Repórter narra experiência em cinemas eróticos de Fortaleza


Repórter narra experiência em cinemas eróticos de Fortaleza

Durante uma tarde, repórter do Tribuna do Ceará visitou três cines pornôs no Centro de Fortaleza e relata a experiência de conhecer as famosas ‘salas escuras’

Por Wolney Batista em Cinema

28 de agosto de 2014 às 08:00

Há 3 anos

O emaranhado de prédios no Centro de Fortaleza pode deixar passar despercebido para a frenética população que por ali passa os vários mundos que habitam o bairro. A calçada da rua Major Facundo ainda fervilha nas primeiras horas da tarde enquanto, a poucos metros, o cinema erótico Magestick abriga desejos reprimidos e a diversidade sexual.

Pôsteres dos filmes pornôs escondem o visitante que paga a entrada de R$ 5 na bilheteria. Cartazes avisam os preços das bebidas, o horário de funcionamento e uma curiosa proibição: “Não é permitido ficar encostado nas paredes”.

Cine Majestick ostenta posteres de filmes pornôs na entrada (FOTO: Google)

Cine Magestick ostenta pôsteres de filmes pornôs na entrada (FOTO: Google)

Em nome da discrição, o funcionário que recebe o dinheiro e o segurança mantêm o silêncio durante todo o processo – que dura poucos segundos. A grossa cortina deixa o barulho e a claridade da rua para trás e dá lugar à telona emoldurada por um escuro quase perturbador, a princípio.

Não demora muito para poder enxergar as 16 fileiras de poltronas e os frequentadores do lugar. Por volta das 15h eles são poucos. Homens não somam 10, número um pouco menor que os travestis à procura de clientes.

Sento em uma poltrona próxima do corredor e constato o cheiro de mofo. Outros odores também se espalham pelo ambiente, empurrados por aparelhos de ar-condicionado.

Você gosta de garotos, garotas, ou bonecas?

“Tudo bem? Posso sentar do teu lado?”, questiona Scarlet, uma travesti. Diante da resposta positiva, ela sonda para ver se a conversa pode terminar em um programa: “Você gosta de garotos, garotas, ou bonecas?” Digo que é a primeira vez no cine, que entrei por curiosidade. Ela desdenha e assume o papel de guia. “Mas aqui é tão sem graça. Não tem nada para conhecer. Aqui embaixo tem os filmes, o banheiro lá na frente; e em cima tem um bar e as cabines”, aponta para os cômodos sinalizados por letreiros luminosos.

A pouca concorrência faz com que Scarlet perca um pouco mais de tempo jogando papo fora. Sem ser invasiva, a insistência por um programa dura cerca de 10 minutos. Outros quatro travestis se aproximam com o convite direto para conhecer as tais cabines e logo saem após a negativa.

Dois lances de escada dividem a sala da tela e o bar. Bem mais iluminado, pode se perceber o palco para o show noturno do DJ, as mesas, dois computadores, o balcão de bebida e um suporte com álcool em gel. Ao lado do bar um corredor leva aos quartos.

Músicas de forró e um jogo de luz ambientam conversas de homens que parecem já se conhecer. Eles olham para mim e comentam sobre o estranho visitante. Travestis retocam a maquiagem e mandam mensagens por celular.  Um rapaz de bermuda e camiseta se aproxima e começa a investida. “Tu já veio aqui?”, expressa a pergunta que muitos parecem querer fazer.

“Tu é gostoso, vamos curtir?” fala com a mão nos órgãos genitais. Gesticulo negativamente com a cabeça, passo rapidamente pelo corredor com os quartos, a maioria desocupados, e parto para o próximo cine pornô na rua vizinha.

Garçom “boa praça”

A entrada do cine Star, na rua Floriano Peixoto, quase esquina com a Avenida Duque de Caxias, é mais discreta que a do Magestick. A fachada não ostenta pôsteres, só o nome e o horário de funcionamento. O preço é um pouco mais caro – R$ 7 – mas depois descubro que o visitante pode ir várias vezes durante um dia pagando uma única vez.

O cenário interno é mais simples que o do cinema anterior. A tela é menor, as cadeiras são poucas e de plástico. O público também é mais velho. Os frequentadores têm em torno de 50 anos e não há presença de travestis.

Um homem, um pouco mais jovem que o restante, se aproxima, pede para passar a mão no meu peito e, antes da resposta, propõe fazer sexo oral. Nego e saio em direção ao bar, separado por uma cortina, mas ainda consigo escutar ele oferecer dinheiro pelo prazer sexual.

Limpo, iluminado, com mesas, cadeiras, televisão, e caixas de som tocando axé, o bar trouxe a lembrança de estabelecimentos na periferia da Capital.

O garçom de conversa fácil e sorriso solto reúne rapidamente quem chega. Um grupo formado por três turistas cariocas na véspera do embarque de volta diverte-se com as histórias que viveram na cidade cearense. Um homem com aliança fala sobre a dificuldade para dar desculpas para poder escapulir e conhecer saunas e cines pornôs. E, um outro, um pouco mais tímido, descreve em detalhes exaustivos um assalto que sofreu ao sair com um michê. Mesmo sem ninguém aparentar interesse.

“Esse aí é muito negativo. Só fala coisa ruim”, me adverte o garçom sobre a companhia. Me apresento como um brasiliense de férias e ele se prontifica a fazer um demorado roteiro turístico dos melhores points da cidade. A lista, claro, inclui as ‘salas escuras’.  “O maior movimento é de 9h às 11h. Tem mais gente nova, assim, que nem você. Mas aqui é a casa dos velhos. Tu vai gostar é do Arena. Os jovenzinhos vão todos para lá”, aconselha. Converso sobre as dicas e me despeço.

Labirinto

A entrada do cine Babilônia é encoberta completamente por um toldo estendido da parede da fachada até a ponta da calçada. Por volta das 17h30 os visitantes podem ser contados nos dedos da mão. O lugar é tão difícil de se definir quanto de andar. A bilheteria e o balcão com as bebidas são divididos por um parede de madeira e uma funcionária fica incumbida das funções.

Um homem e uma mulher bebem cerveja e conversam baixinho na primeira das quatro mesas. Os outros frequentadores estão espalhados pelas duas salas – uma com filme hétero e outro com filme gay – pelo banheiro e em cadeiras de plástico numa espécie de corredor, nas partes traseira e lateral do prédio.

A noite chega e o público aumenta. Alguns homens ainda estão com roupas formais e mochila, como se estivessem acabado de sair do emprego. O entra e sai entre os cômodos aumenta, assim como os olhares. As cabines, com camas de madeira e cobertas por colchas pretas continuam vazias, iluminadas pelos filmes. O sexo solitário começa diante das cenas eróticas.

Ao deixar o lugar percebo os olhares repressores de senhoras que moram próximo ao cine. Ando apressado por dois quarteirões e volto à movimentada Duque de Caxias carregando nas roupas o cheiro forte do lugar.

Publicidade

Dê sua opinião

Repórter narra experiência em cinemas eróticos de Fortaleza

Durante uma tarde, repórter do Tribuna do Ceará visitou três cines pornôs no Centro de Fortaleza e relata a experiência de conhecer as famosas ‘salas escuras’

Por Wolney Batista em Cinema

28 de agosto de 2014 às 08:00

Há 3 anos

O emaranhado de prédios no Centro de Fortaleza pode deixar passar despercebido para a frenética população que por ali passa os vários mundos que habitam o bairro. A calçada da rua Major Facundo ainda fervilha nas primeiras horas da tarde enquanto, a poucos metros, o cinema erótico Magestick abriga desejos reprimidos e a diversidade sexual.

Pôsteres dos filmes pornôs escondem o visitante que paga a entrada de R$ 5 na bilheteria. Cartazes avisam os preços das bebidas, o horário de funcionamento e uma curiosa proibição: “Não é permitido ficar encostado nas paredes”.

Cine Majestick ostenta posteres de filmes pornôs na entrada (FOTO: Google)

Cine Magestick ostenta pôsteres de filmes pornôs na entrada (FOTO: Google)

Em nome da discrição, o funcionário que recebe o dinheiro e o segurança mantêm o silêncio durante todo o processo – que dura poucos segundos. A grossa cortina deixa o barulho e a claridade da rua para trás e dá lugar à telona emoldurada por um escuro quase perturbador, a princípio.

Não demora muito para poder enxergar as 16 fileiras de poltronas e os frequentadores do lugar. Por volta das 15h eles são poucos. Homens não somam 10, número um pouco menor que os travestis à procura de clientes.

Sento em uma poltrona próxima do corredor e constato o cheiro de mofo. Outros odores também se espalham pelo ambiente, empurrados por aparelhos de ar-condicionado.

Você gosta de garotos, garotas, ou bonecas?

“Tudo bem? Posso sentar do teu lado?”, questiona Scarlet, uma travesti. Diante da resposta positiva, ela sonda para ver se a conversa pode terminar em um programa: “Você gosta de garotos, garotas, ou bonecas?” Digo que é a primeira vez no cine, que entrei por curiosidade. Ela desdenha e assume o papel de guia. “Mas aqui é tão sem graça. Não tem nada para conhecer. Aqui embaixo tem os filmes, o banheiro lá na frente; e em cima tem um bar e as cabines”, aponta para os cômodos sinalizados por letreiros luminosos.

A pouca concorrência faz com que Scarlet perca um pouco mais de tempo jogando papo fora. Sem ser invasiva, a insistência por um programa dura cerca de 10 minutos. Outros quatro travestis se aproximam com o convite direto para conhecer as tais cabines e logo saem após a negativa.

Dois lances de escada dividem a sala da tela e o bar. Bem mais iluminado, pode se perceber o palco para o show noturno do DJ, as mesas, dois computadores, o balcão de bebida e um suporte com álcool em gel. Ao lado do bar um corredor leva aos quartos.

Músicas de forró e um jogo de luz ambientam conversas de homens que parecem já se conhecer. Eles olham para mim e comentam sobre o estranho visitante. Travestis retocam a maquiagem e mandam mensagens por celular.  Um rapaz de bermuda e camiseta se aproxima e começa a investida. “Tu já veio aqui?”, expressa a pergunta que muitos parecem querer fazer.

“Tu é gostoso, vamos curtir?” fala com a mão nos órgãos genitais. Gesticulo negativamente com a cabeça, passo rapidamente pelo corredor com os quartos, a maioria desocupados, e parto para o próximo cine pornô na rua vizinha.

Garçom “boa praça”

A entrada do cine Star, na rua Floriano Peixoto, quase esquina com a Avenida Duque de Caxias, é mais discreta que a do Magestick. A fachada não ostenta pôsteres, só o nome e o horário de funcionamento. O preço é um pouco mais caro – R$ 7 – mas depois descubro que o visitante pode ir várias vezes durante um dia pagando uma única vez.

O cenário interno é mais simples que o do cinema anterior. A tela é menor, as cadeiras são poucas e de plástico. O público também é mais velho. Os frequentadores têm em torno de 50 anos e não há presença de travestis.

Um homem, um pouco mais jovem que o restante, se aproxima, pede para passar a mão no meu peito e, antes da resposta, propõe fazer sexo oral. Nego e saio em direção ao bar, separado por uma cortina, mas ainda consigo escutar ele oferecer dinheiro pelo prazer sexual.

Limpo, iluminado, com mesas, cadeiras, televisão, e caixas de som tocando axé, o bar trouxe a lembrança de estabelecimentos na periferia da Capital.

O garçom de conversa fácil e sorriso solto reúne rapidamente quem chega. Um grupo formado por três turistas cariocas na véspera do embarque de volta diverte-se com as histórias que viveram na cidade cearense. Um homem com aliança fala sobre a dificuldade para dar desculpas para poder escapulir e conhecer saunas e cines pornôs. E, um outro, um pouco mais tímido, descreve em detalhes exaustivos um assalto que sofreu ao sair com um michê. Mesmo sem ninguém aparentar interesse.

“Esse aí é muito negativo. Só fala coisa ruim”, me adverte o garçom sobre a companhia. Me apresento como um brasiliense de férias e ele se prontifica a fazer um demorado roteiro turístico dos melhores points da cidade. A lista, claro, inclui as ‘salas escuras’.  “O maior movimento é de 9h às 11h. Tem mais gente nova, assim, que nem você. Mas aqui é a casa dos velhos. Tu vai gostar é do Arena. Os jovenzinhos vão todos para lá”, aconselha. Converso sobre as dicas e me despeço.

Labirinto

A entrada do cine Babilônia é encoberta completamente por um toldo estendido da parede da fachada até a ponta da calçada. Por volta das 17h30 os visitantes podem ser contados nos dedos da mão. O lugar é tão difícil de se definir quanto de andar. A bilheteria e o balcão com as bebidas são divididos por um parede de madeira e uma funcionária fica incumbida das funções.

Um homem e uma mulher bebem cerveja e conversam baixinho na primeira das quatro mesas. Os outros frequentadores estão espalhados pelas duas salas – uma com filme hétero e outro com filme gay – pelo banheiro e em cadeiras de plástico numa espécie de corredor, nas partes traseira e lateral do prédio.

A noite chega e o público aumenta. Alguns homens ainda estão com roupas formais e mochila, como se estivessem acabado de sair do emprego. O entra e sai entre os cômodos aumenta, assim como os olhares. As cabines, com camas de madeira e cobertas por colchas pretas continuam vazias, iluminadas pelos filmes. O sexo solitário começa diante das cenas eróticas.

Ao deixar o lugar percebo os olhares repressores de senhoras que moram próximo ao cine. Ando apressado por dois quarteirões e volto à movimentada Duque de Caxias carregando nas roupas o cheiro forte do lugar.