Guarde o nome da Mulher Barbada, a drag queen promessa musical do Ceará

É VOZ QUE VOCÊ QUER?

Guarde o nome da Mulher Barbada, a drag queen promessa musical do Ceará

O Tribuna do Ceará acompanhou a transformação do cantor e ator Rodrigo Ferrera na Mulher Barbada, sucesso com o Bloco das Travestidas

Por Jéssica Welma em Música

19 de fevereiro de 2018 às 07:00

Há 1 ano
A barba de Rodrigo tornou-se sua marca. (Foto: Paulo Sena/Especial para Tribuna do Ceará)

A barba de Rodrigo tornou-se sua marca. (Foto: Paulo Sena/Especial para Tribuna do Ceará)

A mão direita de Rodrigo Ferrera segura com destreza o pincel que dá vida aos olhos agateados da Mulher Barbada. Sob a luz natural que entra pela janela, criador e criatura vão coexistindo entre troca de pincéis, bases marrons, lápis pretos, sombras e mais sombras de tantas cores quanto as multifaces do artista.

A voz é o ápice da construção, a cereja indispensável do bolo, mas é preciso esperar até a “hora dos parabéns” para ver e, claro, para ouvir.

Faltam poucas horas para a Mulher Barbada subir ao palco do Carnaval de Fortaleza para a apresentação com o mainstream das drag queens no Ceará: o coletivo artístico As Travestidas. Rodrigo conversa, relembra a trajetória, lista os planos da carreira, ri das piadas dos amigos, mas não desconcentra da construção de sua obra-prima.

“Não sei se existe um momento claro em que o Rodrigo some e entra a Mulher Barbada. Primeiro vem esse processo de montaria, de ir descobrindo o rosto, a Mulher Barbada. Aos poucos, o Rodrigo vai dando lugar para esse novo corpo, esse novo rosto, essa nova voz, e vai se descobrindo no processo, não só do dia, mas da trajetória mesmo”, conta Rodrigo, parando as mãos e tirando o espelho de frente do rosto para olhar nos olhos de quem o escuta.

A produção da Mulher Barbada leva cerca de 3 horas geralmente. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

A produção da Mulher Barbada leva cerca de 3 horas geralmente. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

O ator é tão firme nas palavras quantos nas mãos que não param de maquiar. Não titubeia sobre a carreira, sobre as aspirações e sobre as inspirações. Aos 25 anos, ele vê se abrir um universo de possibilidade no cenário musical LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros). Os companheiros de teatro veem nele um potencial de renome nacional na música. Ele também vê e está lutando por isso.

O teatro veio primeiro, ainda na escola. Tornou-se um compromisso desde cedo também. Mas acreditar que era possível viver da arte era difícil, então Rodrigo seguiu pelo Estilismo como formação profissional. O teatro nunca saiu de cena. No curso de Princípios Básicos de Teatro, oferecido pelo centenário Theatro José de Alencar, Rodrigo deu cabo de seu interesse pelo universo trans.

“Eu tinha a curiosidade de saber o que era a transexualidade antes dessa figura mastigada pela mídia”, afirma. Assim surgiu a esquete “Transviado”, inspirada no trabalho do ator e diretor Silvero Pereira.

http://mais.uol.com.br/view/16397434

A música se consolidou dois anos depois, com a criação da banda “Mulher Barbada e os Caixeiros Viajantes”. A voz era feminina, mas havia uma barba ali e todo um mistério que se costurava entre o feminino e o masculino.

Quando fala da carreira, Rodrigo para a maquiagem, fala sério, com determinação no olhar. A parede azul escuro atrás dele forma um cenário bonito de se ver, ele está em casa. Um nome imediatamente lhe rouba a atenção: Silvero Pereira.

Rodrigo Ferrera criou a "Mulher Barbada" no início da carreira musical. (Foto: Paulo Sena/Especial para Tribuna do Ceará)

Rodrigo Ferrera criou a “Mulher Barbada” no início da carreira musical. (Foto: Paulo Sena/Especial para Tribuna do Ceará)

A junção perfeita de drag performer e voz de que tanto se fala em Pabllo Vittar, Silvero Pereira farejou em Rodrigo anos antes. Primeiramente com o convite para Quem Tem Medo de Travesti e a estreia no Cabaré das Travestidas. Passado o nervosismo desse convite, hoje Rodrigo conta como deu vida à Mulher Barbada, achando graça.

“Na confraternização de 2015, a gente se reuniu para fazer o planejamento de 2016. Mas, na hora, o Silvero disse: ‘Vai ter o Cabaré em janeiro e eu não vou estar aqui. Rodrigo, você faz parte do elenco?’. Eu nem questionei, mas eu não tinha drag, não tinha nada, não tinha rímel! Mas eu disse: ‘ah, o quê, (daqui a) 25 dias? Topo, vai ser ótimo’”, relembra o desespero e a maquiagem básica que ganhou da mãe para ajudar.

A responsabilidade salta aos olhos nos trabalhos de Rodrigo. Nos dias que se seguiram, foi pesquisar referências. Uma em especial caiu como uma luva: Mathu Andersen, do reality norte-americano RuPaul’s Drag Race, e sua barba branca magnífica.

A barba está para Rodrigo como o cabelo estava para Sansão: é força. Ele bate na madeira três vezes à mínima menção de ficar sem ela. Deus o livre! Com o tempo, foi ajustando a presença daquele símbolo na sua imagem.

“Se Rodrigo não tivesse a barba, não seria tão feminino”, pontua com uma contradição vocabular de simbologias o amigo Dennis Lacerda, se maquiando ao lado, enquanto dá vida a Deidyanne Piaf. “A barba torna o feminino do Rodrigo de dentro para fora”, acrescenta.

Rodrigo recebe ajuda para montar figurino da Mulher Barbada. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

Rodrigo recebe ajuda para montar figurino da Mulher Barbada. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

“Não é colocar isso como o ideal de ser mulher. É elencar os elementos ditos femininos e colocá-los em xeque. Eles não são elementos femininos, são criados numa sociedade machista de que a mulher tem que agir assim e assado. Isso não é feminino, isso é uma performance. Ser mulher vem muito antes”, explica Rodrigo, ciente do mundo no qual mergulhou.

São quase quatro horas até subir no palco. A maquiagem feita em casa demora cerca de duas horas por causa da conversa. Tem que conferir se todo o figurino está na bolsa: roupa, enchimentos, “pirelli”, meias, adereço de cabeça, espartilhos, sapatos, brincos, grampos, adereços da roupa… É um mundo!

O glitter escorrega na mão e espalha brilho na mesa e nos produtos de maquiagem. Não dá tempo de juntar ou lamentar. Deixa que as amigas dão um jeito de não desperdiçar o item indispensável do Carnaval. Todo mundo tem que brilhar, afinal. Então, passa no corpo!

Na van que leva até o aterrinho da Praia de Iracema, onde acontece o show, Rodrigo vai aquecendo a voz. Ele está nervoso, confessa. O axé e o pop não são suas zonas de conforto. Apresentar-se no palco principal do Carnaval de Fortaleza é resultado de um trabalho longo de blocos nos pré-carnavais e espetáculos ao longo do ano.

No camarim é outra correria. Lá está também Silvero Pereira e sua nacional Gisele Almodóvar. É muita responsabilidade para o discípulo. Há horário a cumprir e expectativa de público a atender. Todo mundo se ajuda, é o mais importante.

Faz cinco anos que Rodrigo não sabe o que é não ter barba. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

Faz cinco anos que Rodrigo não sabe o que é não ter barba. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

Dane-se se tem de ficar pelado na frente de estranho. Tira a roupa do Rodrigo e manda vir a Mulher Barbada. Sobe dois enchimentos para o bumbum, uma meia, os “pirellis” (ou o estofado dos quadris), mais meias, duas, três, quatro, cinco meias! O enchimento dos seios, o sutiã, o espartilho…

Corre que tá quase na hora!

Bota o collant dourado e o cinto. “O sutiã fica de fora mesmo”, alerta a quem tenta esconder. Bota o adereço dourado de flor de um lado e do outro. Hora de por o adereço do cabelo, suntuoso, dourado com plumas imensas, põe os brincos, calça a bota… Ufa, está ali a Mulher Barbada: quadris largos, cintura fina, olhar agateado…

As travestidas estão prontas e incríveis! Axé!

A Mulher Barbada estreia o Bloco das Travestidas. “Vamo quebrar tudo, galera!”, grita ainda nos bastidores. O público vai ao delírio. “Quando chegar fevereiro, eu quero ser Carnaval”, solta a voz, interpretando outro nome do cenário cultural LGBT, Johnny Hooker.

Ali, Rodrigo Ferrera é a Mulher Barbada, e a Mulher Barbada é Rodrigo Ferrera, porque toda criatura traz muito do seu criador, e ambos trazem as inspirações do mestre. No palco, Mulher Barbada, Gisele Almodóvar, Deydianne Piaf e Yasmin Shirran: cores, alegria, música e os primeiros passos de um ano que está só começando.

Bloco das Travestidas se apresentou na primeira noite de Carnaval em Fortaleza. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

Bloco das Travestidas se apresentou na primeira noite de Carnaval em Fortaleza. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

Olhando a Mulher Barbada arrastando a multidão, uma lembrança contada horas antes:

“Sim, bixa, qual o teu nome?” – perguntou Deydianne ao estreante Rodrigo em 2016.
“Mulher Barbada” – respondeu, sem pensar.
“Mulher Barbada?” – estranhou a drag, habituada a nomes mais rebuscados.
“É, Mulher Barbada, depois a gente muda, bixa” – imaginou Rodrigo.

Isso nunca aconteceu e, provavelmente, não vai mais acontecer.

A Mulher Barbada é fruto de dom e de muito trabalho. Ilude-se quem acha que é movida pelo talento pop de Pabllo Vittar ou Gloria Groove. O caminho é outro, é na MPB, é no trabalho autoral. Rodrigo prepara seu primeiro CD e sua inserção cada vez mais forte no cenário nacional, na trilha de Silvero Pereira. Eles são um escândalo juntos no palco! São brilho e voz. Daquelas junções que não acontecem por acaso. E Rodrigo sabe disso.

Mulher Barbada
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A barba da Mulher Barbada é inspirada em personagem de reality show norte-americano de drag queens. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

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A produção da Mulher Barbada leva cerca de 3 horas geralmente. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

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Rodrigo Ferrera tem formação em teatro e é figurinista. (Foto: Paulo Sena / Especial para o Tribuna do Ceará)

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Rodrigo Ferrera criou a “Mulher Barbada” no início da carreira musical. (Foto: Paulo Sena/Especial para Tribuna do Ceará)

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O trabalho musical ganhou forma com a banda “Mulher Barbada e os Caixeiros Viajantes”. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

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Ainda em fevereiro deste ano, As Travestidas farão show em São Paulo. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

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Faz cinco anos que Rodrigo não sabe o que é não ter barba. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

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Rodrigo ajuda Dennis Lacerda com a maquiagem de Deydianne Piaf. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

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O estilo musical de Rodrigo é mais voltado a MPB que ao tradicional Pop. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

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A barba de Rodrigo tornou-se sua marca. (Foto: Paulo Sena/Especial para Tribuna do Ceará)

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Rodrigo recebe ajuda para montar figurino da Mulher Barbada. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

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O adereço de cabeça que a Mulher Barbada usou no show foi usado pela drag Rayana Rayovac. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

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Mulher Barbada

Mulher Barbada pronta após quase quatro horas de produção. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

Mulher Barbada
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Mulher Barbada

A parceria musical com Silvero Pereira promete novas conquistas em 2018. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

Mulher Barbada
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Bloco das Travestidas se apresentou na primeira noite de Carnaval em Fortaleza. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

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A Mulher Barbada puxa a parte musical com Silvero Pereira. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

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Em 2018, a Mulher Barbada deve gravar seu primeiro CD. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará

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Bloco das Travestidas no Carnaval de Fortaleza. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

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Mulher Barbada

Bloco das Travestidas no Carnaval de Fortaleza. (Foto: Prefeitura de Fortaleza/Divulgação)

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Acompanhe o trabalho da Mulher Barbada

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Mulher Barbada e os Caixeiros Viajantes

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O Tribuna do Ceará acompanhou a transformação do cantor e ator Rodrigo Ferrera na Mulher Barbada, sucesso com o Bloco das Travestidas

Por Jéssica Welma em Música

19 de fevereiro de 2018 às 07:00

Há 1 ano
A barba de Rodrigo tornou-se sua marca. (Foto: Paulo Sena/Especial para Tribuna do Ceará)

A barba de Rodrigo tornou-se sua marca. (Foto: Paulo Sena/Especial para Tribuna do Ceará)

A mão direita de Rodrigo Ferrera segura com destreza o pincel que dá vida aos olhos agateados da Mulher Barbada. Sob a luz natural que entra pela janela, criador e criatura vão coexistindo entre troca de pincéis, bases marrons, lápis pretos, sombras e mais sombras de tantas cores quanto as multifaces do artista.

A voz é o ápice da construção, a cereja indispensável do bolo, mas é preciso esperar até a “hora dos parabéns” para ver e, claro, para ouvir.

Faltam poucas horas para a Mulher Barbada subir ao palco do Carnaval de Fortaleza para a apresentação com o mainstream das drag queens no Ceará: o coletivo artístico As Travestidas. Rodrigo conversa, relembra a trajetória, lista os planos da carreira, ri das piadas dos amigos, mas não desconcentra da construção de sua obra-prima.

“Não sei se existe um momento claro em que o Rodrigo some e entra a Mulher Barbada. Primeiro vem esse processo de montaria, de ir descobrindo o rosto, a Mulher Barbada. Aos poucos, o Rodrigo vai dando lugar para esse novo corpo, esse novo rosto, essa nova voz, e vai se descobrindo no processo, não só do dia, mas da trajetória mesmo”, conta Rodrigo, parando as mãos e tirando o espelho de frente do rosto para olhar nos olhos de quem o escuta.

A produção da Mulher Barbada leva cerca de 3 horas geralmente. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

A produção da Mulher Barbada leva cerca de 3 horas geralmente. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

O ator é tão firme nas palavras quantos nas mãos que não param de maquiar. Não titubeia sobre a carreira, sobre as aspirações e sobre as inspirações. Aos 25 anos, ele vê se abrir um universo de possibilidade no cenário musical LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros). Os companheiros de teatro veem nele um potencial de renome nacional na música. Ele também vê e está lutando por isso.

O teatro veio primeiro, ainda na escola. Tornou-se um compromisso desde cedo também. Mas acreditar que era possível viver da arte era difícil, então Rodrigo seguiu pelo Estilismo como formação profissional. O teatro nunca saiu de cena. No curso de Princípios Básicos de Teatro, oferecido pelo centenário Theatro José de Alencar, Rodrigo deu cabo de seu interesse pelo universo trans.

“Eu tinha a curiosidade de saber o que era a transexualidade antes dessa figura mastigada pela mídia”, afirma. Assim surgiu a esquete “Transviado”, inspirada no trabalho do ator e diretor Silvero Pereira.

http://mais.uol.com.br/view/16397434

A música se consolidou dois anos depois, com a criação da banda “Mulher Barbada e os Caixeiros Viajantes”. A voz era feminina, mas havia uma barba ali e todo um mistério que se costurava entre o feminino e o masculino.

Quando fala da carreira, Rodrigo para a maquiagem, fala sério, com determinação no olhar. A parede azul escuro atrás dele forma um cenário bonito de se ver, ele está em casa. Um nome imediatamente lhe rouba a atenção: Silvero Pereira.

Rodrigo Ferrera criou a "Mulher Barbada" no início da carreira musical. (Foto: Paulo Sena/Especial para Tribuna do Ceará)

Rodrigo Ferrera criou a “Mulher Barbada” no início da carreira musical. (Foto: Paulo Sena/Especial para Tribuna do Ceará)

A junção perfeita de drag performer e voz de que tanto se fala em Pabllo Vittar, Silvero Pereira farejou em Rodrigo anos antes. Primeiramente com o convite para Quem Tem Medo de Travesti e a estreia no Cabaré das Travestidas. Passado o nervosismo desse convite, hoje Rodrigo conta como deu vida à Mulher Barbada, achando graça.

“Na confraternização de 2015, a gente se reuniu para fazer o planejamento de 2016. Mas, na hora, o Silvero disse: ‘Vai ter o Cabaré em janeiro e eu não vou estar aqui. Rodrigo, você faz parte do elenco?’. Eu nem questionei, mas eu não tinha drag, não tinha nada, não tinha rímel! Mas eu disse: ‘ah, o quê, (daqui a) 25 dias? Topo, vai ser ótimo’”, relembra o desespero e a maquiagem básica que ganhou da mãe para ajudar.

A responsabilidade salta aos olhos nos trabalhos de Rodrigo. Nos dias que se seguiram, foi pesquisar referências. Uma em especial caiu como uma luva: Mathu Andersen, do reality norte-americano RuPaul’s Drag Race, e sua barba branca magnífica.

A barba está para Rodrigo como o cabelo estava para Sansão: é força. Ele bate na madeira três vezes à mínima menção de ficar sem ela. Deus o livre! Com o tempo, foi ajustando a presença daquele símbolo na sua imagem.

“Se Rodrigo não tivesse a barba, não seria tão feminino”, pontua com uma contradição vocabular de simbologias o amigo Dennis Lacerda, se maquiando ao lado, enquanto dá vida a Deidyanne Piaf. “A barba torna o feminino do Rodrigo de dentro para fora”, acrescenta.

Rodrigo recebe ajuda para montar figurino da Mulher Barbada. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

Rodrigo recebe ajuda para montar figurino da Mulher Barbada. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

“Não é colocar isso como o ideal de ser mulher. É elencar os elementos ditos femininos e colocá-los em xeque. Eles não são elementos femininos, são criados numa sociedade machista de que a mulher tem que agir assim e assado. Isso não é feminino, isso é uma performance. Ser mulher vem muito antes”, explica Rodrigo, ciente do mundo no qual mergulhou.

São quase quatro horas até subir no palco. A maquiagem feita em casa demora cerca de duas horas por causa da conversa. Tem que conferir se todo o figurino está na bolsa: roupa, enchimentos, “pirelli”, meias, adereço de cabeça, espartilhos, sapatos, brincos, grampos, adereços da roupa… É um mundo!

O glitter escorrega na mão e espalha brilho na mesa e nos produtos de maquiagem. Não dá tempo de juntar ou lamentar. Deixa que as amigas dão um jeito de não desperdiçar o item indispensável do Carnaval. Todo mundo tem que brilhar, afinal. Então, passa no corpo!

Na van que leva até o aterrinho da Praia de Iracema, onde acontece o show, Rodrigo vai aquecendo a voz. Ele está nervoso, confessa. O axé e o pop não são suas zonas de conforto. Apresentar-se no palco principal do Carnaval de Fortaleza é resultado de um trabalho longo de blocos nos pré-carnavais e espetáculos ao longo do ano.

No camarim é outra correria. Lá está também Silvero Pereira e sua nacional Gisele Almodóvar. É muita responsabilidade para o discípulo. Há horário a cumprir e expectativa de público a atender. Todo mundo se ajuda, é o mais importante.

Faz cinco anos que Rodrigo não sabe o que é não ter barba. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

Faz cinco anos que Rodrigo não sabe o que é não ter barba. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

Dane-se se tem de ficar pelado na frente de estranho. Tira a roupa do Rodrigo e manda vir a Mulher Barbada. Sobe dois enchimentos para o bumbum, uma meia, os “pirellis” (ou o estofado dos quadris), mais meias, duas, três, quatro, cinco meias! O enchimento dos seios, o sutiã, o espartilho…

Corre que tá quase na hora!

Bota o collant dourado e o cinto. “O sutiã fica de fora mesmo”, alerta a quem tenta esconder. Bota o adereço dourado de flor de um lado e do outro. Hora de por o adereço do cabelo, suntuoso, dourado com plumas imensas, põe os brincos, calça a bota… Ufa, está ali a Mulher Barbada: quadris largos, cintura fina, olhar agateado…

As travestidas estão prontas e incríveis! Axé!

A Mulher Barbada estreia o Bloco das Travestidas. “Vamo quebrar tudo, galera!”, grita ainda nos bastidores. O público vai ao delírio. “Quando chegar fevereiro, eu quero ser Carnaval”, solta a voz, interpretando outro nome do cenário cultural LGBT, Johnny Hooker.

Ali, Rodrigo Ferrera é a Mulher Barbada, e a Mulher Barbada é Rodrigo Ferrera, porque toda criatura traz muito do seu criador, e ambos trazem as inspirações do mestre. No palco, Mulher Barbada, Gisele Almodóvar, Deydianne Piaf e Yasmin Shirran: cores, alegria, música e os primeiros passos de um ano que está só começando.

Bloco das Travestidas se apresentou na primeira noite de Carnaval em Fortaleza. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

Bloco das Travestidas se apresentou na primeira noite de Carnaval em Fortaleza. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

Olhando a Mulher Barbada arrastando a multidão, uma lembrança contada horas antes:

“Sim, bixa, qual o teu nome?” – perguntou Deydianne ao estreante Rodrigo em 2016.
“Mulher Barbada” – respondeu, sem pensar.
“Mulher Barbada?” – estranhou a drag, habituada a nomes mais rebuscados.
“É, Mulher Barbada, depois a gente muda, bixa” – imaginou Rodrigo.

Isso nunca aconteceu e, provavelmente, não vai mais acontecer.

A Mulher Barbada é fruto de dom e de muito trabalho. Ilude-se quem acha que é movida pelo talento pop de Pabllo Vittar ou Gloria Groove. O caminho é outro, é na MPB, é no trabalho autoral. Rodrigo prepara seu primeiro CD e sua inserção cada vez mais forte no cenário nacional, na trilha de Silvero Pereira. Eles são um escândalo juntos no palco! São brilho e voz. Daquelas junções que não acontecem por acaso. E Rodrigo sabe disso.

Mulher Barbada
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Mulher Barbada

A barba da Mulher Barbada é inspirada em personagem de reality show norte-americano de drag queens. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

Mulher Barbada
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Mulher Barbada

A produção da Mulher Barbada leva cerca de 3 horas geralmente. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

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Rodrigo Ferrera tem formação em teatro e é figurinista. (Foto: Paulo Sena / Especial para o Tribuna do Ceará)

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Rodrigo Ferrera criou a “Mulher Barbada” no início da carreira musical. (Foto: Paulo Sena/Especial para Tribuna do Ceará)

Mulher Barbada
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Mulher Barbada

O trabalho musical ganhou forma com a banda “Mulher Barbada e os Caixeiros Viajantes”. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

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Ainda em fevereiro deste ano, As Travestidas farão show em São Paulo. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

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Faz cinco anos que Rodrigo não sabe o que é não ter barba. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

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Rodrigo ajuda Dennis Lacerda com a maquiagem de Deydianne Piaf. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

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O estilo musical de Rodrigo é mais voltado a MPB que ao tradicional Pop. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

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A barba de Rodrigo tornou-se sua marca. (Foto: Paulo Sena/Especial para Tribuna do Ceará)

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Rodrigo recebe ajuda para montar figurino da Mulher Barbada. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

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O adereço de cabeça que a Mulher Barbada usou no show foi usado pela drag Rayana Rayovac. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

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Mulher Barbada pronta após quase quatro horas de produção. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

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A parceria musical com Silvero Pereira promete novas conquistas em 2018. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

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Bloco das Travestidas se apresentou na primeira noite de Carnaval em Fortaleza. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

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A Mulher Barbada puxa a parte musical com Silvero Pereira. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

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Em 2018, a Mulher Barbada deve gravar seu primeiro CD. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará

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Bloco das Travestidas no Carnaval de Fortaleza. (Foto: Paulo Sena / Especial para Tribuna do Ceará)

Mulher Barbada
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Mulher Barbada

Bloco das Travestidas no Carnaval de Fortaleza. (Foto: Prefeitura de Fortaleza/Divulgação)

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