Os desafios do Ceará para segurança

O olhar desconfiado denuncia que até para uma simples conversa na calçada é preciso cuidado. Os moradores de algumas cidades do interior do Ceará tem deixando de lado um costume tão característico, diante do aumento da violência, que muitas vezes, acontece na porta de casa.

O agricultor Pedro Gonçalves lamenta que o dias atuais não possam permitir que as novas gerações aproveitem o clima da cidade do interior como antigamente. “Eu sinto saudade do passado de Russas, que hoje a gente não tem mais. Hoje a gente não pode sai mais nem para o bar, quando a gente dá fé, chega um alguém disparando”, explica.

Relatos como o de Pedro, obrigam os mais de 70 mil moradores de Russas a mudarem seus hábitos. O comércio contabiliza os prejuízos provocados pelos assaltos constantes. Mercadorias são levadas e nunca são recuperadas, quem trabalha em meio ao risco quer providências.

Rayane pinheiro, gerente de uma ótica em Russas questiona a falta de empenho em solucionar o problema da segurança. “A gente nota uma falta de policiamento. O governo não oferece o mínimo possível que é segurança, já que você está trabalhando honestamente pra pagar os seus impostos”, afirma.

O município é um polo econômico da região Jaguaribana, por isso atrai trabalhadores de outras cidades próximas. É o caso de Jamylly Barreto que trabalha como atendente no comércio da cidade. Ela conta que na hora de voltar para casa, sente-se insegura porque precisa pegar a estrada. “Eu fico com medo por causa da violência, não só em Russas, mas nas rodovias também. Os bandidos estão migrando agora para as BRs”, explica.

Os dados divulgados pela Polícia Militar, apontam que no primeiro semestre de 2014, 24 pessoas foram assassinadas, quase todas à bala. Mais da metade delas tinha envolvimento comprovado com tráfico ou consumo de drogas.

O sub-comandante do batalhão, major Claudemir Ferreira, explica que os crimes passionais ou de vingança estão cada vez mais raros. A disseminação das drogas fez aumentar os pequenos roubos e os homicídios. Ele diz ainda que cerca 40% dos crimes são praticados por menores de idade. “Cada arma de fogo apreendida são vidas que deixam de ser ceifadas e outros crimes deixam de acontecer. Então temos que focar em cima disso, por isso nós trabalhamos muito na realização de realizar blitze e barreiras na intenção maior de apreender armas e drogas’, diz.

Em todo o Ceará, a polícia apreendeu de janeiro a julho de 2014 mais de uma tonelada de drogas, 3.605 armas. Parte das drogas e das armas que amedrontam a população cearense entra pelas rodovias. Quem faz esse tipo de transporte, muitas vezes encontra as dividas do Ceará com outros estados livres

A equipe do “Ceará pelos Cearenses” percorreu 75 quilômetros da BR-304, que cruza os estados do Ceará e Rio Grande do Norte, em nenhum trecho encontramos blitz. Apenas um posto da Polícia Rodoviária Federal a 25 quilômetros da divisa, ainda no Rio Grande do Norte, onde a passagem foi livre. Já no lado do Ceará, o primeiro posto de fiscalização é da secretaria da fazenda, 40 quilômetros depois da divisa.

O caminhoneiro Sóstenes Varela diz que a fiscalização é falha e que em sete anos que viajou para São Paulo, só foi parado três vezes pela rodoviária federal. “Nunca fiscalizaram dentro da cabine, nunca fiscalizaram a carreta. Tá entregue às baratas. A fiscalização não existe”, conta.

 

Terra de ninguém
No município de Jati, no sul do estado, próximo à divisa do Ceará com Pernambuco, numa área que já foi bastante conhecida como polígono da maconha, fica uma das milhares de estradas vicinais do estado. Um desafio para a polícia e autoridades que fiscalizam nossas estradas.

Percorremos uma dessas estradas de terra com a ajuda de um morador de Jati. O agricultor Francisco Ferreira da Silva conta que muitos criminosos usam esse tipo de estrada por conta da ausência de moradias na região. Segundo ele, após cometer os crimes, os bandidos ficam horas e até dias se escondendo da polícia.

Nossa equipe sentiu na pele o desafio de percorrer essas estradas. Mesmo com a ajuda de um morador da região nos perdemos. Chegamos até um ponto onde o carro não conseguia seguir em frente. A estrada que nós estávamos seguindo em direção a Pernambuco chegou num ponto em que não dá mais pra passar.

As estradas vicinais trazem ainda uma outra vantagem que é a facilitação da fuga. Quando se sentem acuados, os criminosos escolhem as bifurcações, para que a polícia perca o rastro da procura. “O bandido pega a estrada e vai embora. E a pessoa é quem fica sem nada, no prejuízo”, lamenta.

Depois de percorrer 25 quilômetros de estradas de areia e muitas encruzilhadas, nossa equipe chegou até uma rodovia asfaltada. Chegamos ao estado de Pernambuco, na PE-475, ao longo trajeto encontramos motos, carros, só não vimos nenhum policiamento. Mais uma demonstração de como é fácil deixar o estado sem passar por qualquer fiscalização.

 

Novo cangaço
Só em 2014 foram registrados 46 ataques a bancos no Ceará. Em alguns casos, as quadrilhas sitiam cidades e espalharam medo para a população. Ações orquestradas por bandos que, devido à semelhança de como atuam, recebem o nome de “o novo cangaço”.

O Ceará pelos Cearenses viajou até Mossoró, no Rio Grande do Norte. Cidade que foi palco de um dos maiores conflitos entre militares, civis e o bando de cangaceiros de lampião. Ainda hoje, a igreja matriz preserva as marcas de bala na torre. Troféu da resistência de um povo que não aguentava mais sofrer os saques dos criminosos.

A cidade rende até hoje homenagens a seus guerreiros com uma peça ao ar livre, que retrata a batalha contra lampião no exato local onde ela aconteceu, em 13 de junho de 1927. O conflito armado que expulsou o bando em direção ao Ceará foi a forma encontrada pelos governantes da época para tentar devolver paz à população.

Depois de fugir de Mossoró, o bando de Lampião fez a sua primeira parada na cidade de Limoeiro do Norte, no dia 16 de junho de 1927, nesse dia, a cidade ficou completamente vazia, como conta o historiador Francisco Irajá Pinheiro. “Todos foram para o espinho, que era perto daqui. Outros subiram a chapada do Apodi, outros foram para Tabuleiro. Ficaram aqui apenas as autoridades que iam receber Lampião”, explica.

Na época do cangaço o rastro deixado na terra era a pista principal da caçada aos bandidos. Mas Lampião, muito astucioso, criou uma sandália com solado retangular, para não deixar claro qual caminho o seu bando seguia. Noventa anos depois, as técnicas mudaram, mas o novo cangaço continua a desafiar as autoridades de segurança do Ceará.

Resolução dos crimes
Continuamos na estrada, dessa vez, o destino é Camocim, litoral oeste. Estamos na terra natal do cearense que entrou para a história por ganhar as alturas, o aviador Pinto Martins, homenageado com um avião em praça pública, por ter realizado o primeiro voo entre os Estados Unidos e o Brasil.

Aqui, percebemos o quanto a precariedade de estrutura atrapalha o poder de investigação da polícia. Quando um crime acontece, a primeira atitude da população é fazer um boletim de ocorrência, o documento é fundamental para iniciar o trabalho de investigação da Polícia Civil.

A dona de casa Nilza Carneiro precisou do boletim de ocorrência depois que teve as portas da casa roubadas, mas não teve o atendimento necessário para conseguir o documento, pelo contrário, foi desencorajada justamente por quem deveria ajudá-la. “Cheguei lá e o homem que estava no atendimento disse deixasse isso de mão, porque eram portas velhas. Voltei decepcionada pra casa”, conta.

A delegacia de Camocim funciona em um prédio deteriorado, que continua a atendendo a população mesmo depois de ser interditado pela justiça.

O presidente do Sindicato dos Policiais Civis do Ceará, Gustavo Simplício diz que a delegacia está interditada judicialmente e, dessa forma, a policia civil dá um mal exemplo à população quando descumpre a decisão do juiz de Camocim. “O arquivo da delegacia está completamente abandonado. Isso é uma coisa inadmissível. Boletins de ocorrência, inquéritos policiais, termos de apreensão. Um boletim de ocorrência feito em 2010 está cheio de fezes de animais”, completa.

 

Respostas na educação

Com essa esperança, atravessamos o estado mais uma vez, com destino à Tauá, na região dos Inhamuns. Desde 2008 a Escola de Educação Profissional Monsenhor Odorico de Andrade atende 500 alunos em tempo integral. Em um período do dia, eles assistem às disciplinas regulares do ensino médio. No outro, aprendem uma profissão. Em Tauá, os estudantes podem escolher entre os cursos de informática, administração, agropecuária e enfermagem. Tempo precioso destinado ao que é bom. Exercício de cidadania que contribui com a diminuição da violência.

Tudo o que os estudantes aprendem lá na escola é colocado em prática em benefício da própria comunidade. Um dos postos de saúde do município é o campo de estágio para os alunos de enfermagem. Os estudantes se revezam em diversas unidades de saúde da cidade. Sempre supervisionados, aprendem a lidar diretamente com a população e a serem futuros profissionais de qualidade. Segundo a diretora da escola, Lannuza Gomes, quando o aluno sai da escola, ele já tem uma visão mais ampla do mundo e uma maturidade maior. “Isso faz com que sejam, se transformem em adolescentes responsáveis, realizados e, acima de tudo, bons cidadãos”, destaca.

 

Pagamos a estrada pela última vez nessa viagem pelo Ceará. Desta vez fomos até Caucaia, região metropolitana de Fortaleza, o juizado especial cível e criminal. O órgão é responsável por julgar crimes de menor potencial ofensivo, como ameaça, desacato e lesão corporal leve que, geralmente têm como pena a compra de cestas básicas resolveu inovar.

Antes mesmo do processo ser julgado, um acordo é proposto, chamado transação penal, onde ao invés de comprar cestas básicas, o réu presta um serviço ou deposita a multa estipulada diretamente na conta de uma das seis instituições escolhidas pelo juizado, que promovem projetos sociais. A sensação de impunidade também é deixada de lado, uma vez que as audiências acontecem em, no máximo, uma semana após o crime.

Para o promotor de justiça, Hugo Mendonça, o melhor maneira de transformar um crime em algo positivo. “Nós tiramos desse crime consequências que vão ser benéficas à sociedade, que vão melhorar a realidade daquele meio”, completa.

Parte do dinheiro arrecadado no juizado se transforma em música para as duzentas e setenta crianças do Lar de Clara, que atende à comunidade carente de Iparana, em Caucaia. A música também se integra às demais atividades da instituição. Na escolinha mantida pela entidade, a música também ajuda no aprendizado. “Eu tenho plena certeza que com o projeto de música nessa comunidade, teve alteração na vida das crianças. A arte dá possibilidades, é um leque de possibilidades para a criatura humana ter discernimento do que ela pode buscar na vida”, define Lis Timbó, coordenadora do Lar de Clara.


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