora nomeado segundo bispo na Diocese de Viana, no Maranhão, onde faleceu sete anos depois (FOTO: Arquivo Pessoal/Nonato Nogueira)

Com a fixação do Pirambu como bairro, o grupo de pessoas de maior poder aquisitivo que já morava em Fortaleza começou a olhar com maus olhos o aglomerado de pessoas miseráveis que haviam tomado parte do litoral da cidade. “Na conjuntura das crises que antecederam o golpe civil militar de 1964, o Pirambu surge como um bairro de insubmissos, despertando temor e receios por parte daqueles que abominavam as ideias de reforma social”, diz Nonato Nogueira.

Tal fato foi marcado na edição do dia 17 de dezembro de 1961 do jornal carioca “Correio da Manhã”, que apontou o Nordeste como um vulcão que a qualquer hora poderia explodir, já que no contraste entre as grandes riquezas e as infinitas misérias, uma palavra de revolta poderia fazer uma revolução. Foi nesse contexto que o Padre Hélio Campos, vindo da cidade de Quixeramobim, no interior do Ceará, ganhou destaque. Filho de comerciantes, ele chegou à capital para estudar o sacerdócio. Em Fortaleza, fez o seminário menor e maior, sendo ordenado na Capela do Seminário da Prainha, por D. Manuel, no dia 5 de dezembro de 1937. Nos seus primeiros anos de padre, teve 14 nomeações diferentes.

“O Padre Hélio Campos foi o responsável por idealizar a organização social e comunitária no bairro a partir de 1955 com a instalação do Centro Social e Paroquial Lar de Todos. Um equipamento comunitário muito importante para os moradores, na medida em que amenizava alguns dos muitos problemas enfrentados pela comunidade, dentre eles a falta de escolas. Naquela época escola era muito difícil na comunidade. Para todo o Pirambu, havia apenas um grupo escolar, que não comportava todas as crianças”, explica o professor Nonato Nogueira.

Outros importantes sacerdotes marcaram a história de lutas do Pirambu, como o belga Gaetan Minette de Tillesse, que chegou ao Brasil após 22 anos em meditação no mosteiro Cisterciense Trapista de Orval; Padre Norbert Gorrissen; Padre Haroldo Coelho e Frei Kerginaldo Furtado da Costa Memória. Eles participaram da Marcha do Pirambu – movimento social pela legalização das terras – e ainda da construção da Avenida Presidente Castelo Branco (Leste-Oeste), que é até hoje uma das principais vias de Fortaleza.

Para diminuir o estigma que carrega o nome favela, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) passou a classificar os diversos tipos de assentamentos irregulares existentes no País (favelas, invasões, baixadas e comunidades) como aglomerados subnormais no Censo Demográfico 2010.

AÇÕES QUE TRANSFORMAM

É comum julgar que o homem é fruto do seu meio. A máxima do filósofo iluminista Jean Jacques Rousseau, segundo a qual o homem nascia bom e a sociedade o corrompia é usada para limitar ou julgar muitos jovens que crescem nas favelas e acabam enveredando para o mundo do tráfico de drogas e da violência, por exemplo. Mas pequenas ações são capazes de mudar essa realidade. No Pirambu, maior favela do Ceará, há quem prove que é possível um futuro melhor para todos.

ONDAS DO BEM

O escritório dele é a praia. Seu território é o Pirambu. Sua laia é surfar. Com 50 anos de vida e 40 de parafina, Marcelo Ferro Vasconcelos Alves, ou simplesmente “Marcelo Bibita”, começou a fabricar suas próprias pranchas aos 20 anos de idade. De família humilde, o jovem desbravador das ondas da Praia de Iracema não tinha como comprar um equipamento novo e fazia arte com pranchas antigas para dar seus primeiros tubos.

Em pouco tempo, aquilo que era somente para benefício próprio começou a chamar atenção da vizinhança. “A princípio era apenas para meu uso, até que apareceram as primeiras encomendas, e o que era apenas uma brincadeira foi crescendo. Criei, junto a amigos, a Aqualoucos Surfboards, uma marca que durou pelo menos uma década de muito sucesso e curtição”, relembra o shaper.

Aquele amor pelas ondas transformou Marcelo Bibita em um dos maiores surfistas do cenário brasileiro. Seis vezes campeão cearense e tricampeão nordestino de longboard além de ser o primeiro recordista do Surf na Pororoca – tradicional disputa nas águas do Rio Amazonas, exatamente no encontro do rio com o mar –, o cearense carrega consigo o dom de ajudar o próximo, além do de empreendedor nato.

Como quem trabalha Deus ajuda, em 2013, com a revitalização da Vila do Mar, área que compreende a parte do litoral de Fortaleza que banha o Pirambu, Barra do Ceará e o Cristo Redentor, o Instituto Camargo Corrêa (ICC) promoveu a criação de uma cooperativa para fomentar a produção de pranchas na região que compreende à maior favela do Ceará. E Marcelo Bibita estava lá.

A ação capacitou surfistas da região de vulnerabilidade social e viabilizou a construção da unidade da Cooperativa de Produção para Serviços de Surf (Coopsurf) no Pirambu. O nascimento e a formalização da cooperativa, bem como a construção da unidade de produção, fazem parte do projeto Onda Empreeendedora, parceria entre Instituto Camargo Corrêa, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Prefeitura de Fortaleza, Construtora Camargo Corrêa, Marquise, Sebrae/CE e o Sistema OCB/Sescoop. Os parceiros do projeto investiram também na construção de uma unidade de produção, compra de maquinários e equipamentos e formação de capital de giro. Ao todo, foram investidos cerca de R$ 850 mil.

Na Coopsurf, além de auxiliar na produção das pranchas, Marcelo dá aulas de surf para crianças e adolescentes. O projeto é tocado por todos os cooperados, cada um com sua responsabilidade visando o crescimento do grupo. Para continuar ajudando na transformação de moradores do Pirambu, o cearense usa sua bagagem e referências de outros lugares que visita durante competições de surf. “As competições são uma parte importante na minha vida profissional pois além da competição em si, existe toda uma cadeia produtiva em ebulição durante os eventos, este contato com os mais modernos equipamentos e com profissionais gabaritados me dão uma bagagem técnica que absolvo e trago para aplicar na cooperativa, portanto estas viagens acabam sendo apenas um trabalho externo em prol da Coopsurf”, diz o multicampeão das ondas.

Para tocar o projeto, a luta de Marcelo junto aos outros cooperados não é fácil. O Pirambu, apesar de ter avançado na questão da segurança e educação, ainda sofre com o descaso do poder público e amarga alguns estigmas. “A cobrança com a garotada tem que ser feita com muita cautela e conversa, muito destes garotos não têm o básico em casa, imagine discernimento. Cada jovem é trabalhado individualmente, cada caso é um caso, mas a grosso modo não aceitamos quem estiver envolvido deliberadamente com drogas, brigas, comportamentos inadequados, e na medida do possível, insistimos para que fiquem na escola, o que graças a Deus, estamos com praticamente 100% deles na sala de aula. Da minha parte, gosto de ver a criançada esperta, longe das drogas, fazendo esporte, interagindo entre eles, ocupando seu tempo”.

Com 30 anos dedicados ao surf, Marcelo reforça que ainda está aprendendo muito com a molecada do Pirambu. Transformar a realidade da sétima maior favela do Brasil é mais difícil que tirar uma nota máxima nas maiores ondas dos cinco oceanos. “Toda ação provoca uma reação, o bem propaga o bem, gentileza gera gentileza. A mudança é uma constante e longa estrada. Para conseguirmos a mudança que queremos, ainda há muito a ser feito. Não sei se conseguiremos mudar a realidade do Grande Pirambu, mas estamos tentando, com muito surf e amor, ajudar a mudar a realidade dos jovens que atendemos. Aprendi que, mesmo já tendo feito muito com os jovens da comunidade, podemos fazer ainda muito mais”, comenta Bibita.

Apesar das dificuldades, o resultado da dedicação do surfista e shaper cearense já é transformador. “Talvez a maior recompensa seja ver que todo seu trabalho não foi ou é em vão, que muitos destes jovens só precisam de um pouco de carinho e oportunidade para seguir no caminho do bem”, finaliza.


CONEXÃO FUTURO

Quando o assunto é tecnologia, aglomerados suburbanos como o Pirambu ficam à mercê dos demais bairros de Fortaleza. Muito disso devido à falta de a estrutura do local ou pelo fato da educação digital das escolas ser limitada. Desta forma, as ações sociais em favelas são, muitas vezes, a única forma de promover a inclusão de crianças e jovens.

Para tentar mudar esta realidade, no início da década de 90 o professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) Mauro Oliveira, em visita ao bairro, percebeu que crianças e jovens que viviam alí não tinham acesso sequer às escolas. Foi então que ele procurou a presidente do Movimento Emaús, Erivânia Queiroz, para tentar levar até o Pirambu atividades relacionadas ao aprendizado da tecnologia.

Membro do Comitê Gestor da Internet Brasil (CGI.BR), Mauro Oliveira tinha experiência de sobra para proporcionar impacto naquela área até então marcada apenas pela violência urbana e abandono do poder público. Entre uma visita e outra, o professor proporcionou que moradores do Pirambu conhecessem o próprio campus IFCE em Fortaleza. Este projeto, iniciado em 1993, é uma experiência de sucesso no contexto de inclusão digital no próprio bairro.

Foi então que surgiu a cooperativa Pirambu Digital com o objetivo de formar jovens para que estes permanecessem no bairro e formassem outros moradores. “A cooperativa nunca foi planejada como empresa ou mesmo como uma ação social. O nosso objetivo principal era apenas formar pessoas. Dar uma chance para um povo marginalizado”, explica o presidente e ex-aluno da instituição, Fabrício Mendes.

Fabrício lembra que a primeira turma formou-se apenas em 2004, quando 120 jovens concluíram o curso de conectividade e desenvolvimento de software. “Após a conclusão do primeiro curso, o professor Mauro possibilitou que os novos capacitados formassem outros jovens. E assim foi. Deste primeiro momento, pelo menos 50 jovens abriram seu próprio negócio ou conseguiram emprego em uma empresa de tecnologia”, diz o presidente.

Vinte e dois anos após sua criação, a cooperativa já formou mais de mil pessoas e hoje conta com 38 profissionais para promover a educação digital.

Com o passar dos anos, a busca pela qualificação na Pirambu Digital cresceu e a cooperativa deixou de ser apenas voluntária, mas cobrando apenas uma ajuda de custo para provimento de mais curso. “Nossa maior dificuldade é se posicionar no mercado. Hoje visamos também a sustentabilidade financeira e o aumento do número de cooperados. Qualquer pessoa que tenha cursos técnicos pode se filiar”, reforça Fabrício Mendes.

A próxima turma começa em julho, a primeira vez com cobrança de taxa. Com isso, o presidente da Pirambu Digital acredita também que haverá maior empenhos dos alunos e diminuição da evasão.


CURA DA ALMA

De fato, uma andorinha só nunca faz verão – conforme diz o ditado popular. Mas duas andorinhas são capazes de muita coisa. Airton e Adalberto Barreto, dois de nove irmãos nascidos em Canindé, respondem por mais de dois milhões de pessoas beneficiadas em uma das regiões mais carentes de Fortaleza. Um é advogado. O outro, médico. Os dois fundaram juntos o projeto “4 Varas”, a fim de atender às necessidades da comunidade do Pirambu.

Conflitos familiares, depressão, tentativas de suicídio… É só procurar “Dr. Airton” ou “Dr. Adalberto”, como os moradores os chamam. Pode chamar sem medo. Ainda mais porque o que norteia o trabalho deles é o fato de medicalizar o sofrimento alheio sem o tratar como doença.

Tudo começou há 27 anos. Embaixo de um pé de cajueiro, reuniam-se moradores do Pirambu, vítimas de conflitos e com sofrimentos psíquicos. Sentados no chão, em troncos de árvores, em cadeiras ou, até mesmo em pé, eram atendidos pelos irmãos.

“Eram cerca de 30 pessoas. Todas queriam um remédio para controlar insônias, depressão, tentativas de suicídio. Logo me dei conta de que não poderia medicalizar problemas da existência, em que o sofrimento emerge com força. Tratava-se muito mais de pessoas que precisavam ser acolhidas, escutadas, apoiadas, do que doenças a serem tratadas”, lembra o médico Adalberto Barreto.
Ao lado do irmão Airton, o psiquiatra fundou o Projeto 4 Varas, cujo nome surgiu a partir de uma velha história contada pelo padre francês Henri Le Boursicaud ainda na década de 1980. “Um homem que tinha quatro filhos pediu, no leito da morte, que cada um deles lhes trouxesse uma vara. Assim o fizeram. O velho juntou as quatro varas e pediu ao mais velho que as tentasse quebrar. Nenhum deles conseguiu. Dessa forma, o velho lhes disse: ‘Se vocês ficarem unidos como estas quatro varas, nada nem ninguém conseguirá destruí-los ou separá-los. Tenham este exemplo. A herança que lhes deixo é esta: a união das varas”.

Após ouvir a história, a comunidade do Pirambu aplaudiu de pé e gritou “4 Varas!”. E assim foi intitulado o projeto. Mas, para entender o desenvolvimento do programa, é preciso conhecer a trajetória de Airton Barreto. Nascido em Canindé, aos 15 anos mudou-se para Fortaleza, com o pai e os nove irmãos. Logo na chegada à capital, sofreu preconceito pelo estigma que o bairro carrega.

“No passado, essa era uma região muito bonita, agradável, com lindas casas de veraneio, lindas praias. Com a seca, ocorreram as migrações forçadas, e toda essa demanda populacional encontrou seu abrigo na linda região praiana do Pirambu. Agora, a região é reconhecida por seus inúmeros estereótipos. O que você é passa por onde você mora.”

Com o intuito de ajudar de alguma forma os moradores daquela região, formou-se em Direito e resolveu amparar a comunidade no que se tratava de problemas jurídicos. Montou ali o Centro dos Direitos Humanos do Pirambu. Percebendo que muitos moradores que procuravam o local traziam problemas familiares e pessoais; lembrou-se do irmão e passou a encaminhá-los ao Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Ceará (UFC) para os cuidados psiquiátricos de Adalberto e seus alunos. O número de pessoas chegadas do Pirambu começou a aumentar e se tornou inviável a continuidade dos trabalhos. Dr. Adalberto resolveu, então, transferir o atendimento para a origem dos problemas: a própria comunidade.

Hoje, o programa ganhou outro nome: Movimento Integrado de Saúde Mental Comunitária. Entretanto, a maioria dos beneficiados continua a chamá-lo 4 Varas, com o mesmo carinho de épocas atrás. Dentre as atividades prestadas, estão terapia comunitária, resgate da autoestima, massoterapia, exercício de liberação dos traumas, yoga, escolinha, farmácia, artes e teatro.

O objetivo de lutar contra todo tipo de exclusão e promover a integração de pessoas e comunidades no resgate da dignidade e da cidadania parece ter sido alcançado nos 1.926.860 beneficiados. A metodologia do projeto – que se iniciou tímida, embaixo de um pé de cajueiro da maior favela de Fortaleza – está presente em todos os países latino-americanos, em oito países da Europa e na África, segundo dados do psiquiatra Adalberto.

E os irmãos garantem ter encontrado no projeto o sentido de suas vidas. Graças à preocupação com o bem-estar do próximo, eles conseguiram transformar um bairro conhecido por suas carências em uma comunidade ativa, com um espaço de reflexão e estímulo às descobertas dos valores pessoais e sociais. “Poder oferecer um espaço de acolhimento da dor e da alma, com os recursos da cultura popular brasileira, sem ter de medicalizar o sofrimento como se fosse uma doença, é gratificante para qualquer profissional da saúde. A grande lição que aprendemos é que a comunidade que tem problemas também tem soluções”, concluem.


COMPARTILHANDO AMOR

Um bairro marcado historicamente pela exclusão social, violência agravada pela problemática das drogas, prostituição infantil e altos índices de desemprego pode se reerguer com a conscientização e colaboração dos próprios moradores. Foi isso que aconteceu com o bairro Pirambu após a chegada da ONG Movimento Emaús. Surgido na França em 1949, fundado pelo padre francês Abbé Pierre, com o objetivo de ajudar os mais pobres. Em 1986, o Movimento Emaús chegou ao Brasil, e somente em 1992, veio para o Pirambu. Moradores que já tinham experiência em trabalhos comunitários e espírito de coletividade se uniram para fundar o grupo Emaús Amor e Justiça com o desafio de mudar aquela comunidade.

O projeto atende a 150 crianças, que são assistidas com reforço escolar, aula de dança, capoeira, música, biblioteca e laboratório de informática. Para participar é preciso ser aluno da rede pública de ensino e ter entre 5 e 12 anos de idade. Em julho, os alunos têm férias e, no final do ano, o projeto promove um recesso para as festas de Natal e Réveillon. Há também atividades voltadas para as mães, como roda de conversa sobre valores e oficinas de artesanato. Algumas mães que não trabalham vão ao local com alegria, pois recebem acolhimento e atenção.

A presidente do centro, Ileuda Pereira de Sousa, de 45 anos, comemora os resultados do trabalho através dos elogios e desabafos dos pais dos alunos. “Eles vão trabalhar mais seguros porque sabem que de manhã a criança está na escola e à tarde está aqui. Só em não ter aquela preocupação de estar ensinando a tarefa de casa, de querer saber onde a criança está, se ela está na rua, já é bom pra eles. É uma preocupação a menos.”

Além da presidente, o projeto conta com duas educadoras sociais, que acompanham as crianças em sala de aula. Além delas, têm os professores de dança, capoeira, música e voluntários que ajudam com o conhecimento que têm. À noite, o espaço é voltado para alunos do pré-vestibular. Alunos do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFCE) ministram aulas de todas as disciplinas preparatórias para o vestibular. São 40 alunos matriculados em busca de um futuro melhor. Assim, o projeto envolve não só a criança, mas os jovens e até os pais.

O que faz o Emaús funcionar é a colaboração. Para isso, em outro prédio funciona um bazar que recebe doações de roupas e objetos, que são reaproveitados e vendidos, gerando emprego e renda. “É bom pra todo mundo. Nós reaproveitamos coisas que provavelmente iriam pro lixo, temos pessoas que restauram as peças, e o dinheiro arrecadado é o que sustenta as despesas do projeto. Mas a conscientização que promovemos é o mais importante”, destaca a presidente Ileuda Pereira.

Moradora do bairro desde que nasceu, a gestora vê o resultado do trabalho por meio da mudança pela qual o Pirambu passou nesses 23 anos do Movimento Emaús. “Não só o nosso projeto, todos os outros ajudaram muito no desenvolvimento do bairro. Cada criança assistida em uma dessas iniciativas é uma criança a menos na rua, na marginalidade, no crime, porque na rua só dá isso. Com isso, nosso futuro será bem diferente.”. Apesar das dificuldades e problemas pelos quais o bairro passa, ela não deseja se mudar do lugar onde vive.

O fruto de todo esse trabalho já pode ser visto. É comum encontrar ex-alunos nas dependências do Movimento, seja visitando, deixando os filhos ou mesmo ministrando aulas. “Isso aqui me ajudou muito, hoje eu sou o que sou graças ao projeto”, declara Fábio Lessa, morador do bairro, ex-aluno e atual professor de dança do Emaús. A mudança em sua vida foi tão significante que ele também faz parte da diretoria de uma das quadrilhas juninas mais importantes do bairro, a Cai-Cai Balão.

“Eu nunca tive vontade de desistir, porque é muito gratificante, sabe? A gente escuta cada história! Umas boas, outras que deixam a gente emocionada. Só em estar aqui, poder ajudar essas crianças, apoiar, já é alguma coisa. Eu tenho vontade é de ajudar mais e mais, por isso vim ser educadora aqui”, conclui a presidente Ileuda Pereira, que defende a missão do Emaús: lutar contra as causas da miséria, tentando construir uma sociedade mais solidária, mais justa, e mais atenta aos problemas dos menos favorecidos.

PASSOS DE ESPERANÇA

A religião, quando aplicada sem radicalismo, tem a capacidade de unir as pessoas provocando o sentido de união em torno de um bem comum. No Pirambu, a religiosidade tem, desde sua formação, um papel decisivo. Sob a figura do padre cearense Hélio Campos, o Pirambu surge no cenário brasileiro na época da ditadura militar como um bairro de insubmissos, despertando temor e receio por parte daqueles que abominavam as ideias de reforma social.

Enquanto o bairro e seu vigário eram notícias nos diversos meios de comunicação da época, os moradores se preparavam para a Marcha sobre a Cidade. Na ocasião, a forma de organização dos daqueles que viviam na região foi um fator de extrema importância para o êxito da Marcha, cuja preparação se dera durante dois anos com intensas reuniões, tendo como objetivo maior o processo de conscientização dos moradores. E foi a partir dessas reuniões que nasceu o Hino do Pirambu.

Ao longo do tempo, outros importantes sacerdotes marcaram a história de lutas do Pirambu, como o belga Gaetan Minette de Tillesse, que chegou ao Brasil após 22 anos em meditação em um mosteiro de sua terra natal; Padre Norbert Gorrissen; Padre Haroldo Coelho e Frei Kerginaldo Furtado da Costa Memória.

Já a dança, se constitui de uma experiência que promove a tolerância e apreço pelos outros, além de auxiliar reconhecimento do corpo e das limitações espaciais. Quem não se emociona ao acompanhar um espetáculo de dança? Seja uma apresentação de balé ou uma simples “dança de rua”, a atividade é um forte estímulo de percepções sensoriais.

Em 1989, chegaram a Fortaleza as Irmãs da Redenção, com sua ação missionária, buscando ser uma presença junto à comunidade do Pirambu, de modo especial próximas às mulheres que se encontravam em situação de vulnerabilidade. Em 1994, foi fundada a Sociedade da Redenção, com a finalidade de agregar as atividades até, então, assumidas pelo Instituto das Irmãs da Redenção. Foi então que a religiosidade e a dança uniram-se em torno de um bem comum: transformar vidas.

Mantida por financiamento público e privado, doações e o fundo da entidade, a ONG promove atividades de formação social visando ajudar o desenvolvimento integral da criança e do adolescente, independentemente da religião. “Respeitamos o credo de cada pessoa atendida. A fé é o que sustenta nossa missão e motiva o ser e fazer”, diz a coordenadora do Setor Chico da Silva, Irmã da Redenção Maria Antônia.

Para a religiosa, atuar em áreas de maior vulnerabilidade social é um desafio. “Nas visitas noturnas à Beira-Mar, percebemos que a maioria das meninas e meninos que estão ali abandonados estão em situação de trabalho escravo, exploração sexual e outros, como turismo sexual. É nossa missão mudar esta realidade”, afirma.

E, para realizar a transformação na vida destes meninos e meninas, a Sociedade da Redenção, em parceira com o Centro Cultural Chico da Silva, que também fica no Pirambu, realiza a ação “Em Defesa da Vida”. O projeto leva até a população carente a arte da dança como forma de inclusão social. A dança tem uma grande contribuição no desenvolvimento e no relacionamento enquanto pessoa e sociedade. Isso é muito legal quando aplicada como ferramenta de desenvolvimento do ser.”, comenta a religiosa.

Ao olhar para trás, o que mais causa orgulha à Irmã Maria é poder ver a transformação acontecendo. “É uma alegria contribuir para o desenvolvimento de meninas, meninos, mulheres nos aspectos pessoal, familiar e/ou comunitário. É possível nos olhos deles a gratidão, carinho, vontade de ajudar de alguma forma”, comemora.