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Linhas Íntimas

Entre o Fiar e o Tecer

Há 130 anos nascia a indústria têxtil no Ceará. Com o desenvolvimento da atividade econômica, surgiu um ambiente propício para o crescimento da cadeia produtiva da moda. Essa pujança e solidez proporcionaram uma ambiência positiva para que a indústria de confecções ganhasse espaço.

Atualmente o Ceará é o quinto polo têxtil e de confecções além de ser referência em moda autoral, com designers de renome, como Lino Villaventura, que já ocupa espaço internacional na moda.

Nesse contexto, empreendedores da moda íntima também se destacam por sua produção, seja artesanal ou mais robusta. A confecção tem sido uma vocação no Ceará, contribuindo assim para uma posição de destaque na economia brasileira.

Quando o assunto é empreendedorismo no ramo de moda, o estado tem ainda mais destaque. De acordo com dados do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no Ceará (Sebrae), o Ceará conta com 16,5 mil microempreendedores no segmento, representando 12,5% do total de Micro e Pequenas Empresas.

Da Progresso ao Progresso

Em 1882 surgia o embrião da indústria têxtil do Ceará: a Fábrica Progresso. Com o nome de Pompeu & Irmãos, ela começou a funcionar somente em 1883, um ano depois. Naquela época, a economia cearense era baseada em atividades manufatureiras de óleo, sabão e alguns produtos alimentícios. Anos antes, o algodão começava a virar o “ouro branco” para a economia do Ceará, mas ainda sem interesse internacional. Somente no fim do século 18 o mercado do Exterior começou a ver o algodão cearense com bons olhos, fato crucial para desenvolvimento do setor têxtil.

Foto extraída do livro O Fiar e o Tecer – 130 anos da indústria têxtil do Ceará, editado pelo Sindicato das Indústrias de Fiação e Tecelagem em Geral do Estado do Ceará (pág. 75. Fonte: Acervo da família Thomaz Pompeu).

Produção têxtil na Fábrica Progresso (Foto extraída do livro O Fiar e o Tecer – 130 anos da indústria têxtil do Ceará/Fonte: Acervo da família Thomaz Pompeu).

Depois da Fábrica Progresso, vieram a Companhia Ceará Industrial (1889), Companhia Fabril de Tecidos União Comercial (1891), Companhia Fabril Cearense de Meias (1891), Fábrica Santa Thereza (1893) e Fábrica Sobral (1895). Com passar do tempo, a indústria têxtil no estado foi ganhando força e, 130 anos depois, é considerada o quinto maior polo confeccionista do Brasil, com 1.748 empresas, segundo dados do Anuário da Moda do Ceará 2013/2014. Esse número representa 5,3% da cadeia têxtil brasileira.

De acordo com a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (ABIT), apesar de a produção têxtil (fiação, tecelagem, aviamentos e renda) ter caído 22,1% nos sete primeiros meses de 2014, o estado acumula crescimento de 3,1% no setor confeccionista (roupas acabadas) e, em 2013, fechou com um faturamento de cerca de R$ 20 bilhões.

 Tornar nossa indústria cearense mais competitiva é um dos grandes alvos a serem buscados”, diz diretora executiva do Sinditêxtil/CE, Kelly Whitehurst (FOTO: Fernanda Moura/Tribuna do Ceará)

Tornar nossa indústria cearense mais competitiva é um dos grandes alvos a serem buscados”, diz diretora executiva do Sinditêxtil/CE, Kelly Whitehurst (FOTO: Fernanda Moura/Tribuna do Ceará)

Ainda sobre dados de 2014, até outubro o Ceará tinha concentrado 2,45% do total de importações brasileiras de produtos têxteis e de confecção, totalizando mais de R$ 250 milhões, conforme a ABIT. Para a diretora executiva do Sinditêxtil/CE, Kelly Whitehurst de Castro, essa retração é uma realidade nacional. “Atualmente até o varejo diminuiu o seu ritmo de crescimento, e isso impacta diretamente o setor têxtil e de confecções. Os segmentos têm se articulado para manter suas estruturas e postos de trabalho, promovendo debates e feito propostas para criar uma ambiência voltada para a produção”, comenta.

Quando o assunto é lingerie, os números são ainda mais positivos e animadores. De acordo com o levantamento Perfil Setorial Vestuário de 2013, lançado pela Federação das Indústrias do Ceará (Fiec), por meio do Instituto de Desenvolvimento Industrial do Ceará (Indi), o Ceará foi responsável por 14,4% da produção nacional, ficando em terceiro no ranking que compõe os estados produtores de moda íntima no ano passado.

Apesar da atividade têxtil em si ter seus longevos 130 anos no estado, a produção de moda íntima no Ceará entrou na maioridade há pouco tempo. E isso somente se deu pela atuação de empreendedores. “Há 25 anos produtores de lingerie se instalaram no estado do Ceará e a mão-de-obra foi sendo formada por tais empresas. Isso gerou oportunidade para empresários ingressarem no ramo e novos fornecedores de moda íntima surgiram”, comenta o presidente da Associação da Moda Íntima do Ceará (Amic), Sandro Teixeira Braga. No quesito produção de lingeries, o atual entrave da economia cearense é a matéria-prima, como explica o presidente da Amic: “Estamos muito bem quando se fala em produção, mas temos que melhorar bastante. As grandes indústrias de fiação, voltadas para nosso ramo, ainda não têm unidades no estado, assim acaba que grande parte de nossa matéria-prima vem de outros estados, como São Paulo e Santa Catarina”.

Outro desafio do Ceará é o domínio oriental na produção confeccionista. As lingeries chinesas possuem um baixo preço de produção e chegam ao Brasil mais baratas. Enquanto no Brasil um conjunto de sutiã e calcinha custa em média R$ 25, o par chinês gira em torno de R$ 10. De acordo com o Sinditêxtil, contam com, além da mão de obra barata, produtos de baixo custo, incentivos governamentais e ainda ausência de custos trabalhistas. Para aumentar a competitividade, o Ceará investe em diferenciais. “Estamos nos diferenciando em qualidade, prazo de entrega e design. Hoje nesses 3 pilares é que podemos nos diferenciar, o tempo de 90 dias para o produto acabado chegar em nosso país impossibilita o produto chinês  de acompanhar a moda que em nosso pais gira praticamente seis vezes por ano, pois em preço é impossível produzir visto que muitos desses produtos são revendidos a preços inferiores ao nosso custo operacional”, explica Sandro Braga. Apesar dessa concorrência “desleal” e da produção do Estado ser quase que totalmente voltada para o mercado nacional, as exportações cearenses no setor de moda íntima vão bem. Conforme dados do Centro Internacional de Negócios (CIN), as lingeries em geral somaram cerca de R$ 1 milhão somente nos três primeiros meses de 2014.

Na busca de diferencial, um segmento dentro do setor de moda íntima que vem ganhando espaço é o Plus Size, que é voltado para mulheres que usam do 44 ao 62. “Temos hoje muitas fábricas voltadas para o setor, estamos revolucionando esse tipo de moda. Estamos saindo apenas do branco, preto e chocolate para a produção de peças mais elaboradas e sensuais. Entendemos que há beleza em todas as mulheres e cada uma tem seu poder de sedução. Esperamos que com nossas lingeries esse poder de sedução seja inesquecível”, comemora o presidente da Amic.

Progresso

Na dura luta para posicionar-se cada vez mais no cenário nacional, o setor têxtil e confeccionista do Ceará tem investido recursos para também conter os avanços dos produtores internacionais. E uma das saídas é a capacitação. “Mão de obra tem sido um desafio em qualquer lugar em nosso país. No Ceará não é diferente. A qualidade dos profissionais quando aliada ao deficit educacional existente, torna menos competitiva uma empresa. O desafio é encontrar caminhos junto ao governo estadual para mitigar os problemas que hoje o setor tem vivido, como a grande concorrência com os produtos importados da China. Tornar nossa indústria cearense mais competitiva é um dos grandes alvos a serem buscados”, diz a diretora executiva do Sinditêxtil/CE, Kelly Whitehurst.

No âmbito da capacitação, faculdades e órgãos têm criado oportunidades para quem deseja se especializar na área.

Os primeiros registros de roupa íntima feminina datam de antes de Cristo.

Frecheirinha: o milagre do empreendedorismo

Sob de um calor de rachar, a cerca de 280 quilômetros de Fortaleza, está localizada a cidade de Frecheirinha. O pequeno município do noroeste do Ceará tem uma peculiaridade: é um dos maiores polos de produção e venda de lingeries do país. De lá saem peças de moda íntima para o próprio estado e pelo menos 14 outros. Na cidade, praticamente toda a população vive da produção de lingeries, e orgulho disso está na entrada do município.

Placa na entrada da cidade sinaliza sua principal atividade econômica (FOTO: Felipe Lima/Tribuna do Ceará)

Placa na entrada da cidade sinaliza sua principal atividade econômica> a produção de lingeries (FOTO: Felipe Lima/Tribuna do Ceará)

Quase perdida entre as serras de Tianguá e Ubajara, Frecheirinha – ainda perto de completar seus 60 anos – só foi “descoberta” a partir da visão empreendedora de duas pessoas: João Farias Viana e Maria da Conceição Furtado. Por volta de 1990, o então casal resolveu ir até a cidade vizinha, Sobral, comprar um conjunto de lingeries para “estudar” o produto. “Naquela época, Frecheirinha dependia somente da agricultura familiar e da produção de cal. Resolvemos comprar a peça, desmanchá-la e aprender como montava”, lembra o empresário João Viana.

ARTE : Tiago Leite/Tribuna do Ceará

ARTE : Tiago Leite/Tribuna do Ceará

Com uma produção no quintal de casa, com apenas três máquinas de costura e acumulando as funções de execução e administração, o casal conseguiu evoluir nos negócios e criar a primeira fábrica de Frecheirinha, a Di Pérola Lingerie. “Era tudo feito no nosso quintal. Não tinha mecânico, não tinha vendedor. Se desse problema na máquina, a gente tinha que ir até Fortaleza para consertar. Isso tinha um custo altíssimo”, diz Viana.

Naquele tempo ainda, antes mesmo de começar, a então esposa de João nem sequer sabia costurar. Havia acabado de obter o diploma de Auxiliar de Enfermagem e seu negócio era saúde, não calcinha. Mas o negócio despontou. Com a ajuda de dois moradores da região – seu Antônio Francisco e José Maria, na época caminhoneiros de Frecheirinha –, a lingerie da Di Pérola começou a chegar até as outras cidades e a marca começou a ficar conhecida. A partir daí começava o “milagre de Frecheirinha”.

João Viana lidera hoje a Hibisco Lingerie, em Frecheirinha (FOTO: Felipe Lima/Tribuna do Ceará)

João Viana lidera hoje a Hibisco Lingerie, em Frecheirinha (FOTO: Felipe Lima/Tribuna do Ceará)

Cerca de seis anos depois da criação da marca pioneira e o surgimento de empresas como a D’Kary Lingerie e Brumarrie Lingerie, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) começou a atuar na capacitação e desenvolvimento dos pequenos negócios. Na época, foi criado o programa Competir, que, além do Sebrae, contou com apoio Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial no Ceará (Senai/CE) e da German Technical Cooperation Agency (GTZ).

O objetivo do Competir foi ajudar pequenas e microempresas de Frecheirinha e cidades vizinhas a se tornarem mais competitivas, aumentando a produtividade dos negócios, tornando a execução mais qualificada. Com o projeto, as pequenas confecções de fundo de quintal da cidade passaram por desenvolvimento da mão de obra. “O Senai e o Instituto Euvaldo Lodi são executores das consultorias e cursos. O Sebraesubsidia até 80% do valor do projeto e o empresário entra com 20% dos custos para efetivar o curso ou consultoria. Primeiramente há a aplicação de questionário por um colaborador do Sebrae para coleta de informações que subsidiem a escolha das empresas participantes. Ja a segunda etapa consiste em identificar o estágio atual das áreas foco abrangido pelo projeto e verificar se as empresas atendem aos pré-requisitos definidos a ser realizada por consultor contratado. Há ainda consultorias e, por último, acontece a emissão de relatório técnico contendo as atividades desenvolvidas e os resultados alcançados em cada etapa”, explica técnica do Sebrae/Tianguá, Lucileide Lourenço.

Atualmente, João Viana é responsável pela marca Hibisco Lingerie. Tem uma produção, em média, de 35 mil peças entre lingeries e roupas de dormir e emprega pelo menos 70 funcionários em sua fábrica, sem contar as vendedoras da sua loja própria. Já Maria da Conceição, além de tocar a Di Pérola, é funcionária pública e mantém um posto de combustível.

Treinamento para o desenvolvimento

Até transformar-se em um polo de moda íntima, a tarefa não foi fácil. Com a maior parte dos moradores da região trabalhando na indústria do cal ou na agricultura, o aprendizado do corte e costura de calcinhas foi “na marra”, como é citado no ditado popular nordestino. “As perspectivas em Frecheirinha eram mínimas. Os jovens faziam 18 anos e iam para o Sul ou Sudeste tentar a vida por lá. O negócio era trabalhar na construção civil. Por aqui, só sabiam cuidar do ‘cabo da enxada’”, lembra o presidente da Associação dos Confeccionistas de Frecheirinha (Ascof), Josean Donato Ferreira.

Além de presidente da Ascof, Josean Donato é responsável pela Êxito Lingerie que possui quase 100 funcionários (FOTO: Felipe Lima/Tribuna do Ceará)

Além de presidente da Ascof, Josean Donato é responsável pela Êxito Lingerie, que possui quase cem funcionários (FOTO: Felipe Lima/Tribuna do Ceará)

Além da atuação do Sebrae na capacitação de mão de obra, a Ascof é quem encaminha os jovens trabalhadores de Frecheirinha para as fábricas e lojas da região. Josean explica que há um acordo de não dar preferência aos melhores. “Na Ascof, o pessoal mais novo faz todo tipo de curso, do corte ao desenvolvimento de líderes. Mas as empresas não podem vir aqui e escolher. Eles enviam a demanda e a gente encaminha o jovem trabalhador. Se tiverem a sorte de pegar um profissional mais bem preparado, que o empresário faça por onde fixá-lo na empresa. Caso receba um ainda com dificuldades, que ele o treine mais”, explica o presidente da Associação.

Josean Donato comenta ainda que a demanda por profissionais para a área confeccionista cresceu tanto que não há mais moradores ociosos. “Em Frecheirinha tem emprego para todo mundo. As fábricas não param de crescer e a gente tem que buscar pessoas de outras cidades até. Só não trabalha quem não quer”.

Nesse contexto, homens não precisam mais deixar a cidade em busca de emprego ou ter que enfrentar o calor cavando buracos na roça. E não é somente mulher que produz calcinha. Tem homem entendendo de linhas íntimas. Um dos milhares de profissionais da área de moda íntima em Frecheirinha é o gerente de produção Antônio Luciano Moreira, de 35 anos. Ele, como muitos, veio da roça e hoje colhe frutos em outro campo.

“Sempre quis ser diferente. A roça não era meu lugar. Aquilo não era meu futuro. Mesmo como agricultor, eu procurava estudar. Queria mais do que aquilo. Comecei como auxiliar de corte, fui crescendo e hoje ocupo lugar estratégico na fábrica”, exalta com brilho nos olhos.

Luciano é um dos diversos homens que saíram da roça para trabalhar na indústria confeccionista (FOTO: Felipe Lima/Tribuna do Ceará)

Luciano é um dos diversos homens que saíram da roça para trabalhar na indústria confeccionista (FOTO: Felipe Lima/Tribuna do Ceará)

Para subir degraus, Luciano Moreira enfrentou preconceitos. “Os colegas achavam que não era ‘normal’ homem trabalhar numa fábrica de calcinhas, mas meu foco era o bom emprego. Sem contar que, quando cheguei da roça, senti muitas dificuldades. Hoje, olho para trás e vejo o quanto venci, mas ainda sou um eterno aprendiz”.

Atualmente, segundo dados do Anuário da Moda do Ceará 2013/2014, o Ceará tem mais de 66 mil pessoas trabalhando diretamente em municípios produtores de têxteis e confeccionados. Deste, 1.145 estão em Frecheirinha. Quem lidera o ranking é Fortaleza, com 37.461 empregados.

Jeito tipicamente nordestino

O sonho do próprio negócio de Maria José Teotônio começou quando ela modelou e costurou suas primeiras peças de lingeries para vender em feiras pelos municípios do Cariri. Na época, trabalhava como professora em um turno do dia e empreendedora durante o outro, até vislumbrar a grande mudança que sua vida teria depois da contratação de um empréstimo e dois funcionários.

Nos tempos de sacoleira

O começo foi muito difícil. Com filhas pequenas em casa, a jovem empreendedora se dividia entre a responsabilidade de mãe e do trabalho (FOTO: Reprodução)

O começo foi muito difícil. Com filhas pequenas em casa, a jovem empreendedora se dividia entre a responsabilidade de mãe e a do trabalho (FOTO: Reprodução)

Levar educação a crianças era o sonho de Maria José Teotônio Vieira. Nascida em Juazeiro do Norte, no Cariri cearense, a então professora decepcionou-se com a profissão. Naquela época, por volta do início dos anos 90, além da falta de estrutura nas escolas, os baixos salários já não davam para ter uma vida de qualidade. Foi então que Mazé – como gosta de ser chamada – arrumou as malas, literalmente, e partiu para outra atividade: empreender.

Com filhas para criar, dona Mazé resolveu costurar peças de roupas íntimas e vender nas feiras do Cariri. “De manhã eu dava aula, à noite eu costurava e no fim de semana saia com várias sacolas nas mãos, cheias de calcinhas para vender nos municípios do Crato e Barbalha, além do próprio Juazeiro”, relembra a ex-professora.

O começo foi muito difícil. Com filhas pequenas em casa, a jovem empreendedora se dividia entre a responsabilidade de mãe e a do trabalho. Sem dinheiro para investir, só restava uma coisa: sonhar. “Eu sentia um aperto no peito ao deixar minhas meninas de dois anos em casa, mas eu tinha que ajudar a  manter a família. Eu saí de casa acreditando que conseguiria vencer. Eu não queria mais ensinar. Queria mesmo era viver da confecção”, conta a empresária.

Passados os primeiros anos de “sacoleira”, Maria José conseguiu abrir negócio próprio em 1990. A carreira de professora já tinha sido colocada de lado para investir somente no seu lado empreendedor. O nome do próprio negócio é uma homenagem à filha mais velha. Aquela que fica chorando com saudade da mãe aos fins de semana: Cimmara.


Diferencial

Hoje a Cimmara Moda Íntima é uma empresa que atende ao mercado nacional, com duas lojas em Juazeiro do Norte e uma em Recife, conta com uma equipe de cerca de 70 funcionários, com departamentos estabelecidos por área, e cada um com estratégias definidas de atuação. Sempre buscando aperfeiçoar seu espírito empreendedor e de sua equipe, Maria José já participou de diversos cursos no Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), em destaque o Empretec, que é uma metodologia da Organização das Nações Unidas (ONU) voltada para o desenvolvimento de características de comportamento empreendedor e para a identificação de novas oportunidades de negócios, promovido em cerca de 34 países. “Para conseguir investimentos, como Capital de Giro, o Sebrae foi fundamental. Anualmente passamos por consultorias e treinamentos, pois mão de obra qualificada ainda é muito difícil aqui na região”, explica.

Desde 1990 no mercado, a Cimmara Moda Intima tem suas coleções desenvolvidas pensando na diversidade das exigências da mulher cearense (FOTO: Reprodução)

Desde 1990 no mercado, a Cimmara Moda Íntima tem suas coleções desenvolvidas pensando na diversidade das exigências da mulher cearense (FOTO: Reprodução)

Superados os anos de dificuldades iniciais, hoje Maria José enfrenta a natural concorrência. Com a expansão da moda íntima no Ceará e consolidação do estado como polo têxtil e confeccionista, a empreendedora busca criação de peças íntimas diferenciadas. A solução ela encontrou na própria cultura nordestina. Em 2013, a empresária participou da 2ª edição do Atelier Criativo, que é uma iniciativa do Sebrae e tem como objetivo fomentar a parceria econômica e cultural entre a indústria e o artesanato, unindo o espírito inovador dos profissionais da Indústria Criativa, como artesãos, designers e estudantes, à visão empreendedora das micro e pequenas empresas de moda do Ceará.

Na ocasião, a equipe da Cimmara Moda Íntima com estilistas e artesãos criaram modelos de lingeries a partir de retalhos de tecidos que simbolizam a cultura nordestina. Os resíduos resultaram em flores de renda, fuxicos de tule com crochê, entremeios em crochê e tenerife.

“A Maria José envolveu-se muito no projeto, facilitando para a criação e desenvolvimento de novos produtos com o usos desses resíduos. O resultado foi exposto na Casa Cor Ceará – espaço Atelier Criativo, como também foi levado às passarelas do desfile de abertura da Feira Cariri Forte, em Juazeiro do Norte”, lembra a Analista do Sebrae e Coordenadora Geral do Atelier, Diva Mercedes.


Recompensa

Os frutos colhidos da dedicação de dona Mazé são comemorados em família. Além da filha Cimmara Teotônio que leva o nome da marca de lingeries e é responsável pelo Marketing da empresa, outras duas filhas trabalham no empreendimento. Keliciane Teotônio ajuda a mãe no setor financeiro, e Suyane, que é estilista, participa do design dos produtos. O suor da empresária ainda ajudou na formação de outras duas filhas: a biomédica Luiziane Teotônio e a nutricionista Eliziane Teotônio. “Quando eu olho para trás, me sinto realizada. Minhas filhas também sentem isso. Hoje elas sabem o quanto me dediquei. É emocionante”, diz a empreendedora aos 56 anos.

“O resultado de todo esse esforço e integração é não somente o desenvolvimento de novos produtos, mas a ampliação da visão dos empreendedores e a comprovação de que esta parceria Artesanato, Indústria da Moda e Indústria Criativa é possível, é viável, é real”, finaliza Mercedes.

Na intimidade da produção

Além do conforto, a calcinha e o sutiã tem toda uma concepção de sensualidade e beleza. Ela vai além do vestir, mexe com o comportamento da – e do homem. Sexy ou básica, a produção é cheia de etapas. Cor, tamanho, modelo, tendências.

O processo de produção de calcinhas e sutiãs começa por rabiscos de estilistas, segue para o corte à mão, vai e volta por máquinas até chegar aos detalhes finais. É tudo muito engenhoso e precisa da aprovação de vários profissionais.

Para saber como funciona a confecção de lingeries, o Tribuna do Ceará visitou uma fábrica na Região Metropolitana de Fortaleza e acompanhou o passo a passo. Confira:

Entrevista com Rodrigo Lima

De assistente de bar a empreendedor de moda íntima

O sertão foi a primeira escola de Rodrigo Lima. A perseverança, a munição para trocar a enxada pela caneta. O garoto que, aos 6, já trabalhava na roça, mas aos 15 ainda era analfabeto, assina hoje como presidente da marca Nayane Rodrigues Moda Íntima. O cearense, filho mais velho entre seis irmãos, sempre carregou nas costas não a obrigação, e sim a vontade de ajudar a família a melhorar de vida. E bastam algumas horas de conversa para saber como o menino do sertão conseguiu o que tanto buscou. O empreendedorismo parece intrínseco a Rodrigo, natural de Mombaça, cidade a 296 quilômetros de Fortaleza. Até que ele mesmo despertasse este lado, entretanto, foi um longo caminho.

Como não sabia ler nem escrever, foi trabalhar em um bar, recebendo mercadorias, lavando panelas e limpando banheiro (FOTO: Roberta Tavares/Tribuna do Ceará)

Como não sabia ler nem escrever, foi trabalhar em um bar, recebendo mercadorias, lavando panelas e limpando banheiro (FOTO: Roberta Tavares/Tribuna do Ceará)

O distrito de Vicente, lugarejo humilde de onde saiu, sobrevive até hoje da agricultura. Rodrigo conheceu de perto essa realidade do trabalho braçal e, em razão disso, não teve os estudos como prioridade. “Eu trabalhava na roça, meu pai gostava muito de trabalhar e não deixava a gente estudar”, lembra. Ainda adolescente, mas se considerando um adulto, aos 15 anos foi para São Paulo, morar com o tio. O objetivo era trabalhar para melhorar de vida. “Quando fui para lá, estava há 4 anos sem estudar, já tinha era esquecido. Era analfabeto mesmo”, conta.

Como não sabia ler nem escrever, foi trabalhar em um bar, recebendo mercadorias, lavando panelas e limpando banheiro. O que ganhava mandava para o pai. Vislumbrando melhores oportunidades, decidiu estudar, e se alfabetizou até a 4ª série. “Foi um período de muito aprendizado. Eu aproveitei para trabalhar numa lanchonete com o meu tio. Cinco da manhã eu abria, trabalhava até umas 15h, e depois ia estudar, das 16h às 19h. No fim de semana, eu trabalhava fazendo bico em outros lugares”, relembra.

Sem perspectiva de crescimento no emprego, tomou a decisão de viajar ao Paraguai para comprar celulares e revender. Foi então que sua experiência com vendas lhe deu oportunidade para trabalhar com os tios como vendedor de lingerie, em São Paulo. Determinação, coragem e força de vontade foram determinantes para que encarasse o desafio. As lingeries eram produzidas em Maracanaú, na Região Metropolitana de Fortaleza, e vendidas na capital paulista. “Deu certo porque as lingeries de Fortaleza sempre foram reconhecidas pela qualidade”.

Rodrigo trabalhou um mês no estoque e, nas horas vagas, aproveitava para fazer entregas com outros vendedores e conhecer clientes. No estoque, aprendeu a identificar as referências, os modelos e as cores, até o dia em que começou a visitar os clientes. Pegou a malinha e foi se aventurar nas ruas de São Paulo. “No primeiro dia, eu rodei, rodei, rodei com a lista de clientes inativos. Me perdi e não consegui nada até o fim do dia. No segundo dia foi diferente, um cliente ligou e me explicou que não comprava da gente porque muitas vezes as peças eram enviadas erradas”, desabafa.

Com o sucesso, Rodrigo voltou a Fortaleza, comprou seis máquinas, procurou tecido e acabou sendo 'descoberto' pelos tios (FOTO: Roberta Tavares/Tribuna do Ceará)

Com o sucesso, Rodrigo voltou a Fortaleza, comprou seis máquinas, procurou tecido e acabou sendo ‘descoberto’ pelos tios (FOTO: Roberta Tavares/Tribuna do Ceará)

Se o erro estava ali, decidiu, então, ele mesmo entregar os pedidos. No primeiro mês, se destacou e vendeu cerca de R$ 200 mil em lingeries. Bateu todos os recordes da empresa. A comissão era de 5% das vendas. Passou a ganhar, por mês, em torno de R$ 15 mil. Deu tão certo que os clientes só queriam ser atendidos por ele. A parceria foi além do comercial, construiu-se um vínculo de amizade. “Eu paguei logo o carro que tinha comprado, as multas que tinha levado. Foi uma mudança da água para o vinho. Imagina aí: antes, eu trabalhava com outro público, só com cara bêbado, depois passei a trabalhar mais com mulher, com moda”, avalia.

Até que, em uma viagem para conhecer a fábrica da empresa do tio, em Maracanaú, visitou os pais, que já tinham se mudado para Iguatu, município do interior do Ceará. Ao ver que a família continuava na mesma situação, pediu para a irmã mais velha procurar uma costureira, fabricar peças e enviar para São Paulo. “Uma costureira fabricou as calcinhas, coisa bem informal mesmo. Minha irmã enviou tudo em um ônibus para São Paulo. Eu contei a história para os clientes e vendi 3 mil calcinhas. A costureira vendia por R$ 1,80, aumentei para R$ 2,80 e consegui lucrar R$ 1 em cada peça. Vendeu tudo”.

Com o sucesso, Rodrigo voltou a Fortaleza, comprou seis máquinas, procurou tecido e acabou sendo ‘descoberto’ pelos tios. “Começaram os ciúmes, eles achando que eu queria concorrer com a lingerie vendida por eles”. O cearense foi demitido e encarou a dispensa como uma oportunidade de abrir o próprio negócio. “Conheci uma estilista, fizemos calcinhas simples, lisa mesmo, fio dental. Vendia a R$ 0,70. Na época, o atrativo era o preço”.

Surgimento da empresa

Os produtos tiveram uma excelente aceitação em São Paulo. Diante da performance da marca, Rodrigo resolveu registrar a empresa. Foi assim que surgiu a Nayane Rodrigues Moda Íntima, nome em homenagem à irmã mais nova do empresário. Tudo era produzido em uma casa humilde em Iguatu, com costureiras fabricando as peças, e os irmãos separando os pedidos. Com o crescimento, começaram a fazer conjuntos de calcinha e sutiã, vendidos por R$ 2,50. “Eu sempre fui muito elétrico. Já conhecia os clientes, procurava sempre vender para aqueles que pagavam à vista. Foi tudo bem rápido”.

Logo a residência ficou pequena para a produção, sendo necessária a mudança para uma casa duplex, com galpão ao lado, incluindo escritório e garagem para caminhão. O número de funcionários aumentou para 50. Com o passar do tempo, alguns dos irmãos foram, também, a São Paulo, para trabalhar e fortalecer o sonho da família. Coincidiu com o momento do lançamento dos modelos de sutiã com bojo. Foi quando a empresa saiu de Iguatu para Caucaia, Região Metropolitana de Fortaleza. Rodrigo passou a ter mais pressa de fazer do seu sonho um sucesso. “Quando os bojos iniciaram era uma febre. Fortaleza só estava vendendo sutiã com bojo. Se você tivesse 100 mil sutiãs, vendia tudo. Deu aquela loucura em mim, vi que era uma tendência do mercado e me debrucei sobre isso”.

De tanto procurar, encontrou costureiras aptas a produzir os sutiãs diferenciados. Conseguiram produzir de 800 a 1.000 sutiãs por dia. Foi quando começaram a crescer de fato. “Aquela coisa barata demais foi cansando. Todo mundo só queria bojo. As costureiras passaram a fazer mais conjunto, em vez daquelas coisas baratinhas. Aí fomos evoluindo e produzindo sutiã tomara-que-caia e com renda”, explica.

Mercado nacional

“Imagina aí: antes, eu trabalhava com outro público, só com cara bêbado, depois passei a trabalhar mais com mulher, com moda”
Rodrigo Lima
Empresário
Rodrigo Lima

As vendas e buscas por qualidade não pararam mais. Sua experiência na rua, de porta em porta, credenciou-lhe uma confiança e um relacionamento de proximidade com os clientes. Agora, a marca está em diversas lojas de lingeries e alguns magazines em todo o país, tanto no Ceará quanto em São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. “Se você for na 25 de Março ou no Brás [bairros de São Paulo], estamos em várias lojas”, comemora.

Treze anos depois da entrada da marca no mercado, já são produzidas 3 milhões de peças por ano e empregados 350 funcionários. Em torno de mil lojas, classes C e D, vendem os produtos Nayane Rodrigues Moda Íntima. A loja própria da marca foi inaugurada em setembro de 2013, no Bairro Montese, em Fortaleza. A empresa é administrada por Rodrigo, na presidência, e os demais irmãos, cada um com uma diretoria. A marca veste mulheres conhecidas nacionalmente, como as ex-panicats Nicole Bahls e Juliana Salimeni.

Com o sucesso, o empresário deseja ir além. Até porque, aos 37 anos, ainda existe muita coisa a ser vivida. “Trabalhei na cozinha, fui garçom, dono de bar, mas me identifiquei com isso. Quando alguém tem um sonho, não pode ter medo, tem que fazer com amor, buscando atender bem o consumidor. Se você tiver um bom serviço, conquistará o cliente”, dá a dica.

Uma mudança de peso de 4,5 quilos (ganho ou perda) pode alterar o tamanho do sutiã de uma mulher.

Dicas para montar uma loja de moda íntima

No Ceará ou em qualquer outro estado, investir no mundo da moda sempre pode ser uma boa alternativa. Considerando que lingerie é, além de um objeto necessário à mulher, um instrumento sensual, o público feminino preocupa-se cada vez mais em vestir-se e sentir-se bem.

Mesmo com a concorrência local e de fora do Brasil, é possível ganhar um dinheiro extra ou até mesmo “viver” de moda íntima. Antes de montar uma loja de lingerie é recomendado procurar um local movimentado e acessível. Ventilação e boa iluminação não podem ficar de fora.

A loja de moda íntima deve oferecer uma grande variedade de produtos, pois as mulheres buscam produtos que ofereçam conforto e sensualidade e atualmente até os homens buscam produtos sensuais. Além disso é necessário ficar atento a outras dicas. Confira as dicas do Sebrae:

Linhas Íntimas

Há cerca de 130 anos nascia a indústria têxtil no Ceará. Com o desenvolvimento da atividade econômica, surgiu um ambiente propício para o crescimento da cadeia produtiva da moda. Essa pujança e solidez proporcionaram uma ambiência positiva para que a indústria de confecções ganhasse espaço. Atualmente o Ceará é o quinto polo têxtil e de confecções no quesito produção e ainda é referência em moda autoral.

Publicado em 18 de dezembro de 2014, Fortaleza/CE

Expediente

Edição: Felipe Lima
Reportagem: Felipe Lima e Roberta Tavares
Infografia: Tiago Leite
Edição de vídeo: Fernanda Moura