Imobiliárias fazem concessões para alugar imóveis desocupados

Para ocupar imóvel, imobiliárias já oferecem 3 meses grátis (Foto: Lyvia Rocha/Tribuna do Ceará)

Morar “de graça” durante três meses, fechar contrato sem fiador e não precisar antecipar de um a três meses de aluguel como “caução” antes de se instalar em uma casa nova parece mentira para muita gente acostumada com o formato antigo de locação de imóveis. Na crise, proprietários e imobiliárias de Fortaleza têm feito de tudo para agradar o cliente e reduzir o impacto no próprio bolso.

"Em 2011, quando entrei (no mercado imobiliário), havia muito lançamento, o proprietário escolhia quem ele queria no empreendimento dele, era muito fácil captar imóveis e alugar. A gente buscava proprietário. O negócio era conseguir o imóvel para alugar, porque cliente tinha muito", relembra o gerente de locação da imobiliária A Predial, Marlos Nobre.

No final da última década e começo da atual, o mercado de imóveis em Fortaleza viveu tempos de ouro. Imóveis eram um investimento com ótimo custo-benefício, a taxa de retorno para quem decidia alugar era melhor que a caderneta de poupança e o Governo investia numa política de acesso ao financiamento.

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Fonte: Tácito Almeida Imóveis

Atualmente, a A Predial oferece até três meses de aluguel de graça em troca de um contrato fechado. A fórmula para convencer o proprietário é simples: ainda que ele não lucre com o aluguel no período, ele elimina os custos de condomínio e limpeza, por exemplo.

De uns três anos para cá, pontua Marlos, a roda começou a girar no sentido contrário. Grandes construtoras e incorporadoras frearam os investimentos e o cliente também acendeu o alerta. "Foi uma coisa muito rápida. O mercado começou a ficar com muita oferta de imóvel. Hoje a gente batalha para conseguir um locatário", afirma Marlos.

Bom para o cliente

Há cinco meses, o estudante de Direito Victor Alves Magalhães, de 22 anos, e seus pais saíram do Bairro de Fátima para morar em um apartamento mais novo em um bairro vizinho, o Joaquim Távora. Não precisar enfrentar a burocracia de conseguir um fiador e de ter dinheiro para o caução foram fundamentais na escolha.

"Para quem é de classe média, é difícil arcar com um caução, que chega até a três meses do valor do aluguel, em meio aos custos com mudanças e outras coisas. No caso do fiador, que é geralmente alguém da família, você acaba correndo o risco de envolver a pessoa em um problema que não gostaria", pontua Victor.

Preço médio do aluguel de imóveis em 15 cidades do brasil / Índice fipezap*

* O Índice FipeZap de Locação, desenvolvido em conjunto pela Fipe e pelo portal Zap, acompanha o preço médio do m² de apartamentos prontos em 15 cidades brasileiras, com base em anúncios da internet.

entre janeiro e junho, o preço médio do aluguel em fortaleza teve o maior recuo entre as cidades do levantamento, -1,33%

“Sem caução e sem fiador” tem sido o slogan de vendas da Espíndola Imobiliária. Há três décadas no mercado, a empresa decidiu assumir o risco da transação com o cliente para não ficar com imóveis parados e proprietários insatisfeitos.

"Vínhamos aumentando o preço do aluguel, mas agora está o contrário. Noto que o aluguel não tem mais subido, mas conseguimos manter os valores que temos. Muita coisa está mudando. As pessoas estão passando menos tempo nos imóveis e migrando de mais caros para mais baratos", ressalta o gestor da Espíndola, Cristiano Espíndola.

Bairros mais procurados para aluguel em Fortaleza

Fonte: Índice FipeZap
Residencial/Locação - R$/m² em junho/2017

A tendência de migração para imóveis mais baratos preocupa quem investiu em imóveis de luxo. É o caso da família da universitária Elisa Zanazzo, de 19 anos.

Há um ano a família tenta alugar um triplex de luxo no bairro José de Alencar. São 253 metros quadrados de área construída, três suítes, uma suíte master com closet e banheira de hidromassagem, três vagas de garagem e área social. Para usufruir de todo esse conforto, o morador precisa despender pelo menos R$ 3 mil por mês, valor com desconto da média anterior de aluguel.

O triplex já foi construído com o intuito de ser alugado, mas, como não tem mobília, não se encaixa em novos formatos de aluguel de temporada, por exemplo. Enquanto o locatário não chega, a família arca com os custos de manutenção do investimento, cerca de R$ 100 por mês só com a limpeza.

O jeito é ir se adaptando ao mercado e usando a criatividade.

Aluguel de imóveis em Fortaleza

Fonte: Zap - Preço por m² em junho/2017

Aluguel por temporada

Quem o diga o corretor financeiro Paulo Abílio Silva de Sousa, de 28 anos. Esperto, ele percebeu que seria uma boa economia morar por uma temporada longe da casa dos pais, mas dentro da mesma cidade, utilizando o aplicativo Airbnb.

No modelo tradicional, Abílio pagaria cerca de R$ 1.500 de aluguel e custos de moradia (luz, água, condomínio) por um apartamento vazio, segundo pesquisa própria. Pelo Airbnb, ele paga um valor mais baixo por um mês de estadia em um apartamento mobiliado e com demais custos inclusos.

Abílio passou então a dividir um apartamento com o servidor público Alan Raniery, de 39 anos - proprietário do imóvel -, e outros inquilinos que chegam pelo Airbnb. Raniery morava sozinho e percebeu que os dois quartos vazios em casa podem render uma grana extra e uma troca de cultura com hóspedes de diferentes lugares.

Num cenário de crise, construtoras montam planos para convencer clientes

Construtoras não esperam mais pelo clientes, por isso apostam nas prospecção (Foto: Adriano Paiva/Tribuna do Ceará)

Se convencer o cliente a contratar um aluguel requer cada vez mais estratégia dos locatários, imagina, então, prová-lo de que apostar em um financiamento e comprar um imóvel continua sendo um bom negócio?

"Duas coisas são fundamentais para ao mercado imobiliário: uma é crédito, que hoje é muito mais restritivo. E a outra é confiança. São os dois aspectos principais que fazem com que hoje o mercado imobiliário esteja frio", afirma o proprietário de imobiliária Tácito Almeida.

No mercado desde 2009, Tácito atua principalmente nos bairros da periferia de Fortaleza que se fortaleceram com o boom imobiliário do final da década passada, como a Maraponga. Ele se recorda da facilidade das vendas quando entrou no mercado. "Tinha lançamento que você fazia e vendia em um mês. Na Maraponga, teve lançamento de prédio que, de 232 apartamentos, foram vendidos 220 em um mês", destaca.

No entanto, o cenário atual é outro. "Hoje é a melhor época para comprar e a pior para vender", ressalta. As facilidades para que o cliente efetue a compra vão desde o aumento no poder de barganha ao recebimento de carro como entrada.

As avaliações de crédito que, antes, aceitavam um perfil de cliente que conseguia comprovar renda através do pró-labore, por exemplo; hoje estão mais exigentes. Toda a comprovação de renda tem de ser feita por documentos oficiais, como carteira de trabalho ou declaração de Imposto de Renda.

Atualmente o segmento de vendas menos afetado é o de imóveis na Região Metropolitana da cidade, cujos preços são mais baixos. No entanto, é uma transação que lida com um número maior de profissionais sem renda formal, pontua Tácito. Como fazer o cliente confiar no investimento quando o próprio mercado impõe barreiras para a confiança no comprador?

Compra de imóveis em Fortaleza

Fonte: Zap - Preço por m² em junho/2017

Investimento na hora certa

A facilidade na comprovação de renda foi um dos fatores que fez com que a jornalista Amanda Nogueira, de 31 anos, comprasse o primeiro imóvel aos 25 anos. Incentivada pela mãe, Rita de Cácia, e pelas facilidades do Governo Federal, Amanda comprou o apartamento em 2011, quando nem fazia ideia de como seria morar longe da casa dos pais.

"Eu tive muita sorte. Foi um período em que houve um incremento com o PAC 2 (Programa de Aceleração do Crescimento), em 2011. Na época, a presidenta Dilma Rousseff ampliou o Minha Casa Minha Vida para pessoas solteiras e sem imóveis no nome delas. Há um determinado perfil do programa para renda de R$ 1.500 a R$ 3 mil. Não precisei usar FGTS nem outro recurso guardado. Com a construtora, eu pude dividir a entrada em parcelas por dois anos. Com a Caixa (Econômica Federal) só paguei os juros de manutenção. Só comecei a pagar mesmo quando recebi", afirma a jornalista. Porém, até mudar-se de fato, muita coisa aconteceu.

A previsão era receber o imóvel em 2014, mas, em 2013, a jovem decidiu morar de aluguel com duas amigas em um bairro próximo ao local de trabalho. Os custos com a locação eram semelhantes ao do combustível nos deslocamentos diários entre Messejana e Centro.

A entrega do apartamento atrasou. Aprovada no mestrado, Amanda decidiu voltar a morar com o pais para conseguir destinar o dinheiro da bolsa de estudos para as atividades acadêmicas. Só em março de 2015 ela finalmente recebeu o próprio apartamento e ressignificou a relação com o bairro onde morava.

"Hoje o aluguel não compensaria mais. Eu pago pela minha casa. É um valor não tão baixo, mas hoje eu sei que pago pelo que é meu", ressalta Amanda.

Preço de Venda do m² de imóveis em 20 cidades brasileiras / Índice FipeZap*

* O Índice FipeZap de Locação, desenvolvido em conjunto pela Fipe e pelo portal Zap, acompanha o preço médio do m² de apartamentos prontos em 20 cidades brasileiras, com base em anúncios da internet.

FORTALEZA DESPONTA COMO A CIDADE MAIS CARA PARA SE VIVER NO NORDESTE. PARA SE TORNAR DONO DE UM IMÓVEL COM 50M² NA “CAPITAL ALENCARINA” É PRECISO ARCAR COM, EM MÉDIA, R$ 304 MIL.

Saber que se pode comprar

Amanda só se convenceu de que seria importante investir na casa própria porque a mãe a incentivava. Foi ela quem a ajudou com as informações de acesso ao crédito e documentação necessária.

"A história se repete. Muitas pessoas não têm conhecimento de que elas podem comprar um imóvel, já assumem que é caro, que é difícil, que não têm dinheiro da entrada, que a renda é muito baixa... Apesar de existir um programa como o Minha Casa Minha Vida que hoje é a maior iniciativa de acesso à casa própria, essa informação muitas vezes não chega até as pessoas", pontua o gestor comercial da MRV, Carlos Davydson.

A MRV é a maior construtora do Brasil e foca em imóveis compactos, com valor mais acessível à população de baixa renda. "A gente observa que a maior fatia de mercado hoje é o público de classe C e D que, por muito tempo, não teve condições de adquirir um imóvel, mas, com a ajuda do Governo, passou a ter acesso", afirma o gestor.

Bairros mais procurados para comprar em Fortaleza

Fonte: Índice FipeZap
Residencial/Vendas - R$/m² em junho/2017

"A gente continua vendendo muito bem"

Com esforço de chegar cada vez mais até o cliente, ao invés de esperar que o cliente chegue até a empresa, a MRV não adota o discurso de crise nas vendas. Davydson ressalta que o desejo do imóvel já é natural do ser humano e se associa ao desejo de estabilidade. O desafio é, então, mostrar ao cliente as possibilidades.

"Apesar da crise financeira e do recuo de vários setores da economia, no Minha Casa Minha Vida as mudanças foram poucas. O crédito continua acessível nessa faixa, subiu em algumas faixas cerca de 0,5% ao ano. Em outras faixas de renda, diminuiu. As condições continuam parecidas, mas, como as pessoas não têm essa informação, veem o mercado mais frio, vendedo menos, já associam que a dificuldade, a limitação de crédito no banco, foi para o mercado como um todo", frisa.

Os efeitos da crise no mercado fizeram com que as pessoas perdessem o poder de renda. Então, a estratégia de acesso ao imóvel passa por reduzir ao máximo o montante de entrada do imóvel. O objetivo é garantir o contrato com o menor valor de entrada e parcelamentos.

"Temos uma equipe que trabalha muito bem isso, monta planos de pagamentos para caber dentro da estrutura do cliente, exercem papel até de consultor financeiro. Ele pode perder o emprego e a gente tem uma estrutura para negociar essa dívida", ressalta Davydson.

Um fato apontado pelo gestor não pode ser desprezado: "O setor de crédito imobiliário no Brasil é muito inteligente".

Construtoras lançam prêmios tentadores para seduzir compradores

Construtoras oferecem até cinco anos de condomínio grátis para fechar negócio (Foto: Adriano Paiva/Tribuna do Ceará)

Se o desejo pelo imóvel próprio é freado pelo pragmatismo da movimentação financeira, por que não recorrer aos sonhos ou desejos de qualidade de vida dos clientes? É assim que as imobiliárias com foco na elite financeira têm tentado reforçar as vendas.

O mercado de vendas para o público acima da classe B foi o mais impactado pela falta de confiança na economia. Quem migrava para imóveis maiores ou comprava por investimentos que superavam a cifra dos milhões tem tido mais cautela. Dessa forma, os “agrados” do mercado aumentam para seduzir os investidores.

Que tal uma festa de casamento como prêmio na compra de um imóvel ou cinco anos de condomínio grátis para você fazer aquela viagem dos sonhos?

"Nosso intuito é agregar valor ao nosso produto. No momento, todo mundo fala sobre desconto, percentuais financeiros... A gente fala em vantagens estendíveis, agregar ao que ele (cliente) compra", afirma a superintendente comercial da BSPAR, Renata Santos.

A mais recente promoção dá três anos de acesso ao maior parque aquático do Brasil como bônus para quem adquire apartamento de luxo no Porto das Dunas, onde fica a atração. "Nada mais justo que agregar o Beach Park como área de lazer", ressalta Renata.

Apesar da maior carta de imóveis para um público com poder aquisitivo elevado, a BSPAR não foca a negociação somente nos super prêmios. "A exigência dos clientes independe da classe. Estamos cada vez mais com acesso a informação e isso nos faz ser capazes de discutir e reavaliar investimentos. O importante é que a exigência eleva nosso padrão, produto e atendimento", destaca a superintendente.

Impulso é coisa do passado

O mercado imobiliário vive um novo cenário. Antes, a demanda de clientes era maior, os empreendimentos fervilhavam na cidade e ganhavam bairros nunca antes explorados pelos arranha-céus. O novo comprador é mais analista e frio, apontam os especialistas. O critério de exigência se modificou.

"No meio do auge, do boom imobiliário, com as pessoas comprando muito apartamento entre 2010 e 2014, era uma compra muito por impulso, visando o investimento. Hoje você tem uma venda mais qualitativa, para menos clientes. Não é tão boa pra gente porque é mais demorada, mas é mais saudável. É um cliente que pesquisa, que conhece mais a compra", aponta a superintendente da BSPAR.

Quem compra ganha com o esforço das construtoras em entregar no prazo, em garantir uma documentação sem brechas e em mostrar que é uma empresa séria.

Cada vez mais a experiência com o produto à venda é modificada, o que também se reflete no mercado de imóveis. "Não adianta só mostrar o folder. Temos apartamento decorado, levamos o cliente para o apartamento, desenvolvemos aplicativos em 3D com o qual ele consegue visualizar o apartamento onde vai morar...", frisa Renata.

Namoro com clientela

O presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Ceará (Sinduscon-CE), André Montenegro, ressalta que o consumidor está sendo "muito cortejado" e que esse seria o momento ideal para a compra de imóveis. Para ele, o mercado brasileiro sofreu nos últimos dois anos, mas prepara campanha no segundo semestre de 2017 para mostrar que "o imóvel é uma boa aplicação".

O proprietário de imobiliária Tácito Almeida é menos otimista. Para ele, enquanto não houver um horizonte de estabilidade política no País, capaz de fomentar o crédito, as pessoas continuarão com medo de se comprometerem com imóveis.

"Isso acontece em tudo, mas o imóvel, como é um compromisso mais longo, sofre mais o impacto porque você está falando de algo com que vai se comprometer durante muitos anos", diz Tácito.

Surge um novo mercado

Em cinco décadas de atuação no mercado imobiliário cearense, a Mota Machado já viu muitas mudanças. O diretor de operações da construtora, Emanuel Capistrano, aposta no surgimento de um novo mercado a partir de 2018, formado por clientes mais conscientes e sem a euforia do final da década passada.

"O mercado muda constantemente. A Mota Machado está fazendo 50 anos, já atravessamos altos e baixos", ressalta Emanuel. Apesar da crise econômica atual, ele pontua que já é possível perceber nova procura por imóveis. O novo mercado que começa a se construir, afirma Emanuel, terá um pouco mais de confiança, principalmente pela redução de clientes com perfil de especulação.

"O cliente que procura a compra agora são bem conscientes, mais esclarecidos do que no passado. Tinha gente que vinha para ganhar dinheiro, falsos investidores, e isso prejudicou porque esses imóveis acabam voltando para o mercado, eles não queriam o imóvel para morar, para construir patrimônio, para repassar aos filhos", destaca o diretor.

Outra mudança que deve marcar a nova relação entre construtoras e compradores é a infraestrutura oferecida. Nos últimos anos, houve uma série de transformações na realidade dos condomínios, com benefícios desde piscina a áreas para jogos pouco comuns.

"Os empreendimentos hoje são muito completos em termos de infraestrutura, são até mais que um clube. Isso às vezes empolga na hora da compra, mas, com o tempo, eles (clientes) veem que não têm necessidade de tanto equipamento", ressalta. Para o futuro, Emanuel acredita que haverá menos equipamentos, o que deve se converter em menor custo de condomínio para o comprador, por exemplo.

O desafio do mercado se estabelece, cada vez mais, a partir da capacidade de se reinventar e saber dialogar com os clientes e suas necessidades.

Entrevista

“Fundo imobiliário é melhor
 forma de investir em imóveis”, ensina analista

Em entrevista, Gustavo Farias analisa se hoje é melhor comprar ou alugar

Gustavo Farias ministra palestras sobre como driblar a crise (Foto: Adriano Paiva/Tribuna do Ceará)

O Tribuna do Ceará conversou com Gustavo Farias, gestor de Fundos certificado CGA/Anbima, com experiência de oito anos na área de investimentos. Ele ressalta que a melhor aposta no mercado imobiliário atualmente são os chamados fundos imobiliários. O consultor também faz alertas ao hábito do brasileiro de achar que os investimentos em imóveis físicos são seguros e ao apego “por orgulho” ao lucro imediato.

Gustavo Farias também trabalhou seis anos como operador, consultor e professor na área pela XP Investimentos, a maior corretora do Brasil. Em Fortaleza, ele ministra palestras sobre como driblar a crise.

Imóveis ainda são um bom investimento? Há uma nova forma para acreditar neles?

Não é uma forma tão nova, mas é uma forma que pouca gente conhece. Ela é incentivada porque é para quem foca em aluguel. Não tem nada a ver com a compra de imóveis tradicional. Nesse caso, você compra imóveis via Bolsa de Valores, passa a ser acionista de um imóvel. Geralmente são imóveis muito grandes, como prédios gigantescos em São Paulo ou uma universidade inteira ou grandes parques industriais… E você fica recebendo o aluguel mensal desses imóveis.

Por exemplo, todas as agências do Banco do Brasil fazem parte de um fundo imobiliário, então o Banco do Brasil paga mensalmente um aluguel para os acionistas dessas agências. Quando você vai comprar um imóvel por conta própria, você tem que pagar o corretor, o ITBI (Imposto de Transmissão de Bens Imóveis), não consegue vender rápido, precisa de um financiamento muitas vezes. Já nesse formato, não. Você consegue comprar pequenos valores, por exemplo, mil reais; consegue comprar e vender rápido e tem acesso a aluguéis muito mais altos que os aluguéis com que a gente está acostumado em Fortaleza.

Por exemplo, em Fortaleza, se você comprar um imóvel por R$ 600 mil, você vai alugá-lo por cerca de R$ 2 mil. Se você comprar R$ 600 mil em fundo imobiliário, você vai receber um aluguel de R$ 5 mil. É bem mais do que um aluguel de um imóvel normal. Há outro fator: como eles são incentivados, os aluguéis em fundos imobiliários não pagam Imposto de Renda. Para quem gosta de imóveis, a melhor forma de se investir em imóveis hoje é via fundos imobiliários.

O grande “que” do fundo imobiliário é que ele tem um foco no aluguel, não paga Imposto de Renda no aluguel e você tem uma facilidade, uma liquidez muito maior que nos outros imóveis.

Para quem quer especular em imóvel, é outra história. Nesse caso, vou concordar que não está um bom momento. Se você está procurando comprar imóvel pra viver de renda é bem melhor você investir no fundo imobiliário do que em mercado imobiliário físico agora. A gente tem alguns clientes que venderam imóvel e estão comprando fundo imobiliário.

“Se você está procurando comprar imóvel pra viver de renda é bem melhor você investir no fundo imobiliário do que em mercado imobiliário físico agora”.

Ao investir, as pessoas ainda estão muito apegadas ao modelo tradicional?

Está havendo cada vez uma procura para mudar os investimentos, porque os investimentos no banco não estão rendendo mais muita coisa, os investimentos em imóveis também não estão rendendo, então as pessoas estão procurando alternativas. O público cearense ainda tem a ideia de que “vou comprar aquele imóvel porque é mais seguro”, “vou deixar meu dinheiro no banco porque é mais seguro”. Ele se protege, inclusive contra ganhar dinheiro, se protege de tudo.

Quem comprou imóveis na época do boom imobiliário em Fortaleza agora sofre para alugá-los ou vendê-los. Como driblar esse prejuízo?

Cada caso é um caso. Tivemos um cliente que comprou um imóvel e a construtora disse que valia R$ 800 mil. Ele colocou pra vender por R$ 800 mil, não conseguiu vender. Colocou por R$ 750 mil, não conseguiu. Muitas vezes aparece um comprador e a pessoa paga um pouco abaixo do que a outra está querendo, e ela não vende por orgulho.

A pessoa precisa entender que ela acha que está perdendo R$ 30 mil, R$ 40 mil naquele imóvel que ela está vendendo, mas ela tem que lembrar que um imóvel de R$ 500 mil, R$ 600 mil, se ela passar quatro meses com ele parado e somar o condomínio e a aplicação daquele dinheiro, já não valeu a pena ela não ter vendido. Muitas vezes a gente tem de considerar que é melhor vender um pouco mais barato e ficar com essa liquidez, porque até mesmo na compra de outro imóvel você pode ter uma oportunidade, se tiver dinheiro na mão, de comprar muito mais barato.

Às vezes a pessoa comprou muito mal mesmo, o prejuízo vai ser grande e é melhor ela esperar, mas na maioria dos casos o que a gente vê é ganância da pessoas, é orgulho. Não aceita que comprou pelos R$ 500 mil e está vendendo pelos mesmos R$ 500 mil.

Isso é resultado de uma falta de educação financeira?

Há uma falta de educação financeira muito grande. As pessoas não estão acostumadas a trabalhar com investimento de risco. Durante o boom (do mercado imobiliário), todo mundo achava que imóvel não tinha risco nenhum, mas tem, principalmente terreno, que tem mais risco ainda. Havia essa concepção de que não havia risco. Então, quando se começa a lidar com o risco que está aparecendo, ela não sabe o que fazer, porque não teve educação financeira.

De que garantias o consumidor pode se cercar antes de entrar em um financiamento imobiliário para que não se torne um prejuízo?

Se você realmente está querendo comprar uma casa ou um apartamento, a dica é conseguir juntar a maior parcela à vista possível. Você entra em um financiamento e, muitas vezes, é um turbilhão sem fim porque, em um financiamento de 30 anos, nos 10 primeiros anos, você não amortizou nada da dívida. Passou dez anos pagando uma dívida de R$ 250 mil e a sua dívida continua R$ 250 mil, porque você vai amortizar mesmo mais para o final.

A dica é financiar o menor valor possível. “Ah, mas Gustavo o imóvel que eu quero é muito mais caro”. Então compra um imóvel menor, mais barato agora, quita ele logo e depois troca por um maior. Essa seria a melhor maneira de você conseguir uma casa própria, nunca se deixar levar pelo fato de que a parcela do financiamento cabe no seu orçamento. Às vezes cabe até mais ou menos, mas se houver qualquer emergência você se afunda, cai num buraco e não sabe o que fazer.

“Compra um imóvel menor, mais barato agora, quita ele logo e depois troca por um maior. Essa seria a melhor maneira de você conseguir uma casa própria”.

Como decidir entre aluguel ou compra de um imóvel?

Como hoje nós temos uma população muito ativa, não recomendo a compra de imóveis. Não recomendo a compra de imóveis quase nunca, na verdade. Você compra e muitas vezes, depois de pouco tempo, você quer se mudar, não é nem uma questão monetária, é uma questão dos tempos modernos. É muito raro uma pessoa que compre um imóvel fique ali pelos próximos 10 anos, seja porque trocou de cidade, seja por mudança de localização dentro da mesma cidade, local de trabalho. Alugar um imóvel vai lhe proporcionar uma flexibilidade muito boa de encontrar outro maior, por exemplo.

Quando a pessoa é nova, não aconselho comprar. Aconselho para quando a vida já tem um rumo mais definido, a pessoa já está casada há 10 anos, tem seus filhos.