Os mares do semiárido cearense secam. Banabuiú, Orós e Castanhão, que, juntos, somam capacidade de 10,4 bilhões de m de água, 55% da reserva hídrica do Ceará, respiram com dificuldade enquanto a terra ganha novos espaços em sua geografia. No sertão, se diminui a água, a vida definha. O Tribuna do Ceará conta a história de quem sente na pele o impacto de uma estiagem sem igual nos últimos cem anos.

expediente

Reportagem e Foto: Jéssica Welma

Filmagens: Nasion Frota

Design: Mayara Kiwi

Edição de vídeo: Adriano Paiva

Edição: Rafael Luis Azevedo

Apoio: Index Digital

Açude Castanhão

Nome: Açude Público Padre Cícero

Início da construção: 1995

Conclusão: 2003

Localização: Alto Santo

Bacia: Médio Jaguaribe

Capacidade: 6,7 bilhões em m3

Capacidade atual (10/3): 359,8 milhões m3 (5,37%)

Última vez que sangrou: 2009

Finalidade: Abastecimento de Fortaleza e Região Metropolitana, desenvolvimento da agricultura irrigada, da piscicultura, da pecuária e da indústria e usos múltiplos

Açude orós

Nome: Barragem Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira

Início do projeto: 1912

Conclusão: 1961

Localização: Orós

Bacia: Alto Jaguaribe

Capacidade: 1,9 bilhão em m3

Capacidade atual: 190 milhões m3 (9,8%)Finalidade: perenização do rio Jaguaribe; irrigação do Médio e Baixo Jaguaribe; piscicultura; culturas agrícolas de áreas de montante e turismo

Última vez que sangrou: 2011Última vez que sangrou: 2009

Finalidade: Abastecimento de Fortaleza e Região Metropolitana, desenvolvimento da agricultura irrigada, da piscicultura, da pecuária e da indústria e usos múltiplos

Açude Banabuiú

Nome: Barragem Arrojado Lisboa

Início do projeto: 1952

Conclusão: 1966

Localização: Banabuiú

Bacia: Baixo Jaguaribe

Capacidade: 1,6 bilhão em m3

Capacidade atual: 9,3 milhões m3 (0,58%)

Última vez que sangrou: 2009

Finalidade: irrigação das terras do Baixo Jaguaribe; controle das cheias do rio Banabuiú; piscicultura e aproveitamento das áreas de montante

Última vez que sangrou: 2009

Finalidade: Abastecimento de Fortaleza e Região Metropolitana, desenvolvimento da agricultura irrigada, da piscicultura, da pecuária e da indústria e usos múltiplos

banabuiú

até as ilhas deixaram de ser ilhas

O dia começa às 5 horas da manhã para Agostinho Nobre. Aos 59 anos, o pecuarista, morador da cidade de Banabuiú (a 214 quilômetros de Fortaleza), abre a porta de sua casa e se depara com muita terra ao horizonte. A tristeza bate no peito logo cedo. A terra só existe porque as águas do açude Banabuiú secaram como não se via há 15 anos. A casa de Agostinho está localizada numa (ex-)ilha no açude. Até alguns anos atrás, ao abrir a porta, havia muita água e, com ela, a vida se multiplicava.

O açude Banabuiú é o terceiro maior do Estado, com capacidade de armazenamento de 1,6 bilhão de metros cúbicos de água, segundo a Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh). Atualmente, o Banabuiú tem cerca de 0,5% de sua capacidade de armazenamento (atualizado em 10 de março).

"O pessoal diz: ‘Você tá ficando é doido que tá se preocupando com açude, mas a gente se preocupa porque água é a vida, sem água ninguém veve. A gente fica desanimado porque a gente não vê água, as águas estão se acabando, possa ser que Deus bote (água) e a gente fica outra pessoa", diz Agostinho, abrindo o sorriso.

A paisagem do açude entristece o coração. Seco, o mato cresce onde antes havia peixe, e o gado pasta onde a água deixa saudade. O caminho fica comprido e é preciso andar alguns minutos pela terra, onde um dia os pés não alcançavam, até chegar ao que resta do reservatório.

Andar é o que faz Agostinho quando o dia começa. São quase três quilômetros até a lama do açude, onde ele planta capim para alimentar o gado magro. A lama chega à cintura. Quando volta, alimenta o gado. É do leite dos animais que tira seu sustento e o da esposa, que passa o dia longe de casa para cuidar do neto que perdeu a mãe vítima de câncer no ano passado.

Do açude para a cidade

O pecuarista e comerciante Itamar Cajazeiras Sá, de 76 anos, é funcionário aposentado do Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (Dnocs). Ele chegou a Banabuiú quando o Dnocs começava as obras da barragem. Ele estava no primeiro serviço de escavação e viu a cidade crescer em torno do açude.

“Se não fosse o açude, não tinha nada disso aqui, aqui era um deserto, quando eu cheguei aqui era só o acampamento do Dnocs”, relembra.

A bonança que veio com o crescimento da cidade desaparece com a água que não corre mais no sangradouro, visto ao longe na fazenda de Seu Itamar. Os investimentos na pecuária se tornam prejuízos com o gado que morre, com a baixa produção de leite e altos custos para manter a criação. “Por último eu estava sustentando de chique-chique”, lamenta.

A maior seca do século no Ceará cria cenários nunca vistos. “Tenho um poço aqui que, desde quando comprei esse terreno, em 1974, ele nunca tinha secado, mesmo antes da construção do açude. Esse ano ele chegou a quase zero, você não tinha quase condição de captar água”, se espanta.

Açude Banabuiú é o terceiro maior do Ceará. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Banabuiú é o terceiro maior do Ceará. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Em 2017, ele chegou a 0,4% de sua capacidade. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Em 2017, ele chegou a 0,4% de sua capacidade. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Banabuiú seco. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Banabuiú seco. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Comportas do sangradouro do açude Banabuiú. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Comportas do sangradouro do açude Banabuiú. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Comportas do sangradouro do açude Banabuiú.  (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Comportas do sangradouro do açude Banabuiú. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Pescador José Gabriel Rodrigues da Silva, de 41 anos (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Pescador José Gabriel Rodrigues da Silva, de 41 anos (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Chuvas de 2017 têm gerado expectativas de recarga. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Chuvas de 2017 têm gerado expectativas de recarga. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Agostinho Nobre, pecuarista. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Agostinho Nobre, pecuarista. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Agostinho Nobre, pecuarista. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Agostinho Nobre, pecuarista. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Casa de barro onde seu Agostinho morou até construir uma casa de tijolos há dois anos. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Casa de barro onde seu Agostinho morou até construir uma casa de tijolos há dois anos. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Réguas medidoras do açude. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Réguas medidoras do açude. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Pecuarista e comerciante Itamar Cajazeiras Sá, de 76 anos. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Pecuarista e comerciante Itamar Cajazeiras Sá, de 76 anos. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Pecuarista e comerciante Itamar Cajazeiras Sá, de 76 anos. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Pecuarista e comerciante Itamar Cajazeiras Sá, de 76 anos. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Gado está magro por causa da estiagem. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Gado está magro por causa da estiagem. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Banabuiú. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Banabuiú. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Barragem do Banabuiú. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Barragem do Banabuiú. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Funcionário do Dnocs, José Ariston Queiroz, está há 17 anos no município. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Funcionário do Dnocs, José Ariston Queiroz, está há 17 anos no município. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Terra é visível onde antes era água. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Terra é visível onde antes era água. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Sangradouro viu água pela última vez em 2009. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Sangradouro viu água pela última vez em 2009. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Pescador Antônio Girão, de 35 anos. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Pescador Antônio Girão, de 35 anos. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Carros-pipa tiram água da pouca água que desce no rio Banabuiú. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Carros-pipa tiram água da pouca água que desce no rio Banabuiú. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Torre que mostra como o açude está seco. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Torre que mostra como o açude está seco. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Banabuiú. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Banabuiú. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Banabuiú. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Banabuiú. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Ponte sobre o açude Banabuiú. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Ponte sobre o açude Banabuiú. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Banabuiú. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Banabuiú. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)

“Desespero”

O sofrimento vai além da falta de água para os animais e para plantação. A compaixão com o próximo parece secar também. Mesmo triste com o cenário ao redor da sua casa, Seu Agostinho diz que a dor maior é o roubo de seus bichos. Ele que já chegou a ter mais de 400 cabeças de bodes e ovelhas, hoje conta nos dedos os animais que restam na ilha.

No ano passado, ele foi para um velório e, ao retornar, no dia seguinte, percebeu que levaram 26 porcos do seu terreno, deixando apenas os cinco que ainda vivem lá. Ainda que tenha suspeitos, diz que não denuncia porque não tem como provar e teme pela própria vida.

Às vezes bate o desespero. Humilde, seu Agostinho tem dificuldades até para expressar em palavras a dor que sente. Nos momento mais difíceis, apelava para o trabalho de sol a sol. “Acordava 4 horas da manhã, tirava capim, vinha deixar capim, jogava pro bicho, tinha vez que eu parava 8 horas da noite, para não faltar assistência”, lembra. “A gente ficava meio desesperado, a gente fica nervouso, o pessoal diz que é estresse. É nervosismo. Já sofri um bocado aqui, “quando não é de uma coisa é de outra”, se entristece.

Um futuro

Só a lembrança da época em que o açude estava cheio já faz abrir o sorriso. Fotos da última vez em que o Banabuiú sangrou estão estampadas no comércio na cidade. É a lembrança de outras estiagens severas, como no ano de 2002, que alimenta a fé de ver o açude cheio novamente. Dois anos depois, o açude sangrou ligeiro, em uns 15 dias de chuva.

Hoje o Banabuiú tem cerca de 9 milhões de m3 de água, está no que é considerado volume morto. A evaporação das águas, o suporte à irrigação e até mesmo a ajuda ao açude Castanhão, que abastece Fortaleza, estão entre as razões para ele ter secado tão depressa.

“Tando cheio é uma riqueza”, conta o pescador Antônio Girão, de 35 anos, que já chegou a tirar 40 kg de peixe do açude por dia; hoje tira 5 kg.

As chuvas nas últimas semanas renovaram as esperanças. O funcionário do Dnocs e administrador do açude Banabuiú, José Ariston Queiroz, acompanha há 17 anos a realidade da barragem e alerta que, apesar da últimas chuvas, a situação ainda é crítica.

“Em fevereiro ele estava com 0,39%, pouco mais de 6 milhões (de m3 de água). Em 2016, o açude não liberou água, era somente para abastecimento humano e animal. Os projetos de irrigação que vivem do Banabuiú estão sem nada”, pontua Ariston.

A esperança de salvação da caatinga e dessa gente que vive no sertão está colocada na chuva, todo mundo espera pela chuva. Porque, enquanto a chuva não vem, a vida se distancia dessas pessoas de muitas formas. “É muito lindo esse açude sangrando, é de encher os olhos. Eu olho pra ele e sinto uma tristeza medonha. A fé tá sempre no coração. Se Deus quiser, esse ano ele sangra”, anima-se o pescador José Gabriel Rodrigues da Silva, de 41 anos, enquanto puxa os remos para navegar pelo fio d’água do Banabuiú.

Castanhão

seca revela a cidade perdida

O açude Castanhão, maior reservatório da América Latina para usos múltiplos e principal fonte de abastecimento do Ceará, é um gigante que perde as forças. Desde a última sangria, em 2009, o volume de 6,7 bilhões de m3 só cai.

Hoje ele tem cerca de 5% da sua capacidade, ou 366 milhões de m3, inimaginavelmente pouco. Enquanto a terra vai aumentando seu território, a vida no entorno se modifica, seja nas ruínas da velha cidade alagada que voltam à tona, seja nas estratégias de sobrevivência de quem perdeu tudo na nova cidade.

O caminho da barragem até as águas é longo. O que era profundidade, hoje é superfície. O funcionário do Dnocs e coordenador do Castanhão, Fernando Pimentel, chegou à Velha Jaguaribara em 1997 para trabalhar no serviço de cadastramento das famílias que seriam removidas para a cidade planejada, a Nova Jaguaribara. 20 anos depois, se espanta com decréscimo de água jamais visto.

“De um volume total possível de armazenamento, de 6,7 bilhões, hoje nós estamos com 336 milhões de metros cúbicos, o que representa apenas 5,04%. Isso, para as pessoas terem uma ideia, quando ele encontra-se no seu volume máximo, ele encontra-se numa cota 106, o que quer dizer 106 metros acima do nível do mar, hoje nós já perdemos uma coluna d'água de 34 metros e nos encontramos na cota 72,04”, explica Fernando.

Ele concede a entrevista em uma área onde os pés não deveriam pisar. Se o Castanhão estivesse cheio, estaríamos submersos numa profundidade equivalente a um prédio de 15 andares, calcula o coordenador.

As chuvas que caíram no início do ano transformaram o cenário acinzentado em verde, mas o que veio do céu não foi suficiente para encher os reservatórios. Árvores há muitos anos sob as águas ressurgem como galhos secos, sem vida, numa paisagem típica da caatinga. Quem o vê assim não acredita que, cheio, o Castanhão é como um oceano, cujo horizonte é uma linha d’água.

Enquanto a água não chega, a administração do açude corre para concluir as obras de modernização e recuperação da barragem para receber a transposição do Rio São Francisco, cuja previsão de conclusão é para o final de 2018. No embalo, também está sendo recuperada fissura na barragem que sempre gerou o temor de arrombamento na população.

“Nós estamos numa programação de, até o meio deste ano, instalar equipamentos de automação que vão servir tanto para ter uma quantidade bem controlada, como a qualidade da água mais bem monitorada", explica o engenheiro civil do Dnocs há 33 anos, Getúlio Peixoto Maia.

Além do Castanhão, outras cinco grandes barragens do sistema de bacia do rio Jaguaribe também devem receber ajustes até a chegada da transposição. São elas Banabuiú, Orós, Lima Campos, Quixabinha e Prazeres.

Velha Jaguaribara

Enquanto a água não chega para encher novamente a barragem e correr pelo paredão a perder de vista, a paisagem da Jaguaribara e as lembranças vão se modificando. Até alguns anos atrás, uma viagem de algumas horas de barco, pelo açude, levava até o que estava visível da cidade após a inundação, em 2002. À vista, ficavam os postes que não puderam ser removidos na primeira enchente de 2004, dada a velocidade com que as águas chegaram.

Hoje, no entanto, só é possível chegar até lá de carro, percorrendo estradas que há muito deixaram de existir. A Velha Jaguaribara foi completamente demolida. Restam escombros, capazes de sinalizar minimamente que área é aquela, como é o caso do anel da caixa d’água caído, as colunas da igreja e uma parada de ônibus que ainda persiste em pé. O rio Jaguaribe passa hoje exatamente onde passava antes de a cidade deixar de existir, numa rasa lâmina d’água.

“A resistência da população foi muito grande, porque eles não imaginavam que o local da história deles, dos ancestrais deles, da família, fosse completamente demolido. É compreensível. Eles não pediram para que isso acontecesse, mas eles vão fazer parte da história do Ceará e do Brasil, cedendo essa área para o advento do Castanhão, salvando Fortaleza de um colapso hídrico”, pontua Fernando.

O último morador da hoje chamada Velha Jaguaribara deixou o município em agosto do ano 2000. A primeira enchente que alagou a cidade aconteceu quatro anos depois. O volume de água foi tão intenso em 2004 que os funcionários do Dnocs precisaram fazer uma operação às pressas para retirar os animais da região. Com a seca, a área da Velha Jaguaribara virou ponto turístico. Aos finais de semana, muitos moradores retornam aos escombros para reviver o que a memória ainda permite. Até os postes já foram retirados.

“Eu fui três vezes lá. Vi onde era a igreja, só os escombros, a minha casa que ficava na frente, a da minha mãe, que ainda tem os pés de acácia, tudo morto, mas ainda tem. Tinha um canteiro ao redor que eu plantava, enfeitava com plantas. Por trás na minha casa tinha o chafariz e vários pés de planta”, relembra Aldecina Bezerra da Silva, de 71 anos. Passados 17 anos da mudança para a Nova Jaguaribara, ela conta que tem conterrâneos que até hoje não sabe onde moram na nova cidade. “A gente tem saudade de tudo, a gente tem que ficar aqui porque não tem mais como voltar”, afirma.

O supervisor de segurança Ednilton Rodrigues Bezerra tinha 17 anos quando aconteceu a mudança. Ele comemora os avanços da nova cidade, em relação à estrutura e aos novos serviços, mas as lembranças de um episódio histórico não se apagam.

“A mudança foi rua por rua. Uma empresa fazia o transporte do pessoal no baú, e as pessoas iam nos ônibus, isso tudo de comboio, o dia todinho. Quando a gente saía da casa, já ficava alguém para demolir, quando saiu a última família começaram a demolir”, conta Ednilton sobre o processo que durou pouco mais de um mês. “A gente foi pra lá (Nova Jaguaribara), mas teve família que continuou aqui ainda, foi preciso vir psicólogo para conversar com esse pessoal pra convencer a ir pra lá”, ressalta.

Comportas do sangradouro do açude Castanhão. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Comportas do sangradouro do açude Castanhão. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Castanhão. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Castanhão. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Getúlio Peixoto Maia, engenheiro civil do Dnocs. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Getúlio Peixoto Maia, engenheiro civil do Dnocs. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Castanhão seco. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Castanhão seco. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Castanhão. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Castanhão. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Barragem do açude Castanhão. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)(Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Barragem do açude Castanhão. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)(Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Fernando Pimentel, coordenador do açude Castanhão. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Fernando Pimentel, coordenador do açude Castanhão. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Barragem passa por obras de recuperação e modernização. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Barragem passa por obras de recuperação e modernização. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Castanhão. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Castanhão. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Castanhão. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Castanhão. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Velha Jaguaribara que reapareceu após a seca. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Velha Jaguaribara que reapareceu após a seca. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Antiga caixa d'água da Velha Jaguaribara. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Antiga caixa d'água da Velha Jaguaribara. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Ruínas de restaurantes na Velha Jaguaribara. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Ruínas de restaurantes na Velha Jaguaribara. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Castanhão secou e revelou as ruínas da antiga Jaguaribara (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Castanhão secou e revelou as ruínas da antiga Jaguaribara (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Rio Jaguaribe no Castanhão. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Rio Jaguaribe no Castanhão. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Ruínas da Velha Jaguaribara. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Ruínas da Velha Jaguaribara. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Ruínas da Velha Jaguaribara. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Ruínas da Velha Jaguaribara. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Ruínas da Velha Jaguaribara. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Ruínas da Velha Jaguaribara. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Ruínas da Velha Jaguaribara. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Ruínas da Velha Jaguaribara. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Ruínas da Velha Jaguaribara. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Ruínas da Velha Jaguaribara. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Matriz demolida na Velha Jaguaribara em memorial no Dnocs. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Matriz demolida na Velha Jaguaribara em memorial no Dnocs. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Memorial da Velha Jaguaribara no Dnocs. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Memorial da Velha Jaguaribara no Dnocs. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Memorial da Velha Jaguaribara no Dnocs. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Memorial da Velha Jaguaribara no Dnocs. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Por do sol no Castanhão. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Por do sol no Castanhão. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Réplica da igreja matriz destruída na Nova Jaguaribara. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Réplica da igreja matriz destruída na Nova Jaguaribara. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Aldecina Bezerra da Silva, de 71 anos, moradora da Velha Jaguaribara. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Aldecina Bezerra da Silva, de 71 anos, moradora da Velha Jaguaribara. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Lívia Barreto, secretária do Desenvolvimento Econômico de Jaguaribara. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Lívia Barreto, secretária do Desenvolvimento Econômico de Jaguaribara. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Piscicultor José Antônio Chaves. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Piscicultor José Antônio Chaves. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Criação de tilápia em tanques controlados. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Criação de tilápia em tanques controlados. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Tanques de criação de tilápia. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Tanques de criação de tilápia. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)

Nova Jaguaribara

Os moradores da cidade planejada tiveram de modificar aspectos, até mesmo, da cultura de trabalho. Muitos abandonaram as atividades de pecuária, agricultura e pesca artesanal. A cidade passou a desenvolver a piscicultura, a criação de peixes tilápia em gaiolas de ferro no açude.

“Demorou um tempo, mas eles conseguiram, se tornaram os maiores produtores de tilápia do Brasil, no auge, e foram desenvolvendo outras atividades em torno da tilápia, da piscicultura. (...) Teve um momento que 70% da economia de Jaguaribara era em torno da piscicultura (...) Eram mais de R$ 7 milhões por mês rodando aqui dentro”, pontua a secretária do Desenvolvimento Econômico, Turismo, Aquicultura e Pesca de Jaguaribara, Lívia Barreto.

Nos últimos dois anos, a estiagem devastou a produção de tilápia. Em 2015, os produtores perderam quase 90% da produção. O Governo do Estado deu um suporte para que a produção não fosse prejudicada, mas, em 2016, a redução da água matou os peixes novamente, atingindo mais de três mil famílias ligadas à atividade.

“Ocorreram duas mortalidades, em 2015 e 2016. 90% da nossa tilápia foi devastada e a situação ficou muito ruim, a situação econômica de um município que tinha a economia principal vinda do açude, eu digo em todos os eixos da piscicultura, da irrigação, e não temos mais”, lamenta Lívia.

UTI dos peixes

O impacto é visível na cidade: galpões fechados, metalúrgicas e produtoras de barcos fechadas e comércio fraco. Muitas famílias perderam tudo ou foram embora tentar a sorte em outros estados para pagar as dívidas. Quem ficou aposta em um novo modelo de criação, como é o caso do piscicultor José Antônio Chaves.

Hoje, ele orienta os produtores a apostar em um novo formato de criação de peixes. Se antes os produtores diziam que não era possível criar peixe em gaiola, agora eles precisam acreditar que é possível criar peixes em tanques e com pouca água.

“É uma água que você enche o tanque e ela não vai ser desperdiçada, vai permanecer por três anos a mesma água. É uma tecnologia que muita gente não acredita, mas como a gente também não acreditava na gaiola, nós estamos acreditando que o futuro da piscicultura vai ser o tanque com bioflocos. Eu acho que não dá pra gente voltar a produzir no Castanhão, enquanto não chover para encher”, reforça Chaves.

O formato é completamente automatizado. Uma falta de energia de 20 minutos é capaz de matar toda a produção.

“Esse sistema aqui se diferencia um pouco do tanque rede, da gaiola, porque a gaiola a gente coloca no reservatório natural, coloca o peixe, e lá a gente não tem nenhum controle ambiental. Aqui o controle tem que ser total. Isso aqui é uma UTI do peixe, não pode faltar energia, não pode faltar oxigênio, tudo tem que ser mecanizado, oxigenação 100%, tem que ter o gerador e a pessoa 100% no alerta, qualquer problema aqui a gente tem como corrigir”, destaca o piscicultor.

Vista ao longe na cidade de Jaguaribara, a barragem do Castanhão se ergue imponente diante da pequenez do homem e sua preocupação com a sobrevivência. Enquanto a natureza tem calma em meio à aflição, nós vamos assistindo à piora a cada dia. Enquanto a chuva não vem, a gente fica mais perto da terra e longe da água, o bem mais precioso que existe. Resta a fé de que, no semiárido, a natureza agoniza, mas não morre.

Orós

a última gota de esperança

Quem nunca visitou o açude Orós e o vê, pela primeira vez, após cinco anos de estiagem, ainda se encanta com a imensidão de água. Mas, se antes, até onde a vista alcança se via água, agora os olhos sobem da terra exposta ao céu “bonito pra chover” em um clamor para que a água caia. O açude que já foi o maior do Ceará tem menos de 10% da capacidade e carrega o peso de estar em situação menos agonizante do que os outros dois maiores, Castanhão e Banabuiú.

Os projetos para a construção do Orós, que abrange três municípios (Orós, Quixelô e Iguatu) começaram no ano de 1912, mas a conclusão só aconteceu quase 50 anos depois. O açude comporta até 1,9 bilhão de m3 de água, mas sangrou pela última vez em 2011. Desde 2013, o reservatório seca como nunca se viu desde 2004, segundo dados da Companhia de Gestão de Recursos Hídricos (Cogerh).

Entre julho de 2016, quando passou a socorrer o açude Castanhão, com dispersão de mais de 16 mil litros de água por segundo; e março de 2017, quando a dispersão foi reduzida para 3 mil litros por segundo, o volume do açude baixou de 23% para 9% da capacidade. Foram mais de 260 milhões de m3 reduzidos.

O envio de águas para o Castanhão, para abastecer a Grande Fortaleza, gerou revolta entre os moradores de Orós. Quando o Tribuna do Ceará esteve na cidade, a válvula dispersora liberava 12.700 mil litros de água por segundo, somados aos 5.070 litros por segundo que saíam das turbinas, segundo o Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (Dnocs). A decisão de reduzir o volume foi tomada no dia 9 de março pela Cogerh e o Comitê de Bacias do Ceará.

Maria das Graças Dias é proprietária de um restaurante móvel no açude e sente na pele as dificuldades para sobreviver das águas do Orós. A cada semana, é preciso remover as estruturas que prendem a balsa à terra, para evitar que ela fique encalhada com a redução do nível do açude.

“A gente nunca viu essa pedraria toda fora”, diz Maria das Graças, apontando para uma montanha de pedras ao lado da balsa. “A válvula está soltando muita água. A cidade de Orós já se manifestou pra ver se fecha a válvula pra diminuir um pouco de tirar nossa água, mas não tem jeito. Eles continuam tirando, o açude secando, vem turista aqui e pensa que nós não temos mais água”, reclama.

Sem esmorecer

Nas margens de terra, que só crescem, há muitas histórias de quem tem a vida entrelaçada às águas do Orós. Esse é o caso da proprietária da pousada Encanto das Águas, Maria de Lurdes Cândido Pinheiro, de 70 anos. “Abençoada”, como ela mesmo diz ser, não há seca que esmoreça o vigor de dona Lurdes, como é carinhosamente conhecida por quem mora ou visita a cidade.

“Passei cinco anos pelejando, trazendo esse prédio todo de barco. Quando eu levantei o prédio, o açude passou quinze anos para sangrar, aí haja o marido e os filhos cobrar: ‘eu não dizia a senhora que não tinha futuro?’. Eu olhava assim pra cima e dizia: ‘a fé de vocês é muito pouca, tenha fé em Deus que um dia esse açude vai sangrar’. E sangrou”, pontua.

Localizado em uma das 153 ilhas no meio do açude, o acesso até a pousada é apenas de barco. Em 2009, os hóspedes desembarcavam das águas diretamente na pousada de dona Lurdes. Depois da estiagem, é preciso caminhar alguns minutos até lá.

Lurdes também é dona de outras ilhas no açude e prima do cantor Fagner, dono de outras terras. Ela lamenta o impacto da seca nas atividades, até menos no turismo de que tanto precisa, mas, como “já viu o açude mais seco do que está hoje”, ela não perde a esperança de ver a água bater em sua porta novamente.

“Já secaram o Castanhão, já secaram o Banabuiú, e agora querem secar o Orós, porque aqui é uma força, é a renda do pessoal e, se secar, esse povo vão viver de quê? Não tem mais onde botar gaiola (de pesca), é uma renda esse açude, é uma riqueza, não tem tamanho a riqueza do Orós. Agora água é vida, se não tiver água não tem nada, né?”, frisa.

Açude Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Dona Lurdes, proprietária da pousada Encanto das Águas. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Dona Lurdes, proprietária da pousada Encanto das Águas. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Açude Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Maria das Graças, proprietária de restaurante móvel no Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Maria das Graças, proprietária de restaurante móvel no Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Humberto Sousa Fontes, 41 anos, barqueiro no Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Humberto Sousa Fontes, 41 anos, barqueiro no Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Humberto Sousa Fontes, 41 anos, barqueiro no Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)
Humberto Sousa Fontes, 41 anos, barqueiro no Orós. (Foto: Jéssica Welma/Tribuna do Ceará)

Além da mudança na paisagem, um dos principais atrativos do local, a navegação no açude está cada vez mais prejudicada. Humberto Sousa Fontes, de 41 anos, é barqueiro e faz o traslado de turistas que visitam as ilhas do açude. Há quatro anos, ficou desempregado e decidiu viver do açude e do turismo na região, mas a estiagem tem prejudicado a atividade.

“Pra você ir pras águas tá bem complicado, árvore a todo instante, madeira aparecendo. Quando pensa que não, você bate numa ilha, num banco de pedra que aparece, pau, tá difícil, pra gente aqui mesmo, pros morador tá complicado”, lamenta. “Eles vão tirando água e nem sabe a quem vão prejudicar”, ressalta Humberto.

A válvula dispersora dá as boas-vindas na cidade de Orós. Impetuosa, é vista ao longe, contrastando com o paredão seco do sangradouro. À espera de chuva, o reservatório tira forças de suas entranhas para garantir a sobrevivência dos moradores ao redor e partilhar com milhares de outros cearenses a água que corre no rio Jaguaribe.

entrevista

O Tribuna do Ceará conversou com o governador Camilo Santana (PT) sobre as decisões do Poder Executivo em relação ao abastecimento de água no Estado. Desde que Camilo assumiu a gestão, o Estado atravessa anos críticos em relação às chuvas. Para driblar as dificuldades, o Governo tem apostado na escavação de poços profundos e na ligação entre bacias. O principal temor da população, o racionamento, segue descartado pelo governador.

Confira o bate-papo:

Tribuna do Ceará:

O açude Banabuiú tem hoje a situação mais crítica, mas ainda dá suporte ao Castanhão. Por que a vazão de água do açude Orós para o Castanhão foi interrompida, mas no Banabuiú está continuada?

Camilo Santana:

O reservatório que dá segurança para Fortaleza é o Castanhão. A nossa preocupação hoje é garantir que a gente possa atravessar 2017 com um fornecimento de água para Capital e para Região Metropolitana, dentro de um cenário que a gente possa retomar a obra do São Francisco (transposição) e contar com essa água só no final do ano ou no ano que vem. Estamos trabalhando nesse cenário - o pior cenário - e que também a chuva não chegue à recarga que nós esperamos. Com isso, a gente está procurando resguardar o Castanhão. Nós não estamos tirando a água do açude Banabuiú, estamos retirando a água que está passando pelo rio Banabuiú, estamos bombeando essa água para Fortaleza. Exatamente agora nós não estamos trazendo a água do Castanhão para cá, estamos preservando o Castanhão, retirando a água do Banabuiú e trazendo água no Canal do Trabalhador pelo rio Jaguaribe. São dois cenários importantes, exatamente para economizar água para Fortaleza. Banabuiú é importante, nós não estamos tirando água do açude, mas do leito do rio.

Tribuna do Ceará:

Um dos principais receios da população é que o suporte de água para indústria e outras atividades como agropecuária possam prejudicar o abastecimento humano. Como é feita a distribuição no Ceará para os diversos setores?

Camilo Santana:

Legalmente, o que a Constituição diz é que a prioridade é abastecimento humano, nossa prioridade é essa. Todas as indústrias estão sendo atendidas, apesar de a gente ter tido uma redução. Nós temos também que forçar as próprias empresas a começar a utilizar alternativas de reuso de água, economizar mais água. Para você ter uma ideia, a siderúrgica (Companhia Siderúrgica do Pecém), quanto foi projetada, ia consumir 1.2 mil litros por segundo. Ela, hoje, ao final da construção, vai consumir 600 litros por segundo, a metade.

Desde 2015, tenho discutido com a térmica (usinas termelétricas), porque a térmica poderia estar usando a água do mar. Para a térmica, a água não precisa passar por aquele processo todo de dessalinização para o consumo humano. Eles vinham com esse projeto, mas não implementaram. Eu vinha alertando a eles: é preciso pensar em alternativas. Minha briga com as térmicas foi essa, nem fizeram (ações de economia de água) e queriam continuar comprando a água pelo preço subsidiado. Mandei uma lei para a Assembleia Legislativa para que, em momentos críticos de seca, estaria suspenso o subsídio de água, a tarifa d'água para indústria ia ser maior por causa disso, eu ameacei até fechar a térmica. Entre a térmica e a população, eu vou ficar com a população. Reduzimos o consumo de água. Elas consomem 1000 litros por segundo e estamos fornecendo praticamente a metade, já é uma redução forçada. Para não prejudicar o setor industrial fizemos uma série de ações.

A meta é que toda a área do Complexo Portuário do Pecém possa ser abastecida com as ações do Pecém e não precise usar o Castanhão para isso. Vamos trabalhar sempre na perspectiva de que haja uma recarga ou que a conclusão da transposição do São Francisco seja finalizada que é isso que vai nos dar uma segurança maior em relação a não termos problema de desabastecimento em Fortaleza.

Tribuna do Ceará:

Por que até hoje não foi adotado racionamento de água no Estado?

Camilo Santana:

A minha decisão de não ter feito racionamento foi porque os técnicos me mostraram que fazer racionamento, além do transtorno para população, ia resultar em economia de um mês de água para Fortaleza. Um dia um lado da cidade (em racionamento), outro dia, outro lado: isso, em um ano, representaria um mês de consumo. Eu disse: 'vamos usar a criatividade e buscar alternativas'. Só por interligar o (açude) Pacajus ao sistema metropolitano são 45 dias de fornecimento para Fortaleza, é mais do que o racionamento. Não está descartado (o racionamento). Vamos saber se a transposição não vier esse ano ou atrasar mais, mas as decisões serão tomadas de acordo com avaliação de riscos.

ponto de vista

Julião Júnior

Meu primeiro contato com o Castanhão foi ainda criança, na época em que o colégio levou os alunos para conhecerem aquele que seria a salvação dos cearenses em épocas de seca. No meu olhar de gente pequena, tudo parecia gigantesco.

Os anos se passaram e mais de duas décadas depois eu voltei ao Castanhão. Para minha surpresa, ele continuava a ser um gigante aos meus olhos. O ano era 2013. Eu fui escalado pela TV Jangadeiro para fazer uma reportagem sobre o baixo nível de armazenamento do açude, que trouxe à tona parte das ruínas da antiga cidade de Jaguaribara, submersa após a construção do açude.

Eu lembro que, ao voltar para casa, após ter feito a reportagem mostrando o reservatório secando, minha primeira atitude foi diminuir o tempo dos meus banhos e fechar bem todas as torneiras da casa. Eu não queria que, um dia, tudo aquilo se transformasse apenas em terra rachada.

Em 2013 havia dez vezes mais água acumulada no Castanhão que nos dias atuais. O triste é que boa parte da população não tem consciência que falta pouco para o reservatório se esgotar. Pagar para ver é um preço muito alto. Ainda dá tempo de economizar e ajudar a multiplicar o pouco que resta para que tenhamos, pelo menos, mais um ano de abastecimento.

Quando eu paro para pensar que, mesmo após mais de quatro anos sem receber recarga, o Castanhão ainda tem força para abastecer parte da população cearense, eu me convenço de que aquela ideia de gigante do passado é uma feliz realidade.

Apresentador da TV Jangadeiro/SBT, o jornalista cearense já visitou o açude Castanhão em três ocasiões, duas delas a trabalho para falar de uma seca que não se compara com a que se vê em 2017

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