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01 de setembro de 2014

Geração plugada (e de valor)

Hoje, acessar a Internet faz parte das atividades diárias de Dona Cabral. Além de pesquisar e saber das notícias, ela também é fã de Facebook

Hoje, acessar a Internet faz parte das atividades diárias de Dona Cabral. Além de pesquisar e saber das notícias, ela também é fã de Facebook

“Minha vida mudou depois do computador. Queria ter conhecido há mais tempo”, diz a professora aposentada Maria Cabral, que caiu na “rede” em 2011, após incentivo dos filhos. Hoje, aos 84 anos, “Dona Cabral” é só alegria após fazer o 2º curso de inclusão digital em cerca de 3 anos.

Resistente à tecnologia, aprender a “mexer” em computador nunca foi a vontade dela. O 1º curso veio após ganhar um PC da filha. “Eu tinha uma escola com computadores, mas nunca me interessei. Quem cuidava de tudo era minhas filhas. Talvez se eu tivesse aprendido antes, teria até dispensado uma delas e economizado no pagamento. Antes, eu via o computador que eu ganhei de aniversário, olhava pra ele, mas não fazia nada, foi aí que um dia resolvi aprender”, relembra sorridente.

Hoje, acessar a Internet faz parte das atividades diárias de Dona Cabral. Além de pesquisar e saber das notícias, ela também é fã de Facebook. “Depois da minha oração das 6 horas, eu janto e vou pro ‘Face’. Falo com meus filhos, coloco minhas poesias e posto fotos. Eu também não deixo de saber do Pedro Leonardo [cantor, filho do sertanejo Leonardo]. Eu acho ele muito lindo!”, comenta Cabral. “Eu também adoro jogar Paciência. É bom demais”, completa.

A inclusão digital ela agradece ao Programa de Gente de Valor (PGV), que é oferecido pelo Instituto Municipal de Pesquisas, Administração e Recursos Humanos (IMPARH). A formação, que é ministrada por professores voluntários, ocorre duas vezes por ano e beneficia cerca de 50 idosos por turma.

O curso de informática do PGV tem um diferencial: o apoio de crianças e adolescentes como monitores, os chamados “anjos”. Estes voluntários ajudam os alunos, cuja formação é dividida em três módulos: o primeiro aborda a história da informática e o manuseio do computador; na segunda parte do curso eles aprenderão a lidar com programas e softwares; na última fase, o foco se tornará a internet e as redes sociais. “A gente procura integrar, fazer alegria, buscar sorrisos. O curso vai além da capacitação em informática”, destaca a coordenadora do programa, Neide Façanha.

O PVG também conta com integração social de idosos por meio da dança, pintura, artesanato e rodas de discussão. As atividades em grupo fazem de todos uma verdadeira família. “Eu costumo chamá-las de ‘minhas meninas’. A gente se tornou verdadeiras amigas. Aqui elas encontram um bom ambiente para conversar, falar dos problemas e brincar muito”, diz Façanha.

Atualmente o PGV conta com 700 cadastrados. Entre eles também está Elena Lima, 65 anos. O sorriso estampado no rosto não lembra a situação vivida antes de conhecer as atividades de inclusão do Programa. Ela estava em profunda depressão no início do ano.“Eu procurei um médico para me tratar, mas ele afirmou que o remédio já estava comigo, eu precisa mesmo era resgatar minha alegria”, relembra.

Pensando nisso, ela resolver dar uma chance para si mesma. Tomou conhecimento do PGC e entrou para a reflexologia. “Eu fui conhecendo as atividades. Fiz reflexologia, dança…Comecei a ocupar meu tempo aqui [No IMPARH]. Comecei a sentir novas alegrias”, afirma a aposentada.

Dona Cabral (dir.) e Dona Elena (esq.) se conheceram no PGV (FOTO: Felipe Lima/Tribuna do Ceará)

Dona Cabral (esq.) e Dona Elena (dir.) se conheceram no PGV (FOTO: Felipe Lima/Tribuna do Ceará)

Já envolvida com outros idosos, ela ficou sabendo do Curso de Inclusão Digital. Se interessou, mesmo com receio. “Eu dizia para meus filhos que nunca aprenderia isso [noções de informática], mas quando eu fiquei sabendo do curso, eu disse: vou entrar”.

Feliz com a mudança de vida de Dona Elena, a coordenadora do Programa Gente de Valor comemora: “Ela era a mais aplicada. Não deixava ninguém conversar”, lembra Neide Façanha.

O ingresso no curso foi mais um passo para se livrar da depressão. Ela conheceu novos amigos, adquiriu conhecimento e mais: entrou para o WhatsApp. “É uma riqueza o WhatsApp! A gente fala rapidinho, manda mensagem para os filhos. Tem até as opções de grupos. É muito legal”, diz contente.

No computador, a aposentada diz que adora ver os jornais, não curte Facebook, mas tem algo que ela diz ser mais importante: “Ter aprendido a acessar minha fatura do cartão foi a coisa mais importante!”, afirma. Apesar da nova atividade, Elena é enfática quanto ao uso sem controle. “A Internet não pode ser um vício, principalmente quando estamos entre amigos. Na hora de se encontrar, é bom desligar o celular. Nada de WhatsApp”, diz.

O novo idoso

Dona Cabral e Dona Elena fazem parte da “nova geração” de idosos que rompe as barreiras da tecnologia no Brasil. De acordo com dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2012, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ano passado, o País tem 9,4 milhões de pessoas com mais de 50 anos ou mais usando Internet. A maioria destes “idosos” – no Brasil, é idoso a pessoa com mais de 60 anos – está na região Sudeste, onde mais de 5,4 milhões de vovôs e vovós estão plugados. A maioria da faixa etária supracitada é composta por mulheres. São 4,7 milhões no total.

Info---Longevidade

No Ceará

De acordo com os dados do PNAD, o número de idosos no Ceará cresceu 4,41% de 2011 para 2012. Em 2011, o Estado tinha 1.089.000 idosos e passou para 1.137.000 em 2012. A quantidade equivale a 13% da população total do Ceará, que possuía 8,6 milhões de habitantes, segundo ainda o IBGE. No mesmo período, o crescimento nacional foi de 5,61%.

Esse “novo idoso” não usa somente Internet, mas também celular. E o grupo dos “sessentões ou mais” que aderiu à tecnologia é maior do que a de jovens de 15 a 17 anos e também de 18 ou 19 anos. No Brasil, são 12,1 milhões de idosos ligados no celular, sendo a maioria do sexo feminino (6,4 milhões).

De acordo com médico geriatra e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) João Macêdo Coelho Filho, em parte, isso reflete o maior acesso da população, incluindo os idosos, aos recursos tecnológicos: “É também um indicador da maior inserção social do idoso e melhores condições de saúde, que inclusive possibilitam a pessoas na idade avançada continuarem ativas e produtivas”, explica.

A alegria estampada no rosto de Elena denuncia sua “virada de mesa”. A convivência com outras pessoas da mesma idade mostra o quando o idoso pode viver intensamente. O termo “velhice” não faz parte do cotidiano destas verdadeiras “meninas”. “Eu já sei sambar até o chão e dia domingo eu tenho lugar marcado no forró”, finaliza Elena.


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Coordenação e produção: Felipe Lima
Direção de arte: Tiago Leite
Edição de imagem e vídeo: Renato Ferreira