Blocos de Carnaval abandonam marchinhas consideradas machistas, homofóbicas e racistas

EM FORTALEZA

Blocos de Carnaval abandonam marchinhas consideradas machistas, homofóbicas e racistas

Os grupos feministas “Damas Cortejam” e “Tambores de Safo” optam por deixar de fora dos repertórios marchinhas como “Maria Sapatão”, “Cabeleira do Zezé” e “O Teu Cabelo não Nega”

Por Ana Clara Jovino em Música

23 de Fevereiro de 2017 às 07:00

Há 10 meses
damas-cortejam-hiane-braun

“Damas Cortejam” é formado por onze músicas (FOTO: Hiane Braun)

A época de Carnaval no Brasil é conhecida por ser liberal. “Tudo é permitido” nos quatro dias do ano dedicados à tradicional festa. Porém, recentemente, vem sendo despertada uma preocupação em relação a algumas marchinhas e músicas de carnaval.

Isso porque elas podem ser consideradas machistas e homofóbicas se interpretadas ao pé da letra. Sendo assim, alguns grupos de Fortaleza evitam tocar as canções em nome do respeito e da diversidade.

Além disso, grupos do movimento feminista aproveitam a época do ano para chamar a atenção das pessoas para questões relacionadas ao preconceito de gênero. Um exemplo é o grupo “Damas Cortejam”.

“Entendemos que se grupos historicamente discriminados sofrem com a disseminação de músicas que reforçam essa condição, não há porque continuarmos reproduzindo marchinhas machistas, homofóbicas e racistas”, justificam.

Elas são um grupo feminista, mas explicam que passaram por um processo para entenderem que fazem parte do movimento. Isso aconteceu após trocas de ideias e vivências entre as integrantes e outros coletivos feministas. “Sempre soubemos que poderíamos utilizar a arte para defendermos algo no que acreditávamos. Mas a compreensão de que o que fazíamos poderia ser denominado feminismo foi processual, bem como a atitude de nomearmos o grupo como feminista”, esclarecem.

“Tambores de Safo” é formado por nove músicas (FOTO: Divulgação)

Muitas das músicas e marchinhas de carnaval, além de tratadas como preconceituosas, são consideradas clássicas e tradicionais. As meninas do “Damas Cortejam” acreditam que deixar de tocar essas músicas não é algo que determine a celebração dos foliões e é uma questão de se colocar no lugar do próximo.

“O ‘clássico’ pode ser questionado, revisto e deslocado. Deixar de cantar letras que oprimem outras pessoas é uma questão de empatia e não fará com que o Carnaval deixe de ser divertido. Nós tocamos marchinhas em nossas apresentações, e as pessoas festejam ao cantá-las, sem que para isso tenham conteúdo preconceituoso”.

Outro grupo feminista que opta por não tocar esse tipo de música é o “Tambores de Safo”. “Essas marchinhas e músicas preconceituosas ficaram para trás, já era. Deixa o Zezé ser o que ele quiser, vai ter Maria Sapatão toda hora, meu cabelo de ‘nega’ não quer negar, ele é identidade, cultura e história”.

Elas afirmam que o movimento Feminista e LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) há anos lutam contra essa violência e, por meio da internet, a causa vem ganhando cada vez mais visibilidade. “As pessoas agora sabem que se falarem da cabeleira do Zezé e da Maria Sapatão ou do cabelo das negras, vai ter gente protestando contra o preconceito também no carnaval”, asseguram.

Além dos grupos feministas, outros blocos de Fortaleza também defendem a atitude de não tocar as tais músicas. O Polo de Pré-Carnaval Dragões do Mar, realizado na área do entorno do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, reúne diversos blocos de músicas carnavalescas.

Ricardo Abuhab, o diretor-executivo do evento, conta que a curadoria artística é muito crítica em relação a isso e que o objetivo da festa é juntar as tribos e quebrar paradigmas e preconceitos. “Na nossa programação temos samba, rock, brega, maracatu, axé. Qualquer tema de música que possa ser preconceituoso ou gerar desconforto para alguém não nos agrada. Apologia aqui só se for a alegria, diversão e descontração”, expressa Ricardo.

Damas Cortejam

O grupo surgiu no ano de 2012. Foi uma iniciativa de algumas integrantes de baterias de escola de samba de Fortaleza, que ansiavam fundar um projeto musical em que as mulheres fossem protagonistas. O repertório é composto por diversos ritmos percussivos e sem hierarquização de funções. Hoje, é composto por onze integrantes que buscam questionar e reconfigurar os lugares destinados à mulher numa sociedade machista.

O nome “Damas Cortejam” traz duas concepções da expressão “cortejo”: como ato de cortejar, “galantear”; mas também como nome que costuma se dar ao movimento realizado por caravanas musicais, compostas por instrumentistas que se deslocam tocando e cantando, principalmente pelas ruas. Já a expressão “dama” é para dizer que as mulheres ocupam as ruas e os palcos.

Tambores de Safo

O grupo surgiu em 2010. Foi uma iniciativa de mulheres lésbicas e bissexuais independentes e outras organizadas no grupo LAMCE (Liberdade do Amor entre Mulheres no Ceará). O objetivo inicial era dar visibilidade às demandas específicas dessas mulheres na 10ª Parada pela Diversidade Sexual do Ceará. Elas pretendem contribuir para o pensamento crítico feminista e o empoderamento das mulheres, visando ao combate ao machismo, ao racismo e à homofobia e às mais diversas opressões capitalistas, através da música. O grupo conta com nove integrantes.

O nome “Tambores de Safo” é uma referência à poetisa e intelectual grega Safo, conhecida por fazer política através da arte. Por Safo ter vivido toda sua vida em cidades da Ilha de Lesbos, hoje mulheres que se relacionam afetivo-sexualmente com outras mulheres são conhecidas como lésbicas.

Publicidade

Dê sua opinião

EM FORTALEZA

Blocos de Carnaval abandonam marchinhas consideradas machistas, homofóbicas e racistas

Os grupos feministas “Damas Cortejam” e “Tambores de Safo” optam por deixar de fora dos repertórios marchinhas como “Maria Sapatão”, “Cabeleira do Zezé” e “O Teu Cabelo não Nega”

Por Ana Clara Jovino em Música

23 de Fevereiro de 2017 às 07:00

Há 10 meses
damas-cortejam-hiane-braun

“Damas Cortejam” é formado por onze músicas (FOTO: Hiane Braun)

A época de Carnaval no Brasil é conhecida por ser liberal. “Tudo é permitido” nos quatro dias do ano dedicados à tradicional festa. Porém, recentemente, vem sendo despertada uma preocupação em relação a algumas marchinhas e músicas de carnaval.

Isso porque elas podem ser consideradas machistas e homofóbicas se interpretadas ao pé da letra. Sendo assim, alguns grupos de Fortaleza evitam tocar as canções em nome do respeito e da diversidade.

Além disso, grupos do movimento feminista aproveitam a época do ano para chamar a atenção das pessoas para questões relacionadas ao preconceito de gênero. Um exemplo é o grupo “Damas Cortejam”.

“Entendemos que se grupos historicamente discriminados sofrem com a disseminação de músicas que reforçam essa condição, não há porque continuarmos reproduzindo marchinhas machistas, homofóbicas e racistas”, justificam.

Elas são um grupo feminista, mas explicam que passaram por um processo para entenderem que fazem parte do movimento. Isso aconteceu após trocas de ideias e vivências entre as integrantes e outros coletivos feministas. “Sempre soubemos que poderíamos utilizar a arte para defendermos algo no que acreditávamos. Mas a compreensão de que o que fazíamos poderia ser denominado feminismo foi processual, bem como a atitude de nomearmos o grupo como feminista”, esclarecem.

“Tambores de Safo” é formado por nove músicas (FOTO: Divulgação)

Muitas das músicas e marchinhas de carnaval, além de tratadas como preconceituosas, são consideradas clássicas e tradicionais. As meninas do “Damas Cortejam” acreditam que deixar de tocar essas músicas não é algo que determine a celebração dos foliões e é uma questão de se colocar no lugar do próximo.

“O ‘clássico’ pode ser questionado, revisto e deslocado. Deixar de cantar letras que oprimem outras pessoas é uma questão de empatia e não fará com que o Carnaval deixe de ser divertido. Nós tocamos marchinhas em nossas apresentações, e as pessoas festejam ao cantá-las, sem que para isso tenham conteúdo preconceituoso”.

Outro grupo feminista que opta por não tocar esse tipo de música é o “Tambores de Safo”. “Essas marchinhas e músicas preconceituosas ficaram para trás, já era. Deixa o Zezé ser o que ele quiser, vai ter Maria Sapatão toda hora, meu cabelo de ‘nega’ não quer negar, ele é identidade, cultura e história”.

Elas afirmam que o movimento Feminista e LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) há anos lutam contra essa violência e, por meio da internet, a causa vem ganhando cada vez mais visibilidade. “As pessoas agora sabem que se falarem da cabeleira do Zezé e da Maria Sapatão ou do cabelo das negras, vai ter gente protestando contra o preconceito também no carnaval”, asseguram.

Além dos grupos feministas, outros blocos de Fortaleza também defendem a atitude de não tocar as tais músicas. O Polo de Pré-Carnaval Dragões do Mar, realizado na área do entorno do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, reúne diversos blocos de músicas carnavalescas.

Ricardo Abuhab, o diretor-executivo do evento, conta que a curadoria artística é muito crítica em relação a isso e que o objetivo da festa é juntar as tribos e quebrar paradigmas e preconceitos. “Na nossa programação temos samba, rock, brega, maracatu, axé. Qualquer tema de música que possa ser preconceituoso ou gerar desconforto para alguém não nos agrada. Apologia aqui só se for a alegria, diversão e descontração”, expressa Ricardo.

Damas Cortejam

O grupo surgiu no ano de 2012. Foi uma iniciativa de algumas integrantes de baterias de escola de samba de Fortaleza, que ansiavam fundar um projeto musical em que as mulheres fossem protagonistas. O repertório é composto por diversos ritmos percussivos e sem hierarquização de funções. Hoje, é composto por onze integrantes que buscam questionar e reconfigurar os lugares destinados à mulher numa sociedade machista.

O nome “Damas Cortejam” traz duas concepções da expressão “cortejo”: como ato de cortejar, “galantear”; mas também como nome que costuma se dar ao movimento realizado por caravanas musicais, compostas por instrumentistas que se deslocam tocando e cantando, principalmente pelas ruas. Já a expressão “dama” é para dizer que as mulheres ocupam as ruas e os palcos.

Tambores de Safo

O grupo surgiu em 2010. Foi uma iniciativa de mulheres lésbicas e bissexuais independentes e outras organizadas no grupo LAMCE (Liberdade do Amor entre Mulheres no Ceará). O objetivo inicial era dar visibilidade às demandas específicas dessas mulheres na 10ª Parada pela Diversidade Sexual do Ceará. Elas pretendem contribuir para o pensamento crítico feminista e o empoderamento das mulheres, visando ao combate ao machismo, ao racismo e à homofobia e às mais diversas opressões capitalistas, através da música. O grupo conta com nove integrantes.

O nome “Tambores de Safo” é uma referência à poetisa e intelectual grega Safo, conhecida por fazer política através da arte. Por Safo ter vivido toda sua vida em cidades da Ilha de Lesbos, hoje mulheres que se relacionam afetivo-sexualmente com outras mulheres são conhecidas como lésbicas.