Sertão cearense vive um de seus piores dramas

Pelo terceiro ano seguido o inverno não veio. O chão que já estava seco, rachou e o sertão cearense vive um de seus piores dramas: a perda da safra, a morte de animais com fome e sede e a crise de abastecimento de água.

O racionamento é realidade para mais de duas dezenas de cidades de Norte a Sul do Ceará. Mais de um milhão de pessoas dependem de carros-pipa para ter água na cisterna, no balde ou no pote. Aos poucos, os reservatórios do estado foram secando no Ceará, dos 149 açudes monitorados, 105 estão com menos de 30% da sua capacidade.

O açude Castanhão é um importante mecanismo para o controle das secas que atingem o vale do Jaguaribe, uma reserva hídrica estratégica para o Ceará. Ele está com 33,79% de sua capacidade, mas é graças a ele que Fortaleza ainda não vive uma crise de abastecimento de água.

Açude Castanhão

O açude Castanhão é um importante mecanismo para o controle das secas que atingem o vale do Jaguaribe, uma reserva hídrica estratégica para o Ceará.

Fomos até Tauá, no sertão dos Inhamuns, uma das regiões mais secas do Estado: castigada historicamente pelo baixo índice de chuvas e pela baixa capilaridade hídrica.

No assentamento Angicos, há 18 quilômetros da sede, fomos recebidos pelo agricultor Francisco Alves Pedrosa. Ele nos contou que neste ano, perdeu praticamente toda plantação.

Da plantação de milho e feijão de seu Francisco, restaram apenas espigas secas que não brotaram e o feijão que não vingou, deixando a paisagem do roçado com um tom cinza, triste. “Para onde a gente olha está tudo seco. Primeiro vem a angústia, você pega seu suor e jogar na terra. Tem hora que você pensa em abandonar”, define.

 

O efeito de três anos seguidos de seca foi devastador para a lavoura de pequenos agricultores como seu Francisco. Ele teme ter que largar a agricultura se a situação não melhorar.

Chico da Prima, como é popularmente conhecido no assentamento Angicos, apela aos governantes para que não abandonem os pequenos agricultores. “Queremos conscientizar as autoridades para que encontrem um modo de conviver com a seca. Essa situação da agricultura familiar é triste, tem que ter uma saída, se nós deixarmos de produzir no campo a cidade vai sofrer”, alerta.

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Convivência com a seca

Em nossas andanças pelo Ceará fomos até o Sertão Central, para conhecer de perto uma experiência bem-sucedida, que serve de exemplo para a convivência com a seca. Em um cenário onde o verde predomina, também serve de inspiração para mostrar que a união e o trabalho da comunidade foi capaz de transformar o Vale do Forquilha.

O projeto Pingo D’água foi criado em 1998, iniciativa que nasceu da união da universidade estadual, do governo estadual e de organismos internacionais. Graças ao trabalho conjunto, hoje a comunidade vive uma realidade diferente.

A iniciativa consiste em cavar poços de baixa profundidade, usando um equipamento simples, operado manualmente e com investimento que custa entre R$ 3 mil e R$ 6 mil para a perfuração dos poços e para o projeto de irrigação.

Para o presidente da Associação dos Produtores do Pingo D’água, Deuzimar Oliveira, foi fundamental acreditar nas pessoas que na época disseram que existia água no solo de Quixeramobim. “A política do governo para esse período de seca é imediatamente perfurar poços. Está comprovado que se apostar no pequeno agricultor, ele é capaz de realizar”, explica.

Os resultados foram surpreendentes para os moradores do local, nas áreas de aluvião, em torno do leito de rios ou riachos que ficam secos durante grande parte do ano, é possível encontrar água boa para o consumo.

O desafio inicial do Pingo D’Água era combater crença de que no sertão não existia água boa para o consumo. Hoje a iniciativa é conhecida em outros estados e motiva prefeituras e governos de outros estados a investir em soluções desse tipo.

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Água que transforma e gera riqueza

Outra iniciativa de convivência com a seca no Ceará fica em Aracati, litoral leste do Estado. Os moradores da cidade de casarões antigos e praias conhecidas no mundo todo, também convivem com a falta de chuvas.

Que nos apresenta ao Projeto Mandala é o agricultor Francisco Carvalho, que há pouco mais de um ano, após um financiamento de R$ 12 mil e o incentivo de uma instituição de ensino, montou o sistema.

Esse sistema de irrigação circular facilita, de forma sustentável, a produção de diversas culturas de modo integrado e sem o uso de agrotóxicos. A Mandala tem baixo custo de instalação e precisa apenas pequena área para implantação. Seu manejo explora, de maneira eficiente, os recursos hídricos e naturais, proporcionando a preservação do meio ambiente.

Sistema de irrigação circular facilita, de forma sustentável, a produção de diversas culturas de modo integrado e sem o uso de agrotóxicos.

Sistema de irrigação circular facilita, de forma sustentável, a produção de diversas culturas de modo integrado e sem o uso de agrotóxicos.

Ele destaca que graças ao sistema, a família conseguiu a garantia de ter água o ano inteiro. “Isso aqui nos ajuda muito a sobreviver e manter a minha família. O que a gente precisa aqui é água para manter a Mandala por mais tempo”, explica.

Além de garantir o sustendo e a produção, a Mandala ainda é sinônimo de emprego em Aracati, Francisco emprega um vizinho que o ajuda na manutenção. “Através dessa mandala, já estou dando emprego para uma pessoa, que sem isso, certamente passaria dificuldade, pois na comunidade não existem empregos”, conta.

O agricultor José Santana reforça que projetos de agricultura familiar tem sido deixado de lado pelos governos atuais. “Eles tem visado muito os projetos de grandes exportadores deixando de lado os pequenos. A gente podia ter avançado mais”, conta.

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