Os desafios para melhorar a saúde no Ceará

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O Ceará tem uma frota 1.076.010 motocicletas, 54,97% estão no interior do estado. Segundo os dados mais recentes do Detran, em dez anos, 5.183 motociclistas morreram e 53.389 ficaram feridos. Ano passado, por exemplo, 84,5% perderam a vida no interior do estado.

O agricultor Milton de Souza quebrou o fêmur em um acidente de moto em 2013, em Tauá, na região dos Inhamuns, todo o tratamento precisou ser feito em Fortaleza e depois de passar por duas cirurgias, ele ainda faz o percurso até a capital a cada dois meses. “a gente vai de manhã e volta de tarde, é viagem que complica, pesa muito na gente, maltrata muito”, conta.

Em fevereiro deste ano, a vida da família da dona de casa Luzanira Maria Ferreira mudou completamente após um acidente de moto com o marido. Hoje Luzanira cuida de Damião em casa, em Tauá, mas os primeiros três meses foram de angústia, longe de casa, por conta do tratamento na capital. Fortaleza fica há mais de cinco horas de viagem do município. “Era muito difícil porque só ia visitar uma vez, aí tinha que voltar. Os gastos eram muito porque tinha que pegar os ônibus”, explica.

O drama compartilhado por quem mora longe de um hospital de grande porte não exclusividade dos Inhamuns, um problema que atinge, inclusive, regiões com melhor cobertura de saúde. As estatísticas mostram que as motos são responsáveis pelo grande número de vítimas no interior, a lógica seria que hospitais regionais pudessem atender à demanda com toda a complexidade que ela exige, mas isso nem sempre isso acontece.

Em dezembro de 2013, o entregador Antônio Moreira da Silva fraturou a perna em um acidente de moto, no distrito de São José do Torto, a 40 quilômetros de Sobral, região norte do Estado. Em nove meses ele passou por sete cirurgias plásticas na Santa Casa de Misericórdia de Sobral e uma vascular, no Hospital Regional Norte.

Nesta última, os médicos deixaram o osso da perna exposto. Após isso, parte da tíbia de Antônio infeccionou e teve que ser retirada. Agora paciente agora precisa de tratamento em Fortaleza, em um aparelho chamado fixador do tipo gaiola. De acordo com os médicos, ele está em falta nos hospitais que atendem pelo SUS em Sobral. “A complicação dele foi aqui dentro de Sobral mesmo. Fizeram a porcaria aqui e mandaram pra Fortaleza para consertar. O atendimento da gente era pra ser direitinho. Infelizmente é assim”, lamenta Jocélia Souza Martins, esposa de Antônio.

Rede de atendimento no interior do Estado
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Pegamos a estrada e fomos de Sobral até Quixeramobim, na cidade, o Hospital Pontes Neto é um exemplo do que acontece na maioria dos municípios cearenses. Uma unidade com estrutura precária e apenas seis médicos para atender pacientes de 20 cidades. Segundo o médico Carlos Helano Cosmo da Silva, Subsecretário de gestão hospitalar de Quixeramobim, o problema da unidade é o excesso de pacientes para a traumatologia. “Nós não estamos conseguindo ofertar um volume maior de cirurgia para atender essa demanda. O paciente chega com trauma crânio encefálico e a gente não tem suporte de dar todos esses cuidados”, enfatiza.

Nos últimos cinco anos, o Governo do Estado investiu cerca de R$ 400 milhões na construção de três hospitais regionais. Um no Cariri, outro na Região Norte e um, ainda em fase de acabamento, para atender pacientes do Sertão Central. A ideia dos hospitais regionais é evitar os grandes deslocamentos até Fortaleza e, assim, aumentar as chances de sobrevivência nos casos mais graves. A unidade do Sertão Central deve atender, além de Quixeramobim, pacientes de outros 19 municípios da região.

A realidade dos acidentados de moto no Ceará mostra que toda essa estrutura ainda não começou a surtir os efeitos esperados. O interior do Estado até conta com hospitais filantrópicos que deveriam ajudar na rede de atendimento, mas essas unidades passam por dificuldades. Cinquenta por cento dos atendimentos custeados pelo Sistema Único de Saúde no Ceará são realizados por hospitais filantrópicos. Em alguns casos, essas unidades são as únicas existentes nas cidades.

Em Canindé, o Hospital São Francisco acumula uma dívida de R$ 10 milhões. A unidade não possui tomógrafo e nem ambulância, além disso, falta dinheiro para manter um pediatra de plantão. A Doméstica Ivanilda Rodrigues lamenta que o hospital passe por tal situação e condena o descaso com a saúde da população. “Você vem pra cá uma hora, a enfermeira vem perguntar por que não vim mais cedo. Doença quem dá é Deus. Eu tenho que adivinhar o dia que ele vai adoecer e a hora?”, pergunta.

A tabela de pagamento não é reajustada há mais de 10 anos. Pra se ter uma ideia, o SUS destina apenas R$ 10,00 para uma consulta clínica que tem um custo médio cinco vezes maior. A falta de uma boa assistência médica no interior sobrecarrega as unidades de saúde da capital, como o Hospital Geral de Fortaleza, maior unidade da rede pública estadual. A dona de casa Joyce Lima diz que é preciso procurar a unidade médica três ou quatro meses de antecedência e ainda assim, quando vem para a consulta, os pacientes ainda pegam uma fila enorme.

Para a doméstica Francisca Liduína do Nascimento o atendimento público de saúde não está bom e precisa melhorar o quanto antes. “A saúde pública está uma porcaria. Aí fica o governo dizendo que está tudo bom. Do que adianta fazer um prédio bonito desse se não funciona? Não tem atendimento, não tem médico, não tem remédio, não tem nada”.

Rede de solidariedade
Em Fortaleza, quem vem do interior em busca de atendimento e não pode pagar hospedagem e encontra nas casas de passagem todo o apoio e solidariedade para enfrentar o tratamento médico. A casa mantida pela Congregação das Irmãs Pobres de Santa Catarina de Sena, há onze anos oferece até 94 vagas para pessoas do Ceará e até de outros estados.

O agricultor Daniel Rodrigues é de Tejuçuoca, na Zona Norte do Estado e veio à Fortaleza para acompanhar a esposa em uma gravidez de risco. Ele teve que deixar o trabalho para cuidar da família, e graças a solidariedade das irmãs, pode ter um pouco mais de conforto enquanto acompanha o tratamento da esposa. “Eu não tenho como pagar. Elas sabem que eu sou humilde, mas quem vai pagar o que as senhoras estão fazendo por mim é Deus”, completa o agricultor

Os gastos mensais das irmãs giram em torno de R$ 25 mil, dinheiro que chega apenas por doações e é usado para suprir uma carência que deveria ser sanada pelo poder público.

A Irmã Rita, diretora do Lar Nossa Senhora de Fátima conta que às vezes não existe a correspondência com o poder público. Para ela, principalmente para os pobres que não têm plano de saúde, não tem nada. “Às vezes eu fico de mãos amarradas sem poder agilizar porque não tem como. Não queremos falar de ninguém, mas deixa a desejar o poder público”, explica.

Além da atenção com os hospitais, os cuidados com a saúde do cearense devem começar bem cedo, com a prevenção de doenças, o que pode diminuir a superlotação nas unidades. Quando pegamos a estrada e nos afastamos dos grandes problemas urbanos, vamos ao encontro de um jeito aparentemente simples de viver, mas que pode esconder situações difíceis de solucionar, como a vivida no município de Pereiro, no Vale do Jaguaribe.

Números acendem o alerta para o combate a Dengue
A dengue se transformou em problema crônico na cidade e fez com que Pereiro atingisse um dos maiores índices de infestação do Estado. Para se ter uma ideia, mais de 6% de todos os casos de Dengue do Ceará, em 2014, foram registrados na cidade.

O aposentado Cosmo Mourão ficou 21 dias entre idas e vindas ao hospital por conta de uma doença com ares de epidemia na cidade. “Quando vi mesmo que chegou em um ponto que eu não aguentava, não conseguia mais ficar em pé desmaiando fraco aí fui obrigado a ir pro hospital e quando fiz o exame acusou”.

Mas a realidade é bem mais assustadora que os números oficiais. Isso porque muitos moradores ficam fora das estatísticas por não procurar um hospital. Para o coordenador de endemias de Pereiro, Itamar Cabral as pessoas armazenam água em tambores, tanques, cisternas, depósitos que são moradias perfeitas para o mosquito transmissor da dengue.

No primeiro semestre deste ano, o Ceará apresentou 4.355 casos, o que dá uma média de 216 infecções a cada 100 mil habitantes. Números que acendem o alerta para o combate a Dengue. A prefeitura do município decidiu aumentar o número de agentes de endemias e intensificar a fiscalização em cada caixa d’água.

Assim como a população precisa de consciência, os governantes não podem deixar de lado ações que promovam uma boa saúde. Seguimos em nossa viagem e o nosso destino agora é a cidade de Saboeiro, município que fica distante 229km quilômetros de Pereiro.

O Ceará como um todo possui uma rede de esgoto que cobre apenas 38% do Estado, mas em Saboeiro a situação é ainda pior. O esgoto passa por 2,68% das residências, o que equivale a apenas um bairro. No restante do município o que se vê é o esgoto a céu aberto. Uma situação que oferece risco e incômodo aos moradores.

A aposentada Maria Ribeiro de Sousa diz que se a rede de esgoto existisse a situação da cidade seria diferente na cidade. Já para a moradora Maria do Socorro Carlos com toda a sujeira na rua, nem os netos podem brincar tranquilos. “Tenho uma netinha de dois anos e já tenho uma mulher pra ganhar menino, aí tudo vem pra gente, né não? Eu não posso deixar assim não”, explica.

Os riscos de doenças por conta da sujeira também são elevados, tanto que alguns moradores já pensaram inclusive em tirar dinheiro do próprio bolso para tentar resolver a situação.

Uma das situações mais emblemáticas que afetam todo o território cearense é a dos lixões a céu aberto. No município de Saboeiro não é diferente. Todo o lixo da cidade vai para um terreno sem os cuidados necessários para garantir o descarte. Uma caçamba despeja o lixo onde os funcionários não tem praticamente nenhum tipo de proteção. Eles utilizam apenas botas, alguns de máscaras e alguns com luvas e só. Não existe preocupação com a segurança das pessoas nem muito menos com a higiene desse local onde é colocado o lixo. O local deveria abrigar um aterro sanitário com todas as características de proteção à saúde.

No último mês de agosto, terminou o prazo dado por uma Lei Federal para o fim dos lixões no Brasil. Até agora, apenas dois aterros sanitários estão em operação no Ceará e dez municípios estão com processo de licenciamento em aberto. A competência para a construção de espaços que dêem o destino correto ao lixo é dos municípios, mas os estados também podem auxiliar na articulação de verbas, organização, planejamento e execução de consórcios entre municípios, caso tenham planos estaduais de resíduos sólidos. O Governo do Ceará ainda não conseguiu elaborar o plano, que só deve ficar pronto no final do ano.

O agricultor Vicente Rodrigues dos Santos deixou a agricultura para trabalhar com reciclagem há mais de três anos. Passa o dia a procurar materiais que possam se transformar em renda para a família. Além do contato com material hospitalar, ele denuncia que o pouco do esgoto que é coletado na cidade também é jogado no local. “Tudo eles jogam aqui. Aí isso aqui fica poluído, porque joga aqui e quando for com um tempo começa a chover, que vem água em busca do rio, vai com lixo, com fezes com tudo, aí tudo desce”, afirma.

Segredos para uma vida longa
Falta de combate efetivo à dengue, coleta inadequada de lixo e esgoto sem tratamento. Tudo isso prejudica a saúde no Ceará. Mas, apesar dos problemas, os cearenses sempre conseguem força para tocar a vida em frente.

Enquanto os vizinhos conversam na calçada, surge o seu Antônio Dionísio descendo pela rua, cheio de disposição, do alto dos seus 112 anos de idade que o tornam o homem mais velho do Crato. Ele conta pra gente qual o segredo para se viver tanto. “É saber viver e ainda acha encruzilhada, ainda acha encruzilhada que ameaça correr pra outro canto”, conta.

Seu Antônio não é o único com mais de 100 anos na região. Outras 10 pessoas já ultrapassaram um século de vida no Crato e cerca de 3 mil já estão acima dos 80 anos. As praças amplas e a sombra das árvores são um convite à vida longa. Dados do IBGE apontam que o Ceará foi o quinto Estado que apresentou maior aumento na expectativa de vida. Em 1980, o cearense tinha uma das taxas mais baixas do país (58,96 anos). No período de 30 anos houve a elevação e, em 2010, atingiu mais de 72 anos.

Se o destino é viver mais, que seja com qualidade. Na turma da melhor idade não há espaço para monotonia. A piscina é espaço para boas conversas, exercícios e diversão.

A aposentada Maria Pires conta que está maravilhada com os novos amigos que conheceu e com as novas oportunidades depois que descobriu a Internet. “Aqui estou preparando meus anos que tenho pela frente, quando eu não puder ter minha vida social lá fora, eu tenho dentro de casa”.

Se hoje nosso povo já espera viver mais, imagina como seria se nossa saúde tivesse mais qualidade? O dia a dia pode até ser difícil, mas a nossa esperança sempre enxerga um futuro melhor.


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