“Pra Você”: cartas sobre sentimentos diversos são espalhadas em Fortaleza

Filha de mãe carioca e pai capixaba, a jornalista reside há nove anos na capital cearense e declara que apesar de ser carioca, tem uma relação afetiva com Fortaleza muito forte

Isabela Bosi já espalhou mais de 70 cartas por Fortaleza (Foto: Arquivo Pessoal)

Isabela Bosi já espalhou mais de 70 cartas por Fortaleza (Foto: Arquivo Pessoal)

Existe amor em Fortaleza e em forma de cartas espalhadas pelas ruas, nos bancos das praças, nos pontos turísticos e até em Fuscas descascados.

As correspondências são da jornalista Isabela Bosi e destinadas “Pra você” – nome do projeto da carioca radicada em Fortaleza – que resolveu surpreender os moradores e visitantes da “terra da luz” com textos que falam sobre “qualquer coisa que mexa comigo”, diz ela.

“A maioria é sobre o que eu sinto ou vivo, mas tem outras que são sobre coisas que eu vejo, imagino. Tem cartas de três laudas e outras de três linhas. Não existe um padrão”, explica.

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A ideia surgiu há dois anos, mas somente entrou em ação em outubro de 2013, quando Isabela se sentiu preparada para tirar a “poeira” de cerca de 200 textos que ela escreve desde pequena – destes mais de 70 já foram distribuídos pela cidade. “Tenho cadernos e mais cadernos com textos que eu nunca mostrei pra ninguém, além de pastas no desktop e e-mails que eu mando para eu mesma. Não considerava a possibilidade de mostrá-los, tinha muita vergonha e medo também de me expor. Mas, de um tempo pra cá, comecei a sentir um incômodo de ter tantos textos engavetados, empoeirados no meu computador. Comecei a sentir uma necessidade de me livrar deles. Pensei em queimá-los, mas não consegui”, revela.

Um caso de amor com Fortaleza

Filha de mãe carioca e pai capixaba, a jornalista reside há nove anos na capital cearense e declara que apesar de ser carioca, tem uma relação afetiva com Fortaleza muito forte. E foi essa ligação que fez os sentimentos e o dom da jovem de 23 anos, aflorar.

“De certa forma, eles (os textos) são um pedaço de mim. No meio desse processo, veio a ideia de soltá-los pela cidade em formato de cartas. Uma vontade de me entregar à cidade por meio dessas cartinhas. É uma forma diferente de me relacionar com espaços públicos (ou não)”.

Com o risco de ver toda uma obra indo para o lixo, os fãs dos textos de Isabela podem ter pistas de possíveis lugares onde possam encontrar as cartas, através da página no Facebook administrada por ela – lá a escritora documenta tudo, com fotos, endereços e trechos das cartas. “O texto completo, só a pessoa que a encontra pode ler”, faz mistério.

Fique atento porque em algum ponto turístico ou espaço comum pode ter uma carta te esperando. Isabela deixa bem claro que as cartas escritas por ela não tem um destinatário específico. “Qualquer pessoa que topar com uma dessas cartinhas pela rua, pode pegar pra si. No envelope, tem escrito “pra você” e o “você” pode ser qualquer um“.

Confira galeria

Carta

Carta "Pra Você" na Rádio Universitária na Universidade Federal do Ceará (Foto: Arquivo Pessoal)

"respiro profunda e lentamente. oxigênio na ferida arde mais do que se sente." (Trecho de um dos textos de Isabela Bosi)
Banquinho do Papai Noel do Shopping Del Paseo (Foto: Arquivo Pessoal)

Banquinho do Papai Noel do Shopping Del Paseo (Foto: Arquivo Pessoal)

"passeia pelas ruas dessa cidade com os olhos entreabertos. prefere ver as coisas pela metade, meio borradas. "faz mais sentido", pensa. faz sentido seguir andando. [...]" (Trecho de um dos textos de Isabela Bosi)
Carta em um fusquinha desconhecido e descascado (Foto: Arquivo Pessoal)

Carta em um fusquinha desconhecido e descascado (Foto: Arquivo Pessoal)

"{...} cúmulo de si mesmo. viver é um (a)cúmulo. {...} saber que a dor sentida um dia pode tornar-se amor no outro, que a diversão de uma noite no dia seguinte é mal estar, que o prazer fugaz é culpa, que a culpa é penitência e a auto-penitência, morte. se morre um pouco a cada tentativa de vida. {...]" (Trecho de um dos textos de Isabela Bosi)
No Aeroporto Internacional Pinto Martins (Foto: Arquivo Pessoal)

No Aeroporto Internacional Pinto Martins (Foto: Arquivo Pessoal)

"eu reclamo, peço, sofro, sonho, choro. mas a verdade é que amo minha solidão" (Trecho de um dos textos de Isabela Bosi)
Carta na Caixa Cultural (Foto: Arquivo Pessoal)

Carta na Caixa Cultural (Foto: Arquivo Pessoal)

"[...] quando ela chora, sou eu que choro. quando ela solta o cabelo, dança, toma taças de vinhos, sente prazer, sou eu fazendo tudo isso também. ela me compreende e, mais do que isso, eu a compreendo. somos todos iguais: comemos, amamos e gozamos." (Trecho de um dos textos de Isabela Bosi)
No Estoril, na Praia de Iracema (Foto: Arquivo Pessoal)

No Estoril, na Praia de Iracema (Foto: Arquivo Pessoal)

"[...] fiquei com isso na cabeça quando saí daquela sessão de cinema. a gente vai seguir buscando. [...] eu era aquela menina, cheia de amarras e desejos. eu te amei como aquela menina. errei como ela. erramos, meu amor. porque é assim mesmo: erra-se. [...]" (Trecho de um dos textos de Isabela Bosi)
Clube Náutico também tem carta

Clube Náutico também tem carta "Pra Você" (Foto: Arquivo Pessoal)

"[...] é importante saber quem se é, querido. com você, me confundi, me perdi de mim, me afundei em espaços teus." (Trecho de um dos textos de Isabela Bosi)
Correios do Benfica (Foto: Arquivo Pessoal)

Correios do Benfica (Foto: Arquivo Pessoal)

"[...] uma coceira interna que me dá quando as coisas começam a ficar normais demais. [...] preciso de ti. preciso conhecer tuas ruas, pessoas, cores, dores." (Trecho de um dos textos de Isabela Bosi)
Fusca vermelho desconhecido em frente ao prédio que Isabela mora (Foto: Arquivo Pessoal)

Fusca vermelho desconhecido em frente ao prédio que Isabela mora (Foto: Arquivo Pessoal)

"...o que restou de mim caminha a passos bambos por ruas desertas de vontades..." (Trecho de um dos textos de Isabela Bosi)
Livraria Cultura (Foto: Arquivo Pessoal)

Livraria Cultura (Foto: Arquivo Pessoal)

"é estranha essa sede. não há líquidos suficientes para matar essa falta que mais se assemelha a um desejo desesperador por tanto. [...] cabe esperar. exercitar essa paciência tímida. passou. [...]" (Trecho de um dos textos de Isabela Bosi)
Mambembe - Comida e Outras Artes (Foto: Arquivo Pessoal)

Mambembe - Comida e Outras Artes (Foto: Arquivo Pessoal)

"— quem é você? silêncio. — nunca consigo te responder isso. eu mudo tanto. — quem é você agora, então? — agora? agora, eu sou uma pessoa completamente perdida, que não sabe muito bem que caminho segue, nem onde vai parar, mas que continua caminhando porque não tem mais escolha; e cheia de medos, cheia de buracos, falhas, faltas. brinco o tempo inteiro com meus próprios defeitos. eu poderia dizer que te amo e sorrir pra ti com meus olhos, mas já não saberia dizer mais nada com segurança. agora, eu sou só dúvidas. e gostaria de te dizer uma coisa, ou melhor, de te gritar bem alto que [...]" (Trecho de um dos textos de Isabela Bosi)
Parada de ônibus (Foto: Arquivo Pessoal)

Parada de ônibus (Foto: Arquivo Pessoal)

"...ilusão de ter-se perdido, de ter perdido aos outros – aqueles que nunca tive e nunca terei. o abafamento embaça. tudo fica um pouco turvo e as feições se confundem na fumaça." (Trecho de um dos textos de Isabela Bosi)
Passeio Público (Foto: Arquivo Pessoal)

Passeio Público (Foto: Arquivo Pessoal)

"era mais uma noite de festa. sorrisos libertos da rotina, meio exagerados. abraços acalorados, cervejas, cachaças, vinhos, vodkas, cigarros, baseados. um misto de embriaguez com desespero. [...] uma válvula de escape da semana que nunca tem fim e cansa e enche o saco. [...]" (Trecho de um dos textos de Isabela Bosi)
Praça dos Leões (Foto: Arquivo Pessoal)

Praça dos Leões (Foto: Arquivo Pessoal)

"[...] hoje foi difícil. busquei respirar, concentrar, ler. acabei por dormir e sonhar mais uma vez contigo. [...] fiquei em casa. busquei ocupar o tempo e a mente. já passa da meia noite e o sono vem devagar. amanhã acordo cedo, passo o dia fora e me arrependo de ter ido dormir tarde. mas que solução há? meu corpo passou o dia deitado e agora ele quer correr. atrasado" (Trecho de um dos textos de Isabela Bosi)
Praia do Futuro (Foto: Arquivo Pessoal)

Praia do Futuro (Foto: Arquivo Pessoal)

"[...] e, de repente, fazer parte de um todo muito maior. de conhecer e viver o que nem imaginava ser, existir. existindo, apenas. parar é morrer." (Trecho de um dos textos de Isabela Bosi)

Exposição

Uma instalação com o acervo de Isabela está em exposição no Mambembe – Comida e Outras Artes (rua dos Tabajaras 368). Quem quiser, pode pegar o texto e colocar outra coisa dentro do envelope – outro texto, uma foto, um desenho. É uma forma de também se expor e de interagir com a autora.

Isabela também expandiu o seu trabalho para o vídeo e criou um curta-metragem sobre o projeto, que foi selecionado para passar na Mostra de Filmes Carta, no Rio de Janeiro, em novembro deste ano. Assista aqui.

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