Tribuna do Ceará - Fortaleza Azul
A Aço Cearense também reutiliza a água do banheiro e da cozinha. Os recursos hídricos que são gerados nestes setores são encaminhados para a estação de tratamento de efluentes que a empresa construiu e depois são utilizados (FOTO: Divulgação)

RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL

Empresas que investem em práticas sustentáveis

Sustentabilidade em pauta

A adoção de práticas sustentáveis pelas empresas têm sido foco das discussões sobre o futuro dos negócios e a exploração dos recursos naturais. Uma das perguntas centrais deste cenário é como tornar-se uma empresa ecologicamente correta e ao mesmo tempo produtivas. Ou seja, a sustentabilidade cria um dilema entre a questão ambiental e a busca pelo lucro.

Neste contexto, empresas que seguem uma linha de produção ética e sustentável acabam ganhando aceitabilidade dos consumidores. Em meio à crise hídrica que assola o Brasil, empresas de diversos ramos com sede em Fortaleza e imediações investem em novas opções de uso racional e sustentável da água como forma de aderir à responsabilidade socioambiental. Práticas de reuso, aproveitamento de água da chuva e campanhas internas de conscientização estão entre as estratégias usadas pelas empresas locais para evitar o desperdício.

Negócios sustentáveis

A sustentabilidade pode ser mais do que uma estratégia para atrair clientes. A empresa que investe no uso responsável dos recursos da natureza evita multas, diminui custos e ainda cria um público de consumidores mais satisfeitos. Diminuir os danos na exploração da natureza e retribuir à sociedade é mais do que uma responsabilidade social ou uma obrigação legal, é também uma forma de ter uma imagem positiva no mercado e construir uma marca lucrativa.

A Aço Cearense também reutiliza a água do banheiro e da cozinha. Os recursos hídricos que são gerados nestes setores são encaminhados para a estação de tratamento de efluentes que a empresa construiu e depois são utilizados (FOTO: Divulgação)

A Aço Cearense também reutiliza a água do banheiro e da cozinha. Os recursos hídricos que são gerados nestes setores são encaminhados para a estação de tratamento de efluentes que a empresa construiu e depois são utilizados (FOTO: Divulgação)

Pensando nisto, para sanar a carência de abastecimento na Região Metropolitana de Fortaleza e construir um negócio sustentável, a indústria metal-mecânica Aço Cearense construiu um reservatório artificial escavado em sua propriedade para armazenar água da chuva. Essa água passa pela estação de tratamento e sai de lá pronta para o consumo. A captação é drenada de suas cobertas para ser utilizada durante todo o ano na empresa. Os litros recolhidos passam por tratamento e posteriormente são utilizados nas mais diversas necessidades da empresa.

O gerente de sustentabilidade da Aço Cearense, Carlos Yves Cavalcanti, explica que o grupo conta com a outorga e licença ambiental da Secretaria de Recursos Hídricos do Ceará (Cogerh) para realizar o processo. Para armazenar a água, o sistema de calhas da cobertura da empresa manda quase toda a água da chuva para o reservatório, que tem nove metros de profundidade. São recolhidos em sua capacidade máxima cerca de 100 milhões de litros de água e utilizados aproximadamente 40 milhões destes.

Yves também relata que, nos períodos de seca dos últimos anos, a capacidade do taque da empresa chegou a 30%, mas nunca chegou a faltar água. “A utilização da água da chuva tem um impacto direto na nossa economia, pois sem o nosso sistema teríamos que comprar água de caminhões-pipa. O custo mensal disso seria de mais de R$ 1,5 milhão por mês”, explica o dirigente.

Além do benefício próprio, água coletada, quando atinge o nível máximo do tanque, acaba “sangrando” e sendo levada para os reservatórios naturais que estão localizados na região da indústria e ainda é distribuída para a comunidade indígena Vila dos Cacos, que fica próxima à Aço Cearense. “Quando conseguimos coletar água suficiente para encher o tanque, a água em excesso vai para os pequenos rios que ficam aqui perto, como o açude Genipabu. Essa mesma água também é coletada para índios que vivem perto da empresa. Nosso investimento vai além do benefício próprio”, comemora o gerente de sustentabilidade.

Para armazenar a água, o sistema de calhas da cobertura da empresa manda quase toda a água da chuva para o reservatório que tem nove metros de profundidade. São recolhidos em sua capacidade máxima cerca de 100 milhões de litros de água e utilizados aproximadamente 40 milhões destes (FOTO: Divulgação)

Para armazenar a água, o sistema de calhas da cobertura da empresa manda quase toda a água da chuva para o reservatório, que tem nove metros de profundidade. São recolhidos em sua capacidade máxima cerca de 100 milhões de litros de água e utilizados aproximadamente 40 milhões destes (FOTO: Divulgação)

A Aço Cearense também reutiliza a água do banheiro e da cozinha. Os recursos hídricos que são gerados nestes setores são encaminhados para a estação de tratamento de efluentes que a empresa construiu e depois são utilizados. “Se a gente mandasse tratar a água para reutilizar, teríamos um gasto de cerca de R$ 700 mil por mês com a logística e demais serviços. Hoje isso tudo nos custa apenas R$ 500 mil. Além disso, os resíduos que não podem ser utilizados não causam tanto impacto na natureza, pois tudo passa por uma equipe de profissionais que trabalha na nossa indústria para descartar os resíduos da forma correta”.

Outro exemplo de ação sustentável da iniciativa privada em Fortaleza acontece no Shopping Iguatemi. O programa de práticas conscientes da empresa trabalha em duas frentes simultaneamente.

As estações de tratamento de água e de esgoto não são as únicas contribuições do shopping à preservação do meio ambiente. Por mês, 45 toneladas de resíduos sólidos são direcionadas à Estação de Pré-Reciclagem (EPR) Em vez de jogados no lixo, itens como papelão, papel branco, plástico e latas são encaminhados para empresas especializadas que tratam o material, transformando-o novamente em matéria-prima. Com essa iniciativa, o Iguatemi evita que esse lixo seja despejado no meio ambiente, reduz os custos de coleta, gera empregos diretos e indiretos e diminui o acúmulo desses resíduos em aterros sanitários.

Especial---Fortaleza-Azul---Dicas-Sustentáveis

Sustentabilidade é um bom negócio

Marcas que investem e reconhecem a importância da sustentabilidade e da preservação estão conquistando cada vez mais espaço no mercado. Neste âmbito, a Federação das Indústrias do Ceará (Fiec) vem buscando, por meio do Prêmio Fiec por Desempenho Ambiental, incentivar a criação de práticas que promovam a constituição de um sistema sustentável, principalmente do ponto de vista das mudanças de atitude.

Considerando um objetivo mais abrangente, a adoção de políticas sustentáveis representa avanços concretos na implantação de uma nova economia, provocando ações estruturais que resultariam em alterações relevantes nos perfis da produção, do consumo e da distribuição de renda. “As empresas locais já vêm se preocupando com a questão do uso racional da água. O Prêmio Fiec por Desempenho Ambiental chegou apenas para fomentar esta ideia e outras questões ligadas ao meio ambiente. Hoje, Fortaleza, na verdade todo o Ceará, já avançou muito em políticas sustentáveis nas empresas”, comenta o coordenador do Núcleo de Meio Ambiente da Fiec, o ambientalista Antônio Renato Lima Aragão.

O reconhecimento promovido pela Federação tem como objetivo premiar empresas industriais filiadas aos Sindicatos que integram o Sistema Fiec, as quais se tenham destacado na conservação do meio ambiente e implementado atividades que resultem na melhoria da qualidade ambiental, de acordo com os princípios do desenvolvimento sustentável e de modo a servirem de modelo para outras indústrias.

O Prêmio Fiec divide-se em quatro modalidades: produção mais limpa, educação ambiental, integração com a sociedade e reuso de água. Esta última tem por objetivo conhecer, difundir e homenagear empresas que utilizam boas práticas na promoção do uso eficiente de água, com medidas efetivas na redução do consumo e do desperdício de água, gerando benefícios ambientais, econômicos e sociais e aumentando a competitividade do setor, bem como dar ampla publicidade às ações realizadas pela indústria cearense na construção do desenvolvimento sustentável.

Renato Aragão lembra que a questão da sustentabilidade no uso da água tem sido um dos principais avanços provocados pelas ações da Fiec junto às empresas. “Depois do prêmio e principalmente por conta da escassez de água, as empresas de Fortaleza e região têm se preocupado cada vez mais com o uso racional dos recursos hídricos. E olha que para uma crise forte chegar até a capital ainda vai ser difícil devido à estrutura de rios intermitentes”.

Entre as empresas que já foram agraciadas com o Prêmio Fiec por Desempenho Ambiental por uso racional da água, está a Fábrica Fortaleza, maior indústria de biscoitos e massas alimentícias da América Latina. “A Política Ambiental da M.Dias Branco [grupo a que pertence a Fábrica Fortaleza] está baseada no comprometimento com o desenvolvimento sustentável em todas as suas áreas de atuação e na prevenção da poluição, por meio do uso racional dos recursos, motivando os colaboradores e a comunidade, investindo em melhorias e atendendo aos dispositivos legais’, explica a gerente de Meio Ambiente da M.Dias Branco, Aricelma Ribeiro.

Dentre as ações de sustentabilidade e gestão ambiental que envolvem a água desenvolvidas na sede da indústria de biscoitos e massas, que fica na divisa entre a capital cearense e a cidade de Aquiraz, está o sistema de captação, armazenamento e tratamento de água de chuva para uso nos processos de fabricação. O sistema de captação de água de chuva já existe na empresa há mais de 20 anos “A unidade possui o sistema de coleta seletiva implantada, fazendo com que os resíduos sólidos gerados possam ser enviados para o processo de reciclagem. Os colaboradores são sensibilizados a atitudes de respeito ao meio ambiente. Existe ainda todo o cuidado com a frota de veículos, evitando a emissão de fumaça preta para a atmosfera, assim como os equipamentos que consomem combustíveis fósseis. Está em estudo o reuso do efluente tratado para irrigação das áreas verdes e jardins da Fábrica Fortaleza”, comenta a gerente da empresa.