Retratos de fé no Horto

Quando chegamos ao horto, em Juazeiro do Norte, era um fim de tarde de julho. O céu estava claro, com uma luz perfeita para fotografar e apreciar a grandeza de Juazeiro do Norte e a imponência da imagem do Padre Cícero, que por aqui, é considerado santo não importa quem tente teimar em dizer o contrário.

Nos chamou atenção os homens de meia idade empunhando câmeras amadoras e álbuns de fotografia. “Uma recordação do Padim Cícero?”, perguntou um deles. Eu disse: “não! Obrigado”. Fiquei observando o que eles faziam e ao mesmo tempo olhei com atenção o comportamento dos visitantes.

Enquanto os retratistas do Horto imploravam a atenção dos visitantes, eles estavam lá com todas as atenções voltadas para os seus celulares e selfies com o “santo” de Juazeiro ao fundo. Aquilo me chamou tanta atenção que comentei com os companheiros de viagem.

Me aproximei de um deles para tentar observar mais de perto como funciona a lógica daquele trabalho que na minha cabeça está com os dias contados.

Clientes fieis

Quem explica melhor os detalhes dessa profissão de fé é o motorista Antônio Feitosa. Há 10 anos ele trabalha de segunda à sábado no Horto, faz o caminho de casa até o trabalho de ônibus, carrega em uma pequena bolsa o álbum de fotos, seu portfólio e a máquina. Feitosa já morou em São Paulo e no Acre, mas a fé em Padre Cícero e a falta trabalho longe de casa o trouxeram de volta para Juazeiro.

Feitosa que tem semelhanças físicas com o personagem Seu Madruga, do seriado Chaves, diz que tenta sobreviver dessa atividade quando não está trabalhando como caminhoneiro ou taxista. Ele se arrepende de não ter estudado, mas diz não ter preocupação com o avanço da tecnologia. “Desde antes da estátua do Padim as pessoas vinham aqui na colina para fazer foto. A gente já tem experiência na hora de encaixar a imagem do Padre Cícero no ângulo certo”, diz.

Para Raimundo Gomes Soares, ou como é conhecido pelos colegas de fotografia, Lebre, trabalha no Horto desde 1984. Quando não tem trabalho na construção civil ele sobre a colina, toma a benção do Padre Cícero e vem fotografar. Ele conta que apesar dos avanços da tecnologia, tem clientes fieis que voltam ano após ano para fazer a mesma foto. “Algumas pessoas tiram foto com a gente só pra ajudar mesmo. Mas temos também alguns clientes cativos. Eles sempre nos procuram nas romarias”, conta.

Lebre revela ainda que desenvolveu uma técnica para fechar os negócios. “As pessoas menosprezam as máquinas mais simples, que não são profissionais. Fecho negócio e só depois tiro a máquina da bolsa para tirar a foto”, conta.

Além das fotografias que custam entre R$ 5 e R$ 7, os retratistas da colina do Horto, em Juazeiro do Norte, oferecem histórias sobre o Padre Cícero e testemunhos de fé, que nem o Google e muito menos um smartphone de última geração pode oferecer com tanta riqueza de detalhes aos devotos que visitam o local diariamente. Existe uma estimativa de visitação ao monumento de 2,5 milhões de pessoas por ano.

O monumento em homenagem ao Padre Cícero Romão Batista foi inaugurado em 1º de novembro de 1969, no alto da Serra do Catolé, popularmente conhecida com Colina do Horto. Em 2014 a estátua de 27 metros de altura, a terceira maior do mundo em concreto, esculpida por Armando Lacerda completará 45 anos de existência.

Em tempos de selfies e smartphones ultra conectados, os retratistas da colina do Horto resistem com sua tradição aos avanços da tecnologia e a mudança dos costumes dos mais jovens. Eles acreditam na fé do padre Cícero e regresso dos romeiros.


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